Cartas para Deus
2 Capítulo 2 - O Primeiro encontro
É impressionante como tudo acontece em nossas vidas e aos poucos tudo faz parte do mesmo contexto sem mesmo que tenham acontecido na mesma sequencia de fatos, e mesmo que, entre tantos espaços tenha acontecido coisas tão diferentes uma das outras.
As vezes você entende algo, percebe um caminho e tudo começa a fazer sentido mas você logo perde o foco e nem ao menos sabe explicar o porque.
Ainda quando adolescente, talvez com quinze ou dezesseis anos de idade, talvez ainda pela perda que me foi tão marcante, meus textos mudaram, passaram a ser fúnebres, vazios de amor mas cheios de magoas, dor e lágrimas. Antes desse fato, acreditava que eu era um anjo e que minha missão na terra era praticar o bem, amar as pessoas e lhes ensinar algo. Quando dormia na maioria dos meus sonhos eu aparecia voando, sim, quase sempre voava e era mágico. A verdade do meu coração parecia tão real que eu escrevia como se fosse verdade, eu um anjo!
Com as situações adversas, com as perdas irreparáveis, tudo mudou dentro de mim. Lembro-me que nessa época eu briguei com Deus. Não que tivéssemos uma amizade muito forte e douradora da minha parte, eu mal o conhecia e o mais perto que eu havia chegado dEle era a certeza que eu tinha de que era um anjo. Como muitas adolescentes na minha idade procurava muitos porquês e tentava entender a criação do mundo, mas mesmo sem conhece-Lo tão profunda e verdadeiramente briguei com Ele.
Não queria mais ser um anjo, não queria ter percepções, sentimentos ou sensações que me mostrasse sua existência, não queria falar com as plantas, com as arvores, com o vento ou com a chuva. Não queria mais ser ou pertencer a essa natureza.
Meus pensamentos e sonhos se voltaram para a morte e meus planos eram todos ligados ao mundo. Dizia que não me casaria jamais, não teria filhos e viveria uma vida boemia e independente. Na minha mente a minha morte já estava definida, cedo! Sim, aos trinta e dois ou trinta e três anos.
Foi um período conturbado da minha vida, um período em que queria andar sozinha e ser "livre".
Tomava as minha decisões sozinhas, me enchia de mim e vivia. Nessa época não escrevia mais, não me esvaziava de mim e nem me aconselhava com minhas próprias palavras e pensamentos. Deus, pra mim, estava bem distante. Lembro que tinha momentos de alegria e seguido de profunda solidão. Sim, profunda solidão. Em alguns desses momentos me isolei de todos para tentar me reencontrar, mas não consegui.
Namoros frustados, baladas que me davam alegria e depois vergonha, viagens que não davam certo pois não existia planejamento, alegria ou razão. Foram quase dez anos de uma vida cheia de atitudes e vazia. Procurava, andava de um lugar para o outro procurando algo que fizesse sentido àquela filosofia de vida que eu havia plantado na minha cabeça e destonava, não tinha concordância com o meu coração.
Vivi alguns bons momentos, fiz amigos, tive momentos de alegria mas tudo continuava a não fazer sentido, tudo continuava a ser vazio dentro de mim.
Acredito que somente entre os anos de dois mil e cinco e dois mil e seis é que tudo voltou a preencher o meu coração. E foi assim, de repente! Sem eu entender o que esta acontecendo.
Depois de um desses namoros frustados, me sentia mais uma vez vazia e não sabia o que fazer, como fazer. E então pensei, preciso procurar uma igreja! Procurar me aproximar de Deus, é como se Ele me chamasse. E foi o que fiz, chamei uma amiga e fiz um convite. Vamos à uma igreja comigo?
Após aceitar meu convite saímos em busca de um preenchimento espiritual, algo que passaria a dar sentido a minha vida. Fomos a diversas igrejas, denominações, mas nenhuma dessas preencheu meu coração ou me deu aquilo que eu procurava. Mas não desisti e continuei à procurar.
Passado algum tempo, talvez dois ou três meses, indo para o trabalho, caminhava na rua e eis que uma sensação incrível invade o meu coração, uma vontade imensa de sorrir me atinge e eu não consigo segurar o sorriso que me invade, o riso corria frouxo em meu rosto. Não eram risadas, mas um sorriso largo daqueles que não se consegue simplesmente parar. A sensação que tive, e, ainda me lembro, era de estar apaixonada. Cheguei no trabalho dizendo: "Estou apaixonada por Deus". Isso era claro, era fato!
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