Cartas
2 I - A Primeira Carta
Notas iniciais
I — A Primeira Carta
“Olá Natsu.
Não faz muito tempo desde que lhe escrevi, eu acho.
Na verdade, não faço ideia.
Sinto que compreendo Cana melhor agora – sinto estar mais perto da realidade da qual ela foge. Espero que isso não seja ruim.
Foi estranho chegar na guilda, sabia?
Eu não me lembro de ver esperança nos olhos deles como vi hoje.
Eles...
Eles acreditavam que você estava vivo.
Eu... nós nunca sequer cogitamos isso antes!
Eu vi o sangue que corria em suas veias como fogo sair pela sua boca e da perfuração que aquela maldita adaga fez.
Eu vi suas lágrimas de dor e desespero escorrerem por suas bochechas.
Eu vi sua vida se esvair, Natsu Dragneel.
Não pode ser mentira. Não agora que resolvi aceitar.
Eles me disseram para acreditar em você; mas não é isso que estou fazendo?
Acreditando no remorso que vi em seus olhos quando percebeu que não ia sobreviver. Quando percebeu que ia nos deixar.
Eu acreditei nas asinhas de anjo que te envolveram e te deixaram voar.
Eu sempre quis voar daquele jeito.
Só não achei que voar significaria isso.
Voar para longe de tudo e todos.
Voar para longe de mim.
Mas... eu acho que agora, desejo ainda mais ser envolvida com essas asas.
Era isso que eu sempre quis, certo? Fugir dessa realidade onde me meti.
Natsu, eu não quero ser uma garçonete num restaurante mundano. E também não quero sair numa missão sem você pra destruir tudo.
E uma coisa leva a outra.
Passei a não querer mais ganhar dinheiro para pagar meu apartamento. Ele não valia nada sem você pra entrar pela janela.
Passei a não querer mais chamar meus espíritos. Não tenho coragem de olhá-los nos olhos no estado que estou.
Passei a não querer mais estar aqui.
Na verdade, ali, já que, tecnicamente, não estou na guilda agora.
As minhas pernas estão balançando no ar.
É lindo daqui de cima.
E dói saber que, se eu pular, cairei no chão, e não seguirei ao céu.
É isso que acontece a quem não morre lutando, como você, certo?
Eu realmente não sei.
Se eu pudesse... encontrar você...
Você sabe, aí, onde você está.
Eu me pergunto o que você faria.
Se me odiaria, me abraçaria, me bateria.
E todas as opções me parecem válidas, todas elas parecem valer a pena se eu puder te ver de novo.
No céu, no inferno, ou aqui, que pode ser ambos, de forma efêmera.
No momento, acho que é o inferno.
Onde você está?
Eu não sei se quero realmente saber.
Acho que me doeria mais, saber que seu mundo está tão despedaçado quanto o meu.
Se você pudesse controlar algo...
Criaria as asas para mim?
Se isso me fizesse feliz, eu digo.
Mas nem eu sei mais o que me faria feliz.
Parece longe demais do meu alcance, de qualquer forma.
É meio entediante, saber que antes eu podia tocar meus desejos se esticasse um pouco meus braços, e desperdicei aquelas chances.
Não foram poucas.
Hm...
Estar aqui me lembra um dia.
Eu estava presa, num prédio.
Minha única chance, era pular, e...
Eu meio que ouvi sua voz.
E dizer que uma onda de coragem me invadiu seria mentira.
Eu estava apavorada.
Mas vi uma esperança.
Sempre achei que era uma esperança de poder viver depois da queda, mas descobri que era uma esperança de você estar lá.
Um pouco tarde, talvez.
Me pergunto se, caso eu pular...
Você estará lá para me pegar, como daquela vez.
Entretanto, não vejo esperança daqui.
Nada que me encoraje a pular de verdade.
Nada da sua voz.
É por isso que...
É meio ridículo, mas eu preciso tentar.
Se... você puder, de alguma forma, me ajudar agora, eu...
Por favor.
Eu preciso de um pouco da esperança que você me tirou, Dragneel.
É justo.
Com o resto de... qualquer coisa que tenha sobrado de mim,
Lucy Heartfilia.”
Erza realmente pensara que, depois de ter queimado as cartas no quarto de Lucy, não seria obrigada a ler mais daquelas merdas.
Infelizmente, aquela carta seria a primeira de muitas que encontrariam.
E, é claro, prometeu queimar todas e quaisquer que aparecessem na sua frente – isso, é claro, depois de já ter lido para todo o grupo.
– Vocês não acham triste? – Começou a Titania, de sua voz transbordava rancor. – A Lucy simplesmente aceitar que Natsu morreu.
As palavras foram dolorosas, assim como o silêncio que as seguiu.
– Sabe... – Charl se atreveu a quebrar o clima tenso. – Já faz algum tempo, Er...
O barulho da armadura se mexendo ecoou, e logo em seguida um berro de Gray.
– Ele não está morto. – Murmurou a ruiva. – Eu sei que não.
Indignado, o moreno levantou-se, tentando se recompor de soco da companheira.
– Precisava ter feito isso?!
Só então ela pareceu perceber o que havia feito. Encarou-o, desculpando-se silenciosamente.
– Não tinha nenhuma mesa por perto...
Ainda incrédulo, o Fullbuster decidiu apenas ignorar, suspirando.
– De qualquer forma, o que essa carta significa? – Indagou Gajeel, impaciente.
– Além da Lucy ser uma completa idiota? É, também não sei. – Erza estava realmente irritada com a Heartfilia, e não se dava ao trabalho de esconder.
Enquanto eles pensavam, tentando desvendar os mistérios que as palavras de Lucy haviam deixado, Levy olhava ao redor, tentando encontrar mais alguma pista.
Quando ela viu aquelas gotas, aquele rastro vermelho, não conteve as lágrimas e o som agudo que insistiu em sair de sua garganta, o que assustou e tirou todos os outros de seus devaneios.
Os joelhos de Mcgarden já não suportavam o peso de seu corpo. Mal percebeu a queda – quando se deu conta, já estava de sentada no chão de forma desconfortável, apontando para o chão.
Wendy e Charl ficaram ao lado de Levy, enquanto os outros foram conferir o que a teria assustado tanto.
Mesmo na altura daquele prédio, era possível ver manchas de sangue no chão.
Estavam no mesmo telhado onde Lucy escrevera aquela carta, implorando a Natsu que lhe desse forças para o suicídio, e na calçada, sangue jazia.
O que mais poderia ser?
Só podia ser de Lucy.
Mesmo que, no segundo em que viram o sangue o desespero os tenha consumido, os segundos seguintes foram tranquilizadores: não havia nenhum corpo por perto.
De alguma forma, ela sobrevivera a queda.
E com os ferimentos, não poderia estar longe.
Quase como se suas mentes fossem uma só, todos começaram a correr até a saída, para verificar os bairros da região a procura da amiga – quando estavam para chegar na porta, Happy os lembrou que poderia levá-los junto com Charl voando.
– Ainda não acredito que Lily foi naquela missão com Jellal sem mim... – Resmungou Gajeel, enquanto Happy o carregava com esforço.
*
E enquanto isso, Lucy não era a única que escrevia para manter sua própria sanidade.
A letra era um pouco carrancuda, mas as palavras não poderiam ser mais legíveis para quem as interessasse.
Às pressas, a tinta borrara um pouco, o que era um pouco irritante...
Mas não importava.
As letras tomavam forma, transformando-se em palavras que no fim, juntas, significariam muito mais que simples quaisquer outras.
“Olá, Lucy...”
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