Cartas
3 II - À Espera do Espetáculo
Notas iniciais
II – À espera do espetáculo
“Olá, Natsu.
Por favor, não fique bravo comigo. Eu fui uma idiota, e sei disso.
Mas eu ouvi sua voz, encorajando-me. Estou a ficar louca?
Não sei. Entretanto, tenho sorte de Loke ter amortecido minha queda. Eu não o invoquei, mas ele veio mesmo assim; infelizmente, não antes da minha perna atingir o chão e sofrer uma fratura exposta.
Bem, já estou sendo curada. Me desculpe.
Eu fui uma tola ao pensar que você me ajudaria a jogar minha vida fora. Este não é você.
Assim como não era você naquela noite, muito menos eu.
Eu não o apunhalei, certo?
Não, eu não faria isso...
Eu não...
Não era eu...
Mas tem algo me dizendo que era sim, Natsu... Tem alguém...
Será o sangue em minhas mãos me alertando ser seu?
Ele era quente e avermelhado...
Preciso que seja sincero comigo, Natsu Dragneel.
A vida que tirei naquela noite...
Era mesmo a sua?
Me perdoe. Me perdoe. Me perdoe. Me perdoe. Me perdoe. Me perdoe. Me perdoe. Me perdoe. Me perdoe. Me perdoe. Me perdoe. Me perdoe. Me perdoe. Me perdoe. Me perdoe. Me perdoe. Me perd”
A partir dali, o papel estava manchado com uma cor avermelhada, tornando-o impossível de ser lido.
Levy Mcgarden se sentia perdida.
Suas mãos tremiam, de seus olhos apenas lágrimas saíam, e suas pernas pareciam não querer sustentar seu corpo.
Aquilo não podia ser verdade.
Encarou seus dedos manchados do suposto sangue de Lucy.
Todos os outros haviam ido na frente, procurando pela loira, e Levy deveria estar com eles, mas viu a carta e decidiu parar sozinha para ler.
Não sabia o que fazer. Quer dizer, Erza já estava irritada com a maga celestial. O que fariam se lessem aquela carta?
Desistiriam de buscá-la? Ou a expulsariam da guilda?
Não poderia permitir que nada daquilo acontecesse.
Eles nunca acreditariam no que ela vira.
Nunca acreditariam...
Seus punhos se fecharam, amassando o papel. Fechou os olhos, tentando se controlar.
Um soluço escapou de sua garganta, e então optou por simplesmente desistir de se segurar. Deixou toda a sua frustração, sua raiva, seu medo – tudo o que ela tinha o desprazer de ter sentido até aquele momento – escapar por sua boca como um berro.
Não se importava se ouviriam, e continuou chorando alto, enquanto suas mãos involuntariamente rasgavam a carta em suas mãos.
Ela sempre fora calma.
Sempre soube controlar as palavras, sempre soube manuseá-las e entendê-las.
Mas naquele momento, não conseguia nem mesmo formar alguma palavra. Por alguns segundos, deixou a insanidade consumi-la, e não foi capaz de deixar algum som escapar além de mais berros e soluços sem sentido.
Não via mais sentido no que estava fazendo, e se sentia indisposta a procurar sentido nas palavras também.
Ainda tinha esperanças que houvesse sido um sonho, e ela nunca tivesse presenciado a suposta morte de Natsu.
Mas ela viu.
Negar seria inútil.
Levy esteve lá, e por mais doloroso que fosse, sabia que a vida de Natsu Dragneel já tinha chego ao fim, e também quem havia a terminado.
Jogou o papel rasgado no chão, e tocou a poça de sangue avermelhado, encarando-o escorrer por seus dedos.
Parecia quente como deveria ser o do Salamander, e doce como deveria ser o de Lucy.
Apenas confirmando novamente aquilo que não conseguia aceitar.
E bem quando precisava ficar sozinha, quando não podia deixar ninguém ver seu surto, uma voz a assustou.
– Porque parou no meio do caminho? Estávamos te procurando, baixinha. – Gajeel se aproximou, irritado. – O qu...
– Saia. – Não sabia como a azulada conseguira se controlar e dizer aquela palavra, mas nunca se sentiu tão aliviada com algo tão simples quanto se pronunciar.
Um silêncio se instalou, até que Redfox finalmente digeriu o que estava acontecendo.
– Quê?!
– Por favor... – Levy soluçou, e se odiou ainda mais. – Só saia.
– Não.
Por impulso e desespero, acabou criando uma bolha enorme que a envolveu, isolando-a e afastando-a do mago, este que apenas riu, sarcástico.
Quando se deu conta, ele não estava mais lá.
Retirou a bolha, e se assustou ao ver alguns papéis no chão.
Eram cartas; duas, mais especificamente.
Prendeu a respiração. Poderiam ser de Lucy? Mas como?
Lentamente abriu a primeira, e já reconheceu de cara a letra horrível de Gajeel.
“Olá, Baixinha.
Gihi.
Eu ri, mas deveria ter escrito isso? Cara, não sirvo pra escrever cartas.
De qualquer forma, apenas escrevi isso para te avisar.
Se quiser fugir e se isolar quando deveria enfrentar, eu não a impedirei. Mas pense bem no que está fazendo, Baixinha.
Uma maga da Fairy Tail faria isso?
Eu e os outros estaremos te esperando num hotel no quarteirão ao lado.
Até logo.
GajeeL.”
Não pôde evitar que um pequeno sorriso passasse por seus lábios, mesmo com a “ameaça”. Ele sabia que ela apenas leria a carta depois de sair da bolha, então também sabia que já deixara de fugir, de certa forma.
Mas havia mais uma carta a ser lida.
E qualquer sorriso que a de Gajeel conseguira lhe trazer, a segunda com certeza fora capaz de arrancar.
“Olá, Levy Mcgarden.
Curtindo o espetáculo?
Saiba que ainda nem abri as cortinas.
O show de entrada será de marionetes.
Consegue adivinhar quem vai participar?
Ou melhor...
Quem está participando?
Se você pegar um criminoso,
Não há nada que possamos fazer,
Além de brincar de polícia e ladrão, certo?
Mas está deixando a assassina escapar. Por que?
Achei que fosse mais esperta...
O que seus amigos vão pensar se descobrirem que está acobertando Lucy Heartfilia?
Seria uma tragédia,
Se descobrissem,
Não acha?”
Levy olhou para os lados.
Estava sozinha.
Aquela letra não era de Gajeel, e ele não tinha como saber.
Não...
Estava perto de ter outro surto, mas, não sabia como e muito menos o porquê, controlou-se.
Rasgou a carta em vários pedaços, jogando-os despreocupadamente na calçada. Agarrou o outro papel, e guardou-o no bolso, enquanto caminhava até o hotel.
A tensão em seus ombros era quase visível, e trabalhava fora de sincronia com o corpo e atitude da garota, que de alguma forma trazia uma visão de leveza.
Seus passos apressados ecoavam pelas ruas silenciosas e que aparentavam estar vazias.
Mas Levy sabia que havia mais alguém ali, e não apenas observando-a.
Já era quase possível ver as cordas presas em seus membros, controlando cada movimento.¹
Apenas esperando as cortinas se abrirem.
¹Pode parecer meio idiota explicar isso, mas como é a primeira vez que utilizo uma metáfora dessa forma, achei melhor avisar que... bem, que é uma metáfora.
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