Cartas à Você
6 Morte Misericordiosa
Notas iniciais
Eis mais uma carta entre tantas que estão sendo recuperadas. E essa em questão é um lamento, uma súplica.
Espero que gostem. E não se esqueçam... comentar não dói.
Espero que gostem. E não se esqueçam... comentar não dói.
Condenada a esta arena de limites ásperos, vivo um pesadelo de tentáculos que se estendem e não encontram destino. Condenada pelas cicatrizes do corpo e os grilhões a cercarem a alma, inadvertidamente prisioneira das feridas, vivo o torpor da existência inútil num mar de lágrimas inúteis num mosaico de consolos inúteis. Condenada pelos deslizes do corpo e condenada pelos rigores da lei. Eu não posso viver, mas também não posso morrer.
Quando na velocidade de um impacto, a face carrancuda de um caminhão surgiu nos reflexos do pára-brisa, meu corpo encontrou a violência de seu abraço de aço, fui condenada à inapelável sentença de não viver, mas também impedida de morrer, Aqui neste quarto de vultos brancos e paredes nuas, eu vislumbro num átimo de tempo, no canto dos olhos, todo um futuro de sonhos e encantos, agora sepultados nos escombros de carne e osso. Aqui nestes aposentos de mágoas reprimidas, neste sarcófago de ilusões perdidas, sou um troço qualquer, penetrada por tubos, alimentada por canudos, entregue ao esforço inútil das mãos de uma piedade inútil. Aqui neste abismo de tormentos, quando só a voz me resta, muito fraca, quase sussurro, aqui ainda ouso pedir uma dádiva de atenção, uns dois minutos de atenção, algo assim, que cubra o ruído dos caminhões lá fora, o ruído de meus pesadelos, som estrondoso do meu destino falido. Somente dois minutos, aqui neste leito, a pedir uma morte, que, pelo menos esta, seja digna. Aqui, sob a luz mortiça da cabeceira da cama, entre alguns sorrisos de sincera amizade, entre esboços de caridade, sobrevivo ao fim de meu corpo que nem um dedo posso mexer já é difícil a pálpebra mover! Um sussurro é o que restou de minha voz, um lamento sem qualquer sentido! Devo ansiar pela inconsciência? Devo buscar no íntimo uma voz da providência? Devo implorar pela atenção de um Deus longínquo? Devo contratar mais um advogado às expensas do Estado? Aqui, confinada nesta cama, encarcerada pelas paredes nuas – onde dois quadros são borrões de cores indistintas, tal um arco-íris a desvanecer-se – aqui, prostrada no ataúde dos sentidos abalados, aqui afogada no charco de lágrimas inúteis, aqui, sozinha aqui, ainda que totalmente acompanhada pelo infortúnio, e o atendimento profissional e correto de meia dúzia de enfermeiros, meia dúzia de sorridentes e sedutores enfermeiros, meia dúzia de sorrisos piedosos assistindo a minha pálida indignidade. Aqui perco todos os segundos de todos os minutos pensando numa face, a minha, aquela, hoje um arremedo, uma colcha de retalhos. Aqui todos os instantes de todas as horas, pensando na face, a Dele, a face do Ser que dizem Divino. Lembra-se de mim? Lembra que existo? Por que necessito Dele somente quando se aproxima o abismo dos gritos em silêncio? Aqui, condenada, nunca amada, numa algema de caridade. O amor? Até ele me abandonou! Como poderá amar um corpo desfigurado? Como poderá acariciar minha pele cheia de costuras? Como poderá beijar meus lábios enxertados? Não, o amor pede a beleza do objeto amado, não uma idealização de imagens saturadas de sentimentos. O amor exige a perfeição do ser amado, o retorno de todo o investimento, o consolo de todos os sofrimentos. O sol adentra as persianas, um reflexo tímido a insinuar-se nas paredes nuas, nos desfalecidos arco-íris, banhando umas flores decadentes, uns artefatos de plástico, umas pétalas de celofane. O sol adentra – até farto de caridade, um sol que é um buraco negro de desejos, o sol que representa o dia, a praia, o sorriso. A minha prancha de surfe está jogada num quarto cheio de teias de aranha, por longos seis meses, coberta por toda a camada de pó de todos os esboços dos sonhos, todos os traumas da memória. Lá está o túmulo de minhas idealizações sob as ondas, ondas, ondas, ondulantes ondas de prazer e desassossego. Por que somente agora busco algo além das ondas, do simples e contínuo ondular, sem qualquer propósito? Algo que justifique a vida ou ao menos este instante? As ondas se jogam contra a minha cabeça, se jogam contra os meus sonhos, despedaçam toda uma vida, as ondas acostumadas ao desgaste dos penhascos, que se precipitam sob o açoite das águas. As ondas que se aninhavam nos redemoinhos de carências e turbilhões de anseios, conduzindo-me ao úmido abraço dos vergalhões, afogando-me em fôlego molhado e prazer. As ondas de um entardecer, de um declinar fogoso de listas rubras, num litoral de vida e superação. Tudo o que a fumaça pegajosa de um caminhão assassino veio encobrir, tudo o que o martelar certeiro do infortúnio veio golpear, numa demolição insana, numa agressão tamanha, deixando só um vazio, vez ou outra preenchido por vultos brancos, com máscaras cheirando a formol, incenso e caridade. As ondas, o rugido, os motores, os golpes sucessivos, o estalar, o escandalizar de ossos e sangue, as ondas enfim, a levarem-me, a abraçarem-me, eis o que antevejo, eis o que desejo, a levarem-me, sim, surfando rumo às praias do absoluto Nada.
Notas finais
Pra quem gostou comente o que achou.
Pra quem não gostou comente o que achou.
Beijos a todos.
Pra quem não gostou comente o que achou.
Beijos a todos.
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