Notas iniciais
Hoje eu consegui recuperar duas cartas. Um feito. Já que a grande maioria se encontra em estado de quase irrecuperáveis.
Beijos

Não. Não maldigo minha sina. Sequer realmente creio nessa simples intempérie do destino, tantas vezes reificada em um ser concreto, metafísico, quase monolítico, a nos obstruir a luz da jovialidade querida, ou do que quer que seja. Também, menos ainda, maldigo a vontade de qualquer pessoa que tenha influído em minha vida, pois desde o momento em que nos sujeitamos ao bailar de toda essa grande encenação, retificamos o contrato da interação humana, sujeita a deficiências como todas as outras coisas humanas. Não. Apenas nutro esse ódio desassossegado mesclado com uma languidez paralisante, esse eterno maldizer das coisas por serem como são, essa eterna ineficácia na regulação dos destinos -Para mim, aparentemente regulado por algo como o gênio maligno. Obviamente aqui muito mais caricato e grotesco, e de certa forma escolhido com muito mal gosto para metaforizar a indignação de um espírito frente à própria condição. Digamos apenas que achei o nome ideal para a rotulação dessa mente sádica que parece maquinar minha sorte de forma que ela interaja comigo da pior forma possível. Me perdoe a filosofia, me perdoe Descartes, mas ipsis litteris, "achei o nome bonito"... Pois bem, como ia dizendo, sinto a inquietação a me insuflar os pulmões todos os dias com palavras de expróbrio a tudo o que há de vivo e mais bonito, seja lá o que diabos exatamente forem essas coisas, que me parecem belas ou não segundo simples disposição de espírito. Questão de humor. Não dei muita sorte na vida. Peço que não teime comigo e tente me provar o contrário pois simplesmente não lhe darei ouvidos. Aprendi a ser rabugento, finalmente, no alto de meus sessenta e tantos anos. Estou velho viu? E devo lhe dizer que nem vi minha vida passar. Todo o tempo foi gasto no massacre, no hecatombe, no escárnio devotado a tudo o que de bom e belo passou por esse mundo. Tudo porque no alto de meus vinte anos, cheguei a uma insólita conclusão. Devo dizer ainda, que nessa idade tinha eu uma mescla de agnosticismo, ceticismo e crença supersticiosa, sem qualquer barreira teórica divisória clara entre as três, ainda por cima maculadas pela boa dose de senso comum que carregava na já pesada bagagem da vivência. Tal foi a conclusão: "Se Deus realmente existe, só posso afirmar uma coisa sobre ele. Ele me odeia." Vale aqui a asserção do já há muito batido refrão, "seria essa situação cômica se não fosse tão trágica." Tive pena de mim. Juro que milhares de vezes tive pena de mim. Não sei também por que raios sinto vontade de jurar algo agora, pois creio pela dimensão da minha desgraça espiritual ser suficientemente digno de ser crido, pelo menos em coisas desse tipo. E um fato ainda mais risível para aqueles masoquistas que parecem sentir prazer só por não serem eles os judas a serem malhados: Toda a minha vida faliu por uma paixão de adolescente. (.......). Repensando o que acabo de dizer, devo confessar, pareço muito pouco digno de credibilidade na história que preambulei nesses últimos minutos. Aliás, quem disse que devo contar algo a alguém? Também, pouco me importo se minha história é crível ou não, ela de fato aconteceu e começou assim, nessa paixão que nos inspira a escrever versinhos nos cantos do caderno, nessa paixão tolhida de qualquer maturidade espiritual que nos leva a ouvir quintilhões de vezes o mesmo refrão de uma música qualquer. Sinteticamente, a mais medíocre água com açúcar.

Notas finais
Comentem plz????