Notas iniciais
O homem havia me alcançado!

O homem havia me alcançado! E pior,eu havia tropeçado nele. Quando terminei de levantar o encarei corajosamente,entreguei o papel e indaguei:

– O que significa isso? Por que diabos está me seguindo? E que droga é essa de encontrar a chave? – disse,com tom de voz grosso.

–Bom meu caro,isso é uma folha de papel,e o diabo não tem nada a ver com isso. E caso não tenha lido corretamente,simplificando,eu tenho uma chave e preciso que você me ajude a encontrar a porta. A porta pro conhecimento. É isso que busca não é?

Depois de ouvir aquelas palavras me senti sem chão,eu não entendia porque um homem que nunca vi na vida iria querer me ajudar a encontrar o que eu queria,uma vida voltada aos estudos e em busca de respostas para perguntas nunca antes feitas. Mas por quê,por quê ele me ajudaria?

Após essa reflexão intima,onde fiquei olhando pro nada enquanto pensava,o homem estalou os dedos,chamando minha atenção:

–Ei,psiu! Terra chamando jovem perdido! Na escuta? – disse ele com uma voz imitando um rádio.

–Err...me desculpe senhor,mas estou muito confuso! O senhor me aparece do nada,lê um devaneio que escrevi num momento de aflição, e depois me oferece algo tão....como dizer....impalpável? O senhor me oferece a chave pra encontrar a “porta pro conhecimento”,mas sabe que isso só pode ser alcançado em muitos anos de pesquisas e estudo,não sabe? Sabe que essa tal porta é apenas uma metáfora,não é? Pois bem,entenda que essa proposta que me fez não é muito rotineira na vida das pessoas,muito menos na minha..- enquanto falava apontei no papel a parte que dizia “Quero te dar a chave,mas você precisa encontrar a porta.”

O homem soltou novamente aquele sorriso de canto de boca,guardou o papel no bolso do paletó, deu uma ajustada nos fios soltos de seu cabelo e me fez um convite:

– Interessante suas palavras meu jovem,mas digo que pra você entender o porquê de um estranho querer te ajudar,você deve aceitar uma xícara de café dele,venha comigo,eu pago o café e.... — ele olhou para minhas roupas úmidas e sujas,meus olhos fundos e escuros — e pago um lanche também. Aceita?

Quando ouvi a palavra lanche fui tomado pelos movimentos peristálticos das paredes do meu estômago, que ecoaram pela rua, deixando o ronco audível para algumas pessoas que transitavam por ali. Senti vergonha,mas a fome era mais forte que a vergonha, e logo respondi ao homem:

– Me perdoe senhor, mas estou há muitos dias sem comer.. gastei todas minhas economias. Aceito sim seu convite pro café... e pro lanche. – minhas bochechas coraram — Mas ainda me pergunto, por que um estranho me convidaria pra um café e pra me falar sobre conhecimento ? – e soltei um leve sorriso,algo que já não fazia há tempos.

O homem estendeu os braços,indicando uma cafeteria que havia na esquina,e novamente deixou sair um sorriso de canto de boca, mas dessa vez o sorriso veio acompanhado de uma sobrancelha arqueada:

– Meu jovem, e quem foi que disse que eu sou um estranho?

Notas finais
Como assim ele não era um estranho?