Carry on
2 Por favor, Espere o Próximo Trem
A vida de Mitchel no novo emprego não estava fácil, nada fácil. O emprego dos seus sonhos, o emprego que ele havia esperando toda uma vida para conseguir estava sendo o pesadelo mais cruel e abusivo que ele já tinha imaginado. Fazia apenas dois meses que o rapaz havia sido contratado para prestar serviços Focus Enterprises Holdings, Inc. e já não estava aguentando, além de ser desvalorizado lá dentro tinha que aturar seu chefe que era realmente irritante e abusivo. Eles se conheciam há muito tempo. Vincent Belluce sempre esteve na turma de Mitchel. Eles se conheciam desde o jardim de infância e nunca tinha sido fácil. “veadinho” “garoto menina” “chupa rola” esses sempre foram alguns dos apelidos que Mitchel foi obrigado a ouvir do seu novo chefe. E nada o fazia parar, diretor, professor ninguém tinha controle sobre Vincent e seus amigos que nunca deixarem o colega de classe em paz. As coisas só mudaram, ou melhor, diminuíram depois que Mitchel foi espancado pelos colegas de escola no último ano do ensino fundamental. Dessa vez foi caso de policia, os garotos voltaram aos apelidos habituais, nunca na frente de um adulto é claro. Vincent era o maior homofóbico da escola, e agora algo pior estava acontecendo na vida de Mitchel. O seu chefe começou a dar investidas nele. Mitchel não sabia o que fazer. “Deixar o emprego, essa é solução. Essa atitude não vai parar. Ele apenas aprendeu um jeito novo de me oprimir!” Foi o que ele pensou. Foi à solução que tomou. Ele deveria realmente odiar esse homem, deveria ir embora. Mas precisava do emprego, precisava muito, estava morando finalmente sozinho. Os pais estavam viajando o mundo curtindo o casamento, ele precisava tomar as rédeas dessa situação e encarar. Era pelo menos nisso que Mitchel queria se fazer acreditar, estava ali porque precisava do emprego, e não porque seu coração batia acelerado quando o chefe estava próximo a ele, ou quando fazia uma de suas brincadeiras idiotas.
Pode parecer à coisa mais idiota, ter criado uma paixão platônica por seu opressor. Mas ele não podia mudar isso. Aconteceu quando ele estava na sexta série. Era um dia de verão e a aula de educação física seria na piscina. Ele não conseguiu tirar os olhos de Vincent. Olhou para o garoto por toda a aula, e desde então aqueles sentimentos confusos tomaram conta dele.
Ele cresceu e realmente entendeu que era errado. O cara era: A) um babaca B) odiava ele C) falava mal e humilhava na frente de todos D) totalmente fora de contexto em sua vida. Então ele se obrigou a esquecer. Foi embora do país e acreditou que nunca mais voltaria a sentir isso, até agora.
Era fim de tarde. Final de expediente. Mitchel só precisava mostrar algumas fotos para o chefe e estaria liberado para ir pra casa. Ele queria isso. Precisava disso.
― Vai logo droga... Por favorzinho. ― Mitchel falou sozinho enquanto batia seu dedo na impressora que imprimia algumas folhas ― Que troço lerdo, viu.
― Hum hum! ― Uma voz masculina pigarreou nas costas de Mitchel.
Ele sentiu o corpo arrepiar, pois conhecia aquela voz, virou-se rapidamente e encarou seu chefe.
― É... Hmmmm... ― Mitchel disse sério e sem graça.
― Você está atrasado dez minutos! Eu preciso ver as fotos e tomar minha decisão se aprovo ou não. Não vamos deixar acontecer como da última vez que você tomou decisões sem me consultar. ― Vincent disse sério.
Mitchel sentiu raiva. Era o que ele deveria fazer. Ele que deveria escolher as roupas das modelos. Ele tinha trabalhado para isso, ele e muitos outros confiavam em seu talento, não precisava de um chato rico dando palpite em seu trabalho, porém sorriu sem jeito e encarou o homem alto. Ele se sentia intimidado sempre, desde a época de escola. Agora então... Tudo era ainda pior. Vincent tinha chegado ao 1,89 de altura, e tinha passando boa parte da adolescência exercitando o corpo, invés de fazer isso com a mente. O homem estava pura massa defina. Era impossível não notar seu corpo forte e malhado por baixo daquele terno.
― E-Eu... Desculpe! ― Disse Mitchel sem graça. ― A impressora esta muito lenta! ― Ele completou sincero e apontou para impressora em sua mesa.
Vincent riu.
― Eu sei, estou lhe observando... ― Ele olhou no relógio. ― Há exatamente quinze minutos. Eu sabia que você iria atrasar então vim atrás de você, porém você fica tão bonitinho estressado que eu não tive coragem de atrapalhar.
Mitchel sentiu suas bochechas queimarem. Ele garoto tinha ficado vermelho.
― Desculpe-me, agora esta pronta! ― Ele disse enquanto juntava todas as folhas e estendia para o chefe. As mãos do rapaz tremiam.
― Está tremendo, Mitchel? ― Vincent perguntou rindo enquanto notava as mãos trêmulas do rapaz em sua frente.
― D-Desculpe, senhor Belluce. ― Mitchel pediu desculpas e abaixou a cabeça. Era assim que ele ficava, esquecia-se totalmente que era a pessoa mais importante do mundo e agia como o garotinho assustado do ensino médio. O garoto sentia vergonha e raiva ao mesmo tempo. Raiva por se sentir tão intimidado e envergonhado na frente daquele imbecil.
― Ah não precisa essa formalidade quando estivermos apenas nós dois! ― Vincente disse e começou a caminhar na direção do homem a sua frente.
Mitchel de um passo pra trás e bateu na parede, a sala não era muito grande. O garoto ficou encostado na parede olhando o homem que a sua frente se aproximava, não baixou a mão continuou empurrando os papéis na direção do chefe.
― Não precisa ter medo, Mitchel! ― Vincent disse sorrindo. ― Eu só quero provar os seus lábios!
― N-Não devia fazer esse tipo de brincadeira! Ou melhor, isso não é uma brincadeira, isso é a coisa mais idiota que alguém pode fazer. Nós crescemos, acho que o senhor deveria parar de praticar bullying com um funcionário e agir como um homem de verdade. ― Mitchel tentou soar sério, mas sua boca tremia.
― E quem disse que eu estou brincando? Ou melhor, quem disse que não sou um homem de verdade? ― Vicente riu. ― Nossa fase de piadinhas ficou lá trás. Eu só quero mesmo te beijar. ― Ele completou sorrindo maliciosamente.
Mitchel sabia que era brincadeira, mas talvez não.
― A-A-A sua noiva não vai gostar muito... ― Mitchel começou a dizer sentindo a voz ficar mais baixa menos agressiva.
Vincet riu alto e puxou os papéis da mão de Mitchel. Então começou a se afastar de novo do homem.
― Está liberado, Mitchel. A propósito estou de saída também, quer uma carona? ― Vincent perguntou sério dessa vez.
“Você quase caiu nisso, você é um idiota.” Pensou o jovem. Estava com raiva, queria chorar, estava tão nervoso que nem fala tinha mais, então apenas balançou a cabeça negativamente.
― Ótimo então! Tenha uma boa noite e bom final de semana! ― Vincent disse sério e então saiu da sala, deixando Mitchel sozinho.
Mitchel sentiu suas pernas perderem a força e deixou seu corpo lentamente escorregar até sentar-se no chão. O homem olhou pra cima e fechou os olhos. Suspirou fundo e se levantou. Ele precisava do emprego, não iria chorar ali. Ele correu até sua sala e vestiu seu casaco pesado, o dia estava realmente frio. Olhou no vidro da janela colocou um gorro na cabeça. Enrolou o cachecol no pescoço, e pensou antes de pegar sua bolsa e sair da sala.
O homem começou a caminhar pelo corredor devagar, ele não queria se mostrar nervoso para os colegas de trabalho. Então parou no balcão de atendimento para dar tchau para sua única amiga ali na empresa.
― Beijos, Fê. Nos vemos na segunda! ― Mitchel disse sorrindo para a secretária.
A garota loira que conversa ao telefone mandou um beijo para ele e fez um símbolo de que conversavam mais depois. Mitchel riu e saiu. Sem demora o garoto foi pro elevador e chamou o mesmo.
Ele ficou parado olhando pro nada, só voltou sua atenção quando o elevador chegou. O garoto entrou dentro, A porta estava fechando quando Mitchel ouviu um grito.
― Segure a porta!
Ele então segurou a porta e um garoto ruivo e com uma barba avermelhada e aparada entrou no elevador.
― Oi! ― O homem disse meio cansado. ― Sou Lucas! ― Então sorriu.
Mitchel sorriu também.
― Eu sou Mitchel. ― Ele disse feliz. ― Você deve ser o novo estagiário certo?
― Isso mesmo. ― Lucas disse sorrindo e então passou as mãos pelo cabelo.
O elevador descia rápido. Logo chegou ao térreo. A porta abriu e os dois homens saíram do elevador. Mitchel estava com pressa só queria correr para casa.
― Foi bom te conhecer, Lucas! ― Mitchel disse.
― É...
Lucas começou e parecia que iria falar mais. Só que Mitchel saiu apressado deixando o outro sozinho.
A viagem até o metrô não foi longa, e Mitchel só conseguia pensar em duas coisas. “O chefe” e que precisava sair daquele emprego urgente. Pensar no chefe o incomodava, tudo que ele menos queria pensar, era o que vinha em sua mente. Mitchel comprou o bilhete e então passou a catraca, seguiu cabisbaixo em direção à plataforma em que pegava o trem. Na escada Mitchel viu que havia um trem parando e começou a correr na direção do trem, se perdesse aquele iria ter que pegar o próximo que com certeza viria lotado. Esse era o último trem antes do horário de pico.
― Segure a porta pra mim! ― Ele gritou para um garoto loiro que estava na porta.
O garoto ignorou o pedido de Mitchel e virou o rosto. As portas do trem fecharam.
Ele chegou ofegante e cansado à plataforma e ficou olhando o trem partir.
― Droga, droga, droga... ― Ele falava sozinho e agora olhava para os trilhos indo para frente e para trás.
― Ei moço, foi só um trem não se mate, por favor, espere o próximo trem. ― Disse uma senhora que estava sentada próxima a Mitchel.
Mitchel olhou para a velhinha com um sorriso nos lábios. Preferiu sorrir, o estresse já consumia todo o seu corpo, sua vontade era jogar a velha nos trilhos, porém sorriu e caminhou em direção a um banco vazio, iria esperar o próximo trem.
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