Notas iniciais
Desculpe a demora gente. :3

Enquanto dobro a carta, lenta e cuidadosamente, sinto o olhar penetrante de Igor sobre mim. Fico em silêncio enquanto tento entender o que li. É incrível como as cartas dela são acompanhadas de um turbilhão de emoções. Não sei se devo sentir pelo abandono que a irmã dela sofreu, pelo ato terrível que a melhor amiga dela cometeu ou se devo sentir por ela, Andressa Lemos. Afinal, após perder a melhor amiga ela deve ter sentindo algo inexplicável. A maioria das pessoas que perde alguém tão próximo, afirma que é algo que não se sente no físico e no emocional, é uma mistura de ambos. Eu nunca havia pensado dessa forma até ler esta carta. Nunca passou pela minha cabeça a real dor de perder alguém. Quando via no noticiário as perdas por homicídio, assalto e suicídio tentava imaginar essa dor, senti compaixão da pessoa que havia ficado para trás, mas a verdade é que não é possível imagina-la.

– Então, o que ela disse? – Igor pergunta ansioso.

– Veja você mesmo. – Entrego a carta a ele.

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Não conversamos sobre a carta. Não falamos sobre a irmã dela. Não criamos hipóteses. Não inventamos suspeitos. Nós esquecemos tudo isso por alguns momentos. Logo após Igor ter terminado de ler a carta, ela foi guardada em segurança. Liguei o carro e fui em direção ao McDonald’s localizado logo atrás do prédio onde Andressa morou, e sua irmã mora. Entramos e fizemos o pedido, lanches que estavam na promoção. Esperamos em silêncio e ao lado do balcão. Alguns minutos depois temos nosso almoço em mãos e nos sentamos em uma mesa para duas pessoas no canto. É só então que me permito analisar as pessoas a minha volta. A maioria é adolescente, alguns jovens, todos querem uma comida boa, calórica e descolada. Ou simplesmente um lugar onde possam conversar. Ou simplesmente almoçar. Não importando os motivos, a conversa é alta. As pessoas estão agitadas e parecem mais interessadas na conversa do que no lanche sobre a mesa. O que me leva a crer que a minha segunda hipótese está correta. Volto minha atenção para a minha bandeja e quando estou prestes a desembrulhar o lanche, descubro que o lanche não está lá. Levanto meu olhar para Igor, ele finge estar muito interessado no lanche em suas mãos, que aparentemente é meu.

– Por que você pegou o meu lanche? – Pergunto, indignado.

– Pensei que fosse totalmente contra fast food. – Seu sorriso típico de uma provocação encobre qualquer sentimento diferente.

– Todos algum dia se rendem ao capitalismo e à cultura norte-americana. É um fato. – Sorrio. – Além de que estava com fome.

– Então pense nisso como uma ajuda do seu amigo para que você continue sendo saudável e anticapitalista. – Sorrio. Mesmo sabendo que vou ter que comer apenas a batata frita.

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Chegamos em casa e cada um vai para seu quarto. Por quê? Porque a cozinha deve estar cheia de louça e uma bagunça completa, a sala está com a televisão quebrada, longa história, e quem fica no banheiro sem necessidade? E ficar no quarto um do outro, você deve estar se perguntando. Bom, minha resposta é muito simples: Essa opção não existe. Ambos concordamos e vivemos felizes assim, sem muito contato físico desnecessário.

Entro no quarto e fecho a porta. Suspiro enquanto me viro e caminho até a cama. Observo o quarto cuidadosamente, a cama fica num canto ao lado da janela e em frente à porta, a cortina está fechada deixando uma claridade monótona tomar conta do quarto. O guarda-roupa ao lado da porta, do lado oposto ao da cama fica uma mesa coberta com papéis e relatórios que preciso preencher, uma estante com livros fica entre o guarda-roupa e a mesa, ela está quase completa o que é motivo de orgulho e satisfação, algumas roupas estão penduradas na cadeira em frente à mesa dando um ar tipicamente masculino e desleixado ao quarto. Alguns pôsteres bem nerds ocupam grande parte das paredes. Os móveis são de um marrom escuro e brilhante, consequência do verniz, o abajur com que iluminava os papéis na mesa está caído na lixeira. Eu só não sei por quê. É pensando nisso que lembro que devo ir me encontrar com Letícia esqueci-o-sobrenome no shopping. Olho para o relógio no criado-mudo, que esqueci de analisar, e me deparo com o nada, devo ter deixado ele cair hoje pela manhã. Procuro meu celular nos bolsos da calça em vão. Olho para a cama e ele também não está lá. Devo ter o deixado cair no carro. Procuro por um relógio de pulso, encontro um de uns quatorze anos atrás, ele é de uns monstrinhos e eu não me orgulho de ter que usá-lo por segundos. O jogo no lixo e me repreendo por ter jogado, ou deixado, o abajur cair na lixeira. Tenho três horas até o horário marcado, mas decido chegar antes.

Troco de camiseta e enquanto abro a porta grito para Igor que saí.

Alguns minutos depois estou caminhando pelo primeiro andar do shopping. O que não é lá essas coisas, já que ele só tem dois andares. E, além de ser pequeno sempre tem muita gente, o motivo é ele ser um dos únicos lugares da cidade para ir. As pessoas não vêm ao shopping para fazer compras, pelo menos não especificamente para isso, mas para comer e ir ao cinema. Ou à livraria.

Decido ficar em um canto afastado da praça de alimentação até dar o horário marcado. Sento e fico observando as pessoas que passam pela minha mesa. A maioria está sorrindo e outros tentam obrigar seus filhos e sorrirem enquanto recusam algo, tudo em nome da família “perfeita”. Estou muito concentrado observando uma mãe tentar fazer a filha de uns três anos parar de chorar, quando ouço alguém rindo muito perto de mim, olho assustado para o lado. Uma garota está sentada do meu lado, rindo. Olho para ela com curiosidade e estranheza.

– A sua cara... Nossa... Você é uma espécie de... Psicopata? – Ela diz entre risos. A olho intrigado. – Espera. – Ela me analisa tentando conter o sorriso que insiste em tentar lhe invadir os lábios. – Você tem cara de ser um serial killer. É isso. Você passa suas tardes procurando pela sua vítima. E pelo jeito são crianças. Cara, você precisa ser mais discreto. – Diz com um sorriso calmo. Mas, seus olhos possuem uma faísca de divertimento e provocação.

– Hum... Desculpa, mas... Não, eu não... – É mais ou menos nessa parte que ela começa a rir da minha gagueira temporária.

– Relaxa. Só estava brincando. Mas, é melhor não ficar tão concentrado olhando para as pessoas, elas são cheias de fobias. E se você encontra alguém com olhafobia? Já era.

– Não sabia que existia isso.

– E não existe. Mas, sei lá. Existem tantas doenças no mundo, pode existir uma fobia de olhares, só que o meu nome deve parecer uma piada de mau gosto perto do nome cientifico. – Ela ri, divertida. Me olha e sorri. No começo não sei o que devo fazer: sorrir de volta? Sair correndo? Ignorar? Decido simplesmente sorrir, essa sempre é a melhor solução. Ela fica me olha enquanto alarga o sorriso. Seus olhos possuem um brilho diferente, e eu não sei o que fazer. Na verdade, eu nem sei por que ainda estou sentado ao lado de uma completa desconhecida que me acusou de ser um serial killer que mata criançinhas para se divertir!

– Ok, para de me olhar assim. Eu também não sou uma psicopata. – Ela faz uma pose, como se estivesse pensando seriamente nisso. Então olha para mim. – É o que eu espero, pelo menos.

– Bom, eu também espero. Mas, sem querer ofender, o que você está fazendo aqui?

– Estou passeando, acabei de fugir do cinema. Eu, sem querer querendo, derrubei o super pôster de um filme. E eles ficaram loucos, acredita nisso? E nem foi tão pior que a vez que entrei na vitrine da Renner, e fugi. Isso foi pior. – Fico olhando no fundo dos olhos dela para ver se ela está sendo sincera, ela não vacila e então eu sei que é verdade. E começo a rir, não eu começo a gargalhar. Nada tão escandaloso, mas uma risada de verdade, daquelas que fazem a barriga doer e os olhos começam a lacrimejar. E então quando começo a me acalmar ela começa a rir e eu começo a rir e de repente não sei do que estou rindo. Nem sei se o que ela disse era tão engraçado a esse ponto. Mas, é bom. Rir. Mesmo sendo com e de uma pessoa desconhecida.

Depois de alguns minutos de muitas risadas, literalmente, vamos nos acalmando e aos poucos só restam sorrisos. Claro, que atraímos alguns olhares curiosos, mas nada que nos deixe incomodados.

– Então, nós estamos tendo uma conversa estranha e engraçada há alguns segundos e eu nem sei seu nome. Então, qual é o nome do garoto de olhar psicopata?

– Geralmente eu não espalho meu nome para pessoas que me chamam de psicopata, mas meu nome é Lucas. E o seu garota de cabelo cor de rosa?

– Então você reparou no meu cabelo? Tipo, as pessoas nunca comentam sobre a cor dele pensando que isso vai me constranger ou que eu não sei. O que faz você ganhar o meu respeito sir Lucas. Meu nome é mademoiselle Micaela, diretamente de um intercâmbio na França, baby. – Ela sorri e faz uma jogada no cabelo, com uma cara esnobe e tipicamente francesa. – Mas, não se preocupe. – Micaela diz voltando a ser ela mesma. – Eu não fui mudada. Meu cabelo é rosa faz muito tempo e a França não me mudou.

– Que bom, eu acho. Você sempre morou aqui? Ou só depois de voltar da França?

– Nunca morei aqui, mas deve ser divertido. Tipo eu moraria na Nobel e viria toda santa hora comer nessa praça de alimentação, além de que tudo seria de graça. – Percebo que terei que tomar cuidado no que falo, e ser mais específico.

– Entendo, também nunca morei aqui, mas, quem sabe um dia não consigo?

– Pois é, vou torcer por você. Mas, vou responder a sua pergunta de outro modo, só a Cho que você devia aprender a ser mais específico. Eu realmente nunca morei aqui, na cidade de Cascavel. Morei a vida toda em Curitiba, mas depois do intercâmbio decidi buscar novos ares.

– Interessante, mas, por que Cascavel?

– Na verdade, foi meio aleatório. Peguei um mapa, fechei os olhos e coloquei um dedo sobre um ponto, e aqui estou. A cidade das cascavéis. – Ela ri da própria piada. Não é uma coisa que todos os moradores de Cascavel aprovam, muitos não acham que seja certo se referir a Cascavel como a cidade das cobras, mesmo que o nome tenha sido dado exatamente por isso. Elas acham que é uma espécie de preconceito, o que não deixa de ser, mas é um preconceito saudável e eu nem me importo.

– É melhor não espalhar isso por aí. – Digo sussurrando, com um ar de segredo. – Não são todos que sabem das cascavéis, muitas cobras ainda rastejam pelo subterrâneo da cidade, elas estão tramando planos, traçando rotas e estratégias. Afinal, querem tomar posse da cidade que foi dos seus ancestrais, não é uma questão de tomar seu lar de volta, e sim de honra. – Lanço um olhar sério para ela que me olha curiosa. – Pelo menos é o que dizem por aí. Não se pode saber se é a verdade.

– Você acredita nisso? – Ela questiona, entrando na minha brincadeira surpreendentemente criativa.

– É claro, você não? – Digo, tentando parecer indignado o suficiente. – Assassinatos totalmente sinistros, sempre com uma marca de presas no pescoço da pessoa, elas somem e são encontradas com veneno de cobra. Não é possível negar.

– E se as cobras não quiserem a cidade, mas sim fazer justiça e saciar seu desejo pela vingança? – Ela fala como se estivéssemos em uma reunião, discutindo o que fazer em relação às cobras.

– É uma possibilidade. Se elas estiverem buscando saciar a vingança, matarão todos os habitantes da cidade. Um por um. Como faremos para detê-las?

– Lucas Maretti? – A voz que chama meu nome é firme e casual. Uma voz feminina. Olho para cima e por um momento me pergunto como essa mulher loira e vestindo um casaco vermelho nada discreto sabe meu nome. Uma lembrança toma conta de minha mente. Letícia. A mulher misteriosa do IML. Lembrei o sobrenome. Letícia Madgi.

– Sim. Letícia Madgi? – Ela concorda com um leve movimento de cabeça. – Pode esperar um momento? Se quiser procurar uma mesa... – Ela lança um olhar observador para Micaela, e concorda. Espero alguns segundos até que ela esteja a uma distância segura.

– Quem é ela? – Micaela pergunta chamando minha atenção.

– Para falar a verdade, eu não sei. – Respondo olhando para ela.

– Ela tem cara de psicopata, tome cuidado.

– Tomarei. – Somos tomados por um silêncio constrangedor.

– Bom, então... Eu vou indo.

– Eu também. Foi um prazer conhecê-la mademoiselle Micaela. – Ela estende a mão. Um sinal para que eu seja cavalheiro e beije a mão dela, que é o que faço. Ela ri divertida e surpresa.

– Foi um prazer sir Lucas. Quem sabe o destino, tão psicopata quanto nós, não nos una durante a noite de lua cheia?

– Por que não? – Sorrimos um para o outro e tomamos caminhos opostos. Olho para trás, mas ela já se perdeu na pequena multidão. Vou rumo à mesa que Letícia escolheu. Reparo que ela estava nos observando. Quando me sento a sua frente ela olhos nos meus olhos e sorri.

– Finalmente teremos nossa conversa. Desculpe ter chegado mais cedo, e antes que pergunte, o reconheci pelas fotos do seu histórico.

– Claro. – Ela fica em silêncio, olha cada vez mais fundo nos meus olhos, como se procurasse algo. Faço o mesmo, sustentando o olhar. Reparo que seus olhos não são verdes como pensei enquanto vinha aqui, são castanhos. Ela não é loira natural, seu cabelo um dia foi escuro. Então, me dou conta dos lábios vermelhos curvados em um sorriso perverso, e quando abre a boca, sei que vou me arrepender de ter vindo até aqui.

– O que você sabe sobre as cartas que Andressa Lemos escondeu?

Notas finais
Ooooi, Então o que acharam?? O próximo virá mais rápido, prometo. Tchau. (Quase esqueci, pra você hungry!)