Carneirinho e as Cento e Uma Noites

14 Tudo por um Cachinho – Parte VII


Notas iniciais
“Além das idéias de certo e errado, há um campo... Eu lhe encontrarei lá.” (Rumi)

O sopro do vento contra o rosto de Nahan era um bálsamo refrescante e renovador, que deixava suas faces ainda mais rosadas e o preenchia com uma sensação de liberdade deliciosa e indescritível. O príncipe loiro reforçou com os braços o enlace em volta da cintura de Fahir. Não galopavam há muito tempo, mas Nahan sabia que se olhasse para trás agora, provavelmente seu castelo já seria uma forma bem distante no horizonte, a julgar pela velocidade do galope. Montados no Alazão, percorriam uma extensa planície, que mais se assemelhava a um tapete de um verde muito vívido em contraste com o azul límpido e sem nuvens do céu.

Fahir nada falara desde que saíram tempestivamente da Igreja, limitava-se a conduzir seu cavalo de forma obstinada planície a fora. Mil perguntas dançavam na mente de Nahan, mas ele minimamente se preocupava com qualquer resposta. Em um curto espaço de tempo, sua vida virara de ponta a cabeça. O príncipe loiro não fazia idéia do que aconteceria, para onde estavam indo, ou do porquê... A única coisa de que tinha certeza era de seus braços em volta do corpo de Fahir, e no que dependesse dele nesse quesito em especial, jamais os tiraria dali de novo.

Um pouco a frente deles havia uma frondosa floresta, e Fahir conduzia Alazão para o começo de uma trilha que adentrava por ela. Sem conseguir mais se conter com tanta felicidade querendo explodir garganta acima, Nahan finalmente cortou o silêncio.

– Fahir, isso é tão emocionante! Sou um noivo em fuga! – Ele soltou uma risada com o próprio comentário.

– Bom, Cacheadinho... – Veio a voz um pouco abafada por Fahir ainda estar usando o elmo – Não leve a mal, mas quem tá fugindo sou eu mesmo. Aquele padre estava me olhando tão esquisito... Eu hein!

Enquanto o cavaleiro continuava a desfiar toda sua indignação em comentários e reclamações sobre o Padre, sobre o trovador intrometido e até mesmo sobre os trajes brancos do casal de noivos, Nahan não conseguia nem queria conter o estoque represado de gargalhadas que se acumulara dentro dele durante os meses de ausência de Fahir. Elas agora eclodiam, irrepresáveis.

– Ah, você ri, né? Isso, vai rindo, Cacheadinho... Eu devo mesmo ter escondido o ouro roubado de Robin Hood para até você estar aí, rindo de mim... – Mesmo reclamando Fahir não conseguia evitar acompanhar o príncipe loiro nas risadas. O som do riso do Cacheadinho era tão contagiante que logo os dois riam juntos, enquanto a cavalgada pela planície chegava perto de seu fim, com a entrada da trilha se aproximando rapidamente à frente deles.

Depois que as risadas esmoreceram, Nahan soltou um suspiro profundo, e fechou os olhos. O vento da tarde ensolarada continuava tentando desfazer seus cachos, sem sucesso. Com os olhos fechados, ele retirou os braços da cintura de Fahir e os abriu para os lados, inclinando a cabeça um pouco para trás. Em um tempo anterior, ele pedira ao vento que seguisse e protegesse Fahir. Tudo que desejava agora era formular uma prece de agradecimento ao vento por ter milagrosamente trazido de volta aquele que, de seu coração, jamais partira.

Por estar tão distraído em agradecimentos mentais com os olhos fechados, Nahan não viu o galho baixo de árvore vindo em sua direção na entrada da trilha da floresta, que acabou derrubando-o do cavalo e fazendo-o cair inconsciente no solo, onde permaneceu ainda com um sorriso no rosto e uma mancha vermelha pelo baque do galho na testa.

Fahir demorou um pouco para perceber que encontrava-se sozinho montado no Alazão, por isso quando as sombras das copas frondosas derramaram suas sombras sobre ele, achou que era o momento perfeito para começar a abordar um assunto que talvez não provocasse novas risadas no príncipe loiro... O mais certo era justamente o contrário. Fahir soltou um suspiro de desalento e forçou-se a falar.

– Cacheadinho... Bom, talvez você esteja estranhando tudo isso e se perguntando para onde estamos indo... Falando sério agora, não quero que pense que eu não seria o homem mais feliz do mundo em me juntar a você naquele... – Ele engoliu em seco, estranhando o silêncio atrás de si, mas forçou-se a continuar – Naquele Altar. Nossa, só de pensar na idéia me dá uma coisa aqui dentro que eu nem sei explicar. Mas não se preocupe, decididamente é uma coisa boa... Muito boa mesmo... Enfim...

Ele respirou profundamente, reunindo mais coragem, e continuou.

– É... Cacheadinho... Estou aqui dando voltas e voltas, e tem tantas coisas que eu queria te dizer... Mas antes, eu preciso levar você num lugar, e te contar algumas coisas. Coisas que talvez façam o seu sorriso lindo morrer de vez, e provavelmente você irá querer me expulsar da sua vida, dessa vez para sempre. Mesmo assim, eu preciso fazer isso. Por que você não merece menos do que isso. Não merece menos que minha total sinceridade. Então...

Decididamente o silêncio já se alongara demais para que Fahir achasse aquilo normal, por isso retardou o galope de Alazão e olhou brevemente para trás, arregalando os olhos dentro do elmo quando entendeu o porquê do silêncio.

– Pelas barbas brancas de Merlin! – Foi a exclamação incrédula ao dar meia-volta com Alazão o mais rápido que conseguiu, voltando em um galope desesperado pela trilha. Após alguns minutos, avistou Nahan estirado na relva, de olhos fechados. O medo apertou seu peito cruelmente enquanto ele desmontava do cavalo e rapidamente retirava o elmo da cabeça, largando-o no chão e ajoelhando-se junto ao príncipe loiro inconsciente.

– Cacheadinho! – O nervosismo subitamente deixou-o sem saber o que fazer, mas como por instinto, aproximou o ouvido da face de Nahan para tentar sentir se ele respirava. Suspirou aliviado quando a respiração fraca do loiro beijou sua face.

Fahir puxou-o para perto de si, aninhando-o no colo, e observou seu rosto desacordado. Um sorriso terno assomou seus lábios ao notar a evidente causa da queda. Uma mancha avermelhada despontava na testa do príncipe. Fahir concluiu logo que um galho mais baixo de árvore o pegara desprevenido e o fizera beijar o chão. Sorriu ao retirar com os dedos uma mecha cacheada loira de cima do machucado. Com uma pele tão alva e delicada, certamente um hematoma se formaria ali em breve. Fahir abaixou-se e depositou um beijo suave na testa de Nahan bem sobre a área atingida.

– Ai, Cacheadinho... Você também não é bom em olhar para cima, hein? – Fahir ainda sorria ao murmurar mais para si mesmo. Como se tivesse ouvido, Nahan franziu levemente a testa e entreabriu os lábios, soltando um gemido baixo quase inaudível, mas não abriu os olhos.

E novamente Fahir se encontrava cativo da visão hipnotizante daquela face tão perfeita que tanto habitara seus sonhos desde que privara a si mesmo de pousar os olhos sobre seu dono... Para o bem desse último. Agora podia sinceramente admitir que nada do que fizera fora capaz de apagar de sua memória não somente cada linha delicada daquele rosto, mas tudo que se referia à criatura loira que segurava junto a si. Os lábios rosados e entreabertos enviavam-lhe um convite poderoso e irrresistível, e sem sentir ele passou a língua nos próprios lábios em uma prévia do que quase acontecera na Igreja mais cedo.

“Será que os contos de fadas funcionam na vida real, Cacheadinho? Se eu beijar seus lábios, você acordará e nós seremos... Felizes pra sempre?” Fahir riu intimamente de si mesmo. A criatura de cachos loiros em seus braços o transformara de dentro para fora, em um pote gigantesco de mel... E do mais doce possível.

Ainda que não se considerasse digno de aceitar o convite que o brilho úmido daqueles lábios lhe acenava, Fahir sabia-se incapaz de recusá-lo, da mesma forma que já sabia-se incapaz de retirá-lo do coração. Se depois de tudo o pior acontecesse, o que ele achava mais provável e certo, poderia ao menos levar na memória mais uma razão para nunca esquecê-lo, como se já não houvessem suficientes.

Pela primeira e decerto pela última vez... O sabor do beijo do Cacheadinho.

Fechando os olhos, ele abaixou-se sobre o príncipe, levando uma mão para apoiar sua nuca delicadamente, e outra para tocar de leve seu queixo. Enfim encostou os lábios nos do príncipe inconsciente, em um beijo suave e breve, apenas um roçar quente e úmido, tão efêmero quanto o bater das asas de uma borboleta... Mas foi o suficiente para acelerar o coração de Fahir como se dez Alazões resolvessem galopar ao mesmo tempo dentro de seu peito. Quando a ponta de uma língua úmida e perdida tocou a sua, Fahir forçou-se a separar os lábios, antes que o beijo se aprofundasse mais do que sua própria determinação fosse capaz de vencer, pois claro que aquilo não fora suficiente. Claro que queria, desejava muito mais... O toque dos lábios do Cacheadinho, ainda que quase fraternal, servira de preâmbulo para inflamar toda uma gama de sentimentos guardados duramente dentro de si que ele sabia serem irrefreáveis se permitisse passar de um certo limite.

Fahir respirou fundo e abriu os olhos para a face abaixo de si. Não pôde evitar de achar graça quando viu que o beijo não servira para magicamente acordá-lo. As íris verdes continuavam ocultas pelas pálpebras cerradas. Os lábios rosados permaneciam entreabertos, com a diferença de agora, estarem mais úmidos e convidativos pelo beijo recente. O cavaleiro balançou a cabeça sorrindo.

“Eu devo ter beijado o sapo mais feio do Lago Jess para essas fábulas infantis serem tão enganosas assim...”

Ele ainda tentava decidir se ousava ou não um segundo beijo quando uma mão de Nahan se ergueu de repente, indo repousar na nuca de um surpreso Fahir e puxando-o com decisão para baixo, até que os lábios de ambos se unissem em novo beijo. E esse segundo... Esse sim, nada teve de fraternal. Foi profundo, apaixonado e pungente. Entre suspiros, Fahir viu-se entregue à sensação do contato das línguas que agora se descobriam e se cumprimentavam de verdade. Como resposta, puxou-o mais contra si, aninhando os dedos longos por entre os cachos nascentes de sua nuca, enquanto a mão de Nahan tateava para fazer o mesmo pelas mechas negras e lisas de seu cabelo. O cheiro suave dele, que remontava a rosas frescas, invadiu seus sentidos e imediatamente o embriagou tão fortemente quanto o vinho mais envelhecido e saboroso.

Pelo menos naquele breve e eterno instante, pensamentos de culpa e remorso não encontravam espaço na mente de Fahir, deixando lugar apenas para a explosão de sensações que se apoderava de ambos em uma mesma corrente ativada pelo contato íntimo que trocavam. Para o cavaleiro, era como se todos os percalços e agruras de sua vida o tivessem levado para este singular momento, em que segurava nos braços a criatura com quem compartilhava um beijo verdadeiro e apaixonado. Os lábios unidos e inseparáveis simbolizavam toda a entrega a um sentimento que só em seus mais incautos sonhos se permitira imaginar.

Não havia mais razões para negar, muito menos para não admitir o que talvez fosse verdade desde o momento em que pousara os olhos na criatura cacheada e chorosa, parada na beira da ponte, prestes a tirar a própria vida ou quebrar uma perna...

Fahir amava o Cacheadinho.

Essa era sua felicidade e também sua ruína. Era isso que lhe gritava o fundo de sua mente, em um alerta inconveniente que ele preferiu ignorar, pelo menos durante aquele momento. Fahir sabia que o beijo, por mais arrebatador que fosse, não duraria para sempre. A realidade iria se impor a eles sem misericórdia assim que separassem os lábios e abrissem os olhos. Ao mesmo tempo sabia que não importava o que acontecesse depois... Esse momento fazia tudo valer a pena.

Os lábios se separaram com lentidão relutante, como se o desejo de prolongar o beijo fosse compartilhado por ambos. Com um suspiro resignado, Fahir abriu os olhos e foi recepcionado com a face ruborizada do príncipe loiro, onde um par de olhos do verde mais brilhante o encarava de volta lânguidamente. O coração de Fahir ameaçou falhar uma batida ante a intensidade daquele olhar e o sorriso que já se formava nos lábios rosados e úmidos.

– Criatura... – Fahir se esforçou heroicamente para vencer o próprio impulso de tomar aqueles lábios em novos e incontáveis beijos. – Como é que você foi cair assim? Você está bem?

– Estou ótimo, Fahir... Nunca estive melhor. – foi a resposta segura do príncipe.

Fahir levou uma mão à testa do Cacheadinho, passando levemente um dedo pela área avermelhada, o que provocou um pequeno gemido em Nahan.

– Está doendo muito? – Ele perguntou preocupado, ainda que o sorriso do príncipe não houvesse diminuído nem um pouco.

– Dói sim... Dói um pouquinho. Mas isso não importa... Porque a maior dor que já senti na minha vida, foi bem aqui... – A mão de Nahan se elevou para buscar a de Fahir e trazê-la para baixo, pousando-a sobre o próprio peito bem sobre o coração. – E essa você fez desaparecer, Fahir.

Por alguns momentos Fahir descobriu-se incapaz de pronunciar uma palavra que fosse, e isso só se agravou quando o brilho de uma primeira lágrima surgiu no canto dos olhos de Nahan. O sorriso antes tão radiante recuou totalmente, deixando no lugar uma expressão séria e solene.

“Ai, Cacheadinho... Tudo menos isso... Prefiro enfrentar mil Lacraias venenosas, em fila, uma atrás da outra, do que enfrentar a sua cascata de lágrimas...”

Indiferente ao apelo mental do cavaleiro, uma lágrima rebelde deslizou pelo rosto do príncipe loiro, e foi logo colhida carinhosamente pelos dedos atentos de Fahir. Ele ainda tentava em silêncio domar o bolo na própria garganta para conseguir falar qualquer coisa, uma piada que fosse, para aliviar o clima... Quando os lábios do príncipe loiro se moveram para pronunciar algo que já era evidente nos olhos verdes marejados.

– Eu te amo, Fahir.

Naquela clareira da floresta onde Nahan tombara do Alazão, à volta deles, todas as forças da natureza pareciam convergir para realçar a importância daquele momento, pois o silêncio fez-se presente com a ausência do som dos pássaros nas árvores e o vento que se esquecera momentaneamente de soprar... A declaração ficou pairando no ar, suspensa e sem pressa, como se desejasse ser respondida mas também pudesse esperar todo o tempo do mundo pela resposta... Só que para Fahir, nem um século seria o suficiente para torná-lo capaz de responder aquela simples e sincera frase. Não agora, não ainda. Não antes de...

Os pensamentos giravam freneticamente pela mente de Fahir, e após o longo silêncio quando tudo que fizeram foi se encararem, ele percebeu o exato momento em que uma sombra de decepcão mesclada com confusão escureceu o verde dos olhos de Nahan. Isso o atingiu, contundente e preciso como um punhal afiadíssimo. O ar faltou-lhe por um instante, e o cavaleiro respirou fundo em uma vã tentativa de resgatá-lo.

Cada vez mais Fahir sentia-se burlando, enganando o Destino, só com o par de beijos trocados naquela clareira sombreada, e todas as consequências que advieram disso, principalmente a expressão triste do príncipe loiro com que era brindado agora. Mas como ele poderia ter resistido a tão poderoso chamado? Fahir era um cavaleiro experiente e treinado contra criaturas maléficas... Mas quando é que enfrentara antes criatura mais perigosa e implacável do que o “Amor”?

Naquela batalha já investira derrotado. Mas estaria tudo bem se essa fosse a única que precisasse travar... Só que infelizmente não era. E disso ele não podia se dar o luxo de esquecer ou negligenciar. Por isso, contrariando o peso em seu coração angustiado, ele desviou o olhar do rosto triste de Nahan e obrigou-se a afastar-se dele, levantando-se pesadamente.

Um pesar profundo se apoderou do peito de Nahan ao observar o cavaleiro negro dando-lhe as costas. Ainda sentado na relva, ele sentia-se como se o seu coração, antes tão leve e inundado de plena alegria pelo retorno de Fahir, acabasse de ser catapultado de um sonho muito bom diretamente para a terra hostil e desconhecida de um pesadelo. Olhando para Fahir que agora abaixava-se para recolher do solo o elmo e o colocava na cabeça, sua tristeza só não era maior que sua confusão.

Não era que Nahan não confiasse nos sentimentos de Fahir por ele. Não foi a ausência de resposta à sua declaração que o encheu de medo. Nesse momento, o que o deixava inseguro era a sombra soturna que estendera as asas sobre aquela clareira, sobre eles... Mas principalmente sobre Fahir. O príncipe não pôde deixar de lembrar-se da noite em que Fahir recusara tudo que Nahan lhe oferecera e se despedira, praticamente fugindo de seu quarto como se escapasse da criatura mais ameaçadora que já cruzara seu caminho de caçador. Ainda que o coração de Nahan houvesse se partido em mil pedaços então, mesmo em meio à dor ainda era possível... Senti-lo. Naquela noite, Fahir estivera presente para dizer-lhe adeus.

Mas agora, Nahan não sabia como lidar com a completa mudança de atitude desse estranho cavaleiro, que adotara uma postura fria e distante, não restando absolutamente nada do Fahir que conhecia e amava. Mesmo em meio a tantas idéias e sentimentos desencontrados, Nahan intuía que a súbita mudança de Fahir nada tinha a ver com o fato de ter aberto o coração com a sincera declaração de momentos atrás.

Havia algo maior. Um mistério até agora indecifrável para Nahan, que pairava, ameaçador e sombrio sobre os ombros de Fahir, endurecendo-lhe a postura e até os movimentos. Muito mais dura do que a armadura negra que usava, era a proteção com que o cavaleiro se armara. Uma defesa contra Nahan, contra si mesmo... Ou contra ambos?

O príncipe loiro não teve tempo de continuar com as divagações pois uma mão coberta por uma luva de lima negra se estendeu a ele, oferecendo-lhe ajuda para levantar-se. Nahan procurou divisar por entre as frestas do elmo alguma pista, algo que fosse para acalmar o turbilhão de sentimentos confusos em que se transformara seu íntimo... Mas nada conseguiu ver. Nem mesmo um fraco brilho dos olhos negros era-lhe possível entrever. No que lhe constasse, só havia total escuridão, dentro do elmo e dentro da alma de Fahir. Um arrepio percorreu a espinha do príncipe loiro enquanto seu olhar se dirigia para aquela mão estendida em sua direção...

– Amo, quer que eu faça uma pausa?

– Pausa? Não, não precisa de pausa nenhuma não... Por que eu precisaria de uma pausa?

– Porque o Amo está nervoso...

– Nervoso, eu? Claro que não! Não estou nervoso, não.

– Está passando o dedo na sobrancelha toda hora. O Amo só faz isso quando fica nervoso.

– Mas é o Dia do Juízo Final, só pode! Isso é mania minha, não tem nada a ver. Estou calmo, calmíssimo. Pode continuar a história, Carneirinho.

– O Amo também torceu a ponta do lençol todo com os dedos... — Ele observou, e abaixando o olhar, Félix viu que fizera isso sem sentir enquanto ouvia a última parte da história.

– Outra mania minha! Faço isso o tempo todo... — Ele desfez rapidamente os nós do tecido, esticando-o de volta, com uma leve e mal disfarçada irritação.

– Seu peito dói? — insistiu Nicolas, ainda com a expressão preocupada.

– Hã? Não, criatura, por que a pergunta?

– Porque o senhor está apertando o peito toda hora... – O escravo loiro levou uma mão ao peito do Sultão, pegando-o de surpresa. — Tudo bem?

– Mas eu devo... Eu já nem sei mais o que eu fiz pra ter que ouvir tudo isso! — Embora parecesse contrariado, ele não fez menção de retirar a mão de Nicolas que agora lhe fazia uma suave massagem no peito. O Sultão não conseguiu segurar um breve suspiro e fechou os olhos, vencido pelo calor carinhoso da mão do Carneirinho. Antes que outro suspiro lhe escapasse, foi brindado com o toque quente e macio de lábios solícitos nos seus. O beijo foi breve e suave, meramente um roçar das línguas úmidas, apenas um acalento para os nervos do Sultão, que ao abrir os olhos no fim do beijo, já exibia uma expressão mais tranquila.

– Carneirinho... – Félix murmurou com voz baixa.

– Sim.

– Dessa vez não fui eu quem interrompeu a história.

– Não, não foi...

– Então... Não acha que posso ganhar um crédito pra próxima noite?

– Um crédito... — Nicolas repetiu, retirando a mão do peito do Sultão e se afastando um pouco na cama. O sorriso já esmorecera.

– Ai, criatura... Já fazendo essa cara. Tá bom, deixa pra lá, apenas continue a história.

– Não, tudo bem.

– Tudo bem? – Félix levantou uma sobrancelha, desconfiado com a súbita boa vontade de seu contador de histórias genioso.

– Sim, o Amo poderá interromper quatro vezes da próxima vez. – Ele autorizou com doce convicção.

Nicolas voltara a sorrir para um Félix ainda incrédulo. De início o loiro quase se irritara com a tentativa de manipulação de seu Amo para conseguir autorização de uma saída a mais dos sapos de sua boca... Mas agora, pensando melhor, havia um lado até bom naquilo, que deixou-o feliz.

– Posso continuar?

O escravo de cabelos cacheados fez o possível para segurar o sorriso ao perceber uma das mãos do sultão se dirigir ao próprio peito, enquanto a outra já buscava uma ponta do lençol. O começo de um sorriso tomou seus lábios quando um simples acenar de cabeça do Sultão foi o suficiente para que o Carneirinho retomasse sua narrativa.

As horas passaram mais rápido do que o vento que lhes fazia resistência na cavalgada que Fahir e Nahan faziam através da densa e interminável floresta. Há muito o sol se escondera no horizonte. Só não havia escuridão absoluta devido aos tênues raios de luar que conseguiam atravessar as copas frondosas das árvores e iluminar a trilha o suficiente para seguirem em direção ao seu destino... Fosse ele qual fosse.

O silêncio era uma companhia invisível que Nahan não ousava expulsar. Quando Fahir lhe estendera a mão, ele se limitara a aceitar a ajuda para levantar-se e em seguida, subir de volta na garupa do cavalo. A cavalgada recomeçou, na mesma velocidade de antes, mas a sombra que se anunciara naquela clareira os acompanhava como uma presença nefasta.

À medida que seguiam pelo caminho, Nahan se dedicava à árdua tarefa de não se deixar oprimir ainda mais pela tristeza, por mais difícil que isso parecesse. Em pensamento, ele repetia a si mesmo sem parar que o cavaleiro cuja cintura segurava com as mãos ainda era a mesma pessoa que interrompera tempestivamente seu casamento e o raptara da igreja entre piadas e risadas descontraídas. Por mais inacreditável que fosse, aquele que os conduzia pela trilha ainda era o mesmo que tomara seus lábios em um singelo primeiro beijo... E em um segundo tão apaixonado e entregue que Nahan desejara nunca mais abrir os olhos. Outra missão quase impossível era segurar as lágrimas, mas algo lhe dizia que ele precisaria ser forte como jamais precisara ser antes.

Agora, quando seu destino estava nas mãos do estranho frio e soturno que tomara o lugar de Fahir, tudo que Nahan desejava era fechar os olhos com força e ao abri-los, encontrar novamente o cavaleiro engraçado e valente por quem se apaixonara perdidamente. Fechar os olhos e rezar. Duas coisas que ele podia fazer, e assim Nahan o fez, fervorosamente.

O tempo se arrastou indefinidamente naquela cavalgada silenciosa, até que o príncipe loiro percebeu a velocidade do galope reduzir-se. Quando Alazão finalmente estancou, Nahan abriu os olhos e olhou em volta, tentando se localizar. Não conseguiria dizer onde estava, pois perdera boa parte do caminho de olhos fechados em prece. A floresta ficara um pouco para trás. Encontravam-se próximos da margem de um rio estreito que corria logo à frente. Para além da margem oposta, a floresta recomeçava, como se apenas houvesse aberto um respeitoso caminho para que o curso do rio passasse livremente. A vegetação rasteira rareava, predominando rochas e areia lamacenta. Mesmo estreito, o rio possuía certa força em sua corrente. Sem árvores naquela área, o luar não encontrava nenhum obstáculo para pousar e se refletir na superfície das águas que corriam em seu curso tranquilo mas constante.

Tudo isso Nahan observou num só relance, enquanto aguardava por alguma ação por parte de Fahir, mas o cavaleiro também observava a área sem se mover. Era como se, como Nahan, também estivesse vendo aquele lugar pela primeira vez.

Após alguns segundos Fahir finalmente se moveu, descendo do Alazão, passando uma das pernas pela frente da montaria. As botas negras se enterraram um pouco na lama escura, e o cavaleiro permaneceu por um momento parado ali como se criasse raízes invisíveis. Todo seu corpo transparecia rigidez e resistência contra qualquer que fosse o objetivo de visitarem aquele lugar. Fahir parecia querer adiar ao máximo a retirada do elmo, e só o fez depois que andou alguns passos se aproximando da beira da água. Foi ali que o elmo foi largado no solo com displicência. Ainda montado no cavalo, Nahan observou que Fahir não fez o gesto tão característico de ajeitar as mechas negras do cabelo. Uma mão se ergueu mas não se dirigiu ao cabelo e sim a uma de suas têmporas.

Fahir ajeitou distraidamente uma das sobrancelhas com o dedo mindinho, depois ficou imóvel como uma estátua, uma figura de negro, esguia e inflexível, com o olhar perdido e vago direcionado para o curso do rio que corria inexorável e indiferente a qualquer drama pessoal que fosse trazido às suas margens.

Nahan esperou um pouco antes de finalmente descer do Alazão e dar alguns passos incertos em meio às rochas que permeavam a margem de areia. Não se aproximou muito dele, parando alguns passos atrás de Fahir, porque simplesmente não tinha idéia do que fazer. O príncipe loiro aguardou o máximo que pôde antes de finalmente quebrar o silêncio.

– Fahir... Por que viemos aqui?

Não houve nem mesmo um leve movimento. Nada. A estátua de pedra que olhava o rio não ganhou vida para voltar-se e encarar Nahan, mas após uma paciente espera do príncipe ansioso, este foi recompensado com a resposta em voz baixa e grave:

– Antes de irmos em frente... Preciso lhe contar a minha história.


* * * * * *

Notas finais
Próximo capítulo: A história de Fahir.