Carneirinho e as Cento e Uma Noites
15 A História de Fahir - Parte I
Notas iniciais
“Meu nome verdadeiro é Fahir Elcure, e sou filho do Rei Cesare e da Rainha Poliana, soberanos do Reino de Elcure, no norte das Terras Médias de San Magno. Como você, Cacheadinho, eu nasci príncipe, e pelo que consigo me lembrar dos meus primeiros anos de vida, até uma certa idade, eu quase posso me lembrar de ser feliz, ou o que quer que signifique esse conceito. Lembro-me de sensações como ser embalado, acarinhado, lembro-me de sorrisos dirigidos a mim e até mesmo de cantigas de ninar que embalavam meu sono. São todas memórias muito distantes, mas sei e sinto que estão lá.
Como filho único do Rei, eu fui crescendo cercado de atenções e carinho, principalmente por parte do meu pai, que me cercava de planos e sonhos para o futuro, quando um dia eu me tornasse Rei de Elcure. Se eu fechar os olhos e forçar minha memória, sou capaz até de me lembrar dos sorrisos do meu pai pra mim, e da sensação da sua mão forte acariciando meus cabelos. Nessa época, eu sentia que o mundo inteiro já me pertencia, e que eu podia fazer qualquer coisa que desejasse.
E foi exatamente por ter essas primeiras memórias, que me lembro muito bem quando algo fez tudo mudar. Foi logo depois de eu completar oito anos de idade. Houve uma grande festa para o meu aniversário. Meus pais não pouparam esforços para tornar a festa de anos do futuro Rei de Elcure a mais magnífica possível. Foi o último dia feliz de que posso me lembrar. Nesse dia em que a alegria e o entusiasmo me cercavam, nem liguei muito para o fato de minha mãe ter engordado tanto nos últimos meses, a ponto dela nem se levantar muito do trono no decorrer da festa, exibindo uma expressão fatigada e pálida. Na verdade eu nem via muito minha mãe, pois ela vivia escondida nos aposentos reais, e meu convívio com ela diminuiu radicalmente. Mesmo que eu me sentisse muito mais próximo do meu pai, claro que eu sentia falta da minha mãe, mas quando eu perguntava para meu pai, ele simplesmente respondia que ela andava cansada demais e necessitava daquele repouso constante.
Só fui entender o motivo do recolhimento alguns dias depois da minha festa de aniversário. Após uma noite tensa cheia de gritos de dor oriundos do quarto Real, que me gelavam a alma... Um choro de bebê soou, e logo foi acompanhado por exclamações de alívio e alegria dos súditos mais próximos do convívio da família Real. Enquanto o choro continuava, estridente, e eu tentava entender como aquele som irritante poderia deixar alguém feliz, fui puxado de lado por minha avó materna, Benícia, que me explicou que eu acabara de ganhar uma linda irmãzinha. Ela falava e vertia lágrimas de pura alegria, ao mesmo tempo em que eu tentava entender o motivo de tanta emoção por parte de todos.
No dia seguinte, finalmente permitiram que eu a visitasse. Eu me aproximei da cama real, onde minha mãe ninava um embrulho envolto em uma manta branca. Quando olhei para aquela pequena criatura toda enrolada só com um rosto do lado de fora, que mais se assemelhava a um joelho gordo e enrugado, eu não consegui sorrir. O aperto no meu peito não permitia. Fiquei só olhando para a bebê nos braços da minha mãe, e foi nesse momento que entendi tudo. Quando fitei o rosto da Rainha, percebi que dali para a frente, ela nunca mais me olharia de verdade. E ainda pior do que isso foi ver meu pai sentar-se na beira da cama, beijar a testa da Rainha e murmurar-lhe palavras de agradecimento, com lágrimas escorrendo por seu rosto. Eu nunca vira meu pai chorar antes, nem mesmo quando eu consegui empunhar uma espada de adulto pela primeira vez. Como é que aquele embrulho rosado e amassado que acabara de surgir fora capaz de fazer isso? Se eu, o filho amado e idolatrado desde sempre, nunca o fiz?
Mesmo sendo apenas uma criança, percebi que eles haviam desejado muito aquela criaturinha, e agora que ela chegara, nada mais seria como antes. A começar pela repentina sensação de que eu não me encontrava no quarto. Minha presença ali não era mais reconhecida. Era como se eles se bastassem. O casal de soberanos e seu pequeno embrulho de rosto vermelho e retorcido, com seus bracinhos gordos e cheios de dobrinhas querendo sair para fora da manta, decididos a subtrair desde já tudo que me era caro.
Um sentimento totalmente novo me tomou, e só posso descrevê-lo como desespero. Eu queria a atenção deles dirigida a mim de novo. A total atenção dos dois para aquele bebê me deixou sem ar e sem chão, como se houvessem me jogado no meio do nada, onde eu poderia gritar à vontade pois nunca mais seria ouvido.
Com o orgulho estampado na expressão, e trocando olhares amorosos com minha mãe e com o embrulho rosado em seus braços, meu pai anunciou que lhe dariam o nome de Pércia.
Não consegui evitar o que se seguiu. Crianças falam o que pensam, e como filho único do Rei, eu jamais precisara me preocupar com o que saía dos meus lábios antes. Tudo o que eu falava era motivo para risadas de todos à minha volta. Verdadeiras ou não, sempre fora assim. Eu sempre gostei de fazer comentários irônicos e piadas, desde que me dou por gente. Naquele momento em que olhava para minha recém-chegada irmãzinha, um comentário pulou incontrolável através de meus lábios, selando talvez desde então, o que viria a acontecer em meu futuro.
– Por que não a chamam de Ratinha? Ela mais parece uma.
Os olhos do Rei e da Rainha se arregalaram. As faces empalideceram de espanto. Mas o espanto deles jamais seria maior que o meu, quando meu pai se levantou prontamente da cama e vindo até mim, desferiu-me um sonoro tapa no rosto, tão forte que me fez cair sentado no piso do quarto real. Levei uma mão à face atingida, chocado demais para chorar. Entre gritos furiosos, ele ordenou que eu me retirasse dali, o que obedeci imediatamente. Fugi para a porta seguindo o instinto, já que as lágrimas embaçavam minha visão.
Do lado de fora do quarto, esbarrei em minha avó, que me acolheu nos braços com carinho e palavras de consolo. No colo dela eu extravasei toda minha mágoa e dor, pois mesmo sendo apenas um menino de oito anos, eu já compreendera como as coisas funcionariam dali pra frente. Minha avó sempre foi maravilhosa comigo, e partir dali, ela era a última fonte de afeto que eu ainda encontraria nos anos seguintes. Infelizmente esse afeto e atenção não eram suficientes para aplacar o imenso vazio dentro de mim que se abriu no momento em que minha irmã Pércia chegou. Com o decorrer dos anos, ele só viria a aumentar cada vez mais.
Os anos foram passando, e minha vida entrou em um padrão que permaneceu imutável. Pércia crescia cercada de amor, atenção e cuidados diligentes. O Rei e a Rainha estavam irremediavelmente apaixonados por ela, e esse encanto só aumentava à medida que ela crescia. Desde o episódio do tapa, eu rapidamente aprendera uma lição valiosa. Se eu quisesse alguma chance de ter novamente o amor dos meus pais, eu precisaria fingir gostar da minha irmã. Fingir que era tão apaixonado por ela quando meus pais. Por isso concentrei meus esforços em fazer o papel de irmão mais velho e atencioso.
Mesmo agindo assim, eu sentia o olhar constante dos meus pais sobre mim. Não era o olhar que eu tanto desejava de volta... Era um olhar desconfiado, de precaução. Eles jamais esqueceram. E mesmo levando meu papel com maestria, as migalhas de atenção que recebia dos meus pais só faziam minha revolta crescer como um monstro horrível dentro da minha alma. Era impossível aceitar de bom grado essas migalhas. Como aceitar tão pouco quando eu experimentava e me lembrava do sabor de se ter tudo?
Eu queria que Pércia desaparecesse como num passe de mágica. Ao lado dela e de meus pais, eu sorria, sempre dedicado e solícito. Secretamente, fantasiava todo tipo de infortúnio com minha irmãzinha. Por menos louvável e digno que isso pareça, foi isso que me ajudou a crescer ao longo dos anos, enquanto eu a via crescer também, cercada de tudo aquilo que deveria ser apenas meu.
Paralelamente ao plano de fazer o papel de melhor irmão do mundo, eu dediquei-me a aprender tudo que pudesse me possibilitar o menor relance do olhar do meu pai na minha direção. Fui treinado desde menino em todas as artes próprias dos melhores cavaleiros: Luta com espada, estratégias de batalha, montaria... Eu comia, vivia de todo tipo de conhecimento que pudesse me tornar o cavaleiro mais invencível de todos. A pequena Ratinha chegara na minha vida para roubar a atenção e amor dos meus pais... Mas isso não mudava o fato de que eu estava destinado a me tornar Rei. Eu não negligenciava essa parte do plano, ainda que o que me movesse de verdade fosse o desejo de tornar minha irmã tão invisível quanto eu me sentia, desde que ela surgira.
O mais irônico de tudo é que, ainda que ninguém acreditasse no meu papel de bom irmão, Pércia acreditava, e fazia questão de sempre demonstrar como me idolatrava, como me amava... O quanto eu era incrível. Os olhos dela brilhavam de amor quando olhavam pra mim. Eu devolvia o olhar amoroso a ela, mas por dentro ânsias de vômito me revolviam o estômago. Eu não queria esse amor, e intimamente o rejeitava com todas as minhas forças, sempre mascarando o nojo com o sorriso mais largo que pudesse exibir.
Os anos correram sem maiores mudanças, a não ser aquelas próprias da natureza. Pércia tornou-se uma bela princesa de longos cabelos castanhos e olhos amendoados, na flor de seus dezessete anos. O que minha irmã tinha de bonita tinha de ingênua, para não dizer burra. Sua cabecinha cheia de tranças vivia nas nuvens, sonhando com um grande amor em sua vida. O pior de tudo era ter que ouvir suas confidências, seus sonhos de conhecer um belo cavaleiro montado em um cavalo branco.
– Eu quero muito que ele seja tão lindo e tão imponente quanto você, meu irmão querido. – Ela costumava me dizer, com estrelinhas imaginárias dançando nos olhos. Eu engolia em seco e fazia-lhe um carinho cheio de falsidade. Sim, eu sabia que também me tornara um belo rapaz, no auge dos meus vinte e cinco anos. Mas os elogios com que ela sempre me cobria soavam aos meus ouvidos como ofensas irritantes. Como tudo que vinha dela. Sem perceber nada ela continuava incansavelmente a maltratar meus pobres ouvidos com todo tipo de devaneios inúteis. Muitas vezes eu apenas fingia que ouvia e balançava a cabeça concordando, com minha mente longe.
Enquanto Pércia sonhava com um belo príncipe para amar, eu ainda precisava lidar com um inconveniente que eu sabia ser necessário para quando me tornasse Rei de Elcure. Eu não protestei e aceitei resignado quando meu pai, em uma das pausas na sua adoração à filha perfeita Pércia, resolveu designar-me uma noiva. A princesa Epifânia do reino de Sobros passara a viver no castelo dos Elcure, na qualidade de futura Rainha ao meu lado, em um futuro remoto, pois meu pai tinha uma saúde de ferro e não parecia pretender deixar-nos tão cedo.
Meus planos de vingança contra minha irmãzinha ladra do amor dos meus pais não deixava muito espaço para outros pensamentos... Muito menos sobre alguém que não despertava em mim a mínima afeição. Eu tratava Epifânia de forma semelhante à que tratava minha irmã, mas sem nunca deixá-la se aproximar muito. Eu era gentil, sorridente e convivia com ela como um bom noivo precisava fazer, mas isso era tudo. Eu nem ao menos gostava muito que ela me tocasse. Quando isso acontecia, e sempre por iniciativa dela, eu fazia de tudo para me esquivar. Uma vez não consegui escapar de um beijo roubado durante um passeio ‘romântico’ pelo campo.
Eu apenas suportei aquilo, ansiando pelo momento quando terminasse. Sinceramente, beijar Epifânia foi como seria beijar minha avó... Mas eu aguentei firme, e até sorri fingindo ter gostado, quando nossos lábios se separaram. Depois emendei o falso sorriso com um comentário pomposo sobre a importância de guardar nossos sentimentos para a cerimônia de nosso casamento, e de como isso tornaria nossa união ainda mais especial. Epifânia pareceu decepcionada mas concordou comigo, e felizmente, não houve mais beijos no decorrer do nosso noivado. É claro que aquele não fora meu primeiro beijo, para não mencionar outras coisas... Afinal mesmo com minha mente sempre centrada num só objetivo... Há muito eu já aprendera a aplacar certos chamados de minha natureza, do meu próprio jeito. Mais uma faceta da minha vida que eu mantinha em segredo, e mais um motivo para que Epifânia jamais conseguisse ser aquela que completaria essa pequena mas ativa parte de mim.
Eu segui com meu plano principal, que já passara os limites da obsessão. Eu nunca desisti, e aprendi a exercitar minha paciência no intuito de aguardar uma oportunidade, apenas uma, de fazer com que meus pais enxergassem Pércia como ela realmente era: Uma jovem impulsiva, inconsequente e leviana. Nada digna de ter em suas veias uma gota que fosse de sangue real. Eu sabia que essa oportunidade surgiria. Tudo que eu precisava fazer era aguardar nas sombras e agir no momento certo. Não deixaria de forma alguma essa chance escapar. E então eu finalmente sairia do escuro onde fora injustamente jogado e brilharia à luz do sol, como eu sabia que merecia, como eu sabia ser meu direito.
Lembro quando Pércia chegou até mim em uma manhã, quase saltitando, como sempre fazia quando se entusiasmava com alguma coisa, e isso não era propriamente incomum.
Eu acabara de sair do meu quarto, todo aparamentado para mais uma sessão de treino de espada com Jamal, um dos membros da guarda Real escolhido por mim a dedo para tal fim. Com Jamal eu encontrava verdadeiro prazer em lutar, não propriamente pela habilidade em si que quase se igualava à minha, mas pelas trocas de comentários divertidos e provocantes entre nós enquanto lutávamos. Além disso, ele era um puro deleite para meus olhos, já que era um homem bonito e atraente. Ainda que não pudéssemos passar do leve flerte, isso muito me agradava já que alguns segundos com Jamal conseguiam apagar da minha mente qualquer lembrança da minha inconveniente noiva.
Mas em nome de minha reputação como futuro Rei, eu sabia que não podia passar de certo limite nessas brincadeiras. Eu já ouvira falar sobre a fama que o sul das Terras Médias de San Magno possuía de ser mais liberal e aceitar que dois príncipes possam se casar, por exemplo. Mas no Reino do meu pai, isso jamais seria aceito e eu nunca sequer considerara essa possibilidade, ainda que soubesse muito bem minhas preferências. Para me tornar Rei, eu me casaria com Epifânia, e nada mudaria isso. Eu sabia qual era o comportamento adequado e desejado pra o futuro Rei e nunca tentaria ir contra as ordens de meu pai, em nome de qualquer sentimento reprimido dentro de mim. Ou seja, as lutas com Jamal me satisfaziam a contento.
E agora... Lá vinha minha querida irmãzinha em mais um pouco do mesmo de sempre: atrapalhar as poucas coisas boas de que eu ainda podia dispor. Eu exibi meu melhor sorriso forçado e apenas aguardei para saber qual era a novidade incrível que ela queria me contar. Quando Pércia começou a tagarelar, uma luz se acendeu dentro de mim. Eu sabia que esse era o momento. Chegara a grande oportunidade da minha vida. Sentia isso em meu íntimo e à medida que ela continuava falando, inúmeras idéias já rodavam em minha mente. Definitivamente Jamal poderia esperar.
– Claro que ajudo você, minha doce irmã. O que você não me pede sorrindo que eu não faço chorando, não é mesmo? – Foi minha resposta para suas súplicas, e a reação de Pércia foi um abraço apertado que quase me deixou sufocado. Eu me forcei a abraçá-la de volta e acariciar suas longas tranças castanhas, enquanto ela se desfazia em agradecimentos. Se alguém passasse por nós no corredor do castelo, com certeza estranharia meu sorriso, que deveria passar longe do afeto fraternal e se aproximar mais de um esgar da fera prestes a abocanhar sua presa.
Enfim consegui separar o abraço e instruí a ela que voltasse ao quarto e se aprontasse conforme minha orientação. Ela assentiu, animada, e saltitou rapidamente de volta aos seus aposentos. Enquanto a via se afastar toda feliz, eu já imaginava todas as possibilidades que se abriam diante de mim.
E foi assim que ajudei Pércia a sair do castelo sem que fôssemos vistos, usando uma saída secreta muito utilizada por mim na calada da noite, toda vez que eu precisava atender certos chamados da minha natureza. Eu sempre desejara que essa passagem continuasse secreta, mas decidi que a oportunidade de ouro que eu conseguia vislumbrar valia a exposição desse meu pequeno segredo. Vestidos com mantos escuros e com as cabeças cobertas por capuzes, cavalgamos por um tempo, até nos aproximarmos de uma área onde ruínas esquecidas de um antigo convento se confundiam com a vegetação alta. Amarramos nossos cavalos em uma árvore próxima e adentramos as ruínas cuidadosamente. Antes que eu me afastasse, Alazão bufou reprovadoramente para mim, quase como se entendesse minhas intenções, e rindo intimamente de semelhante suposição sobre meu fiel cavalo, eu afaguei sua crina levemente antes de acompanhar Pércia na entrada das ruínas.
Eu instruíra Pércia a ficar bem atrás de mim. Agora que sua pequena aventura se desmembrava diante de nós em pura realidade, ela parecia receosa, e seus passos eram incertos. Eu procurava sorrir-lhe encorajadoramente e continuamos avançando, até que um filete de fumaça branca tornou-se visível na área mais escondida por trás das paredes semi-destruídas do convento.
Mais alguns passos, e finalmente havíamos chegado ao acampamento dos ciganos.
Com um só olhar apreendi tudo. Havia três carroças espalhadas pela área próxima, todas coloridas e decoradas com motivos exóticos. Cercada por pedras em círculo, uma fogueira determinava o centro do acampamento, ao redor da qual alguns homens e mulheres se aglomeravam para repartir uma refeição que fumegava em um caldeirão pendurado sobre o fogo. Aqui e ali, algumas crianças de rostos sujos mas sorridentes corriam e brincavam. Mas seus sorrisos morreram e todos os olhos se voltaram em nossa direção assim que nos tornamos visíveis a eles.
Sem demonstrar nenhum temor, um senhor de idade vestido em uma túnica preta ornada com fios dourados se aproximou de nós. Senti minha irmã se esconder atrás de mim, e mentalmente soltei um muxoxo de escárnio. Ela desejara tanto aquilo e agora que estávamos ali, se comportava como uma ratinha assustada. Mas como esperar algo diferente dessa criatura abobalhada e sonhadora?
Não importava... O importante agora era me concentrar para que eu pudesse tirar o máximo de proveito possível de tudo aquilo. Por isso me dirigi respeitosamente ao velho que se postara diante de nós com expressão desconfiada mas sem nenhum medo na expressão. Certamente ele era o líder daquela pequena comunidade. Antes que eu pudesse falar qualquer coisa ele se adiantou, ríspido.
– O que vocês querem aqui? – definitivamente nada amistoso. Eu exibi meu melhor sorriso para lhe responder.
– Somos simples viajantes, digníssimo senhor, que ouvimos muito falar das impressionantes habilidades na arte de prever o futuro de um de vossos membros, e pedimos, se não for muito, que possa nos agraciar com uma simples consulta. – Eu mantive o sorriso largo enquanto avaliava sua expressão, que se fechou um pouco com o aumento da desconfiança que sentia de nós. Atrás de mim, Pércia soltou um suspiro nervoso e apertou meus ombros com as mãos trêmulas.
– E por que eu permitiria isso? – Ele perguntou com uma voz perigosamente baixa. Sem desviar o olhar de sua face e sem desfazer o sorriso, notei sua mão se dirigir ao cinturão onde pousou, significativamente, sobre um volume que se destacava sob a seda do tecido. Certamente um punhal afiadíssimo se escondia ali, pronto para ser usado ao menor passo suspeito da minha parte. Mas eu já previra algo assim, por isso em um leve movimento, ergui minha mão diante do rosto do velho, e dela se dependurou uma pequena bolsa de couro. Ao sacudi-la levemente, o tilintar de moedas se fez ouvir.
– Este é só um pequeno agrado adiantado por nos fazer tamanha gentileza. Tem muito mais de onde veio este. – Acrescentei, ao notar o súbito brilho nos olhos dele. Um começo de sorriso tomou seus lábios, revelando por instantes um dente brilhante de ouro, e sem falar nada ele apenas aceitou a bolsa de ouro, fazendo-a sumir rapidamente por dentro das vestes.
– Venham comigo. – Dando as costas a nós, o velho voltou-se para o acampamento e fez um sinal tranquilizador para os outros ciganos, que voltaram aos seus afazeres sem nos dirigir mais atenção. Eu peguei na mão de Pércia e a puxei para que saísse de sua paralisia.
– Vamos! Não é isso que tanto queria? Então mexa-se, meu docinho.
Em silêncio ela me obedeceu, mesmo que o medo ainda se mostrasse em seus olhos. Nós seguimos o velho até a entrada traseira de uma das carroças.
– Qual dos dois vai se consultar? A quantia que pagou só dá para uma pessoa. Se os dois quiserem, terão que pagar mais. – ele anunciou secamente.
– Meu gentil senhor, apenas minha irmãzinha aqui se consultará, mas devo acompanhá-la pois ela é muito medrosa e assustadinha... Sabe como são as adolescentes, hein? – Eu pisquei-lhe um olho querendo soar divertido, mas a expressão do homem não se alterou. Ele apenas indicou com um gesto de má vontade que embos entrássemos.
Assim que adentramos o interior da carroça, o cheiro forte de incenso me atingiu e eu tapei o rosto com uma mão, procurando conter meu entojo. Pércia nada parecia notar, enquanto seu olhar percorria as paredes da carroça, enfeitadas com todo tipo de adornos coloridos. Havia tapetes e mantas pendurados nas paredes e cobrindo o chão, um candelabro de vidro pendurado no teto e quadros com desenhos indecifráveis aqui e ali. Almofadas coloridas de seda se espalhavam pelo recinto. Sentada atrás de uma pequena mesa redonda de madeira, uma mulher morena de cabelos e olhos castanho-escuros nos aguardava. Um lenço vermelho envolvia sua cabeça terminando em um nó de um dos lados, e ela vestia uma blusa branca de babados e uma saia colorida com várias camadas sobrepostas de seda.
– Estamos na presença da famosa e talentosa Alejandra? – Perguntei com a voz suave, optando pela adulação que sempre costumava funcionar. A cigana nem me dignou com um olhar. Sua atenção era toda para Pércia, que ainda olhava atordoada para o interior da carroça.
– Sente-se aqui, minha jovem. – Ela indicou com voz gentil, e minha irmã finalmente olhou para a cigana. O medo parecia estar a abandonando aos poucos, e quando Alejandra se dirigiu a ela, Pércia sorriu timidamente e sentou-se em um banquinho de madeira em frente à cigana. – Vamos ver o que o futuro reserva para você.
Não havia outro lugar onde eu pudesse me sentar, então limitei-me a encostar-me de leve em uma das paredes da carroça, torcendo para que nenhuma doença ou mal que acompanhava a fama daquela gente pudesse passar para mim. E mesmo que isso acontecesse... Eu sabia que teria que valer toda a pena. Observei quando Pércia estendeu a mão direita para que a cigana a colhesse entre as suas. Fechando os olhos, a mulher morena inspirou profundamente enquanto perfazia as linhas da mão de minha irmã com os dedos. De repente, os dedos pararam de andar pela pele de Pércia, e a cigana abriu os olhos arregalados em minha direção.
Não soube dizer na hora o porque do arrepio que subiu por minha espinha quando o olhar da cigana pousou finalmente sobre mim. Algo irritado, eu indiquei com o olhar que centrasse sua atenção na minha irmã, como devia ser. Por que aquela mulher olhava para mim daquele jeito estranho, como se estivesse vendo o próprio diabo tomar vulto diante de seus olhos?
Como se ouvisse meu pensamento Alejandra voltou o olhar para Pércia, que como sempre nada notara. Seu medo evaporara e dera lugar à curiosidade. Ansiosa, ela aguardava pela previsão da cigana, que agora exibia uma expressão muito diferente no rosto. O olhar que Alejandra lançou à Pércia era o olhar que reservamos para o animal prestes a ser abatido em sacrifício. Um olhar penalizado, mas resignado, como se soubesse que ninguém pode interferir no destino que está guardado para nós.
– Minha criança... Pobre criança... – A voz da cigana agora era baixa e grave. – O seu destino não lhe trará coisas boas. Eu vejo... – Ela fechou novamente os olhos, com a mão de Pércia ainda entre as suas. – Eu vejo uma enorme desgraça em seu caminho, e essa desgraça está muito, muito próxima de você... – A cigana abriu os olhos e olhou brevemente para mim, e eu fechei minha expressão, desconfortável. Dessa vez ela desviou rápido o olhar de volta para Pércia, que parecia não absorver nenhuma das palavras da cigana.
– Você precisa ter cuidado, criança... Muito cuidado! O mal, ele espreita, é traiçoeiro e não tem misericórdia... O mal nunca dorme. Nunca! – Alejandra reforçou a última palavra elevando um pouco a voz, e como se não aguentasse mais a intensidade do próprio pressentimento, soltou bruscamente a mão de Pércia, que mesmo não entendendo a previsão da cigana, já tinha as faces banhadas de lágrimas de medo.
– Eu não entendo... Que mal é esse que você vê? Por favor... Não é possível, não pode haver nenhum mal em meu caminho. Tenho certeza que se enganou... Leia minha mão de novo, e verá que foi um engano! Por favor, Lady Alejandra, leia novamente... – Pércia entre lágrimas estendeu a mão novamente para a cigana, que não a aceitou. – Por favor... – Ela implorou, soluçando. – Eu vim aqui para saber sobre o amor da minha vida. Leia de novo... E me diga! Eu lhe suplico.
Ainda que eu adorasse ver minha irmã sofrer, eu sentia que precisava fazer o papel de irmão protetor, mesmo que minimamente, por isso me dirigi à cigana de forma autoritária.
– A milady irá me perdoar, mas não foi para isto que pagamos uma grande quantia. Viemos de muito longe para que minha irmãzinha se consulte com você sobre um assunto específico, e não vamos sair daqui sem que ela esteja satisfeita.
Após esse meu comando, surpreendentemente a cigana pareceu recuar e assumiu uma atitude mais subserviente. Naquele momento eu não sabia, mas hoje sei que ela pode ter vislumbrado algo ameaçador em meus olhos. Seja lá o que for que a fez mudar de idéia, ela aceitou a mão de Pércia entre as suas, o que fez minha irmã suspirar de alívio. Fechando os olhos, um sorriso ensaiou aparecer em seus lábios. Os dedos cobertos de anéis da cigana agora percorriam lentamente a mão de Pércia, que aguardava, sem parecer ao menos respirar.
– Sim... Sim, eu vejo... – Veio o sussurro de repente, e Pércia ofegou levemente de antecipação. – Eu vejo o amor da sua vida. Ele está aqui no seu Destino.
– Oh... E como ele é? Me diga, por favor...
– Ele é muito bonito. É um rapaz moreno, de olhos e cabelos castanhos, como você. É forte, viril... E de muita coragem. Quando você bater os olhos nele, saberá que ele é aquele que trará para sua vida a felicidade que você tanto deseja.
Pércia agora sorria em meio às lágrimas, as previsões horríveis que ouvira momentos antes já completamente esquecidas. Quanto a mim, eu estava mais concentrado agora em formular mentalmente a história que contaria aos meus pais sobre a fuga inconsequente de Pércia em busca da caravana dos ciganos e como eu, o irmão diligente e protetor, sempre atento às suas ações rebeldes, tivera que trazê-la de volta, à força, para impedi-la de se juntar a eles em suas viagens nômades sem destino.
Meu pai odiava o povo cigano. Aquele grupo estava clandestinamente instalado naquelas ruínas, e eu sabia que assim que soubesse que a imaculada princesa Pércia estivera na presença daquela gente, seu conceito sobre a filha perfeita cairia abismo abaixo. Estava distraído repassando a história da fuga de Pércia quando a mesma veio até mim, sorridente como nunca.
– Meu irmão, estou satisfeita. Agora sei que há um grande amor em meu destino. Estou muito feliz! – Pércia coroou essa declaração emocionada com um abraço, que fui obrigado a retribuir a contragosto. Quando olhei para Alejandra, ela me observava com o mesmo olhar amedrontado anterior. Ainda abraçado à minha irmã, eu simulei um sibilo de cobra com os lábios, chegando a por um pouco da língua para fora, e isso a fez dar um pequeno pulo assustado e desviar o olhar. Em seguida fechei os olhos sorrindo, e aumentei o aperto do abraço em minha querida irmã agradecida.
Quando estávamos prestes a sair pela porta da carroça, a voz da cigana chamou Pércia de volta.
– Fique atenta a uma borboleta. Eu vejo uma borboleta indicando a você quem é o seu verdadeiro amor. – Foi seu último conselho. Já louco para sair daquele lugar, eu empurrei minha irmã em direção à saída enquanto revirava os olhos.
– Tá, tá... Uma borboleta... Devo ter dançado valsa com a bruxa Malévola para ouvir uma coisa dessas... – Eu murmurei impaciente, provocando uma risada divertida em Pércia.
– Ai, meu irmão... Meu querido irmão, sou tão grata a você, sabia? – Ela fez que ia me abraçar de novo mas eu não deixei, pegando-a pelo braço delicadamente para apressá-la.
– Já sei, meu doce. Você pode continuar me agradecendo mais tarde, tá bom? Agora vamos sair logo daqui... – Eu já passara tempo demais entre aquela gente e mal via a hora de deixarmos aquele lugar. Passamos por entre os ciganos sentados em volta da fogueira, sem atrair nenhuma atenção, e estávamos prestes a pegar o atalho entre as ruínas para fora dali quando a mão de Pércia me impediu, me puxando de volta. Voltei-me, contendo minha impaciência a todo o custo, e olhei para onde o olhar dela fora atraído.
Enquanto eu tentava decifrar para o que exatamente estava olhando, Pércia soltou minha mão e saiu quase correndo em direção à carroça mais afastada dos ciganos. Eu balancei a cabeça e praguejei baixinho, me obrigando a ir atrás dela. A criatura ingênua confiava tanto na proteção do irmão mais velho que não se detia diante de nenhum impulso, por mais louco e perigoso que parecesse.
Me aproximei de Pércia por trás, finalmente distinguindo o que tanto atraíra sua atenção. Havia dois homens morenos, ambos sentados em pequenos bancos de madeira, um de costas para o outro. Um deles encontrava-se desnudo da cintura para cima, e em suas costas o outro homem fazia com todo o cuidado e delicadeza pequenos furos com uma vareta afiadíssima de madeira. De vez em quando, a vareta era mergulhada em um dos diversos potes de tinta próximos dele, e voltava a furar a pele repetidamente. Com isso, um desenho ia se completando nas costas largas que funcionavam como uma tela de pintura.
Eu sabia o que era aquilo, muito embora fosse a primeira vez que assistisse um processo de tatuagem. Parecia bem dolorido, mas o homem desnudo que servia de tela não demonstrava sentir nenhuma dor e permanecia imóvel, à mercê do desenhista concentradíssimo no trabalho que realizava. Observando a tudo aquilo, um terceiro homem também moreno e barbudo encontrava-se tranquilamente encostado na carruagem próxima.
Então fora aquilo que chamara tanto a atenção da minha irmã a ponto de fazê-la sair em disparada daquele jeito. Compreensível... Pelo menos para mim, que admirava as costas bem torneadas da tela de pintura humana à nossa frente. Observei que a criatura que se deixava tatuar já possuía várias outras tatuagens anteriores, nos braços, nos ombros... Difícil era encontrar algum pedaço de pele que não estivesse já coberta por desenhos. Eu não demorei a perceber que os atributos físicos e à mostra do homem tatuado não fora o motivo principal de Pércia ter se aproximado deles.
O desenho que o tatuador perfazia nas costas do outro com tanta habilidade, era uma grande e colorida borboleta.
– Está ficando lindo... – Pércia comentou com a voz enlevada, e ao ouvir a voz feminina atrás de si, o tatuador parou com o que estava fazendo, e depositando a vareta em um recipiente, voltou-se para encontrar minha irmã parada bem atrás dele, sorrindo.
O artista nômade que agora olhava para a minha irmã como quem olha para uma aparição divina, eu tinha que admitir, tinha lá a sua beleza. Sim, era uma beleza exótica e diferente, mas inegável. Era só olhar para os olhos castanhos penetrantes e a face máscula com traços fortes para reconhecer que devia ser a primeira vez que minha irmã caçula realmente olhava para um homem bonito de verdade... Bom, sem contar eu, é claro. O fato é que o tatuador parecia tão encantado com Pércia quanto esta por ele. Os dois sorriam bobamente um para o outro.
– Você é um artista muito talentoso. – Ela elogiou, aumentando o sorriso. – Essa é a coisa mais linda que já vi na minha vida... – Ela voltou o olhar para as costas do outro homem onde o desenho semi-pronto aguardava sua conclusão.
– Muito obrigado. – O homem levantou-se do banquinho e postou-se em frente à ela, em atitude reverenciosa. – Eu também estou olhando para a coisa mais linda que já vi na minha vida. – Ele devolveu o elogio e em um gesto rápido colheu a mão de Pércia nas suas, abaixando-se para pousar os lábios no dorso de sua mão. Pércia ruborizou-se e riu levemente, tapando a boca com a mão livre. O homem então, ergueu o olhar penetrante para ela.
– Qual é a sua graça?
– Pércia. – Ela conseguiu responder, ainda sorrindo envergonhada, mas ganhando um pouco de ousadia, emendou: — E a sua?
A minha ânsia anterior por me afastar daquele acampamento diminuiu drasticamente, enquanto eu percebia o olhar de fascínio que o tatuador cigano lançava à minha irmãzinha, que parecia igualmente fascinada por ele. Definitivamente, valia a pena esperar um pouco mais, pois meu instinto me gritava que muito melhor que uma escapadinha para correr atrás de uma caravana cigana... Uma oportunidade ainda mais valiosa espreitava, prestes a cair como um presente dos céus bem no meu colo. Eu tive certeza disso antes mesmo que o tatuador, ainda com a mão de minha irmã entre as suas, respondesse sua pergunta.
– Todos me chamam de Ninho.”
(continua...)
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