Carneirinho e as Cento e Uma Noites

13 Tudo por um Cachinho – Parte VI


Notas iniciais
“Sofreste em excesso por tua ignorância, carregaste teus trapos para um lado e para outro, agora fica aqui. Na verdade, somos uma só alma, tu e eu. Nos mostramos e nos escondemos tu em mim, eu em ti. Eis aqui o sentido profundo de minha relação contigo, Porque não existe, entre tu e eu, nem eu, nem tu.” (Rumi)

Fahir lançou mais um olhar para as portas entalhadas de madeira da imponente Igreja à sua frente. Desde que ali chegara montado em seu fiel Alazão, toda a determinação que conseguira reunir pelo longo caminho antes de finalmente retornar ao Castelo de Nahan desaparecera, deixando no lugar apenas um misto de insegurança e dúvida. Sim, principalmente, muitas dúvidas... E a principal delas era qual opção escolher: dar meia volta com seu cavalo e retornar por onde viera... Ou adentrar de uma vez por todas aquela igreja e interromper o que se passava em seu interior.

A notícia do casamento do Cacheadinho já se espalhara por todas as Terras Médias de San Magno. Quando ela chegara até Fahir, isso quase o demoveu de sua decisão de retornar. Uma decisão que levara muito tempo para tomar, às custas de uma dose de coragem maior do que a que estava acostumado a usar ao enfrentar as criaturas apavorantes que sempre cruzaram seu caminho. E agora os portões fechados daquela igreja haviam se tornado mais uma criatura temerosa, que ele precisava enfrentar, naquela que se transformara na maior batalha da sua vida de Cavaleiro.

Enquanto ele se perdia em pensamentos conflituosos, Alazão bufou, sacudindo a cabeça em franca desaprovação à sua inércia. Fahir sorriu dentro do elmo. Até seu cavalo sabia melhor do que ele nesse momento. Mas o que podia fazer? Tantos meses se passaram, mas para o cavaleiro negro, o assunto “Cacheadinho” ainda possuía o poder de desmontar suas emoções todas, até aquelas que julgara há muito adormecidas, reduzindo-o a uma criatura trêmula, muda e indecisa, adjetivos que ele jamais associaria com sua própria pessoa, no passado.

– Alazão... – Fahir deu um tapinha carinhoso no pescoço do cavalo e recordou-se vagamente de um outro momento onde se encontrara em situação semelhante a de agora: Montado em seu cavalo, com uma séria decisão à sua frente para levar a efeito. Mais uma vez, um ato que traria consequências as quais ele ainda não tinha certeza de serem as melhores para a vida do jovem príncipe loiro.

– Não sei o que faço, meu amigo... Será que tenho o direito de fazer isso? – Fahir murmurou mais para si mesmo, com o olhar fixo nas portas de madeira fechadas. – Posso estar fazendo uma grande besteira... Na verdade acho que já fiz, só pelo fato de ter voltado... – Uma súbita ansiedade o dominou enquanto sua face se crispava de culpa dentro do elmo negro. – E eu havia jurado pra mim mesmo não voltar. Além disso, já se passou tanto tempo, como ele se sentirá com a minha volta? É o casamento dele... Quem sabe já não está seguindo em frente com sua vida? Pelos cem dotes de Guinevere... O que eu estou fazendo afinal?

Fahir se consumia em dúvidas sem conseguir se decidir, quando foi surpreendido com Alazão que em um movimento repentino deu um pinote, se erguendo nos cascos traseiros, e desferiu com os dianteiros um poderoso coice contra as portas de madeira, que se abriram com um enorme estrondo que repercutiu por todo o amplo salão da Igreja.

Parado ainda montado em seu cavalo diante dos portões escancarados, Fahir foi recepcionado inicialmente por vários sons de surpresa dos súditos, e logo após por um silêncio sepulcral e uma infinidade de rostos espantados, bocas abertas e olhos arregalados. Não teve muito tempo de reparar nas expressões de assombro que passeavam nos rostos dos fiéis que se aglomeravam pelos bancos de madeira, antes que seu olhar fosse atraído para o final do tapete vermelho de veludo que se estendia desde a entrada até o altar sagrado. O cavaleiro era agora o alvo da atenção de centenas de olhares, mas entre eles, somente um rosto, somente um olhar se destacava de todos os demais. Um par de olhos verdes nos quais, mesmo ainda à distância, já era-lhe possível entrever o brilho nascente de lágrimas.

No final daquele caminho vermelho, o Cacheadinho sorria, e depois de tanto tempo de ausência, depois do longo período de saudade reprimida dentro de si, ver de longe aquele sorriso foi a dose extra de coragem de que precisava. Em silêncio, agradeceu mentalmente ao Alazão por ter tomado a decisão em seu lugar. Mas agora, cabia a ele todo o resto.

– Cacheadinho...- Foi o sussurro que escapou de seus lábios onde já se formara um sorriso. Ainda sentindo todos os olhares sobre si, com um leve toque do calcanhar no dorso de Alazão, Fahir respirou fundo e começou a entrar na Igreja, galopando calmamente pelo tapete vermelho.

* * * * * *

– Se alguém aqui presente se opõe a esse matrimônio, que fale agora ou se cale para sempre!

A pergunta formulada pelo Padre pela segunda vez naquela cerimônia teve ainda mais peso dentro do peito de Nahan, fazendo-o apertar a mão de Patty com força, enquanto sua mão livre se dirigia ao próprio peito como se com isso pudesse acalmar o coração agora espremido pela intensidade do momento decisivo. Prometera a si mesmo não chorar mais, mas essa parecia ser a promessa mais difícil de ser cumprida. O máximo que conseguia fazer era engolir o choro pela garganta embargada e só isso já lhe custava muito.

“Adeus, Fahir...” Nahan despediu-se em pensamento. Passara os últimos meses em uma constante despedida de Fahir, mas agora era oficial. Aquela seria a última vez, e era tão difícil quanto a primeira... Só faltava alguém avisar isso ao seu coração, que mesmo agora, enquanto ele e Patty aguardavam o pronunciamento definitivo do Padre de que estavam casados, recusava-se a aceitar essa realidade e a abandonar um último resquício de esperança de que...

Nahan foi interrompido em suas divagações pelo forte barulho que ecoou atrás de si, e num pulo assustado ele se voltou. Antes mesmo que sua mente pudesse apreender todo o sentido do que via, seu coração já abandonara o torpor de tristeza característico dos últimos meses e iniciara o processo de querer subir pela sua garganta e explodir em incontáveis borboletas através de sua boca.

– Fahir... – Um fraco murmúrio escapou-lhe pela garganta travada pela emoção. Um franco sorriso de alegria por entre lágrimas nascentes já tomava seus lábios.

– Ele voltou, Nanzinho... – Ao seu lado, Patty também sorria. Nahan nem conseguiu olhar para a noiva, mas sabia que devia estar feliz... Claro, não tão feliz quanto ele. Não poderia haver ninguém naquela Igreja mais feliz do que o príncipe loiro naquele momento, ao avistar o cavaleiro negro há tanto tempo longe de sua vida, adentrando a Igreja, ainda montado em seu cavalo, em um galope lento mas decidido. O olhar de Nahan estava capturado pela figura de negro que avançava pelo tapete vermelho. Sem desviar o olhar dele, nem ousava piscar, como se fazê-lo pudesse transformá-lo de volta em uma ilusão de seu coração apaixonado e ele pudesse simplesmente desaparecer diante de seus olhos.

Enquanto o imponente cavaleiro negro passava, era seguido pelos olhares de todos. O silêncio quase espectral que se formara só era quebrado por murmúrios e comentários sussurrados entre os súditos.

– É ele?

– Ele voltou...

– É ele mesmo?

– Nossa...

As exclamações foram aumentando à medida que Fahir avançava pelo tapete vermelho. A expectativa no ar era quase palpável. Fahir nunca sentira o peso de tantos olhares sobre si antes, mas manteve a pose altiva e seu olhar fixo no único motivo de seu retorno: a figura de cachos loiros, sorridente e visivelmente emocionada que permanecia imóvel no final daquele caminho vermelho.

– Alto lá, cavaleiro! – Foi a ordem do Padre que fez Fahir estancar com Alazão, em reverencioso respeito à figura mais sagrada daquela igreja. – Quem é você que ousa interromper essa cerimônia Sagrada e Real?

O silêncio pesou por toda a igreja por alguns momentos. Antes de digná-los com uma resposta apropriada, Fahir levou as mãos ao elmo e retirou-o da cabeça, lenta e cerimoniosamente, em seguida balançou a cabeça fazendo com que os cabelos negros se sacudissem levemente. Nahan não conseguiu conter um suspiro emocionado ao ter novamente diante dos olhos o rosto daquele que habitara os seus sonhos toda santa noite desde que partira. Era impossível não ser arrebatado pela emoção ao ver mais uma vez centrados nele, o par de olhos negros mais brilhantes que as estrelas que costumava admirar do balcão de seu quarto, nas noites mais tristes quando a saudade lhe apertava demais o coração para deixá-lo dormir... E destinado também a ele era o sorriso que ornava o rosto moreno e altivo, enquanto uma mão teimosamente tentava pôr as mechas negras de cabelo no lugar. O sorriso de Nahan aumentou junto com as batidas aceleradas de seu coração.

– Nanzinho... Ele é mais bonito do que me lembrava, hein? – Foi o comentário sussurrado de Patty, que o acotovelou carinhosamente em tom de cumplicidade.

“O cavaleiro mais lindo que existe... “ pensou Nahan em resposta, que não tinha certeza de conseguir transformar em palavras naquele momento.

Após terminar de ajeitar o cabelo satisfatoriamente, Fahir entreabriu os lábios para responder a pergunta do Padre, mas não teve tempo de fazê-lo antes que uma figura armada de um alaúde pulasse do meio dos demais fiéis e se interpusesse entre ele e o altar. Logo a voz do trovador soou em versos cantados que encheram o ar juntamente com o som do instrumento que dedilhava acompanhando.


Vejam só quem agora retornou
O lendário e salvador cavaleiro!
Pergunte a ele, a ela, a qualquer um
Não há quem não o conheça no reino inteiro!


Pois ele derrotou mil criaturas e monstros
Sua fama o segue e de honras é coberto!
A mais terrível foi a Lacraia venenosa
Sob sua astúcia a besta pereceu decerto!


Nossas boas vindas a este cavaleiro
Que no Reino de Krone jamais será esquecido!
Mil canções de vitória serão entoadas,
Pois seu nome é Fahir o Magnífico!


Repitam seu nome até o fim dos tempos...
Fahir o Magnífico, Fahir o Magní...

– Criatura, criatura, CRIATURA! – Fahir conseguiu com bastante esforço vencer o próprio choque e cortar a voz cheia de entusiasmo do trovador, que subitamente parou de cantar e olhou para o cavaleiro com expressão receosa.

– Criatura cantante... Você está roubando o meu momento! – Ele reclamou, passando o dedo mindinho nervosamente em uma das sobrancelhas.

O trovador pareceu murchar de tamanho enquanto em um silêncio constrangido recuava para dentro da multidão, desaparecendo de vista antes que o cavaleiro pudesse adverti-lo de novo. Fahir suspirou, balançando a cabeça. Foi quando reparou no olhar carrancudo do Padre que continuava aguardando uma satisfação para a interrupção.

– Agora sim, Padre... Meu nome é...

– Fahir! – A voz de Nahan soou surpreendendo a todos, até mesmo Patty, que virou-se para encarar o príncipe loiro com um sorriso divertido. – O nome dele é Fahir, Padre... E ele é o cavaleiro que roubou meu coração! – O loiro completou, resoluto, com um olhar amoroso para o cavaleiro.

Alguns sons de comoção se elevaram no ar com a declaração do príncipe.

– Ah... é... Pois é, tá bom... Digamos que também sou conhecido assim... – Fahir sentiu um calor estranho subindo de dentro da armadura pelo pescoço acima. Talvez fosse constrangimento... Ou talvez fosse apenas puro contentamento de ter novamente sobre si aquele olhar recheado de adoração. Só agora se dera conta do quanto sentira falta daquele par de olhos verdes mais brilhantes que as mais belas esmeraldas.

– Cacheadinho... Eu devo ter picado salsinha na távola redonda para não conseguir nem me apresentar devidamente... Mas tudo bem, você pode. – Piscou um olho na direção do príncipe e foi recompensado com a risada de Nahan, que enviou uma sensação gostosa e quente ao seu estômago.

– Seja lá quem seja você, cavaleiro... – O Padre continuava contrariado — Não pode ir entrando aqui na Igreja assim, montado a cavalo ainda por cima, e interromper uma cerimônia tão importante quanto essa!

– Ah, perdôe-me Padre, mas posso sim! Aliás, posso não... Devo! Ainda bem que eu cheguei a tempo de impedir uma calamidade dessas!

– Mas de que calamidade está falando?

– Esse casamento, oras! É uma agressão ao bom gosto. Dois noivos de branco? Não dá! Isso sim é o Apocalipse dos Apocalipses!

Nahan e Patty não puderam evitar uma olhada um no outro, nem as risadas que se seguiram, ao constatarem que o cavaleiro não poderia ter mais razão em sua observação.

– Digníssimo Cavaleiro, a cor da roupa dos noivos não é motivo para interromper um casamento. Agora, se nos der licença... – o Padre fez um gesto displicente indicando-lhe que se retirasse para que conseguisse, afinal, concluir a cerimônia.

– Tem toda razão, Padre. – Novamente Nahan se pronunciou. – Esse não é um motivo válido para impedir esse casamento. – O príncipe agora olhava para Fahir com uma expressão muito séria no rosto.

A Igreja foi tomada pelo mais absoluto silêncio diante das palavras de Nahan. Uma sombra de insegurança ameaçou o semblante de Fahir. Talvez ele tivesse mesmo cometido um erro terrível em ter voltado. De repente a aparente insensatez do que estava fazendo atingiu-o, mas antes que mais pensamentos sombrios pudessem lhe assaltar, Nahan continuou a falar.

– Mas quando um dos noivos vai casar amando desesperadamente outra pessoa... Isso sim é motivo suficiente para impedir esse casamento. – Ele complementou, um novo sorriso tímido se formando nos lábios rosados. Um leve rubor subiu-lhe pelas faces, mas o tom de voz era firme.

– Cacheadinho... – Fahir sorriu de volta, sem conseguir disfarçar o alívio que sentia. Ele desmontou do cavalo e deu alguns passos incertos pelo tapete vermelho em direção ao altar.

Nahan só notou que se encontrava paralisado no lugar quando o toque gentil de Patty em seu braço o despertou. O loiro virou-se para aquela que acabara de ser transferida do lugar de quase esposa de volta para o de melhor amiga. Antes que a culpa lhe pesasse, a mão de Patty na sua e um sorriso sincero da morena o tranquilizou.

– O que está esperando, Nanzinho? Vai logo pro seu cavaleiro lindão... – Patty desferiu-lhe um beijo na bochecha, em seguida deu-lhe um leve empurrão de incentivo. – Vai ser feliz, meu amor.

A emoção do príncipe loiro era tanta que ele apenas sorriu para Patty, em mudo agradecimento, e já ia descer do altar quando, lembrando-se de algo, voltou a subi-lo, enquanto retirava da mão esquerda a aliança de ouro e pegando na mão da morena, depositou-o nela gentilmente, com um sorriso agradecido. Patty apenas assentiu, sorridente.

Nahan desceu do altar e lançou um olhar apreensivo para a primeira fileira de bancos de madeira, onde sua última preocupação foi dissipada com o sorriso radiante de Adriana.

– Vai sim, seu Nahan! – As palavras de incentivo da babá de seu filho foram confirmadas pelos pequenos pinotes de alegria que Fabrício dava em seu colo. – Olha, o “minino” até parou de chorar!

Ele não pôde deixar de reparar nos pequenos dentinhos já visíveis no sorriso que seu bebê também exibia no rostinho rosado. Os bracinhos rechonchudos se agitaram como se em sua sabedoria infantil, também ele quisesse expressar sua ampla aprovação ao retorno do cavaleiro negro.

Mais tranquilo, Nahan virou-se na direção de Fahir, andando em passos lentos mas decididos pelo tapete de veludo vermelho. Para o príncipe, toda a situação carregava a atmosfera etérea de um sonho, do qual ele desejava nunca acordar. Quantas vezes havia fantasiado com um momento exatamente assim? Seu amado Fahir, de volta, com sua armadura reluzente, seus olhos negros profundos que conseguiam penetrar sua alma, e o sorriso largo e confiante que continha o poder de dissipar toda e qualquer tristeza dentro dele. Principalmente aquela que a ausência do cavaleiro provocara.

Contrariando todas as probabilidades, ele voltara... Para Nahan, nada mais importava. À medida que se aproximava mais do cavaleiro que vinha ao seu encontro, mais acelerava-se seu coração no peito, e mais bambas ficavam suas pernas... Mas os passos do príncipe eram seguros. A cada passo dado, Fahir tornava-se mais real diante dele, como se o sonho há tanto acalentado estivesse se vestindo de realidade bem diante de seus olhos banhados de lágrimas.

A mesma fascinação que prendia os olhares de ambos como uma linha de tear invisível também capturara Fahir, que andava sem pressa para seu Cacheadinho... Mas espere aí, “seu”? Como sua mente se atrevia a designar a criatura que vinha ao seu encontro como sua? Talvez porque seu lado racional nada tivesse a ver com isso. Ao olhar para a criatura cacheada cada vez mais próxima, seu peito apertou-se poderosamente, e Fahir sabia exatamente o que se reduzia dentro dele a cada passo no tapete vermelho. Sua incrível e desmedida saudade...

Saudade daquele rosto rosado, coroado pelos cachos loiros mais adoráveis. Saudade das íris esverdeadas sempre brilhantes com alguma emoção sincera. O sorriso que continha o poder de desarmá-lo por dentro como jamais imaginara possível. Diante do príncipe loiro, Fahir se transformava no mais vulnerável dos cavaleiros de que se poderia ter notícia, prestes a ser vencido por um sorriso ou uma lágrima, ou pelos dois. Para Fahir, isso também não importava mais.

Assim como nos sonhos, o tempo perdera toda a importância. Talvez um século houvesse se passado, ou apenas alguns segundos, até que eles finalmente parassem de andar, um diante do outro, ainda se encarando, ainda sem que as palavras ousassem se interpor entre os dois para ameaçar a mútua contemplação de que ambos se tornaram cativos.

Nunca existira na história da Igreja da Imaculada, Salva e Branca Ovelha do Reino de Krone uma cerimônia onde ela estivesse tão lotada de fiéis como agora, e ainda assim, ninguém ousava quebrar o silêncio que se transformara em uma entidade viva e imaculada por todo o salão.

Alheios a tudo e a todos, Fahir e Nahan se olharam nos olhos, sérios e solenes. O peso da emoção do reencontro roubara-lhes a voz e embargara-lhes a garganta. Nenhum dos dois parecia saber direito o que fazer, até que Nahan rompeu a própria inércia e estendendo os braços na direção do cavaleiro, investiu em sua direção para um abraço apertado e algo desesperado. O tempo pareceu se esticar para trás, quando Fahir prontamente o acolheu nos braços, retribuindo o abraço com a mesma intensidade, enquanto pensava no quanto sentira falta do abraço caloroso e tão característico daquela criatura cacheada. Um abraço que continha o poder de fazer o mundo em volta desaparecer...

Fahir fechou os olhos sem sentir, permitindo-se refastelar um pouco mais naquela sensação tão agradável, até que o sussurro emocionado de Nahan junto ao seu ouvido o despertou de volta à realidade.

– Fahir... Você voltou... – Mesmo abraçados, Nahan parecia ainda não acreditar nisso e o segurava fortemente junto a si. Essa constatação murmurada com tanta emoção pelo príncipe loiro foi a deixa para que Fahir se obrigasse a gentilmente separar um pouco o abraço, sem desfazê-lo por completo, de forma que pudessem se encarar. As lágrimas que já banhavam as íris verdes à sua frente quase o fizeram estremecer na decisão que há tanto trabalhara dentro de si e que o levara até ali... Em seus caminhos conturbados, Fahir já enfrentara incontáveis criaturas sombrias, mas ao olhar para a expressão de pura adoração no rosto do Cacheadinho, ele sabia que a batalha mais difícil de todas estava por vir.

– Cacheadinho... Eu... – Ele pigarreou, tentando ignorar o próprio coração que batia surda e loucamente em seu peito. — Eu tive que voltar. Voltei por dois motivos.

Nahan apenas assentiu em muda expectativa, talvez não confiando na própria voz.

– O primeiro deles... É... – Fahir levou uma mão por dentro da armadura na altura do pescoço e de lá trouxe à vista um cordão dourado com um objeto oval pendurado na ponta. A expressão de Nahan se iluminou de alegria ao reconhecer o relicário de ouro com o qual presenteara Fahir logo antes de sua luta com a terrível Lacraia. Retirando do próprio pescoço o cordão, o cavaleiro negro trouxe uma das mãos de Nahan, abrindo-a de palma pra cima, e nela depositou gentilmente o pendente, em seguida fechando-a em volta da jóia com sua mão sobre a do príncipe.

– O cachinho do meu bebê... – Nahan murmurou com um sorriso enlevado, enquanto uma lágrima escorria, pioneira, pelo rosto do príncipe.

– Eu precisava muito lhe devolver isso, Cacheadinho. – Seu sorriso estava no meio do caminho entre a ternura e a tristeza, e isso não passou despercebido a Nahan, mas a alegria de ter Fahir de volta sublimou isso, por ora.

– Fahir... Eu nunca o quis de volta. Mas se ele fez com que você voltasse... Estou feliz. – O loiro declarou, cobrindo a mão de Fahir que ainda envolvia a sua em um aperto seguro e firme. – Mas você disse... Dois motivos?

Fahir fez que sim em silêncio, enquanto lutava contra uma súbita compulsão que não o deixava desviar o olhar dos lábios entreabertos e já perigosamente próximos de Nahan. Um arrepio percorreu sua espinha e um suspiro instruso escapou-lhe quando o príncipe loiro umedeceu os lábios com a língua, e o velho sino de perigo iminente badalou mais forte do que nunca em seu íntimo, ao notar que o olhar de Nahan não abandonava os seus lábios também.

– Sim? – Nahan assentiu levemente para encorajá-lo. – Diga, Fahir...

– E-Eu... Eu... – Fahir ainda tentou balbuciar debilmente, sem conseguir evitar que os rostos se aproximassem cada vez mais, de forma que os hálitos já se misturavam, unindo ambos em uma mesma atração irresistível que só seria resolvida quando os lábios se juntassem em um ardente e apaixonado primeiro beijo...


Fahir o Magnífico está de volta
O motivo mais nobre o fez regressar!
Fazer feliz o coração do príncipe
E com ele se unir no sagrado altar!

Que cantem os anjos e os querubins
Para festejar tão singelo momento!
Que a felicidade sem fim venha brindar
Fahir e Nahan, em seu casam...

– CRIATURA!!! – Novamente Fahir era obrigado a vencer a estupefação que lhe assaltara diante da nova intromissão da criatura cantante com seu alaúde. – Mas será que eu roubei o último salmão do urso da montanha para merecer ser interrompido assim... DE NOVO?

A pergunta indignada de Fahir não encontrou resposta, principalmente por parte do trovador que já tratara de desaparecer de vista mais rápido do que surgira com seus acordes. O susto pela interrupção fizera Fahir e Nahan se afastarem num pulo, como se enfim acordassem para a realidade em volta deles. Uma realidade que consistia em uma Igreja lotada de fiéis ansiosos por verem o desenrolar da interrupção de casamento mais emocionante de toda a história do Reino de Krone. Bom, talvez a única dessa história, na verdade.

Fahir suspirou, nervoso, e olhou para Nahan, que sorria timidamente, as faces ainda ruborizadas pelo que quase acontecera. O cavaleiro sorriu-lhe de volta, ainda se refazendo da quebra do momento, mas o sorriso começou a morrer em seus lábios quando seu olhar foi atraído para a figura do Padre no altar. Estranhamente, ele não mais parecia contrariado por tantas interrupções, pelo contrário. Pela primeira vez naquela cerimônia, um sorriso tomava os lábios do idoso sacerdote. Fahir lançou um olhar pelas pessoas aglutinadas em volta deles, e o que viu quase roubou seu ar. Todos sorriam. Expressões comovidas imperavam. Algumas senhoras enxugavam lágrimas dos olhos. Outras suspiravam sonhadoramente. Um fidalgo no meio dos fiéis tomou coragem e começou a entoar uma torcida.

– Fahir e Nahan! Fahir e Nahan! Fahir e Nahan! – Um bater de palmas se uniu à voz em ritmo encorajador. Essa torcida não demorou muito a ser seguida por mais e mais vozes no salão, até se transformar em um coro unânime e potente.

Se aquilo já era demais para apreender, o verdadeiro começo de pânico se instaurou dentro de Fahir quando ao olhar novamente para o Padre, este fez um gesto chamativo com a mão, indicando que ele e Nahan se aproximassem do altar. A quase esposa de Nahan, Patty, há muito dele descera, deixando-o completamente livre para que a cerimônia pudesse ser... Retomada?

Ao voltar o olhar para Nahan, a palavra “sim” poderia facilmente estar pintada em sua testa, tão feliz era a expressão no rosto do Cacheadinho. Com um sorriso que ia de orelha a orelha, as mãos entrelaçadas junto ao peito, sua face quase chegava a brilhar de contentamento.

Fahir descobriu-se repentinamente sem voz. Talvez fosse a ansiedade pulsando em seu peito. Talvez fosse o pavor pelo risco de mais uma vez ser o responsável por nova mágoa nos olhos verdes que o fitavam com tanta felicidade. Não que ele não desejasse aquilo tanto quanto o dono sorridente de cachos loiros a sua frente... Mas simplesmente não podia colocar a carruagem na frente dos cavalos. Havia um último obstáculo que precisava ser superado antes de sequer pensar em qualquer outra coisa.

E em volta deles, tomando todo o salão da igreja, o coro dos súditos se elevava no ar, cada vez mais alto. Fahir olhou de novo para o Padre sorridente no altar, depois para a multidão entusiasmada. E finalmente, para o Cacheadinho, que mantinha o sorriso e o brilho nos olhos, inabaláveis. O único porto seguro para sua sanidade naquele momento caótico.

Só havia uma saída para o cavaleiro, e vencendo a própria confusão, Fahir recolheu do tapete o elmo negro e o colocou, em seguida simplesmente deu as costas a Nahan e ao altar, e num gesto rápido montou de volta no Alazão. O sorriso do príncipe já ensaiava murchar quando Fahir estendeu-lhe a mão. Seu rosto agora estava oculto, mas seus olhos eram visíveis pelas frestas do elmo, e neles não havia mais confusão, pânico ou ansiedade... Mas sim uma nova determinação que acalmou o coração de Nahan.

– Cacheadinho... Você confia em mim?

Nahan olhou para a mão estendida em sua direção. Aquilo lhe trazia as melhores lembranças. O príncipe ergueu o olhar para Fahir. Ainda que seu olhar de pura adoração e confiança dissesse tudo, ele respondeu mesmo assim.

– Confio, com toda minha alma e meu coração.

– Então vem comigo!

– Eu vou para onde você for, Fahir. – Nahan declarou, antes que sua mão se unisse à de Fahir, aceitando sua ajuda para subir na garupa do Alazão. Logo um par de braços saudosos envolveram a cintura do cavaleiro negro, enquanto Nahan deitava uma das faces em suas costas com um suspiro satisfeito.

O coro de vozes antes entoadas pelos súditos morreu rapidamente, deixando no lugar apenas confusão e espanto quando todos assistiram entre murmúrios e exclamações, o cavaleiro negro e o quase Rei de Krone galoparem para fora da Igreja e desaparecerem da vista de todos.

No Altar Sagrado da Igreja, a decepção voltara à expressão do Padre. Ele viera de tão longe especialmente para celebrar aquela cerimônia tão importante, e se sentira tão honrado pelo convite e pela chance de celebrar aquele casamento... E agora o que lhe restara? Um altar vazio e uma multidão de fiéis tristes e desapontados.

– Isso é uma pena... Vim aqui e não vou conseguir casar ninguém hoje... — Ele murmurou de cabeça baixa, e já ia chamar o coroinha para se recolherem à sacristia quando uma voz se elevou da multidão chamando sua atenção.

– Não diga isso tão cedo assim, Padre...

O Padre se voltou para olhar o dono da voz cheia de convicção que se aproximava do altar. Pela armadura que trajava, tratava-se de um dos membros da Guarda Real, um rapaz moreno de barba e cabelos negros. O rapaz aproximou-se e parou diante do Altar e do Padre em atitude respeitosa. Sentada ao lado de Adriana e Fabrício, Patty encontrava-se atônita sem acreditar. Tudo bem que já houvera alguns flertes sem maior importância entre ela e aquele rapaz... Mas esse interesse nunca pudera ir em frente devido ao seu comprometimento com Nahan. Mas agora...

O cavaleiro parado diante do altar olhou para Patty, e sorriu-lhe, e a jovem não conseguiu fazer nada além de sorrir de volta, ante a perspectiva que já crescia em seu íntimo com a repentina atitude do rapaz.

– Quem é você, cavaleiro? – perguntou o Padre, sem ainda atinar o que acontecia.

O rapaz moreno desviou o olhar de Patty para o Padre. Mantendo o sorriso no rosto, ele respondeu com uma reverência.

– Meu nome é Michel.

(continua...)

* * * * * *

Notas finais
Para as pessoas que estavam acompanhando essa história, peço muitas desculpas pela demora e agradeço de coração a compreensão de quem não desistiu de esperar. Espero que gostem do capítulo. Quero dedicar esse capítulo em especial à Rafaela Ribeiro. Rafinha, muito obrigada pelo apoio e pela linda recomendação. Só posso lhe agradecer e torcer para que goste do retorno do Fahir e do Cacheadinho. O Sultão e o Carneirinho voltarão no próximo capítulo, prometo. Bjs, querida.