Carneirinho e as Cento e Uma Noites
12 Tudo por um Cachinho – Parte V
Notas iniciais
Quando os portões do castelo começaram a se abrir, uma brisa fresca da manhã se adiantou por eles, penetrando pelas frestas do elmo de Fahir e tocando sua pele suavemente. O cavaleiro fechou os olhos por um momento e respirou fundo, a relutância em cruzar os portões batendo fundo em seu íntimo. Abaixo dele, um impaciente Alazão bufou e sacudiu a cabeça, balançando a farta crina. Fahir acariciou o pescoço do cavalo pensativamente, o olhar ainda perdido no caminho que se abria além dos portões agora escancarados. Um pouco à frente, a ponte de madeira unida com grossas cordas trançadas parecia aguardar sua travessia e era tudo que existia entre ele e o rumo de sua vida que urgia por ser retomado.
De nada adiantaria prolongar aquele momento mais do que já o fizera, quando decidira adiar sua partida para o dia seguinte. Fahir acumulava em sua trajetória mais façanhas que qualquer outro cavaleiro que houvesse pisado nas Terras Médias de San Magno... Mas nenhuma fora mais dura e exigira mais coragem do que o simples ato de se levantar daquele divã e sair pela porta daquele quarto, na noite anterior. Nem sabia como conseguira, mas sabia que o som do choro sentido de Nahan atrás da porta fechada o acompanharia para sempre. Por mais doloroso que aquele momento houvesse sido para o cavaleiro, se havia uma única coisa que podia se orgulhar de ter certeza, era que estava fazendo a coisa certa. A coisa certa para ele... A doce criatura cacheada e encantadora que o Destino, o mórbido brincalhão de sempre, se encarregara de colocar em seu caminho.
Fahir deixou escapar um novo suspiro e abriu os olhos. Alazão voltou a bufar, como que para lembrar-lhe que seu ímpeto natural de cavalgar estava sendo reprimido sem motivo aparente.
– Eu sei, eu sei, meu bravo Alazão... chegou a hora. Vamos.
Sem que precisasse dar-lhe o comando, o cavalo começou a galopar na direção da ponte. Ereto na montaria, olhar fixo à frente, Fahir tentou conter o impulso quase incontrolável de olhar para trás, e a princípio até teve êxito. Quando já chegava quase ao meio da ponte, uma estranheza inexplicável lhe apertou o peito, fazendo-o estancar. Por alguns segundos, ele permaneceu perfeitamente imóvel. Até mesmo Alazão parecia compreender sua necessidade de uns momentos a mais e não protestou.
Usando de toda a sua resistência, Fahir conseguiu não olhar para trás, e após essa breve pausa para que seu coração voltasse a se comportar de maneira normal, ele retomou a cavalgada pela ponte. No final dela, uma floresta frondosa aguardava para engoli-lo. Subitamente uma carga de lembranças ingratas o assaltou, e contra elas, nada conseguiu fazer para impedir que o rosto de olhos de íris esverdeadas perfeitas e cachos loiros adoráveis o assombrasse poderosamente.
Enquanto Alazão seguia resoluto se aproximando do final da ponte, Fahir relembrou tudo que acontecera, desde aquele primeiro encontro na ponte quase suicida até a noite anterior, quando não sentira-se digno o suficiente para aceitar o coração que lhe fora oferecido de forma tão incondicional. Um soluço traiçoeiro travou-se em sua garganta, fazendo-o fechar os olhos. E o tempo inteiro, aquela sensação de ser observado, como se um par de olhos acompanhasse sua saída do Reino... Um par de olhos verdes como as mais preciosas esmeraldas, talvez?
“Cacheadinho... Não posso olhar para trás. Melhor dizendo, eu posso sim, mas não devo. Mas eu quero tanto olhar... Se eu olhar e você estiver me olhando também... Quem sabe, eu... nós... Quem sabe eu pudesse, apesar de tudo... sei lá, ficar...”
Foi uma última esperança nessa estranha prece mental que o fez finalmente voltar a cabeça, mas o peso em seu peito fez-se maior quando viu que não havia ninguém no balcão da torre mais alta do castelo. Tudo uma ilusão de sua mente e de seu coração ansioso por vislumbrar mesmo de longe a figura daquela doce criatura cacheada.
Ele abaixou a cabeça. Fora uma esperança vã... mas porque estranhar, já que sua vida nunca fora abençoada pela esperança? O destino que Nahan lhe oferecera nunca poderia ser seu. Tudo com que podia contar era o caminho sem fim à sua frente. E estava mais do que na hora de seguir por ele. Que o tempo se encarregasse de apagar de sua memória o par de jades brilhantes que sentia acompanhando-o, mesmo que não estivesse ali quando olhou. Que as estações trocassem de lugar para esvanecer a imagem do rosto alvo de cachos loiros angelicais. Que muitas noites escuras sem lua ou estrelas pudessem sublimar o toque das mãos dele nas suas e o arrepio que ainda queimava sua pele quando se lembrava daquele contato no braço dele, tão sutil e ainda assim, tão intenso a ponto de ainda senti-lo como uma marca indelével na pele... Não obstante tudo isso, deixaria aquela doce ilusão loira de olhos verdes para trás, da mesma forma que se deixa um sonho sumir com a chegada do amanhecer.
Era assim que deveria ser. Então... por que a sensação inexplicável de perda esmagando seu íntimo?
Como se perde o que nunca foi, o que jamais poderia ser seu?
– É melhor assim. — disse a si mesmo em voz alta, ao voltar-se para a frente, sem conseguir no entanto soar nem um pouco convincente. Havia um grito surdo em sua alma que demoraria um bom tempo para se calar... mas justamente para isso é que sabia haver ainda muitas criaturas malignas e nefastas para enfrentar no caminho que o aguardava. Ainda não sabia como... mas deixaria tudo aquilo para trás. Mergulharia em seu ofício, a única coisa em que era bom, e quem sabe um dia seria agraciado com uma lembrança sem que a mesma lhe causasse essa dor que agora sentia.
Afinal aportou no outro lado da ponte, e estava prestes a adentrar pelo caminho entre as árvores da floresta quando um som lhe chamou a atenção, fazendo-o parar e voltar-se.
– Alazão!!! Alazão!!!
Fahir franziu o cenho, enquanto seu cavalo dava meia-volta por conta própria como se desejasse receber a pequena figura que vinha correndo pela ponte, chamando seu nome com tanto empenho. Alazão sacudiu a cabeça e relinchou, batendo com o casco no solo, parecendo feliz. Correndo pela ponte e se aproximando cada vez mais deles, vinha uma criança... uma menina de cabelos castanhos, aparentando uns onze, talvez doze anos de idade. Vestia trajes simples de camponesa e exibia um sorriso alegre no rostinho redondo. Bem atrás dela, corria um rapaz esbaforido que Fahir reconheceu como o cavalariço que cuidara de seu cavalo nos dias em que permanecera no castelo.
– Paulinha! Espere, minha filha! – o rapaz moreno apelou enquanto se esforçava para alcançá-la.
Fahir apenas aguardou, com um sorriso triste escondido pelo elmo. Pelo visto seu cavalo era mais benvindo naquele lugar do que ele próprio. Poderia tentar se enganar que não, ao se lembrar da expressão amorosa de Nahan para ele e da admiração e agradecimento que seus súditos haviam demonstrado no banquete... Mas isso se devia à abençoada névoa de ignorância que os cobria. Fahir sacudiu mentalmente a cabeça para afastar esses pensamentos sombrios, quando a menina chamada Paulinha finalmente os alcançou e sem a menor cerimônia envolveu o pescoço de Alazão em um abraço carinhoso.
– Alazão... – Ela murmurou sorrindo, abraçada ao animal. Alazão apenas deixou-se ficar calmamente sem protestar ou bufar, o que para Fahir era até uma surpresa. Seu cavalo não era muito chegado a toques de estranhos... mas aquela menina parecia ter ganhado a confiança dele, que chegou mesmo a fechar os olhos com as carícias que Paulinha fazia com as mãos pela crina escura.
– Filha! – finalmente o pai da menina os alcançou também, ofegante. – Paulinha... já falei pra não fazer isso.
– Desculpe, papai... queria só me despedir do Alazão. – respondeu a menina, ainda abraçada ao pescoço do cavalo como se nunca mais fosse soltá-lo.
Fahir observou o rapaz moreno preocupado com a filha fujona, em silêncio. Quando se sentiu observado o rapaz envergonhou-se e fez rapidamente uma reverência para o cavaleiro.
– Perdão, Sir Fahir, por minha filha... é que ela se apega muito aos animais, e eu não consegui segurá-la a tempo.
Sem responder, Fahir retirou o elmo, levando uma mão às mechas negras para colocá-las no lugar, e olhou para o cavalariço cabisbaixo.
– Imagina, não há problema. – sorriu gentil. — Brunot¹, não é?
– Fico honrado que se lembre de meu nome, milorde. – Brunot levantou a cabeça com um sorriso tímido e servil. – Mais uma vez me desculpe por minha filha atrasar sua partida. – virou-se para a menina — Paulinha... Vamos, filha, você já se despediu do Alazão, não é? Não vamos mais atrapalhar Sir Fahir.
– O senhor não pode ficar mais um pouquinho, Sir Fahir? – pediu a menina, ainda abraçada ao cavalo e levantando um olhar esperançoso na direção de Fahir.
– Paulinha, não seja desobediente... Vamos. – Brunot insistiu, já ansioso. A ilustre figura de negro que salvara a todos eles com tanta coragem, demonstrava agora igual magnanimidade, mas ele não queria abusar de sua paciência, ainda que o cavaleiro não parecesse se incomodar em absoluto com a retenção que Paulinha punha em prática, sem dar mostras de querer soltar do pescoço de Alazão. Fahir a observava com uma sobrancelha levantada, mas um sorriso terno tomava seus lábios.
– Você gosta muito do Alazão, não é?
– Sim, senhor. Eu adoro ele! – a menina reforçou a declaração apertando mais o abraço em torno do pescoço do animal. Alazão deu uma leve bufada mas esse foi seu único protesto.
– Ele também parece gostar bastante de você. Do contrário já teria te jogado longe com tantos apertões no pescoço, criaturinha! – brincou Fahir, o que provocou a risada da menina.
– Paulinha... – murmurou Brunot, começando a ficar mais nervoso.
– Está tudo bem, Brunot. – Fahir tranquilizou-o com uma inclinada de cabeça, em seguida encarou a menina. – Paulinha... você pediu para eu ficar mais um pouquinho, mas infelizmente não vai dar. Preciso mesmo ir.
No íntimo de Fahir, sentimentos contraditórios conflitavam. Sabia que precisava partir, que já deveria tê-lo feito... Ao mesmo tempo o breve e inusitado interlúdio com aquela menina tornava possível que roubasse mais um pouco de tempo do futuro inóspito e certamente sombrio que o aguardava por entre as árvores da floresta atrás de si.
– Mas o senhor vai voltar?
– Não, meu docinho... Não vou voltar.
– Por que não? – ela insistiu, ainda abraçada ao Alazão.
– Paulinha! Por favor... não aborreça mais Sir Fahir com tantas perguntas... Deixe-o ir...
– Mas papai...
– Criaturinha... – a face redonda de cabelos e olhos castanhos encarou o cavaleiro com uma expressão decepcionada. Os olhos da menina poderiam ser castanhos mas o brilho triste de lágrimas ainda ensaiadas era o mesmo que ele já vira em um certo par de olhos verdes brilhantes. – Não posso lhe dizer porque não... apenas que preciso mesmo ir embora. Desculpe, mas terá que se despedir do Alazão... tá bom?
A essa altura Brunot já decidira ser o suficiente para tanto desacato infantil e puxou a filha gentilmente pelo braço, fazendo com que soltasse o pescoço do cavalo. Antes de se desvencilhar de Alazão, porém, a menina beijou seu focinho e fez-lhe um último carinho na crina farta. Alazão bufou levemente e balançou a cabeça, como se entendesse o significado de uma despedida. Fahir sentiu um nó na garganta ao entrever o brilho de lágrimas nos olhos da criança, antes que ela se voltasse cabisbaixa para acompanhar o pai em direção à ponte, de volta para o castelo. Porém antes que se afastassem alguns passos, a voz de Fahir soou chamando-os.
– Esperem...
Paulinha e Brunot se voltaram, surpresos. Em silêncio, Fahir desmontou do Alazão e aproximou-se em passos lentos do pai e da filha. Um misto de choque e confusão se mostrava nos olhos negros que se fixavam em um certo lugar do colo do pescoço de Paulinha. Um lugar que só pudera vislumbrar quando os braços da menina se soltaram de seu cavalo.
Bem ali, agora visível para ele, o detalhe que lhe chamou a atenção e que já começava a virar seu mundo de ponta a cabeça com uma força poderosa e implacável.
Uma mancha de nascença na forma do que lembrava uma borboleta.
Paralisados pela estranha atitude do cavaleiro, que parecia ter se transformado em estátua enquanto olhava sem piscar para Paulinha, pai e filha nem ousavam quebrar o silêncio. E quanto finalmente Fahir abriu os lábios para falar, tanto Brunot quanto Paulinha não entenderam o motivo de sua voz embargada, ou a razão das lágrimas que já deslizavam pela face morena do cavaleiro.
– Você...
* * * * * *
Mais um suspiro longo e pesaroso escapou do peito de Nahan, enquanto olhava para o próprio reflexo no espelho da penteadeira real diante de si. Dedos finos e gentis passeavam pelos seus cachos loiros, rodiziando os movimentos com um pente dourado de dentes largos para deixá-lo ainda mais cacheado, se é que isso era possível. O olhar de Nahan encontrou-se com o reflexo da pessoa que mexia em seu cabelo com tanto carinho, e ele tentou sorrir-lhe em uma débil tentativa de mostrar que estava bem... Só que a pessoa que cuidava de seu cabelo o conhecia bem demais para acreditar nisso.
– Nanzinho... – disse a jovem morena olhando para o sorriso triste no espelho — Não fica assim, não... fico pra morrer em te ver desse jeito. Ainda mais em uma dia como hoje.
– Patty... desculpe. – ele abaixou o olhar, desviando-o do reflexo, e as mãos femininas cessaram os cuidados com os cachos loiros para repousarem confortadoramente nos ombros do príncipe. Nahan engoliu em seco, já prevendo um bolo inevitável na garganta. Tantos meses haviam se passado desde a partida dele... E mesmo assim, em seu íntimo, aquele sentimento sufocante ainda pulsava loucamente, ameaçando roubar seu ar às vezes... como se Fahir tivesse acabado de sair pela porta do seu quarto.
Foi distraído das lembranças intrusas que nunca lhe davam folga quando as mãos da jovem mulher atrás dele apertaram seus ombros, em uma tentativa de transmitir-lhe força. Levantou o olhar e dessa vez conseguiu exibir um sorriso menos triste.
– Não peça desculpas, meu amor, eu compreendo. – Patty desceu as mãos em volta do pescoço e cruzou-as pelo peito do príncipe loiro, abaixando-se e encostando a face na face de Nahan, para que os dois pudessem se olhar, lado a lado, para o espelho. – Ainda dói muito, não é?
Nahan apenas assentiu, sem coragem de proferir palavra. Receava desmoronar de vez em lágrimas, e muito embora sua amiga de infância fosse a pessoa que mais poderia entendê-lo e nunca julgá-lo... Não queria fazer semelhante desfeita justamente com ela, que por puro amor e amizade, aceitara estar naquela situação, que ambos estavam prestes a compartilhar. Por isso ele respirou fundo e fez de tudo para engolir a tristeza, enterrá-la dentro de si, pelo menos durante o tempo que a cerimônia levasse. Precisava muito ser forte. Por si mesmo, e também pela pessoa que agora o abraçava carinhosamente e mais ainda, sorria para o reflexo no espelho tentando animá-lo, mesmo sabendo aquela ser uma tarefa quase impossível.
– Nanzinho... Quando estivermos sozinhos, só eu e você... Eu não ligo se você precisar chorar. Tá bom?
– Não vou chorar. – ele conseguiu pronunciar com esforço, e o brilho de lágrimas já nascentes nos olhos verdes traíam o que dizia. – Está tudo bem, Patty.
– Bom, eu sei muito bem que não está, não... mas eu também sei que existe muita força dentro de você. Você vai conseguir, Nanzinho, sei que vai. Só precisa aguentar firme... E não esqueça que eu estarei lá, bem do seu lado. Você não está sozinho nessa.
– Eu sei. – Nahan olhou agradecido para a amiga.
– Escuta só... Eu soube que a Igreja está lotada. Tem gente de pé, gente até de reinos vizinhos! Todo mundo louco pra ver você se tornar Rei.
Sim, sem dúvida, todos ansiavam por esse momento histórico... o jovem príncipe Nahan finalmente se tornaria Rei, e segundo a lei do Reino, isso só seria possível através da união do sagrado matrimônio. Uma cerimônia cheia de pompa e muito esperada por todos. Um acontecimento que já estivera nos planos de Nahan e Eron, no que parecia agora séculos atrás... mas que foram interrompidos por uma série de eventos catástróficos na vida do príncipe loiro. Agora, ele estava prestes a se casar e com isso finalmente assumir a coroa do Reino de Krone². Ele deveria estar feliz, não deveria? Então porque o peso sufocando seu peito e as lágrimas que insistiam em nascer em seus olhos? Esse era um passo que era obrigado a dar... mas talvez fosse o passo que precisava para começar um novo caminho em sua vida. Um caminho que levaria para longe dele a lembrança de um cavaleiro de armadura negra, sorriso largo enviesado e cabelos e olhos tão negros quanto a noite mais escura...
Pronto, ele deixara-se divagar de novo. Encontrou novamente o olhar de Patty no espelho, que o olhava preocupada. Ela era de fato uma boa amiga... sua melhor e única amiga na verdade.
– Patty... muito obrigado por isso.
– Está mesmo me agradecendo por me tornar Rainha? – ela riu – Só você, Nanzinho...
A jovem morena ria divertida para o reflexo de ambos no espelho, e Nahan não conseguiu deixar de aumentar o sorriso, ainda que triste. Aquele casamento tornaria a bela jovem morena com quem nutria uma amizade desde a mais tenra infância... uma Rainha. Sem dúvida um belo presente para a simples filha da sua ama de leite. Nahan gostava de pensar que pelo menos estaria fazendo algo bom por sua amiga. Se precisava tanto se casar para cumprir a lei soberana de seu Reino... Quem melhor do que aquela com quem sempre dividira tudo, segredos, confidências e principalmente nos últimos tempos... incontáveis lágrimas?
Ainda sorrindo, Patty afastou-se do príncipe e levantou-se, dando alguns passos para trás. Com as mãos ajeitou o próprio vestido branco e bufante, que combinava perfeitamente com o traje real branco de Nahan.
– Vem cá, levanta e deixa eu te ver, agora que o cabelo está pronto.
Não havia outra saída para Nahan além de atender o pedido de sua querida amiga e agora, noiva. Levantou-se e ficou diante dela, procurando manter o sorriso. Os dois se olharam, se avaliando. Ambos os trajes eram ornados com delicados e finíssimos fios de ouro. Em Nahan, esses detalhes dourados faziam par com os cachos loiros agora caprichosamente arrumados... Em Patty, o vestido branco com fios cor de ouro fazia contraste com sua pele morena e cabelos escuros, presos em uma trança que começava no alto de sua cabeça e terminava quase em sua cintura. Fios dourados também se entrelaçavam nas mechas trançadas.
– Patty... você não vai colocar o véu?
A jovem lançou um olhar para o imenso e longo véu branco e transparente que descansava em cima da cama de Nahan. Sua calda fazia voltas e mais voltas pelo chão em torno da cama. Patty não parecia muito animada em cobrir a cabeça com ele e adiava ao máximo o momento de vesti-lo.
– Você não quer usá-lo, não é?
Ela deu de ombros, com um sorriso envergonhado.
– Me conheço e sei que vou tropeçar nessa coisa longa, Nanzinho... Mas sei que tenho que vesti-lo. É a tradição, né?
– Sim... Mas eu vou me tornar Rei, e você Rainha. Isso nos dá o direito de mudar essa tradição desde já. Você não precisa fazer isso, Patty... Está perfeita do jeito que está.
– Olha só pra você, já falando como um Rei! – ela riu com gosto, em seguida aproximou-se do noivo de sorriso triste, e mesmo esse sorriso triste parecia exigir dele um grande esforço para se manter em seu rosto. – Ah... Você está tão lindo, Nanzinho... Mais lindo do que já é. – Patty desferiu um sonoro beijo na bochecha do príncipe. – Ninguém nunca verá um Rei mais lindo do que você!
– Não fala isso... Você é que está maravilhosa, Patty. – a expressão triste se desanuviou um pouco. – Eu falei sério quando te agradeci. Você poderia muito bem estar se casando com alguém que ama, e não comigo... Está fazendo isso só pra me ajudar.
– Eu estou me casando com alguém que amo, sim, Nanzinho. – As mãos de Patty buscaram a de Nahan e a apertaram com firmeza. – Eu te amo muito. Você é como um irmão pra mim. Um irmãozinho fofo, loiro e cacheadinho... – o sorriso de Patty morreu quando percebeu o que acabara de dizer. – Ai... me desculpa...
– Não, tudo bem... – Nahan fez um esforço homérico para manter o sorriso nos lábios. – Esse apelido... esse apelido não me incomoda mais. – mas as íris verdes marejadas mostravam o contrário.
Patty já se preparava para falar algo consolador quando uma batida na porta do quarto real a deteve.
– Entre. – disse Nahan, já sabendo quem batia, pois o som de um choro de bebê atrás da porta já chegava até ele.
– Dá licença, sua Alteza... – Uma jovem e miúda serviçal entrou no quarto com um choroso Fabrício nos braços – Desculpa, seu Nahan, mas não consigo fazer o "minino" parar de chorar...
– Tudo bem, Adriana... me dê ele aqui um pouco. – o loiro estendeu os braços para pegar seu bebê, que parou de chorar assim que se viu entre os braços do pai. Talvez fosse exatamente aquilo que Nahan precisasse nesse momento... a presença de seu filho sempre tinha o poder de acalmá-lo, mesmo nos piores e mais desesperadores momentos.
– Ô, meu filhinho... meu filhotinho... – Nahan sorriu-lhe carinhosamente e balançou-o suavemente nos braços. O bebê de cachinhos tão loiros quanto o pai e também vestido com uma roupa branca e dourada, agitou os pequenos braços por um momento, em seguida aquietou-se, fechando os olhos.
Sem que fosse preciso o príncipe dizer alguma coisa, Patty empurrou levemente Adriana em direção à porta do quarto, indicando-lhe com o olhar para deixarem pai e filho à sós. Patty sabia que o serzinho que Nahan segurava nos braços o ajudaria na preparação para o rito de passagem que estava prestes a desempenhar na frente de seus súditos.
A porta do quarto se fechou e Nahan agora murmurava baixinho palavras de carinho para o bebê quase adormecido. Sem pensar, deixou que seus pés o levassem pelo quarto até que parou, de pé, bem em frente à parede mais ampla de seu quarto. Ainda balançando suavemente o filho nos braços, seu olhar se fixou no centro daquela parede, onde pendurada em um suporte de madeira, Apocalipse, a espada deixada para trás por Fahir, reinava sozinha no lugar do enorme quadro pintado a óleo que costumava ser exposto ali.
“Se quero tanto esquecê-lo... Se quero, não, preciso esquecê-lo... Por que pendurei essa espada na parede de meu próprio quarto? Por que não consigo me desfazer dela, ou presentear outro cavaleiro merecedor com ela? Por que manter essa esperança acesa dentro de mim... se eu sei muito bem que ele jamais vai voltar?”
As perguntas que dançavam na mente do príncipe loiro levavam poucas ou nenhuma chances de serem respondidas. Ainda assim, as fazia diariamente, como se fosse impossível deixar de buscar suas respostas. E como sempre acontecia, lágrimas já toldavam sua visão, embaçando a figura imponente da espada fixa na parede diante de si.
Nahan fechou os olhos e soltou um suspiro algo embargado. Quando os abriu, olhou para o filho que despertara, em busca da serenidade que Fabrício sempre lhe transmitia. Um par de atentos olhos verdes o encarou de volta. Nahan sorriu em meio às lágrimas. Além de crescer a olhos vistos, seu bebê se tornava cada vez mais esperto. Nahan sabia que não demoraria muito até que os balbucios típicos de bebê se transformassem em palavras, que o pequenino já lutava para proferir, às vezes.
De repente a culpa o dominou... pensando em tudo que acontecera em sua vida, será que não estava sendo mal agradecido com o Destino, ao sentir-se assim, tão desolado e arrasado, quando em questão de momentos, toda sua vida mudaria para sempre?
Ainda havia coisas boas em sua vida, afinal. Uma delas, a principal, segurava agora nos braços. Ele se tornaria Rei. A seu lado, teria como Rainha a pessoa que mais confiava na vida. Então por que chorar? Será que já não era hora de fechar aquela corrente de lágrimas de uma vez por todas e tentar seguir com sua vida?
O olhar de Nahan voltou a se fixar na espada com uma atração irresistível, mas o encanto se quebrou quando os braços e pernas de Fabrício voltaram a se agitar, impacientes. Nahan olhou para o filho, surpreendendo-se ao ver que o bebê também olhava fixamente para a espada suspensa, quase como se soubesse que ela quase pertencera a alguém muito importante. Enquanto os olhos do bebê não se desviavam da espada, seus lábios se mexeram e sons desconexos quiseram abrir caminho pelos lábios infantis, através dos quais pequenos dentinhos já se faziam visíveis.
– Eu sei, meu filhinho... Eu sei. – Nahan soltou um suspiro enquanto seu olhar acompanhava o do filho – Também sinto a falta dele... Demais. Mas ele não vai voltar, e nós temos que aceitar.
Fabrício voltou a encarar o pai, e Nahan poderia jurar que seu bebê entendia tudo o que dizia. Era a impressão que lhe davam aqueles olhinhos verdes brilhantes com lágrimas, como os seus próprios. Mesmo em meio as lágrimas teimosas, Nahan se esforçou em sorrir para o filho.
– Ei... Vou lhe contar um segredo. Quer ouvir?
O bebê loiro se agitou um pouco em seus braços em resposta.
– Fahir esqueceu de me devolver seu cachinho... – Nahan sussurrou com a voz embargada, tentando não pensar em como ainda era doloroso sequer pronunciar o nome dele. – Sabe o que isso quer dizer, meu filhotinho?
Os pequenos olhos verdes nem piscavam enquanto aguardavam.
– Onde quer que ele esteja agora... Está levando uma parte de você com ele.
O príncipe loiro já não conseguia segurar as lágrimas insistentes que molhavam suas faces. Mas tudo bem... seriam as últimas que se permitiria antes de seguir seu caminho em busca da felicidade que ainda lhe restava. Nahan mudou Fabrício de posição em seus braços, fazendo com que descansasse a cabeça em seu ombro. Encostou os lábios nos cachinhos loiros do filho, beijando-o carinhosamente. O bebê emitiu um suspiro e fechou os olhos, abandonando-se no calor confortador do colo do pai.
– Uma parte de você... E também uma parte de mim... – ele completou em voz quase inaudível, antes de perceber que seu filho adormecera. Resignado, lançou um olhar para a porta do quarto. Estava na hora de atravessá-la e ir de encontro ao destino que o aguardava do lado de fora, e começar a primeira lição de um longo mas necessário aprendizado.
Como seguir vivendo com o coração ausente de seu peito.
* * * * * *
Fazia muito tempo que a Igreja da Imaculada, Salva e Branca Ovelha do Reino de Krone não se encontrava tão lotada, mas não era pra menos. Como perder o acontecimento mais esperado em muito tempo? Quando se espalhou a notícia de que o jovem príncipe Nahan enfim celebraria seu casamento, e na mesma cerimônia seria coroado Rei de Krone, a ansiedade e expectativa de todos no Reino e também de Reinos vizinhos se espalhou junto. Quem estava presente na igreja, sentia-se privilegiado em poder testemunhar de perto semelhante acontecimento.
Para fazer jus à importância da ocasião, a igreja fora inteiramente enfeitada com arranjos luxuosos de rosas brancas, e o tapete vermelho de veludo que só era usado em casamentos ou batizados Reais foi estendido desde a entrada da igreja até o altar. Tudo perfeitamente arranjado para emprestar à cerimônia a aura de magnitude que o momento merecia.
Combinando com a decoração caprichada da igreja, a alegria já imperava nas expressões das faces dos súditos de Nahan que a lotavam... mas no próprio príncipe, a sensação de vazio e o peso no peito eram disfarçados com toda a determinação que ele conseguia reunir. De pé no altar, Nahan olhava atentamente para o Padre, procurando prestar toda a atenção possível nas palavras da figura respeitável que no momento discursava sobre os deveres e direitos da união sagrada. A seu lado, Patty alternava a atenção às palavras do Padre com rápidas olhadas ao rosto de Nahan. Estavam de mãos dadas e o aperto da mão dela era seguro, tranquilizador. O jovem loiro nem queria imaginar como seria passar por aquilo se não pudesse contar com Patty ao seu lado.
Nahan olhou-a de rabo de olho, rapidamente, e procurou ensaiar um sorriso agradecido, antes de voltar a concentrar-se no Padre. Um suspiro intrometido escapou-lhe. Ainda que felizmente o Padre não fosse adepto de longos sermões e suas palavras já parecessem estar chegando ao fim, Nahan sabia que quando disesse o sim junto com Patty, uma página em sua vida seria virada, mesmo a seu contragosto. O príncipe loiro lançou um breve olhar para um pedestal do lado do altar em cima do qual um par de coroas de ouro cravejadas de pedras preciosas descansavam, aguardando para ornarem as cabeças dos novos Rei e Rainha de Krone. Nahan desviou o olhar das coroas de volta para o Padre. Não havia sentido em ainda procurar dentro de si qualquer sentimento contrário à força do Destino que se apresentava na forma simbólica da cerimônia pela qual passava e das duas coroas expostas e à espera.
Na primeira fileira dos bancos da igreja, Adriana embalava o pequeno Fabrício nos braços, mas o bebê parecia inquieto, se mexendo em seu colo com desconforto. Mesmo sem olhar para trás Nahan podia sentir o incômodo do filho... Era como se ambos compartilhassem aquele momento com o mesmo sentimento, que na verdade era um misto contraditório de dois. Tristeza pelo ponto final forçado na história que ainda sangrava em sua alma desde que Fahir partira... e esperança pelo novo começo que se anunciava, compulsoriamente, com a cerimônia se aproximando de sua conclusão.
Finalmente o Padre chegou nas palavras que confirmariam a decisão em comum dos jovens noivos diante de si, a pergunta mais importante de todas. Sem sentir, Nahan apertou a mão de Patty com mais força, e a jovem noiva correspondeu o aperto gentilmente.
– No dever sagrado que me foi incubido nessa cerimônia Real, venho perguntar aos noivos: É de livre e espontânea vontade que vóis estais aqui reunidos diante de todos e diante de Deus, para se unirem nos abençoados laços do matrimônio?
– Sim. – Nahan e Patty responderam em uníssono.
– Agora fiquem de frente um para o outro.
Os dois obedeceram, se encarando, ainda de mãos dadas, ambos já com os olhos marejados pela intensidade do momento, ainda que trocassem sorrisos compreensivos e amorosos um para o outro.
– Coroinha, traga as alianças. – O Padre se dirigiu ao menino que aguardava do lado do púlpito com uma almofada de veludo vermelho nas mãos. No centro dela, um par de vistosas alianças de ouro repousava. A almofada foi estendida aos noivos, que as colheram entre os dedos trêmulos.
– Podem trocar as alianças e os votos. – O Padre fez-lhes um gesto com as mãos indicando a deixa para os dois últimos atos que selariam a cerimônia Real e os tornaria finalmente soberanos de Krone.
Como era tradição, o noivo seria o primeiro a falar, por isso Nahan colheu a mão livre de Patty na sua e com a aliança entre os dedos, e olhar fixo no dela, delicadamente começou a colocar-lhe a aliança no dedo, enquanto proferia as palavras.
– Eu, Nahan Krone, com essa aliança, recebo-te, Patrícia Mileto, para ser a pessoa com quem dividirei a minha vida e os meus sonhos. Recebo-te não só como esposa e Rainha, mas como a amiga sincera que sempre esteve ao meu lado. Prometo sempre honrar essa amizade e esse amor. Prometo ser-te fiel, em todos os sentidos, mas principalmente com meu coração. Me comprometo a defender-te e a proteger-te, e fazer dos meus dias uma missão constante de manter um sorriso de felicidade em seus lábios, e um brilho de alegria em seu olhar. Hoje, amanhã, e para o resto de nossas vidas, enquanto eu respirar, assim o farei. Pois eu te amo, Patrícia, portanto, receba com essa aliança, todo o meu amor.
Muito embora seu coração batesse loucamente dentro do peito e algumas lágrimas já quisessem achar seu caminho para fora de seus olhos, Nahan manteve uma voz firme e segura, até terminar de declarar seus votos, enquanto a mão de Patty, já com a aliança em seu dedo, era envolvida com ternura pelas dele, em uma confirmação das palavras que acabara de pronunciar.
Patty a essa altura já não conseguia segurar a emoção, mas conseguiu reunir forças para declarar seus votos para Nahan, ao mesmo tempo que colocava a aliança no dedo do príncipe loiro.
– Eu, Patricia Mileto, com essa aliança, recebo-te, Nahan Krone, para ser a pessoa com quem dividirei minha vida e meus sonhos. Recebo-te não só como marido e Rei, mas como o amigo maravilhoso que sempre me presenteou com seu amor. Me comprometo a ajudá-lo a amar a vida, a sempre abraçá-lo com ternura e ter a paciência que o amor exige. Prometo falar quando as palavras forem necessárias e compartilhar o silêncio quando não forem. Prometo chamar de lar o espaço dentro do seu coração. Hoje, amanhã, e para o resto de nossas vidas, enquanto eu respirar, assim eu farei. Pois eu te amo, Nahan, portanto, receba com essa aliança, todo o meu amor.
Dessa vez as mãos de Patty envolveram as de Nahan, em um aperto seguro, enquanto os olhares de ambos não se abandonavam, e um mesmo sorriso entre lágrimas era compartilhado por ambos.
O Padre olhou para o casal diante de si, satisfeito. Fazia tanto tempo que não experimentava a alegria de casar ninguém naquela igreja e agora, mal podia esperar pelo contentamento de enfim declarar aqueles dois jovens marido e mulher. Antes, porém, era necessária uma última pergunta.
– Se alguém aqui presente se opõe a esse matrimônio, que fale agora ou se cale para sempre!
O silêncio reinou absoluto na igreja por alguns segundos, e o Padre já se preparava para finalizar a cerimônia quando um som cortou a quietude, atraindo a atenção de todos para a primeira fileira de bancos da igreja. No colo de uma atônita Adriana, Fabrício começou a chorar alta e sentidamente. Nahan e Patty voltaram-se para o bebê, preocupados.
– Posso pegá-lo no colo um pouco? Tenho certeza que isso o acalmará. – o quase Rei pediu ao Padre, que consentiu com um assentir resignado da cabeça. Nahan desceu do altar e Adriana transferiu o bebê para seus braços. A criança estancou o choro assim que se viu aninhada no colo do pai.
– Meu filhotinho... – sussurrou para o bebê de faces vermelhas pelo choro. Fabrício parara de chorar mas ainda soluçava baixinho, enquanto Nahan o balançava suavemente nos braços. Patty aproximou-se deles e acariciou a cabeça de finos cachos loiros.
– Vou te amar como seu fosse meu filho, Fabrício. Na verdade já te amo, viu? – ela depositou um beijo leve na testa do bebê, que voltou os olhos verdes brilhantes para ela, ensaiando um sorriso que demonstrava que não duvidava disso. Nahan sorriu para Patty, enternecido.
A única pessoa que não estava enternecida com a cena era mesmo o Padre, que quebrou o clima do momento com um leve pigarrear irritadiço para indicar aos noivos que pretendia torná-los marido e mulher ainda nesse século.
– Padre, me desculpe! – Nahan devolveu o filho para os braços de Adriana e junto com Patty, postou-se novamente no altar na mesma posição de antes, com as mãos nas de Patty. – Perdão... por favor, pode continuar.
– Tudo bem... Vamos de novo. – O Padre limpou a garganta antes de repetir. — Se alguém aqui presente se opõe a esse matrimônio, que fale agora ou se cale para sempre!
A pergunta ficou suspensa no ar por alguns segundos, sem resposta, mas antes que o Padre pudesse finalmente concluir a cerimônia declarando Nahan e Patty oficialmente casados... Um enorme e repentino estrondo atraiu a atenção de todos para os portões da entrada principal da igreja, que se encontravam agora completamente escancarados. Um som coletivo de surpresa se ergueu no ar entre todos os presentes, com a interrupção tempestiva da cerimônia Real.
Mas a surpresa dos fiéis e convidados nunca conseguiria ser maior que a de Nahan. O príncipe quase Rei olhava agora fixamente para a entrada da Igreja, e mesmo que sua expressão ainda fosse incrédula, seu coração já acreditava piamente no que via, e já enviava o nascer de um sorriso aos seus lábios e lágrimas de uma nova emoção aos seus olhos...
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