Carneirinho e as Cento e Uma Noites
11 Tudo por um Cachinho – Parte IV
Notas iniciais
– Parabéns, Cacheadinho, acabou com a fura-ovo! — sussurrou Fahir baixinho, sorrindo, ao se lembrar do forte soco que vira o príncipe loiro desferir contra a bruxa loira.
Nahan desviou o olhar de seu filho deitado no berço de madeira para encarar o moreno de cabelos negros ao seu lado, e sorriu-lhe brevemente, antes de voltar a contemplar seu bebê. Ambos estavam debruçados no berço, observando enquanto o pequeno príncipe lutava contra o sono até ser finalmente vencido e os olhinhos verdes se fecharem pesadamente. Havia algo de quase sagrado naquele silêncio confortável que se seguiu enquanto eles nada diziam, apenas admiravam a pequena figura agora adormecida.
Depois de alguns momentos, a voz de Nahan rompeu o silêncio.
– É, Fahir... mas nós não estaríamos aqui olhando pra ele se não fosse você. Você é o verdadeiro responsável por tudo isso.
O cavaleiro virou o rosto levemente para o lado, e novamente se viu envolvido em um tipo esquisito de fascinação. Seu olhar passeou pelas linhas de seu perfil, os traços delicados de seu rosto, os lábios rosados algo entreabertos, o cachinho loiro que teimava em cair sobre sua testa... O mais estranho impulso lhe invadiu de afastar com os dedos aquele cachinho, e Fahir quase o fez... mas antes que pudesse atinar com o despropósito de tal pensamento, os olhos verdes do loiro centraram-se de novo nele, roubando-lhe uma respiração e enviando um calor repentino ao seu peito. Fahir forçou um sorriso para disfarçar o desconforto que todas aquelas sensações lhe causavam.
– Foi um prazer, Cacheadinho. — ele murmurou, domando a muito custo a garganta repentinamente seca.
– Ah, Fahir... – Nahan ainda fitava o filho adormecido, mas seu olhar parecia agora voltar ao passado, e uma tristeza nostálgica passeou no semblante de linhas suaves, enviando ao peito do cavaleiro um súbito aperto – Quando eu penso em tudo que aconteceu, nem sei dizer como consegui suportar tanto tempo longe do meu filho. Foi horrível ter tudo tirado de mim... meu companheiro, meu Reino, meu castelo... mas acima de tudo, foi horrível ter meu bebê arrancado da minha vida. Eu acho que fiquei mesmo fora de mim... Você sabe, né? – Nahan encarou-o com os olhos cheios de lágrimas – Tentei até tirar minha própria vida...
– Criatura, mas você... É... Bom... – Ainda que fosse forte a vontade, Fahir quase mordeu a língua para evitar de soltar o comentário irônico que já queria pular de sua boca... culpa certamente daquele par de íris brilhantes de lágrimas centrado nele. — ... Deixa pra lá. O que importa é que está tudo bem agora, não é?
– Sim. Agora sim, está tudo bem. E mais uma vez... por sua causa, Fahir. Ainda bem que você apareceu naquela ponte... Ainda bem...
A sombra anterior de tristeza já desaparecera dos olhos de Nahan, deixando no lugar a franca adoração de sempre que Fahir já se habituara a encontrar neles. Ele engoliu em seco ante o peso daquelas duas esmeraldas perfeitas fixas nele. Duas jóias mais valiosas do que todas as bolsas de ouro que jamais conseguisse acumular na vida...
– Sabe, até agora não sei como você, com tantas coisas para fazer... tantas criaturas malignas para enfrentar... conseguiu encontrar tempo pra me ajudar. — A cabeça de Nahan se inclinou para o lado de forma adorável, e ele abaixou o olhar. Mas seria possível que a criatura cacheada estivesse mesmo ruborizado?
– Eu me desdobrei, né, Cacheadinho... você merece. — Fahir piscou-lhe um olho, agradecendo a própria capacidade de usar o humor para desviar a atenção de qualquer assunto que considerasse desconfortável. Só queria entender porque ultimamente, precisara usar tanto esses artifĩcios...
– Fahir... – de repente Nahan parecera se lembrar de algo — Por favor... fique aqui com o Fabrício um pouquinho, eu preciso dar uma saída... Mas é rápido! – O príncipe loiro foi falando e se afastando em direção à porta, com um meio sorriso misterioso nos lábios. – Eu já volto.
Sem esperar sua resposta, a porta se fechou atrás dele, deixando um atônito Fahir em frente ao berço. O moreno voltou seu olhar para Fabrício, que ainda dormia profundamente. Após sorrir sem sentir mais uma vez com aquela visão tão inocente, ele se voltou para avaliar o amplo recinto onde se encontrava.
Depois de tudo que o príncipe loiro passara, Fahir achava que podia compreender perfeitamente o desejo dele de não se separar de seu filho, mantendo o berço no próprio quarto, pertinho dele, pelo menos nesses primeiros dias depois do retorno do bebê aos braços devidos de seu verdadeiro pai. Por isso mesmo se encontrava ali agora. Aquele era o quarto real... o quarto do príncipe Nahan.
Não soube dizer porque o pensamento de estar no quarto dele lhe fazia sentir tão... estranho. Talvez porque aquela era uma forma de estar envolto pela intimidade dele de uma forma tão pungente... Para distrair sua cabeça dessas idéias sem significado nem sentido, percorreu com o olhar todo o quarto, reparando nos detalhes. Móveis de madeira ricamente talhada pontuavam vários cantos do quarto. Em um dos cantos, divisou um suntuoso divã estofado de couro. Aqui e ali, por todo o quarto imenso, vários sofás,poltronas e baús antigos espalhados.
O olhar de Fahir foi atraído de repente para uma parede onde um enorme quadro parecia ter destaque, muito embora se encontrasse coberto por um tecido que o ocultava inteiro. Ele aproximou-se, curioso sobre o motivo de se encontrar escondido. Sem conseguir se conter, puxou a ponta do pano, descobrindo-o de uma vez. Uma esmerada pintura a óleo se revelou, mostrando o casal de príncipes Nahan e Eron, sentados no divã que Fahir reconheceu como o mesmo que estava ali no quarto, e no colo de Nahan, o bebê Fabrício.
Fahir permaneceu algum tempo olhando para a pintura, tentando absorver seu significado. Certamente o pintor fora muito talentoso em capturar com perfeição o momento daquela família que quase se consolidara, antes que tudo virasse um pesadelo para o príncipe. Ali estava retratado o sonho de Nahan... Uma família completa. Por um breve período, pelo menos para o príncipe loiro, aquele sonho fora uma realidade. E essa realidade efêmera encontrava-se agora eternizada através das pinceladas habilidosas do desconhecido artista, bem ali naquela parede...
Somente agora Fahir tinha a chance de bater os olhos na figura do príncipe Eron em sua forma humana, já que somente conhecera sua versão bestial. E tudo que já podia dizer era que... definitivamente preferia a forma bestial. Era difícil se lembrar de alguém com quem já tivesse antipatizado tanto assim antes.
“Sinceramente... que cara de casca de árvore oca essa criatura tinha...” Ele fez uma careta ao reparar na expressão vazia e nos olhos verdes apagados do homem sentado ao lado de Nahan. Um braço dele repousava em torno dos ombros de Nahan, que segurava o bebê no próprio colo, de forma protetora. A impressão que Fahir teve foi que apenas o corpo de Eron posara para aquela pintura. Toda sua figura parecia apenas flutuar com a alma bem distante dali...Fahir sabia que ele estava enfeitiçado quando posou para o pintor, mas mesmo assim, algo lhe dizia que mesmo em seu estado normal, aquela criatura não devia ser muito diferente do que o quadro retratava.
Quanto a Nahan, quanta diferença... Muito embora as três pessoas naquela pintura possuíssem olhos verdes, somente dois pares deles brilhavam, vivazes, luminosos... Até mesmo Fabrício exibia um sorriso no rostinho redondo de bebê. Ambos mergulhados na inocência, pai e filho sorriam, felizes. Um a cópia em miniatura do outro.
“Tal pai, tal filho...” Fahir soltou um pequeno suspiro, ainda preso na contemplação das linhas perfeitas daquele rosto sorridente, nos cachos loiros angelicais e principalmente, no par de olhos do verde mais límpido que o pintor conseguira acertar com sua palheta...
Era inegável... A única coisa destoante naquela pintura era a criatura vazia e apagada que posara ao lado de Nahan. Nada mais que um borrão indistinto e apagado perto da vivacidade que as duas criaturas cacheadas transpareciam.
Quando seu pensamento começou a pregar-lhe peças absurdas fazendo-o imaginar-se no lugar daquela Lacraia humana que apenas figurava de corpo presente na pintura, Fahir decidiu que já bastava de contemplações no passado alheio. Nahan poderia voltar a qualquer momento e o encontraria ali, fuçando suas coisas, e isso não pegaria bem. Fahir recolheu o tecido do chão e subindo em um baú, pendurou novamente o pano por cima do quadro, ocultando-o. Descendo do baú, ele deu uma última olhada para verificar se tudo parecia como antes, e esfregando as mãos, deu-lhe as costas.
Ele continuou a passear o olhar pelo quarto... No meio dele, como que coroando o recinto, havia a imensa cama ornada com um dossel de seda transparente. Pela sacada do balcão externo, um brando vento a fazia tremular emprestando-lhe um ar etéreo.
Os pés de Fahir o fizeram se aproximar da cama como se tivessem vida própria. Ele esticou uma mão para a borda do véu e abriu-o só um pouco, de modo a ter uma visão mais nítida de seu interior. A cama imaculada, de lençóis brancos perfeitamente esticados, parecia acenar com convites especialmente para ele... Fahir suspirou, enquanto foi assaltado sem piedade por imagens do príncipe loiro deitado bem ali, no meio daquela cama, olhando para ele com suas duas jades perfeitas em um chamado silencioso para que se juntasse a ele debaixo daqueles lençóis tão alvos...
Fahir fechou os olhos, apertando-os com força, como se com isso pudesse expulsar as imagens intrusas de sua mente, mas era tarde demais... elas já haviam se cravado em pedra dentro dele, em definitivo, e mesmo que ficasse cego bem agora, eram tão nítidas atrás de seus olhos que levou uma mão ao peito, em um breve ofegar.
“Fahir... o que está acontecendo com você, afinal?”
Antes que pudesse pensar em uma resposta ou mais provavelmente, na falta dela, um som às suas costas chamou sua atenção, quebrando o encanto no qual estivera tão absorvido. Fahir voltou-se para o berço e viu que Fabrício acordara. Os olhinhos verdes vívidos o encaravam e um sorriso já nascia no rostinho redondo.
– Já acordou, mini-Cacheadinho? — o bebê sorridente estendeu os bracinhos rechonchudos em sua direção como se pedisse colo. — Mas que gracinha... — Fahir não resistiu a se debruçar e pegá-lo no colo com cuidado. O bebê logo aninhou-se contra seu peito, emitindo pequenos sons de satisfação. Era mesmo incrível como era semelhante ao pai em tantos aspectos... principalmente no par de olhos verdes a encará-lo com o mesmo tipo de adoração.
– Me diga, bebê... — disse baixinho enquanto o ninava suavemente — Você também me acha um homem bom? — Os olhinhos brilhantes piscaram em resposta — Será por causa desses cachos loiros iguais aos do seu pai? Ou porque você é só um bebê... É tão bom ser bebê, não é? A gente não tem noção do que vem em nosso caminho... Mas você, mini-cacheadinho, só terá coisas boas no seu. Você é um bebê de muita sorte. Mal chegou nesse mundo, e já sabe o que é ser amado. Porque o seu pai te ama mais do que tudo...
O final da frase ficou estrangulado em sua garganta com uma emoção indefinida, mas definitivamente, nem um pouco benvinda. A expressão de Fahir pesou com uma sombra intrusa que ele tratou logo de afastar com uma leve sacudidela. Fabrício parou de sorrir e apenas continuou o encarando quase como se pudesse sentir o início de tristeza que ameaçara seu semblante. Fahir aumentou o sorriso.
– Valeu a pena aguentar o bafo daquela lacraia só para poder te ver são e salvo aqui com seu Pai Cacheadinho, criaturinha... — Ele depositou um beijo suave na testa do bebê, que continuava a olhá-lo sério — o que foi? Ah, não, não me olhe assim... melhor você voltar a dormir agora, que tal? Não? — Fabrício nem piscou. Os olhinhos verdes nunca o abandonavam. — Parece que foram muitas emoções hoje para você... Er.. E se eu cantasse pra você dormir? Acho que me lembro de uma cantiga... Vamos ver...
Fahir limpou a garganta e começou a cantar baixinho enquanto balançava Fabrício nos braços.
Se o céu escurecer
E as estrelas se esconderem
Não tema, não chore
Que esse medo não se demore
Feche os olhos e sinta o meu amor
Se o medo ameaçar
Apertar seu coração
Não tema, não chore
Que essa dor não se demore
Limpe as lágrimas e sinta o meu amor
Se um doce sonho te levar
E nas nuvens te embalar
Não tema, sorria
Sonhe até nascer o dia
Abra os olhos e sinta o meu amor
Fahir cantou o último verso em um fio de voz, pois o bebê que ninava nos braços já adormecera com um meio sorriso nos lábios. Uma mãozinha se fechara em torno do dedo do cavaleiro em um suave e seguro aperto. Ele sorria, ainda sem saber como conseguira se lembrar perfeitamente da canção de ninar que embalara sua infância... ou pelo menos a parte boa dela. Suspirou. Olhar para aquela face adormecida conseguia acalmar seus pensamentos há instantes atrás tão confusos. Devia ser o ar angelical e a tranquilidade estampada no rostinho redondo, uma certeza que nada de mal poderia lhe atingir. Inclinou-se e beijou a cabeça coberta pelos cachos loiros finos. Entretido como se encontrava em ninar Fabrício pra dormir, Fahir não percebeu um par de olhos verdes marejados que o observavam da fresta da porta.
Foi o som da voz surpreendentemente suave do cavaleiro soando dentro do quarto que fez a mão de Nahan parar na maçaneta antes que finalmente a girasse. Com cuidado ele abriu só um pouquinho a porta e foi surpreendido por uma imagem que enviou lágrimas aos seus olhos e embargou sua garganta. Parado em pé em frente ao berço, Fahir ninava Fabrício com todo o carinho e mais do que isso, cantava-lhe uma linda cantiga de ninar. O rosto altivo e moreno, geralmente sempre com uma expressão irônica ou séria... se suavizara se transformando na face de um menino, e ele sorria enlevado.
Enlevado estava também Nahan em presenciar aquela cena. Suas mãos se fecharam mais em volta do embrulho de couro comprido que trazia junto ao peito. Um suspiro escapou de seus lábios fazendo par com uma lágrima solitária por sua face. O príncipe loiro manteve-se oculto até que Fahir terminasse de cantar a última estrofe da canção, em seguida aguardou que o cavaleiro devolvesse delicadamente um adormecido Fabrício ao berço. Pode observá-lo puxar a manta de cambraia por cima do bebê. O moreno ainda sorria.
Nahan limpou uma lágrima da face e finalmente se revelou entrando no quarto. Fahir voltou-se surpreso, e o loiro percebeu que talvez ele pudesse sentir vergonha de ter sido flagrado em um momento tão doce. Por isso fingiu que acabara de chegar, embora a emoção que ainda brilhava nos olhos verdes dificilmente pudesse disfarçar o que decerto presenciara. O cavaleiro se afastou do berço um pouco desconcertado, levando um dedo à sobrancelha para ajeitá-la. De repente, aquelas mãos enormes de dedos longos pareciam deslocadas, sem lugar para ficar. Fahir limpou a garganta e simulou um sorriso enviesado.
– Demorou, Cacheadinho... Já estava achando que o Apocalipse estava chegando antes de você voltar...
– Desculpe, Fahir. — aquele sorriso doce direcionado a ele fizeram retornar os pensamentos intrusos de um Nahan deitado na cama de lençóis imaculados, quebrando sua ironia por um momento e roubando qualquer outra piada que tentasse ainda aflorar.
– Eu fui buscar algo que mandei fazer especialmente pra você. – explicou Nahan, ainda com um sorriso satisfeito estampado na face. Fahir pressentiu que os momentos desconcertantes daquela noite talvez só estivessem começando.
– Pra... mim?
– Sim. – o loiro dirigiu-se para um dos cantos do quarto e sentou-se no divã de couro, ajeitando o misterioso embrulho que trazia no colo. – Venha, Fahir... sente-se aqui comigo.
Fahir sentou-se no divã ao lado de Nahan, enquanto procurava controlar a ansiedade que já o dominava. Não conseguia ter nem uma idéia do que aquela criatura cacheada poderia estar aprontando... Monstros e criaturas malignas eram mais fáceis de se enfrentar e se desvendar as intenções do que aquele par de esmeraldas brilhantes olhando para ele. A atitude cerimoniosa de Nahan estava começando a enviar calafrios por sua espinha... Ele engoliu em seco e apenas aguardou.
Diante do olhar atento de Fahir, Nahan abaixou o olhar para o embrulho que descansava em seu colo e sem falar nada, começou a desdobrar as faixas de couro, até que enfim se revelasse seu conteúdo. Diante do olhar atônito de Fahir, envolta por ambas as mãos de Nahan, revelou-se em riste o fio afiadíssimo de uma longa e vistosa espada. Fahir quase perdeu a respiração ao ter diante de si um artefato como aquele. Nem precisava tocar nela para saber que era uma espada de primeiríssima qualidade e certamente forjada por alguém de grandes habilidades no ofício. O aço do fio resplandecia, quase cegante, e seu punho era trançado em couro negro com fios de prata e ouro.
– Linda, não é? – Nahan ainda sorria ao observar o encanto que tomara conta da expressão de Fahir – Essa é uma espada muito especial. Nosso mestre ferreiro é um habilidoso artista na manufatura de espadas. Ele não somente forja as espadas... mas também as batiza com um nome especial que determinará a índole do cavaleiro que a empunhará nas batalhas que o aguardam.
Para o cavaleiro negro, não havia como discordar da afirmação de Nahan, enquanto seu olhar ainda se encontrava preso na admiração de semelhante obra de arte bélica. A espada era um autêntico montante, uma espada longa, forte e perfeita para batalhas a pé e a cavalo. Qualquer cavaleiro de posse dessa espada poderia se tornar mesmo invencível... Se conseguir se conter, Fahir pegou a espada das mãos de Nahan e a empunhou, levantando-a no ar diante de si. O sorriso de Nahan não poderia ser maior em seu rosto.
– Fahir... Sei que você perdeu sua espada lutando contra a Lacraia gigante, e eu pedi que nosso mestre a forjasse especialmente para você. Mas... aconteceu algo inédito. Nosso mestre ferreiro não conseguiu batizar essa espada.
Finalmente o olhar de Fahir se desviou da espada e fixou-se em Nahan.
– Não?
– Não. Ele fez de tudo mas a espada simplesmente não aceitou nenhum nome. Então eu disse a ele que era melhor... deixar o dono da espada nomeá-la.
Alguns momentos de silêncio se seguiram enquanto Fahir tentava absorver o fato de que o príncipe loiro que o fitava com o sorriso meigo habitual estava mesmo o presenteando com a espada magnífica que segurava na mão... Ele voltou a olhar para o fio da lâmina, e não resistiu a passar a ponta do dedo delicadamente por toda sua extensão. Nahan seguiu aquele dedo com o olhar, sem nem piscar, até que a voz murmurada de Fahir quebrou o encanto.
– Apocalipse...
– Ah... – o sorriso de Nahan começou a morrer em seus lábios – Você... não gostou da espada?
– Não, criatura... – o moreno teve que sorrir divertido e apressou-se a explicar – Claro que eu gostei. O nome da espada... é Apocalipse!
– Apocalipse? – repetiu Nahan, enquanto o sorriso retornava – Apocalipse... gostei! Realmente, Fahir, nas suas mãos... essa espada será o completo apocalipse para os inimigos que ela enfrentar.
Fahir desviou o olhar da espada ainda em riste diante de si e encarou Nahan. Aos poucos ele sabia cada vez menos como evitar que aquele olhar fascinado da criatura cacheada enevoasse seu discernimento, mas felizmente ainda lhe sobrava algum para saber que definitivamente, ele não era merecedor de um presente tão valioso. Por isso retirou os dedos da lâmina e abaixou o olhar.
– Cacheadinho... estou comovido com sua generosidade, mas... Eu... não posso aceitá-la.
– Como assim, Fahir? Claro que pode. Você até já nomeou sua espada. É sua. Somente você pode empunhá-la... – Uma mão de Nahan envolveu a mão de Fahir que a segurava ainda em riste. – Porque você é o melhor cavaleiro do mundo.
Fahir suspirou e sustentou os olhos verdes brilhantes fixos nos seus. Como sequer começar a explicar àquela criatura loira porque não se sentia capaz de empunhar semelhante maravilha em forma de aço afiado? Tudo bem que o nome pulara de seus lábios por algum motivo que ele desconhecia... Mas era óbvio que não era digno dela. Só não era óbvio mesmo para o príncipe loiro que o encarava com tamanha adoração e confiança.
Como não se sentiu capaz de responder, para ganhar tempo, Fahir descansou-a do lado do divã, em pé, enquanto imaginava na mente alguma desculpa razoável para não ter que aceitá-la.
– Fahir... A espada... não é a única coisa que quero lhe dar.
O cavaleiro voltou-se e levantou uma das sobrancelhas, surpreso. Com muito custo segurou a língua para não deixar escapar a piada que já queria assomar seus lábios. Nahan, sem nada notar, continuou.
– Vou explicar... O chefe da guarda do meu castelo foi morto em combate contra a Lacraia, infelizmente. Ele era um bom homem, o Sir Herbert... Muito fiel e capaz. – o olhar de Nahan se entristeceu com a lembrança – Então, eu pensei... preciso tanto de um novo chefe pra minha guarda... Alguém que seja capaz de liderar e treinar meus cavaleiros, alguém digno da minha inteira confiança. – o loiro o encarava novamente. – Eu pensei... em você, Fahir.
– Em mim? Você quer que eu seja o chefe da sua guarda real?
– Sim... Você aceita? Por favor diz que sim... Eu preciso tanto de uma pessoa em quem eu possa confiar, Fahir...
– E quem disse que você pode confiar tanto assim em mim?
– Ninguém precisa me dizer. Eu sei. – O loiro declarou categórico.
– Você não sabe o que diz, criatura. Você não conhece nada a meu respeito.
– Eu sei tudo que preciso saber. Fahir... você me ajudou tanto, lutou contra a Lacraia Gigante, me ajudou a salvar meu bebê... Nossa, eu não sei o que teria feito sem você...
– Comecei a te ajudar, Cacheadinho, porque queria acumular façanhas no meu histórico de caçador de monstros. E a Lacraia era um feito digno de figurar na minha lista. Foi só por isso.
– Ai, Fahir... você de novo com essa história. E daí? Eu não ligo para seu motivo inicial. O que importa é o resultado final. Olha só pra nós...Você fez tantas coisas boas por mim, pelo meu filho... Isso não é uma coisa linda?
O cavaleiro simplesmente não conseguiu encontrar uma resposta boa o suficiente para aquela pergunta. Logo ele que sempre fora tão bom com as palavras... Mas quando se tratava daquela criatura cacheada à sua frente, todas elas fugiam, mais rápido que os monstros que costumava perseguir pela vida de caçador... Ele estendeu uma mão gentil ao rosto de Nahan e fez-lhe um leve afago na bochecha. O príncipe loiro fechou os olhos e suspirou com o contato.
– Você é muito ingênuo, Cacheadinho. – A voz de Fahir agora era terna enquanto os dedos longos acariciavam o rosto rosado — Tem o coração puro demais. Só te digo que não deveria confiar tanto assim em mim. Eu não sou a pessoa certa para ser seu chefe de guarda. Tenha certeza disso.
– Eu sei do que tenho certeza, Fahir. – Nahan entreabriu os olhos — Por favor... fica. Seja meu chefe de guarda. Você não viu hoje mesmo no banquete? Todos estavam tão agradecidos por tudo que fez por nós. Todos gostam tanto de você...
– Todos não, né, Cacheadinho... – Fahir retirou a mão do rosto de Nahan. – Você...
– Eu. – Nahan repetiu, a voz rouca pela emoção.
Fahir desviou o olhar desconcertado. Sem conseguir evitar, um dedo ansioso passeou por sua sobrancelha. Aqueles olhos de jade centrados amorosa e cegamente nele o estavam deixando sem palavras.
– Cacheadinho...
– Sim?
– Melhor... Não.
O sorriso de Nahan se desfez e sua expressão pesou com decepção. Até que nem demorara a acontecer... estava aí uma coisa com a qual Fahir estava mais acostumado a lidar. Decepção e tristeza, causados por ele. Sim, poderia lidar com esses sentimentos... ou não? Já era difícil dizer, quando os olhos verdes já marejados de lágrimas o fitavam com tanta intensidade e expectativa.
– Não pode me dizer... ao menos porque não?
Fahir permaneceu em silêncio, uma resposta mais clara do que qualquer palavra que tentasse formular para explicar àquela criatura cacheada que isso era simplesmente impossível. Mesmo que quisesse falar, nem saberia como começar...
– Acredite, você não vai querer saber... Não mesmo, Cacheadinho... Não mesmo.
Nahan estava se esforçando ao máximo para reconhecer nas linhas endurecidas e tensas do rosto de Fahir o cavaleiro divertido e espirituoso com o qual convivera nos últimos dias. Aquele homem sentado ao seu lado no divã possuia um semblante coberto por uma sombra de amargura até então desconhecida para o príncipe. Mesmo assim, o sentimento que já aprendera a reconhecer dentro de si não o deixaria desistir antes de tentar tudo que pudesse...
– Fahir... Seja lá o que for que você não quer me contar... Eu vou respeitar isso. Mas acredite em mim, você nunca vai ser feliz se deixar o seu passado atrapalhar seu presente e principalmente... o seu futuro.
O olhar de Nahan dizia claramente a Fahir que nas íris esverdeadas dançavam sonhos de um futuro próximo... e um pensamento louco cruzou sua mente que neste futuro próximo, ele pudesse estar incluído. Realmente um pensamento tão insano quanto aquele que o assaltara ao ver a pintura a óleo e se imaginar no lugar da Lacraia humana... Não demorou muito para que os devaneios com o príncipe loiro deitado na cama de lençóis alvos o perturbassem tão fortemente que ele nem foi capaz de responder. Incentivado pelo silêncio do moreno, Nahan continuou.
– Mais do que uma espada...– O cavaleiro sentiu uma mão macia e morna pousando na sua, e antes que pudesse atinar com o que fazia, simplesmente aceitou aquele toque, envolvendo-a na sua. — Mais do que uma ocupação no meu Reino... – Fahir sentiu a mão de Nahan apertando a sua.
– Fahir... Eu quero lhe oferecer um destino. – Outra mão de Nahan foi se juntar ao aperto das mãos, reforçando o que o príncipe dizia com a voz embargada pela emoção. – Quero lhe oferecer um destino ao meu lado. Você não precisa mais continuar caçando monstros e criaturas sombrias... Você pode escolher, Fahir. Pode escolher ficar aqui... – a última palavra saiu em um sussurro quase inaudível, enquanto os olhos de esmeraldas marejadas o fitavam e o prendiam poderosamente. — ... Comigo.
Fahir abaixou o olhar, vencido pelo verde intenso dos olhos de Nahan. Olhou para as mãos do príncipe que ainda cobriam a sua. Ainda que todos seus sinos de perigo já estivesse badalando há tempos dentro dele, apenas assistiu quando sua mão que não estava presa nas mãos delicadas do príncipe procurou o toque do braço dele, deslizando e subindo lentamente pela pele alva coberta por finos pêlos loiros que logo se eriçaram em resposta, junto com um suspiro de surpresa de Nahan. O hálito suave do loiro o brindou, aumentando a velocidade com que seu coração já galopava em seu peito. Fahir levantou o olhar apenas para encontrar o dele, no qual se viu capturado, e um pânico feroz quis consumi-lo ao ver aqueles lábios entreabertos cada vez mais próximos dos seus. Quando os olhos verdes se fecharam suavemente, ele conseguiu reunir forças para finalmente se afastar e separar as mãos das dele, que repousaram órfãs entre os dois.
– Cacheadinho... Eu... Eu agradeço muito, mas não posso aceitar... Eu não posso... – Fahir forçou-se a encarar os olhos verdes agora escurecidos pela tristeza. E pensar que chegara mesmo a se acostumar com a função recém-descoberta de afastador da angústia daqueles olhos. Como foi mesmo que passara tão rápido a ser o causador dela? Mas não havia outra saída... Precisava que fosse assim. Melhor ver aqueles olhos tristes agora, pois em breve ela se dissolveria deles, abrindo lugar para as coisas boas das quais Fahir sabia ser Nahan mais do que merecedor. O mesmo não poderia dizer nunca dele próprio... E jamais conseguiria encontrar uma maneira de fazê-lo compreender isso. O bem máximo que poderia fazer ao loiro seria mesmo partir para bem longe e nunca mais voltar.
Muito embora o olhar de Nahan expressasse tristeza e decepção, um lampejo de esperança ainda persistia nas íris brilhantes de lágrimas.
– E se eu te disser que, seja lá o que for que aconteceu em seu passado.... seja lá o que for que você fez... Para mim, nada disso importa?
– Não importa agora, né, Cacheadinho... Mas se você apenas soubesse... – Fahir não conseguiu continuar e abaixou a cabeça sombriamente, mas antes que o fizesse, Nahan podia jurar que vislumbrara o brilho de uma lágrima nascente no canto de um de seus olhos negros. Seu coração se apertou mais ainda, e o desespero por já sentir a despedida avultando no ar o levou a um último apelo desesperado.
– Fahir... Depois de tudo que você fez por mim, você não vai me deixar te agradecer de nenhuma maneira? Não aceitou a espada, não aceitou ser meu chefe de guarda... Não aceitou...
– Eu simplesmente preciso ir embora, Cacheadinho. – A voz cortante de Fahir interrompeu o que Nahan ia dizer. Já refeito, ele levantara o rosto, e qualquer sombra intrusa já fora ocultada habilmente — Preciso seguir na minha vida de Caçador. Essa é minha sina e não posso me desviar dela.
– Mas... não tem uma única coisa que você queira? Por favor, me diga... me diga apenas uma coisa que você deseja, e eu lhe darei. Apenas diga.
“Se você disser que quer o meu coração... Nem precisa pois ele já é seu.”
– Uma coisa que eu quero... – repetiu Fahir com o olhar vago.
– Sim. Diga e você terá.
– Cacheadinho... – Nahan não reparara que lágrimas já escapavam de seus olhos, e só se deu conta disso quando sentiu os dedos de Fahir recolhendo a umidade de seu rosto delicadamente. – Eu quero...
– Sim...
– Eu quero que você seja feliz. Quero muito que você seja feliz...
Nenhum dos dois soube dizer quem iniciou o abraço, mas ele foi forte, apertado e desesperado, como se fosse o último a ser trocado entre eles... um pensamento que martelava a mente de Nahan cruelmente enquanto segurava a nuca de Fahir e mais lágrimas enchiam seus olhos. O abraço durou um longo momento durante o qual puderam sentir o calor do corpo um do outro, o bater dos corações muito próximos, e a tristeza compartilhada por ambos, que se traduzia pela relutância em finalmente se separarem.
– Eu... Eu preciso ir embora.
As palavras de Fahir cortaram o íntimo de Nahan como adagas afiadíssimas. A essa altura, já não se importava mais em esconder ou segurar as lágrimas que deslizavam por sua face. Ao vê-lo levantar-se do divã, uma mão do loiro ainda procurou seu braço, um pedido mudo, uma débil tentativa de que não partisse... Mas ele parecia deslizar de suas mãos naquele momento, e Nahan sentia que não havia nada que pudesse fazer para evitar que ele simplesmente desaparecesse de sua vida tão repentinamente quanto nela chegara.
Mais lágrimas escaparam de seus olhos antes que os apertasse tristemente, ao sentir o beijo terno depositado por Fahir em sua cabeça.
– Adeus. – foi o sussurro rouco que chegou aos seus ouvidos, antes que Nahan ouvisse a porta sendo fechada suavemente. Sua garganta embargada não foi capaz de emitir uma resposta. Sozinho no amplo quarto real, ele permitiu que os soluços o tomassem de assalto e deixou vazar livremente a emoção que ameaçava sufocar seu peito e sua alma. Sem sentir trouxe a espada Apocalipse junto ao próprio peito... a espada nomeada por ele, a espada que somente poderia ser empunhada por ele... se ao menos ele mesmo pudesse acreditar nisso. Nisso e que era o único que poderia também segurar seu coração nas mãos...
O príncipe loiro segurou a espada mais fortemente junto a si, como se aquele fosse o último elo que ainda o ligava ao cavaleiro negro que a deixara para trás. Ele fechou os olhos, expulsando deles mais lágrimas sentidas. Durante um bom tempo, o silêncio imperou junto com a tristeza no quarto real, sendo quebrado apenas pelos soluços desolados de Nahan.
* * * * * *
A brisa leve da manhã encontrou Nahan adormecido em sua cama, ainda abraçado à Apocalipse. Os olhos verdes abriram-se sonolentos, e a lembrança da noite anterior atingiu-o imediatamente, junto com a consciência desperta. Nem se lembrava de ter caminhado até sua cama... e ao que tudo indicava, a tristeza imensa que sentira e ainda sentia agora o fizera dormir unido a única coisa que ficara para lembrá-lo... dele.
Nahan suspirou pesadamente, e sentou-se na cama. Lançou um olhar pesaroso à longa espada repousada nos lençóis brancos, antes de finalmente pôr os pés para fora da cama. Sua atenção voltou-se para o berço de Fabrício... Será que já acordara? Nahan aproximou-se apenas para verificar que o bebê loiro ainda dormia, com a sombra de um sorriso ainda pairando no rostinho redondo. Mesmo triste, Nahan sorriu, sentindo o coração mais leve. Só mesmo seu filho tão amado para fazê-lo esquecer da dor que se apossara dele desde a noite anterior e que provavelmente, ainda seria sua companheira por um bom tempo.
Foi quando um estranho pressentimento apertou seu peito, e Nahan levou uma mão ao coração, deixando escapar um suspiro entrecortado. Sem pensar duas vezes ele correu para o balcão externo, e brandos raios de sol da manhã beijaram seu rosto. Nahan olhou para baixo, bem a tempo de avistar Fahir, todo aparamentado com sua armadura negra, montado no Alazão, atravessando a ponte de madeira que o levaria para fora do Reino. Que o levaria definitivamente para fora de sua vida...
Era inevitável que as lágrimas voltassem, se é que haviam mesmo ido embora, e Nahan nada fez para segurá-las. Seu olhar não abandonava o cavaleiro que avançava calmamente pela ponte. Com a visão embaçada pelas lágrimas, Nahan lembrou-se de tudo que acontecera... desde o momento do seu quase suicídio até a noite anterior, quando tivera seu coração oferecido e devolvido na mesma bandeja...
Desde que olhara para aquele rosto moreno de sorriso largo e olhos negros como a mais escura noite... como poderia adivinhar que tudo terminaria assim?
“Fahir... olhe pra trás. Olhe pra mim... Se você olhar pra trás... significa que você vai voltar.” Foi o pedido em pensamento que Nahan formulou sem tirar os olhos da figura de negro na ponte. Seu coração ameaçou falhar uma batida quando Alazão estancou no meio da ponte como se sua prece houvesse sido atendida. Por alguns momentos Fahir permaneceu imóvel, mas para último desalento do príncipe, ele não se voltou, logo continuando a atravessar a ponte.
Nahan fechou os olhos e balançou tristemente a cabeça. Se era assim que o Destino desejava que seus caminhos se separassem, nada mais havia a fazer, a não ser uma última prece, um último pedido para aquele que onde quer que fosse... levaria Nahan junto, quer ele quisesse ou não... O príncipe pôs uma mão no coração, enquanto seus lábios se mexiam para murmurar uma breve oração. “Para você, Fahir...”
“Que a estrada se abra à sua frente,
Que o vento sempre sopre às suas costas,
Que o sol brilhe morno e suave em sua face,
Que a chuva caia de mansinho em seus campos,
E, até que nos encontremos novamente,
Que Deus lhe guarde na palma da sua mão.” ¹
Após a oração, e antes que Fahir terminasse de cruzar a ponte, Nahan fechou os olhos. Deixando que as últimas lágrimas corressem livres por seu rosto, ele finalmente deu as costas ao ar da manhã, e voltou para dentro do quarto real, desejando que o vento se encarregasse de levar sua prece até onde sua saudade pudesse alcançar...
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O Sultão olhou para o Carneirinho, levantando uma sobrancelha.
– O que? Dessa vez eu não falei nada...
– Amo... Não fique triste.
– Triste, eu? Quem está triste? Não tem ninguém triste aqui não.
O Carneirinho levou uma mão gentil ao rosto do Sultão. Os dedos tocaram os cílios negros e longos onde uma tímida gotícula de lágrima tentava aflorar. Felix fechou os olhos e suspirou ao contato daqueles dedos, mas essa baixa da guarda do Sultão não durou muito. Ele afastou o rosto e moveu-se na cama para levantar-se.
– Amo... tudo bem?
– Tudo ótimo! Caiu um cisco no meu olho... — Ele esfregou irritadamente o olho — Eu devo ter arrancado os sete véus da Salomé e assoado o nariz em todos eles para isso acontecer comigo logo agora... — Félix levantou-se da cama e aproximou-se da mesa no canto do quarto onde uma jarra cheia de vinho descansava. Começou a se servir da bebida, e já ia levar o cálice aos lábios quando a voz do loiro o fez estancar com o mesmo a meio caminho.
– A história ainda não terminou, Amo.
– Não?? — Ele virou-se tão depressa que um pouco do vinho escapou da taça. Nicolas não conseguiu segurar o sorriso. Os olhos negros brilhavam vívidos agora enquanto ele voltava rapidamente para a cama.
– Não...
– Mas criatura... por que não disse logo? Vai, vai... conta, o que aconteceu depois? Para onde o Fahir foi? Ele vai voltar? E por que ele não quis ficar? E por que...
– Amo! — Nicolas não pôde deixar de rir com a mudança na fisionomia do Sultão, que voltara novamente a ser apenas um menininho curioso com a continuação da história.
– Ai Carneirinho... tá bom, vou ficar quieto. Mas por Alá, esse suspense acaba comigo...
O Carneirinho ainda sorria enquanto se ajeitava melhor junto a enorme almofada de seda atrás de si. Novamente cruzou as pernas e limpou a garganta antes de recomeçar a falar, enquanto sua platéia de um só se esforçava para conter a impaciência e a curiosidade. Em compensação, a madrugada ainda era uma criança silenciosa e paciente em volta deles, enquanto o Sultão novamente mergulhava com gosto no mundo mágico e irresistível que seu Carneirinho novamente lhe permitia entrar...
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