Carneirinho e as Cento e Uma Noites

10 Tudo por um Cachinho – Parte III


Notas iniciais
“O arqueiro mira o alvo na senda do infinito e vos estica com toda a sua força Para que suas flechas se projetem, rápidas e para longe. Que vosso encurvamento na mão do arqueiro seja vossa alegria: Pois assim como ele ama a flecha que voa, Ama também o arco que permanece estável.” (Khalil Gibran)

– Vê se rema mais rápido, seu idiota, parece uma lesma com esses remos! — Amarilys quase vociferou para o criado que conseguira enfeitiçar às pressas ao se esgueirar por uma saída secreta do castelo, assim que percebeu que toda a sua artimanha tão bem engendrada corria o risco de cair por terra.

Alguns momentos antes, da janela de seu quarto na torre mais alta, a feiticeira observara todo o embate entre aquele cavaleiro negro desconhecido e a Lacraia Gigante, e até o instante em que viu o intrometido cavaleiro desaparecer abismo abaixo, sendo logo seguido pela besta na queda mortal, estivera confiante. Perdera a criatura que guardava a entrada do castelo, mas pelo menos se livrara da inesperada ameaça na forma do homem alto de cabelos negros que chegara com Nahan.

A criatura peçonhenta na qual enfeitiçara o príncipe Eron podia estar perdida... Mas ela ainda podia contar com todos os súditos no interior do castelo, todos eles mantidos cativos por sua bruxaria. Tudo bem que aquilo lhe exigia uma energia imensa, mas todo e qualquer esforço seria pouco no sentido de manter aquilo que suara tanto para conquistar, e de forma alguma ela permitiria que nada nem ninguém lhe roubasse isso.

Mas a satisfação da feiticeira virou cinzas quando viu o cavaleiro ressurgir na borda do abismo, auxiliado pelo príncipe loiro bobalhão. Foi então que Amarilys começou a perceber que talvez estivesse lidando com alguém dotado de uma inteligência superior à que já se habituara a encontrar há meses a sua volta. E considerando que sua magia encontrava-se um pouco prejudicada pelo uso constante para manter a Lacraia e todos os súditos do castelo sob seu domínio constante... Rapidamente ela concluíra que a saída mais sagaz seria fugir... Perderia o castelo mas pelo menos levaria Fabrício... o que acabara por se tornar a coisa mais importante para ela no meio daquilo tudo.

Como que fizesse eco ao seu pensamento, um choro baixo chegou aos seus ouvidos, e dirigindo-se à parte traseira do pequeno barco que usava em sua fuga, Amarilys abaixou-se e retirou a manta que cobria o cesto de vime, dentro do qual um par de olhos verdes infantis e cheios de lágrimas a encarou.

– Oh, meu amor... — Ela abaixou-se e pegou o bebê choroso nos braços — Meu filhinho... Eu sei, eu sei... Não se preocupe, mamãe vai te proteger e te levar para um lugar bem lindo... E bem longe desses idiotas que acham que podem tirar você de mim! Da sua mamãe... — balançando-o nos braços, ela começou a niná-lo, o que fez com que o choro diminuísse se transformando em um mero choramingar baixo. Amarilys alisou os finos cachos loiros do bebê e beijou sua cabeça — Ninguém vai te tirar da sua mamãe...

A feiticeira loira olhou para a face do bebê, que agora parara de chorar e apenas olhava de volta para ela com curiosidade.

– Dá um sorriso para a mamãe... Dá, meu amor? – pediu, ainda o ninando suavemente, mas não houve sorriso, somente o rostinho redondo sério e a testa agora franzida. O bebê nem ao menos piscava. Amarilys procurou conter a súbita irritação. Que fossem para o inferno aqueles dois príncipes idiotas... Aquele bebê era seu filho... Seu filho! E mesmo depois de tantos meses juntos... Nunca fora agraciada com um simples sorriso naquele rostinho alvo e rechonchudo.

“Não importa, meu filhinho... meu bebê... Nada importa a não ser você, pra mim. Eu sei que você um dia vai sorrir pra mim... porque eu sou a sua mamãe...”

Amarilys continou ninando-o até que os olhos verdes se fechassem. Ela então colocou o bebê adormecido de volta no cesto com cuidado, e voltou a cobri-lo com a manta. Nem um segundo se passou e sua face já se transfigurara para uma careta de irritação e ela se voltou para o servo que remava a embarcação.

– Mais rápido, vamos, mais rápido com isso! – Concentrando-se ao máximo, Amarilys redobrou a energia de seu pensamento que dominava o rapaz, que quase mecanicamente, começou a remar com um pouco mais de rapidez. Ela esfregou a testa, de repente cansada. Passara meses despejando toda sua bruxaria em dezenas de pessoas, entre súditos, serviçais e guardas... E sabia que à medida que se afastava mais e mais do castelo, àquela altura, todos já deviam estar livres de seu feitiço, que possuía um âmbito não muito extenso.

Mas isso não importava mais. Mesmo com a lerdeza daquele serviçal enfeitiçado que levava o barco, ela possuía uma boa dianteira em relação a qualquer um que a estivesse seguindo. Não demoraria muito até que alcançassem a margem oposta do extenso lago, onde já estaria lhe aguardando uma carruagem pronta para que pudesse sumir dali para sempre... com seu filho. Uma precaução que agradecia a todas as forças do Mal agora por ter tomado de antemão. Quando avistara aquele cavaleiro negro atravessando a ponte em direção à Lacraia Gigante, Amarilys imediatamente enviara o corvo mensageiro com o alerta para sua aliada, a bruxa Ingrid, que já devia ter providenciado tudo.

E tudo indicava que seu plano de fuga daria certo. A cada remada morosa do servo lerdo, ela se aproximava mais... só mais um pouco e finalmente poderia ver aquele castelo e os dois idiotas, o príncipe loiro e o cavaleiro negro afetadinho... pelas costas.

Parada na proa do barco com o olhar fixo à frente, Amarilys sorria, pois já divisava a figura da outra bruxa acenando para ela, com a carruagem atrás. Estava tão ansiosa por atracar logo no pequeno cais que beirava a margem, que só percebeu sua liberdade ser ameaçada quando um barulho contundente chamou sua atenção. Ela voltou-se para a popa do barco e soltou um impropério quando sentiu a embarcação navegando em sentido contrário. A margem agora se afastava, e com ela, todo seu plano de fugir dali com Fabrício junto.

Em pânico Amarilys nada pôde fazer além de observar que eram arrastados de volta por uma corda retesada ligada a uma grossa flecha que se cravara no casco da pequena embarcação. Na outra ponta da corda, o maldito cavaleiro negro, e a seu lado, o príncipe loiro, cujo sorriso abobalhado já tinha o desprazer de avistar de longe.

Enquanto a feiticeira loira amaldiçoava todos os elementos da natureza por tamanho azar, no outro barco, que contava não com um, mas com dois remadores, o sentimento era bem outro. Fahir puxou a corda presa na flecha com mais vigor.

– Você acertou, Fahir! – Os olhos verdes de Nahan brilhavam de contentamento.

– Mas é claro, Cacheadinho! Minha mira é excelente. Apenas uma de minhas inúmeras qualidades.

– E pensar que quase não deixo você voltar no Alazão para pegar essa... esse... como é mesmo o nome disso? – ele referia-se ao apetrecho que Fahir usara para atirar a flecha que encontrara seu alvo com tanta precisão.

– Besta!¹

– Nossa, Fahir... também não precisa me xingar, né... Eu só fiz uma pergunta...

Fahir ia abrir a boca para retrucar, mas a expressão magoada e os olhos do verde mais brilhante o encarando fizeram com que desistisse.

– É... desculpe, Cacheadinho.

A face de Nahan se iluminou novamente com um sorriso.

– Não importa... O que importa é que meu filho está ali naquele barco, Fahir! Meu bebê!

– Agora você disse tudo... então, criatura, me ajuda aqui para que possamos puxar mais rápido!

O príncipe de cachos loiros não esperou um segundo pedido antes de se juntar ao cavaleiro e também tomar posse da corda, ajudando-o a puxar.

Enquanto isso a feiticeira sentia o desespero toldar seu pensamento. O que fazer, o que fazer? Lançou um olhar ao cesto de vime onde dormia a criaturinha pivô de todos aqueles acontecimentos. Rapidamente ela abaixou-se e descobrindo a manta, pegou o bebê loiro nos braços, abraçando o pequeno corpinho de encontro ao peito. O príncipe bebê protestou entre seus braços com um gemido manhoso. Amarilys reforçou o abraço em torno da criança. "Ninguém vai te arrancar de mim... Ninguém, meu filho!"

Resignada e abraçada fortemente ao bebê ela apenas aguardou. Antes mesmo que as duas embarcações enfim encostassem os cascos, Nahan já expressava toda sua raiva e indignação com a feiticeira.

– Amarilys! Sua bruxa venenosa, devolva agora mesmo o meu filho!

– Ele não é seu filho! Nunca foi! Eu fui a responsável por trazê-lo a esse mundo! Se não fosse por mim ele não existiria! – Em seus braços um choro baixinho se fez ouvir, mas a bruxa não afrouxou o aperto.

– Você o gerou com nossas lágrimas! Minhas e do Eron! Se não fosse por nós dois ele não existiria!

– Não quero saber, eu é que o criei, eu alimentei o ovo de dragão com minha magia durante nove meses! Fabrício é meu filho! MEU FILHO! — o choro do bebê se fazia mais alto agora e as perninhas e bracinhos gordos da criança se debatiam no colo da bruxa.

– Fabrício, meu filhinho... Papai tá aqui! – Nahan já podia sentir lágrimas marejando seus olhos só de ouvir o choro daquele de quem sentira tanta saudade nos últimos meses. – Me passa o meu filho, Amarilys! Olha aí, você está imprensando ele! Ele tá chorando! ME DÁ O MEU FILHO!

– Não vou dar o meu filho pra você nunca, tá me ouvindo, seu príncipe burro? NUNCA! – Ela começou a dar passos para trás afastando-se deles. De repente, Nahan temeu por seu filho... e se aquela bruxa doida caísse na água com seu filhinho junto?

Enquanto essa pequena discussão acontecia, nenhum dos dois reparara em Fahir, que usara esse tempo para acessar sua bolsa de couro que recuperara na montaria do Alazão e dela sacar uma flecha para armar a besta. Uma vez engatilhada, ele a empunhou e apontou-a para Amarilys.

– Cacheadinho, fique atrás de mim.

O príncipe obedeceu imediatamente, postando-se atrás do cavaleiro. Amarilys engoliu em seco. Não, não podia ser... aquele brilho quase cegante que era emitido pela flecha apontada para ela...

– Está vendo isso aqui, sua fura-ovo? É isso mesmo que você está pensando. Uma flecha de prata banhada em água sagrada. Devo avisar que assim como minha silhueta, minha mira é impecável, portanto passe esse bebê pra cá agora mesmo!

Amarilys olhou para aquele moreno alto de cabelos negros com puro ódio. Aquilo não podia terminar daquele jeito... Ela recusava-se a ser derrotada sem ao menos lançar mão da única habilidade que ainda lhe restava. Estreitando os olhos, ela fixou o olhar dentro dos olhos de Fahir, e concentrando-se ao máximo, desprendeu toda a magia que pôde na sua direção. Afinal livre da bruxaria, o servo que estivera remando no barco deu um grito assustado e pulou na água, nadando para longe dali. Amarilys não lamentou... ele fora inútil de qualquer jeito. Toda sua magia precisava ser direcionada para aquele cavaleiro negro que lhe apontava a flecha mortal. Alguns segundos de pura tensão se passaram... Nahan olhava pra a bruxa, em seguida para Fahir, de novo para a bruxa... embora nervosíssimo não ousava quase respirar.

E Amarilys não ousava nem piscar com o olhar preso em um par de olhos negros que também não piscavam. Ela não estava entendendo... já não era para ele estar sob seu domínio a essa altura? Um tipo daqueles, usando uma armadura negra, com visível experiência em enfrentar criaturas malignas... era de se contar que o mal em seu coração o tornaria facilmente suscetível ao seu poderoso feitiço de dominação mental. A não ser que...

– O que foi, louca da vassoura... pirou? Ou tá me achando lindo?

A bruxa loira praguejou intimamente. Quanto azar poderia uma criatura ter para ter seu caminho cruzado por não uma, mas duas pessoas de coração puro?

– Último aviso, fura-ovo. Cacheadinho, prepare-se para pegar o bebê assim que eu abatê-la com a flecha...

Nahan assentiu e posicionou-se, ansioso. Amarilys observou já desesperançada o dedo de Fahir se movendo lentamente no gatilho. Ela suspirou, afinal vencida.

– Espere! Não atire, eu... eu vou entregar o Fabrício... – Chegando para a frente no barco, Amarilys era a pura imagem do pesar extremo ao transferir o bebê para os braços de Nahan, que o pegou cuidadosamente e o trouxe junto ao peito. Imediatamente o choro intermitente da criança parou. Lágrimas já inundavam o rosto do príncipe enquanto ele depositava um beijo terno na cabeça do bebê.

– Meu filhotinho... meu filho... – disse com a voz embargada. Fabrício pareceu aninhar-se nos braços do pai e soltou um pequeno suspiro de satisfação.

Ainda que o bebê agora estivesse a salvo, Fahir ainda não abaixara a besta, continuando a apontá-la para a feiticeira, cujo rosto também já se encontrava banhado em lágrimas, só que por um motivo contrário ao do príncipe.

– Meu filho... meu bebê... – ela murmurou soluçando.

– Bom, Cacheadinho, agora você decide. O que quer que eu faça? Se quiser acabo com a raça dessa jacaroa agora mesmo.

– Não! – ela protestou — Você não pode fazer isso! Eu devolvi o bebê!

– Criatura, devolveu porque estou com isso aqui apontado pra você. Olha tudo que fez com o Cacheadinho... Se eu te deixar ir é bem capaz de querer voltar e roubar o bebê de novo. Você não me engana, não! Uma bruxa traiçoeira como você a menos nesse mundo é um benefício para as Terras Médias de San Magno!

– Fahir... – a mão do príncipe loiro cobriu a besta, e a mesma foi abaixada delicadamente. – Não... deixe-a ir.

Finalmente Fahir desviou o olhar da bruxa para encarar Nahan com perplexidade.

– Criatura... como pode dizer isso depois de tudo que ela lhe fez? Já esqueceu?

– Não, Fahir, não esqueci. Mas agora tenho meu filho de volta, isso é tudo que mais importava pra mim. – ele agora sorria, as lágrimas ainda brilhando nos olhos verdes — Só quero deixar tudo isso pra trás. Deixe-a ir em paz...

Embora não concordasse com aquela decisão, o cavaleiro não viu outra saída a não ser abaixar completamente a besta. Sorriu de volta para Nahan, e balançou a cabeça em branda reprovação.

– Só você mesmo, Cacheadinho... Mas se é isso que você quer, que seja então.

– Sim, é o que eu quero. – ele afirmou confiante, enquanto balançava suavemente o filho nos braços.

Amarilys observou os dois trocando um olhar afetuoso, e repentinamente, a tristeza e desalento que a invadiam se transformaram em um ressentimento que cresceu atroz dentro dela. Quem aqueles dois malditos pensavam que eram para tratá-la com tamanha condescendência? Além de ficar sem seu filho, ainda era obrigada a receber a “caridade” dessa dupla de idiotas? Era muita humilhação... Ela não podia deixar assim... quando viu o barco deles começar a se afastar, dirigiu-se a eles destilando todo o ódio que sentia naquele momento.

– Vocês acham que venceram, não é? Pois não venceram coisa nenhuma! Podem levar o Fabrício agora, mas fiquem sabendo que eu não vou desistir do meu filho! Do meu filho! – Ela bateu com a mão no próprio peito para reforçar o que dizia. – Vocês vão ver, eu vou voltar! Eu volto para recuperar o MEU FILHO!

Fahir e Nahan voltaram-se incrédulos com a mudança de personalidade da feiticeira que há instantes atrás só faltara implorar pela própria sobrevivência. Com um “Eu te disse” já dançando nos lábios, Fahir já ia levantar de novo a besta para apontar na direção dela quando Nahan o impediu, mas com uma expressão bem diferente no rosto dessa vez.

– Fahir, segura o Fabrício pra mim, por favor. – o príncipe estendeu-lhe o bebê, e abaixando a besta, o cavaleiro o recebeu em seus braços.

– Cacheadinho?

Não houve resposta enquanto Nahan passava para a outra embarcação em um pulo rápido.

– Olha aqui, sua jacaroa escamosa de um figa, é melhor nem pensar em aprontar comigo e com o meu filho de novo... Eu posso parecer bonzinho, gentil... eu sou mesmo um fofo! Mas não pisa nos meus calos senão eu te faço ROLAR!

Fahir não poderia estar mais surpreso com a repentina mudança de Nahan, que parecia ter se transformado de um uma hora para outra em um urso feroz defendendo seu filhotinho... Até Fabrício acordara em seus braços e parecia acompanhar, com os olhinhos sonolentos, todo aquele desenrolar inusitado. Amarilys arregalou os olhos, igualmente surpresa, mas não desistiu da atitude desafiadora.

– Ah... A Princesinha ficou corajosa agora?

– Princesinha não! RAINHA!

Antes que a feiticeira pudesse fazer algo, Nahan desferiu-lhe um soco com tanta força que ela acabou caindo do barco e mergulhando na água do lago, desaparecendo de vista.

– Há quanto tempo quero fazer isso! – desabafou o príncipe, enquanto massageava a mão dolorida.

Fahir e Fabrício olhavam para o príncipe e um observador da cena poderia jurar que os queixos de ambos caíram de espanto. Fahir aproximou os lábios do ouvido do bebê para um sussurro cauteloso.

– Mini-Cacheadinho... Me lembre de nunca deixar seu pai bravo...

Como resposta Fabrício levantou o olhar para o cavaleiro e abriu um enorme sorriso desdentado, e uma risadinha de bebê se fez ouvir. Nahan que já pulara de volta ao barco deles e já se refizera do ataque de sedas de segundos atrás, olhou sorrindo para os dois.

– Fahir! Olha só, meu bebê gostou de você!

– Ah, Cacheadinho... claro, né? Quem não me ama, ou é ruim dos cachos, ou doente das unhas!

Os dois soltaram uma gargalhada descontraída que foi acompanhada por mais risadas de Fabrício. Fahir devolveu o bebê para os braços do pai e virou-se para os remadores.

– Camarão... Baiacú... Vamos voltar!

Com o barco já se afastando de volta para o castelo de Nahan, o cavaleiro e o príncipe sentaram-se no banco de madeira da embarcação. Fahir lançou um olhar para o loiro ao seu lado, e não pôde deixar de sorrir. Ele ainda estava emocionado em ter o filho tão amado de novo em seus braços e olhava para seu bebê como se ainda não acreditasse. O moreno observou as linhas de seu perfil tão perfeito, que poderia ter sido desenhado pelo mais talentoso pintor do paraíso... sem sentir deixou escapar um suspiro contemplativo, em seguida franziu a testa, surpreso consigo mesmo. De onde saíra aquilo?

Não pôde pensar em uma resposta antes que um grito feminino chamasse sua atenção. Os dois olharam para trás e puderam divisar a cabeça de Amarilys acima da superfície da água, aos berros desesperados.

– Meu filho! MEU FILHOOOO!!

Mesmo que já estivessem um pouco longe, Fahir não resistiu a esticar o braço e acenar-lhe com um gesto obsceno.

– DEVOLVAM O MEU FILHO! DEV...

Sem que ninguém esperasse, o grito de Amarilys foi interrompido quando uma imensa serpente marinha irrompeu das profundezas do lago e de uma só vez engoliu a feiticeira inteira, mergulhando de volta logo após. A visão da criatura fantástica só durara poucos segundos... Mas Fahir a reconheceu facilmente. O temido monstro do Lago Jess... Uma incrível coincidência do destino o trouxera para esses lados das Terras Médias de San Magno justamente para caçar aquela criatura. E agora... longe de caçá-la, só tinha mesmo que agradecê-la pelo favor.

– Nossa, Fahir... Você viu só isso? Que horror!

– Horror mesmo, Cacheadinho. Esse monstro vai ter uma indigestão daquelas...

Nahan não conteve uma nova risada que foi logo seguida pela dele. O príncipe ainda sorrindo lançou um olhar recheado de gratidão para seu herói cavaleiro. Seu salvador... A razão para estar agora segurando o filho novamente nos braços. Dizer obrigado parecia pouco demais... Nahan sentia que seu nobre herói merecia todas as honras do mundo, simplesmente porque ele era a melhor pessoa que já cruzara seu caminho.

– Fahir...

– Sim?

Nahan chegou-se para mais perto do cavaleiro e encostou a cabeça em seu ombro, fechando os olhos com um suspiro. O bebê de cachinhos loiros aninhado em seus braços, já adormecido, também soltou um suspiro como se desejasse acompanhar o pai.

– Obrigado.

Para Fahir parecia a coisa mais natural do mundo esticar o braço por trás de seus ombros e puxá-lo para aninhá-lo melhor no peito. Também não pensou no sorriso terno que ainda levava nos lábios ao responder, mesmo que ambos os Cacheadinhos já estivessem adormecidos.

– De nada... Cacheadinho.

* * * * * *

No amplo salão comunal do Castelo de Nahan, o clima não poderia ser mais festivo. Um banquete de homenagem ao herói cavaleiro tomava lugar. Todos comemoravam felizes, levantando suas canecas de vinho no ar, brindando e cantando os feitos de Fahir contra a terrível Lacraia Gigante e a odiada bruxa Amarilys, batendo palmas ao som do alaúde do trovador.


Vejam só quem vem lá
Se não é o bravo cavaleiro
Com seu Alazão e sua espada
Matando criaturas malignas no reino inteiro!


Fahir o Magnífico é seu nome
Poucas chances teve a Lacraia Venenosa
Contra tão corajoso herói de armadura
A besta viu enfim chegar sua hora!




– Nossa, Carneirinho... você canta muito bem.

– Obrigado, Amo, mas... Terceira.

– Ah não, Carneirinho... Eu não interrompi, só elogiei sua voz...

Nicolas nada disse, embora sorrisse, as faces coradas pelo elogio recebido.

– Meus ouvidinhos estão quicando de prazer em ouvir... — o Sultão apelou mais um pouco. Mas o escravo não estava se deixando levar pela adulação e mais uma vez Félix sabia que fora em vão. A mão do Carneirinho se levantou no ar e três dedos em riste o fizeram desistir de vez.

– Não tá adiantando, né? Já gastei as três vezes, eu sei... — Félix murmurou conformado. — Agora vou ter que ficar aqui, engolindo todos os sapos que surgirem...

Ao ver a face triste de seu Amo o loiro aproximou-se e beijou sua bochecha carinhosamente. Os olhos negros brilharam e um sorriso nasceu nos lábios do Sultão quando a voz suave do Carneirinho retomou os versos da canção do trovador.



Trema de medo, ó bruxa Amarilys
Mais rápido que um raio virá seu castigo
O cavaleiro negro não poupará esforços
Para salvar o pobre príncipe e seu filho!


O Reino de Nahan está em festa
Vamos todos cantar e dançar
Graças ao herói a bruxa já era
A vitória de Fahir vamos comemorar!

Os versos eram entoados por todos ali presentes, em clima de muita empolgação. No palanque do enorme salão comunal do castelo de Nahan, a mesa real era farta com muita comida e bebida. Fahir abriu caminho em direção à mesa por entre uma pequena multidão de súditos que faziam de tudo para demonstrar sua gratidão para com o cavaleiro, chegando até a se unirem para jogá-lo para o alto enquanto clamavam seu nome em altos brados.

– U-u-uhaa!! U-u-uhaa!! FAHIR! FAHIR! FAHIR!

– Ai, criaturas, já chega com tantos agradecimentos! Me ponham no chão!

Após conseguir se desvencilhar deles, Fahir sentou-se pesadamente à mesa do banquete real, ao lado de Nahan, que observava a tudo entre risos. Do lado dele, dentro de um cesto de vime que fazia as vezes de mini-berço, Fabrício também parecia entrar no clima de festa e os olhinhos verdes iguais aos do pai acompanhavam tudo.

– Pelos Quatro Cavaleiros do Apocalipse, Cacheadinho... esses seus súditos são meio grudentos!

– Ah, Fahir, não liga não... só estão agradecidos por tudo que você fez por nós! Olhe para os rostos tão felizes deles... Eles te amam, Fahir!

– Mas é claro, né... Isso é inevitável, afinal eu sou eu... E como eu não há!

Nahan cobriu a boca com a mão em outra gargalhada. O bebê ao seu lado soltou um risinho também e agitou os bracinhos rechonchudos no ar como se concordasse com a declaração do cavaleiro.

– Tudo bem que todos me querem, mas não precisa tanta agarração assim... Olha só meu cabelo, deve estar mais desgrenhado que a crina do Alazão em dia de ventania...

O cavaleiro ia passar a mão nas mechas negras quando Nahan esticou a mão para fazê-lo.

– Você está ótimo, Fahir. Como sempre... — O príncipe afirmou enquanto ajeitava a franja negra carinhosamente, durante um tempo demasiado longo, talvez... Fahir engoliu em seco ante o olhar de adoração do príncipe loiro, que se manteve mesmo após ele terminar de ajeitar seu cabelo.

Fahir sorriu agora sem graça sem saber exatamente porquê. Para disfarçar ele apontou com a cabeça para o bebê ao lado de Nahan, cujos olhinhos agora já queriam se fechar mesmo que parecesse lutar contra o sono.

– Olha pro mini Cacheadinho... A criaturinha não se aguenta acordado.

– É mesmo, Fahir... — Nahan olhou enternecido para o filho — Melhor eu levar ele para o berço.

O príncipe levantou-se da mesa e pegou o bebê que acabara de adormecer nos braços. Ao sair da mesa olhou por sobre o ombro para o cavaleiro.

– Vem comigo?

– Claro, Cacheadinho.

Em meio à música e a balbúrdia dos súditos entusiasmados que dançavam e cantavam no salão, ninguém notou quando o Cavaleiro Negro, o príncipe Cacheadinho e o mini Cacheadinho sumiram escada acima em direção ao quarto real.

(continua...)

* * * * * *

Notas finais
¹ A besta (pronuncia-se bésta), balestra ou balesta é uma arma com a aparência de uma espingarda, com um arco de flechas acoplado no lado oposto da coronha, acionada por gatilho, que projeta dardos similares a flechas, porém mais curtos.