Carneirinho e as Cento e Uma Noites
9 Tudo por um Cachinho – Parte II
Notas iniciais
Fahir não saberia dizer o que gritou mais forte dentro dele ao subitamente ver Nahan correndo perigo... Se foi puro desespero ou o já familiar instinto de proteção com aquela criatura cacheada. Antes que se levantasse rapidamente do chão, sua mão encontrou finalmente a espada, mas ao ver-se de pé, viu que simplesmente não daria tempo de alcançar a criatura venenosa, que já estava muito próxima de Nahan. Apesar de seus gritos, o príncipe loiro parecia incapaz de se mover, completamente paralisado pelo medo.
O tempo urgia implacável. Não havia outra saída. Seu olhar captou a visão de seu escudo esquecido no solo um pouco à sua frente, coberto por rodelas fumegantes pelo ácido da saliva mortal da criatura. Sem nem pensar resgatou-o do chão e atirou-o com toda a força de que dispunha na direção da Lacraia.
Mal pode acreditar em sua sorte quando o escudo atingiu seu alvo em cheio, atingindo a extremidade traseira da Lacraia, que parou sua investida a poucos metros de Nahan e voltou sua atenção para Fahir, virando a cabeça monstruosa de antenas cabeludas em sua direção. O corpo escamoso se moveu sinuosamente acompanhando. Os olhos verdes enfurecidos da criatura agora miravam um novo alvo.
A euforia de ter conseguido atrair a atenção da criatura para longe de Nahan foi rapidamente substituída pelo assombro quando Fahir percebeu que aquele inseto repugnante contava com ainda mais armas do que ele pudera prever. A bocarra abriu-se mais ainda, em um diâmetro quase impossível, e uma infinidade de ferrões negros e afiadíssimos começaram a ser disparados na direção do cavaleiro. Sem outra alternativa, tudo que Fahir conseguiu fazer para combater aquela saraivada venenosa e mortal foi atingi-los com sua espada, e ele quase teve êxito... Quase. Um solitário ferrão furou o bloqueio de golpes de sua espada e conseguiu atingi-lo no ombro. Mesmo protegido pela armadura, o baque do ferrão acabou por tirar seu equilíbrio e ele caiu por terra de face para o chão... ou melhor, de face para o abismo. Não notara que recuara para tão perto da borda do penhasco, e agora, com quase meio corpo para fora dele, encarava o fundo do despenhadeiro. Com pesar assistiu sua espada que escapara de sua mão mergulhando no nada... Mais algumas polegadas apenas e Fahir estaria acompanhando sua espada em direção à morte certa que aguardava lá embaixo.
– FAHIR! – novamente o grito apavorado do príncipe de cabelos cacheados chegou aos seus ouvidos. “Alguém precisava avisar ao Cacheadinho que berrar o nome de alguém que está em perigo não ajuda em muita coisa...” Antes de recuar para a terra firme e para longe da borda do penhasco, o olhar de Fahir foi atraído para algo que o fez sorrir. Quando levantou-se viu sem surpresa nenhuma que a Lacraia já começara a virar-se de novo na direção de Nahan. Mas agora, sabia perfeitamente o que fazer.
– NAHAN! Corra para o portão do castelo! Para o portão! – gritou-lhe, gesticulando como um louco e apontando para a entrada do castelo e torcendo para que apenas daquela vez Nahan fizesse o que ele pedia. “Só dessa vez, Cacheadinho...”
Como se pudesse ouvir seu pensamento Nahan quebrou finalmente a paralisia e pôs-se a cruzar correndo o platô de terra em direção ao portão, afastando-se da criatura e de Fahir, que agora, tentava chamar de novo a atenção da besta, com uma diferença. Qualquer sombra de medo ou tensão se esvaíra de seu rosto, e um sorriso enorme tomara conta dele.
– Ei... Lacraia peçonhenta do bafo fedido e do pum mais fedido ainda... Eeeeei!!
Fahir sentia que de alguma forma, aquela criatura devia entender o que ele falava... por isso começou a aumentar as ofensas.
– Seu bicho fedorento e horroroso! Nem dá pra saber onde é sua boca e onde é seu traseiro... Ou melhor, você tem dois traseiros, né, sua Lacraia catinguenta!
Fahir começou a fazer-lhe caretas e emitir sons com os lábios imitando sons flatulentos, enquanto dava cuidadosos passos para trás. Atrás dele, o abismo mortal estava perigosamente próximo. As antenas cabeludas se esticaram e os olhinhos verdes de inseto não o abandonavam, enquanto a Lacraia começava a avançar no mesmo ritmo que Fahir recuava. E o tempo inteiro, o sorriso debochado nunca deixava seus lábios.
– Nhem-nhem-nhem-nhem-nhem!!! – Os olhos da Lacraia pareceram se estreitar com a provocação e a criatura começou a avançar mais rápido para Fahir, que aproximava-se cada vez mais do precipício.
Escorado ao portão de seu castelo, Nahan a tudo observava, cada vez mais apreensivo. Quando viu as provocações de Fahir para a Lacraia, novamente a preocupação o dominou. Estaria Fahir enlouquecendo? Será que fora atingido pelo veneno da Lacraia? Ele estava desarmado, dando passos para trás em direção ao abismo mortal... e ainda jogava insultos debochados para a besta...O que dera nele afinal?
A Lacraia continuava avançando, mas não tão rapidamente quanto se poderia esperar... Talvez estivesse tão espantada com a atitude insana de seu adversário que a cautela falava mais alto. Quando Fahir viu a bocarra se abrindo na preparação de uma nova saraivada de ferrões, ainda provocou:
– Há! Atirar ferrões é muito fácil, criatura peçonhenta! Quero ver vir aqui me pegar! Vem, que você não é de nada, sua Lacraia pão com ovo com cara de traseiro fedido!!!
Nahan não conseguia acreditar no que via, ao assistir Fahir virar-se de costas para a criatura e balançar provocativamente as nádegas para ela.
– Pelo menos eu sei onde é minha cara e onde é minha bunda! – Ainda completou, olhando por cima do ombro para a criatura com um sorriso debochado nos lábios enquanto se sacudia.
Um observador desavisado daquela cena poderia até achar graça em semelhante desenrolar... mas Nahan estava estarrecido demais para sequer pensar em rir. O pior de tudo era a impotência que sentia. A cabeça coberta de cachos loiros fervia... O que podia afinal, ele, fazer? Chamar a atenção da Lacraia mais uma vez? Não ousaria... A criatura encontrava-se agora tão próxima de Fahir que qualquer distração poderia resultar em uma piora da situação. A Lacraia poderia voltar-se rapidamente em sua direção e sua parte posterior poderia atingir o cavaleiro, atirando-o de vez no precipício que se abria às suas costas.
– Fahir... – sussurrou com a voz estrangulada de pavor. Faltava-lhe forças para mais do que isso, ao ver aquele embate caminhando para um desfecho certamente trágico para seu herói cavaleiro.
– Está com medo, sua bichinha cabeluda e mal-cheirosa? Vem me pegar!! – Fahir virou-se de frente e continuou provocando a criatura que parecia cada vez mais enfurecida. Fechando a bocarra, ela avançou mais rápido para cima do cavaleiro, que já estava com os calcanhares quase beirando a borda do penhasco.
– Lacraia cara de bunda FEDIDA!!!
Aquilo foi o suficiente para que a Lacraia se destemperasse de uma vez por todas, e finalmente, a criatura pulou para cima de Fahir, que limitou-se a dar um passo final para trás, desaparecendo enquanto caía pelo abismo e sumindo da vista do príncipe loiro que observava a tudo em completo choque. Movida pela raiva e pela intenção assassina, a besta venenosa acabou desaparecendo no abismo também, bem atrás do cavaleiro. Alguns segundos de completo silêncio se passaram antes que um baque surdo pudesse ser ouvido ao longe, no fundo do abismo lá embaixo.
– FAHIR! – Dessa vez não havia mais sentido em segurar o grito que Nahan até agora represara dolorosamente em seu íntimo. – FAHIIIIIR! – enfim ele rompeu a inércia e correu até a borda do penhasco, as lágrimas já toldando sua visão. – Não... Não... Fahir... – soluçou enquanto caía de joelhos, o desespero lhe tirando as forças, a alguns passos do lugar onde acabara de ver seu herói alto de cabelos negros tirando a própria vida em tão nobre sacrifício...
Embora tivesse assistido a tudo que acontecera, Nahan simplesmente não podia acreditar que Fahir se fora. Como assim ele nunca mais poderia olhar para aquele rosto altivo, de sorriso tão largo e bem-humorado? Como assim não teria mais aqueles olhos de um negro tão profundo a olhar dentro dos dele como nunca sentira ninguém fazendo antes? Como iria viver sem ouvir as piadas proferidas com aquela voz divertida... mesmo que na maioria das vezes risse sem entendê-las todas? E o que dizer dos braços protetores e consoladores ao seu redor, que o faziam sentir-se como se nada nem ninguém pudesse jamais atingi-lo? Era isso mesmo? Nunca mais teria aquela sensação? Não, não podia ser verdade...
O rosto de Nahan já estava banhado em lágrimas enquanto ele continuava ajoelhado em frente à beira do penhasco, os soluços sacudindo-o penosamente.
– Fahir... – murmurou entre os soluços sentidos – não posso acreditar que você se foi, meu cavaleiro salvador... Você sacrificou sua própria vida por mim... e pelo meu bebê...
– Ca...che...a...dinho...
Mergulhado na própria tristeza, Nahan pensou ouvir a voz dele o chamando pelo apelido que à primeira vista tanto o irritara. Mas agora... Ah, quantas saudades sentia de ouvi-lo chamando-o daquele jeito...
– Você se foi, meu nobre cavaleiro... mas você nunca irá embora do meu coração. Posso até ouvir sua voz...
– Cri...a...tu...ra...
– Fahir? – Talvez o sofrimento estivesse fazendo o príncipe loiro ouvir coisas, porque agora ele tinha certeza de ter mesmo ouvido a voz dele.
– Criatura... me... ajuda... estou aqui... aqui embaixo!
Ainda receoso, Nahan engatinhou até a borda do penhasco e deu uma temerosa olhada para baixo. O que viu fez um sorriso enorme tomar o rosto molhado de lágrimas.
– Fahir!
Pendurado pelas duas mãos a um galho de árvore que se estendia da superfície rochosa do desfiladeiro, lá estava ele, seu herói, seu salvador... o cavaleiro de armadura, cabelos e olhos negros, que agora olhava para cima enquanto suas pernas balançavam levemente contra o fundo do abismo lá embaixo.
– Fahir, você está vivo!
– Ah, sim... Estou... Mas não... por muito... tempo...se você... não me der... uma ajudinha... aqui... – disse com dificuldade.
Finalmente Nahan rompeu o choque que lhe tomara ao vê-lo ressurgindo dos mortos e estendeu a mão para o cavaleiro, que a agarrou com alívio. Assim que aquela mão desesperada fechou-se na sua, Nahan puxou-o com toda a força que conseguiu reunir, e tanto empenho acabou por içar Fahir de volta para a segurança da borda do penhasco com mais energia do que o necessário, o que o fez cair por cima do príncipe loiro, que agora jazia deitado de costas no solo do platô. Completamente deitado por cima de Nahan, Fahir olhou para aqueles lábios entreabertos que já ensaiavam um tímido sorriso, para aquela face afogueada pelo esforço em puxá-lo para cima... por um momento ele quase pôde se ver naqueles olhos de um verde tão límpido que mais pareciam um lago calmo e convidativo... Seu coração falhou uma batida. Seus narizes quase se tocavam, e os hálitos agora se confundiam. Uma pequena inclinada de seu rosto é o que bastaria para que os lábios se tocassem...
Os olhos de esmeraldas perfeitas nem piscavam enquanto sustentavam seu olhar, mas sua expressão não poderia ser mais tranquila. O jovem príncipe não parecia nem um pouco incomodado com aquele contato tão próximo, como se fosse a coisa mais natural do mundo seus corpos estarem totalmente colados daquele jeito. Um sino interno começou a badalar loucamente dentro de Fahir, indicando urgentemente que ele se afastasse. Não, não era medo daquela criatura cacheada abaixo dele, que o olhava tão lânguidamente, em tão completa confiança e devoção... Era medo de si mesmo. Medo de um sentimento sem nome que ameaçava tomar conta de sua alma de uma maneira que jamais imaginara. E foi esse sentimento ameaçador dentro dele que finalmente levou a melhor e o fez levantar-se de cima de Nahan, cuja expressão indicava uma leve decepção. Assim que Fahir se pôs de pé, estendeu a mão para ajudar o loiro a levantar-se também.
Nahan aceitou a ajuda e levantou-se, sorrindo e já refeito da quebra do clima daquele momento. Depois pensaria nisso... o que mais importava para ele agora era ter seu salvador, vivo, bem ali na sua frente.
– Fahir, nem acredito que você está vivo... É um milagre! Quando vi você caindo no abismo... achei que estava tudo perdido! Que você tinha enlouquecido, sei lá... achei até que estava ouvindo coisas quando ouvi sua voz me chamando...
– Bom, você nunca foi bom em olhar para baixo, né, Cacheadinho...
Nahan sorriu em meio às lágrimas, só que agora de felicidade, e impulsivamente o abraçou.
– Você conseguiu! Você venceu a Lacraia Gigante, Fahir! – O abraço de corpo inteiro se intensificou. Sem saber direito o que fazer com tanta euforia, Fahir apenas retribuiu o abraço forte de Nahan, que não parecia disposto a soltá-lo tão cedo. – Você é incrível, Fahir... – pôde sentir o hálito quente do príncipe loiro quando este sussurrou junto ao seu ouvido, e aquilo enviou um estranho arrepio à sua espinha, fazendo com que aquele estranho sentimento ameaçasse tocar o sino de perigo mais uma vez.
– Ah, sou mesmo. Isso eu sei que sou! – afastando enfim o abraço, sorriu largamente para disfarçar a sensação esquisita que brotara em seu estômago ao ter mais uma vez aquele par de olhos de esmeraldas centrados nele com tanta adoração. Perguntou-se se o veneno do ferrão da Lacraia chegara a penetrar através do escudo e o estava deixando esquisito daquele jeito. – Você chegou a duvidar que eu conseguiria?
– Cheguei sim. – respondeu Nahan, sincero. – Oh, me desculpe... – Ele rapidamente emendou, ao notar o olhar do cavaleiro — Não foi isso que eu quis dizer, Fahir...
– Tudo bem, Cacheadinho. Eu também tive lá minhas dúvidas... – sorriu sem graça, e Nahan retribuiu o sorriso. O momento foi quebrado quando Fahir se lembrou de algo.
– Essa besta venenosa que acabei de derrotar... Não era seu companheiro, o outro príncipe?
Os olhos escureceram para um verde mais profundo ante a compreensão súbita de quem realmente caíra no abismo mortal.
– Sim... Eron... – Lágrimas se formaram nas esferas de Jade, e ele lançou um olhar pesado de tristeza em direção ao abismo – Eron se foi... para sempre...
– E já foi tarde, isso sim! Afinal, quem quer saber daquela Lacraia?
O Sultão mordeu o punho fechado, e considerou deixá-lo lá pelo resto da noite, mas sabia que nada adiantaria. Quando ele precisava falar, ele precisava falar. Até o olhar do Carneirinho já parecia mais compreensivo, apesar de ainda um pouco ressentido. Antes que o escravo loiro falasse qualquer coisa ele se adiantou.
– Já sei, já sei... Segunda... Vamos, Carneirinho, continue...
Novo silêncio. O escravo fechou os olhos como se buscasse uma nova concentração.
– Carneirinho? — Arriscou o Sultão cuidadosamente após alguns instantes. Não queria gastar a terceira vez tão cedo assim...
– Desculpe, Amo. – disse Nicolas abrindo os olhos – As interrupções acabam me fazendo perder o fio da meada...
– Mas é o Dia do Juízo Final... Carneirinho, não faz isso comigo...
O Carneirinho apenas lançou-lhe um olhar cheio de culpa, que logo o contagiou. Fez a única coisa que podia... Aproximou-se e beijou-o suavemente nos lábios. O primeiro beijo daquela noite, e uma nova forma de pedir desculpas pelos sapos saltitantes e inconvenientes. Nicolas se rendeu aos lábios culpados do Sultão. Ainda bem que sapos não eram a única coisa que saíam deles...
– E agora... achou o fio... da meada? – Félix sussurrou baixinho com os lábios bem próximos aos dele, ainda úmidos pelo beijo. O Carneirinho deu sua resposta com um de seus sorrisos. O Sultão já sabia o significado daquele sorriso e recostou-se na almofada para continuar ouvindo...
Não havia mais nada a fazer além de acolher aquela criatura cacheada chorosa em seus braços enquanto ele soluçava pelo companheiro recém falecido. Pelo menos nisso ele já podia dizer que era bom. Fahir envolveu-o em um abraço confortador enquanto os soluços o rendiam, alisando os cachos loiros carinhosamente.
– Sinto muito, Cacheadinho... – murmurou, sem encontrar mais palavras que pudessem aliviar a tristeza daquele que chorava em seus braços. Permaneceram no abraço por mais alguns momentos, mas antes que as lágrimas de Nahan se extinguissem por completo, um súbito pensamento os assaltou ao mesmo tempo, fazendo com que se encarassem e arregalassem os olhos, no mesmo entendimento, e exclamassem juntos:
– Amarilys!
(continua...)
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