Carneirinho e as Cento e Uma Noites
8 Tudo por um Cachinho – Parte I
Notas iniciais
Desde que o sol se escondera no horizonte, já devia ser a décima vez que aquele som oco reverberava pelos extensos corredores do Palácio Real de Khoury. Maciel apressou o passo em direção ao quarto de seu Amo. Nunca era uma boa idéia demorar a atender o chamado do Sultão, especialmente nos momentos em que ele estava ansioso. Como agora. Aliás, nunca vira seu amo tão ansioso assim antes... Mas como não fazia parte de sua função ali reparar nessas coisas, limitou-se a andar mais rapidamente até finalmente chegar à porta do quarto real. Bateu levemente antes de entrar. Mal pôde disfarçar a surpresa quando o próprio Sultão abriu a porta, lançando-lhe um olhar desapontado, o cajado que usara para chamá-lo ainda numa mão.
– Criatura... Por que demorou tanto?
– Perdão, Amo. Vim o mais rápido que pu...
– Tá, tá... — Félix o cortou impaciente — Quero saber se os guardas do portão do palácio estão avisados sobre o Carn... digo, sobre o escravo loirinho que esteve aqui ontem.
– Estão sim, Amo.
– Ele vai voltar hoje e deve entrar sem problemas.
– Sim, Amo.
– Não quero que ele seja barrado e o mandem voltar, por isso é importantíssimo que estejam todos cientes.
– Sim, Amo.
– Você descreveu a aparência dele para os guardas todos?
– Sim, Amo.
– Você por acaso está só repetindo “Sim, Amo” para tudo que falo sem nem ouvir o que estou dizendo, Maciel?
– Sim, Am... Digo, não, Amo! – Maciel atrapalhou-se ao se dar conta que o Sultão lhe desferia um olhar ferino e nada satisfeito. – Meu Amo, perdão. Garanto ao senhor que já estão todos devidamente avisados. — Maciel se controlou para não dizer que já lhe fora ordenado pelo Sultão para verificar isso várias vezes... Na verdade em algumas, o servo apenas fingiu ter verificado. Se tivesse ido lá todas as vezes em que Félix ordenara, isso até geraria um burburinho desnecessário para seu Amo. – O senhor não precisa se preocupar com a entrada dele no Palácio, isso está garantido.
– Quem aqui está preocupado? Eu, hein... Eu devo ter desfiado o tapete de Aladin para ter que ouvir uma coisa dessas. Só quero que tudo corra de acordo com minha vontade real.
– Claro, Amo. – arriscou Maciel, fazendo o possível para segurar o sorriso, o que sem dúvida o irritaria ainda mais do que ele já demonstrava estar. Na verdade o poderoso Sultão fora reduzido a um poço de ansiedade. Maciel perguntou-se se ele já se dera conta disso. Porém, mais uma vez... essa era mais uma coisa que não fazia parte de seus encargos de serviçal pessoal do Sultão.
– Tá, pode ir... — O Sultão deu-lhe as costas displicentemente, voltando para o centro do quarto. Maciel já se virara para sair quando Félix o chamou num lembrete tardio.
– Mais uma coisinha... Quando o levarem pro banho e essas coisas, não deixe que demorem muito para prepará-lo pra mim.
– Pode deixar, Amo.
– Diga às escravas que sejam rápidas. Não quero ficar aqui esperando até o Dia do Juízo Final, pelos Cachos do Profeta. O Sultão não pode esperar para ter seus desejos atendidos.
– Darei suas ordens a elas agora mesmo, Amo. — Maciel fora transformado ele mesmo em um poço... de paciência. Mas essa sim era uma de suas funções e quanto a isso não havia nada que ele pudesse fazer. Pelo menos dessa vez quase podia dizer que se divertia observando as estranhas reações de seu Amo ao retorno do escravo loiro que ele mesmo escoltara ao quarto do Sultão na noite anterior. Obedientemente, ele apenas aguardou a ordem de Félix para se retirar, para ter certeza que não haveria mais nenhuma recomendação.
Um suspiro exasperado escapou dos lábios do Sultão antes que ele lhe desse as costas novamente. Uma mão longa cheia de anéis fez-lhe sinal para retirar-se. Um aliviado Maciel prontamente o fez.
Quando a porta do quarto real fechou-se silenciosamente, o ansioso Sultão deu alguns passos em direção à varanda.
– Preocupado... Imagina, eu preocupado com um simples escravo... – Félix resmungou para si mesmo, ao se aproximar em passos arrastados até a saída para o balcão da varanda. Encostou-se de lado no umbral, distraidamente, observando os tons do céus evoluírem para cores mais escuras à medida que a noite avançava. Já era possível entrever o brilho de parcas estrelas despontando na abóbada celeste. O Sultão perdeu-se por alguns momentos na admiração do piscar daqueles corpos luminosos tão distantes... Uma sensação familiar lhe invadiu, vinda de um passado não tão distante quanto aquelas estrelas... Na verdade, tão próxima quanto o piscar de um par de olhos verdes muito brilhantes. Talvez mais do que todas aquelas estrelas juntas, mesmo aquelas cujo brilho ainda nem conseguira chegar até ele.
Seus olhos fecharam-se suavemente e seu cenho franziu-se. Desde quando tornara-se tão contemplativo dos astros? E o que dizer sobre as lembranças da noite anterior que não o abandonaram por um só momento desde que a figura daquele Carneirinho sumira atrás da porta do quarto Real?
– Eu só quero ouvir o final da história... É isso... – murmurou para si mesmo, sem muita convicção. – Não suporto essa curiosidade me remoendo... – Procurou não pensar em absoluto no que mais poderia estar lhe remoendo.
Nicolas... o nome revelado nos últimos instantes dançou em seus lábios sem que emitissem nenhum som. Inúmeras foram as vezes em que esse nome flutuou em sua mente desde então. Ainda era difícil associar-lhe esse nome. Preferia mil vezes o apelido que ele mesmo lhe dera, mas não podia negar que de certa forma, o nome também combinava com aquele rosto inocente... com os cachos loiros angelicais... com os olhos de esmeraldas tão perfeitas... com o corpo rosado e exuberante de nádegas perfeitas e peito largo... Com....
Félix, chega! O pensamento repentino assaltou-lhe chegando a assustá-lo. O que estava acontecendo com ele afinal? Suspiros, ansiedade, olhar os corpos celestes... nada daquilo tinha a ver com ele. Por Alá, ele era ninguém menos do que o Sagrado Sultão de Khoury! Isso era tudo que ele precisava pensar. O poderoso Sultão à espera do escravo que saciaria sua curiosidade sobre o final da aventura tão repentinamente interrompida na noite anterior. E, claro, não vamos esquecer... saciaria outras coisas também...
Mas... E se... Ele não voltar? Esse pensamento intruso lhe martelava a mente de forma insuportável, e não vinha sozinho. E se o Amo dele não permitir que ele volte? E se...
Não, isso era inadmissível. O Sultão Félix era a criatura mais poderosa do Reino. Quase uma divindade... E tão temido quanto. Ninguém ousaria contrariar sua vontade e se arriscar a conhecer Alá mais cedo que o previsto. É claro que ele viria. Aquela criatura loira era um escravo e escravos obedecem e servem. Era até uma perda de seu sagrado tempo sequer pensar na possibilidade dele passar aquela noite sozinho. Não tinha como isso acontecer nem que uma enchente lavasse toda a areia do deserto do Saara...
Soltou outro suspiro longo e contrariado. As estrelas estavam mais visíveis agora, com um brilho mais acentuado, destacando-se no manto negro do céu noturno como pequenos diamantes. Ele distraiu-se em observá-las, enquanto um último pensamento ansioso teimou em passear por sua mente.
Carneirinho... Eu só quero que você volte...
“Fahir... Eu só quero que você volte...” Esse pensamento era como uma oração na mente de Nahan, que observava Fahir cruzando a ponte. Seu coração parecia que ia saltar por sua boca de tanta ansiedade. O príncipe loiro se esforçou para afastar os pressentimentos ruins que insistiam em agourar seus sentidos. Mas era tão difícil simplesmente ficar parado ali só assistindo o corajoso cavaleiro avançando pela ponte... O tempo todo, o ronco tenebroso da Lacraia adormecida emprestava a toda a cena uma lúgubre sensação de perigo iminente. Mas ele precisava confiar em Fahir...
E por falar no cavaleiro negro, as coisas se complicaram de uma hora pra outra. A Lacraia resolvera acordar, do nada, e agora, levantava-se com suas perninhas cabeludas e antenas pegajosas, tomando vulto ameaçadoramente na frente do castelo. Fahir falhara em se aproximar o suficiente dela antes que despertasse, e agora, um novo plano de ataque urgia. A situação não era nada boa...
Ao longe, ouviu o grito desesperado de Nahan, e isso fez com que quebrasse a paralisia que o assaltara quando a besta acordara. Como já acontecera muito em sua vida de Caçador, chegara a hora de improvisar. Por isso, Fahir disparou pela ponte diretamente para cima da criatura, que definitivamente não esperava uma atitude assim de nenhum adversário... As pessoas costumavam correr na direção oposta. Essa era a primeira vez que acontecia o contrário. E foi essa pequena confusão na mente da criatura que possibilitou a Fahir chegar ao fim da ponte, e assim que viu-se em terra firme, o cavaleiro correu, dando a volta na Lacraia até postar-se atrás dela. Por onde passava, jatos de baba ácida tentavam atingi-lo e eram desferidos no solo, deixando marcas fumegantes em um rastro sinuoso por todo o solo do platô em frente ao Castelo.
Fahir tentou confundir a besta, dando voltas e mais voltas em torno dela. Quem sabe assim a deixaria tonta o suficiente para que conseguisse atingi-la com sua espada. Enquanto se movia em círculos à sua volta, ia estrategicamente diminuindo a circunferência aproximando-se mais e mais. A Lacraia seguia seus movimentos, mas infelizmente para Fahir, não era tão vagarosa quanto seu tamanho poderia sugerir, e logo o cavaleiro se viu em apuros mais uma vez quando um jato mortal de sua saliva ácida quase o atingiu, errando por muito pouco.
Rapidamente ele afastou-se da criatura para criar algum campo de defesa, enquanto aproximava-se de costas da entrada do castelo. Com um olhar frenético rapidamente apreendeu todo o espaço de que dispunha. A plataforma do penhasco que rodeava o Castelo não era muito extensa, e não havia nenhuma contenção ou muro que pudesse impedir uma queda. Tudo isso passeou pela mente de Fahir por um segundo enquanto ele pensava em uma nova forma de derrotar aquela besta, já que se aproximar para um golpe de espada estava se mostrando tão difícil.
Aparentemente esse novo plano teria que esperar... por enquanto era preciso somente permanecer vivo. Os jatos de baba ácida agora eram desferidos um atrás do outro quase não lhe dando chance de se defender com o escudo. Pela barba do Mago Merlin, de onde saía tanta saliva daquela criatura? Fahir pulou agilmente para o lado, rolando pelo chão, para escapar de mais um jato, que passou de raspão deixando uma marca fumegante em seu escudo. Em breve teria que abrir mão dele porque já estava parecendo mais uma peneira com tantos furos... Ele correu para a retaguarda da besta, espada em punho, e já estava pronto para tentar desferir um golpe naquelas perninhas cabeludas quando foi surpreendido por uma nuvem fétida emitida diretamente da extremidade traseira da criatura. O flato mal cheiroso o atingiu em cheio no rosto e invadiu as frestas do elmo, penetrando cruelmente em suas narinas. Fahir receou desfalecer ali mesmo, tão insuportável era aquele odor. Sua vista enevoou-se, e tonto, ele caiu de costas no chão.
– Pelas chagas da Peste Negra, o que... é... isso... – de repente, era-lhe difícil respirar, e ele logo entendeu porque. Além do cheiro ignóbil que invadira o interior do elmo, sua visão também lhe fora suprimida. Em contato com o ar aquele bafo nauzeabundo se transformara em uma gosma pegajosa que cobria todo o elmo. Estava quase sufocando... precisava retirar o elmo antes que fosse tarde demais.
Quando por fim conseguiu fazê-lo, soube que já era tarde demais. A besta estava totalmente em cima dele, e uma gota de saliva mortal escorria pegajosamente da bocarra fétida, quase o tocando por algumas polegadas. Fahir engoliu em seco e perguntou-se se haveria tempo de confessar seus pecados antes de deixar essa vida... ou de pelo menos fazer um breve resumo, já que não eram poucos. Mesmo assim sua mão ainda se moveu tateando cegamente pela espada, sem encontrá-la. Não ousava desviar o olhar dos olhos verdes apagados da criatura acima dele. Nem podia dizer que não era justo que tudo terminasse assim... Resignado, ele fechou os olhos.
– Hey! HEY!!! AQUI!!!
Fahir abriu os olhos incrédulo. Não acreditava em seus ouvidos tanto quanto não acreditava em seus olhos, quando avistou a figura de Nahan parado na saída da ponte, acenando e gritando aos pulos para a Lacraia. A criatura já voltara sua atenção para a nova presa que lhe chamava, e moveu-se, saindo de cima dele. A gota de saliva da besta foi se depositar no chão bem ao lado de sua cabeça, levantando uma nuvem fumegante no lugar.
– Cacheadinho... NÃO!! – Fahir gritou desesperado ao ver que a criatura rapidamente serpenteava na direção do príncipe loiro, que logo parou de acenar quando a viu se aproximando, o pânico já assomando em seu olhar. Sua expressão pálida dizia claramente: “E agora?”
– Mas não é possível! Esse Cacheadinho entrou na fila da burrice umas dez vezes! Será que é tão difícil fazer o que foi recomendado? Era pra ele ficar do outro lado da ponte! – o Sultão exclamou com a indignação de sempre. Como era de se esperar, recebeu um olhar sério do Carneirinho acompanhado de seu cenho franzido. Félix engoliu em seco. Para ele era simplesmente difícil demais conter esses apartes indignados à história que o Carneirinho lhe contava. E era justamente por já saber disso que ele tivera a brilhante idéia de fazer um acordo com seu dedicado contador de histórias, antes que se acomodassem na imensa cama para a continuação da história iniciada na noite anterior. Claro que a brilhante idéia de certa forma acabara se voltando contra ele...
* * * * * *
Quando o escravo chamado Nicolas finalmente chegara ao quarto real, fora surpreendido com uma atitude quase de indiferença vinda do Sultão. Ao entrar no quarto timidamente, o loiro o localizou com o olhar, parado, encostado de lado à entrada da larga varanda que fazia frente para o enorme lago na frente do Palácio. Seu Amo daquela noite olhava distraidamente para o céu estrelado e nem pareceu notar sua chegada.
Nicolas andou até o meio do amplo quarto real, agora um pouco incerto do que fazer. Na noite anterior ele chegara até a segurar seu braço e lhe pedir que não se fosse... Mas agora, olhava para os astros como se não fizesse a menor diferença ele estar ali ou não. Quase como se não estivesse nem aí pra ele... O jovem loiro permaneceu alguns momentos parado no meio do quarto, dominado pela dúvida. Estaria o Sultão arrependido de ter lhe pedido que voltasse? O que ele deveria fazer agora?
– Você chegou, Carneirinho. – A voz baixa do Sultão chegou até ele, quebrando o silêncio, e ele começou a se voltar dando as costas para a varanda. Seus olhares se encontraram. O jovem loiro sorriu timidamente e fez uma leve reverência com a cabeça na direção de seu Amo, não sem antes observar que ele parecia mais à vontade do que na noite anterior. Não estava usando o turbante, e vestia uma túnica leve, que o vento fresco da noite se encarregava de fazer dançar às suas costas.
– Boa noite, meu Amo. Estou aqui como o senhor ordenou.
– Estou vendo. – Um leve sorriso tomava seus lábios enquanto se aproximava em passos calmos até encontrá-lo no meio do salão. Parou em frente ao loiro que simplesmente aguardava, sustentando seu olhar. Em sua mente rodavam sem parar mil possibilidades do que o Sultão poderia desejar fazer agora, enchendo seu íntimo com uma antecipação quase dolorosa. Nicolas pensaria em tudo, menos na única coisa que jamais esperaria que ele fizesse.
– Carneirinho... Aquela sua história... É... – O Sultão parecia desejar que o escravo completasse o que ele iria dizer, mas ele estava incrédulo demais para esboçar qualquer reação além do silêncio. Félix pigarreou antes de continuar. – Quero ouvir a continuação.
Nicolas abaixou o olhar para a mão que se estendia para pegar na dele. Aquela mão grande, de dedos longos, envolveu a sua num aperto suave e quente. Erguendo o olhar, ele assentiu sem palavras e o Sultão o puxou pela mão para que fossem em direção à cama. O loiro obedeceu, já se recuperando da surpresa. Aparentemente, a curiosidade do Sultão era mais forte do que qualquer sombra de desejo que o loiro conseguisse entrever nos olhos negros de seu Amo.
Os dois, o Sultão e seu Carneirinho, subiram na cama e assumiram suas posições: O contador de histórias de cabelos loiros cacheados e sua platéia, um curioso Sultão, cuja face não conseguia mais fingir indiferença. Os olhos negros brilhavam como os de uma criança prestes a receber um presente. Nicolas sorriu se ajeitando de pernas cruzadas na cama, de frente para Félix que recostara-se confortavelmente nas almofadas de seda, à espera. Seus lábios entreabriram-se mas antes que algum som saísse deles, o Sultão o interrompeu.
– Carneirinho... só uma coisinha.
– Claro, Amo.
– Quero fazer um acordo com você.
– Um... acordo? – Nicolas repetiu sem entender.
– Sim. Eu quero poder interromper a história às vezes... veja bem, é que eu sou assim, sabe. Mesmo que eu costure, tranque, encha minha boca com areia do deserto... sei que em alguns momentos... vai acontecer dos sapos pularem da minha boca. Então quero desde já combinar com você, Carneirinho, que eu posso interromper a sua história, às vezes... pensei em... sei lá, dez vezes. – o Sultão arriscou, observando a expressão do jovem escravo. Nada bom... aquela idéia não parecia agradá-lo nem um pouco. Resolveu aliviar um pouco. – Tudo bem, o que acha de oito vezes?
Silêncio do Carneirinho. Testa franzida. Um bico que quase chegava a cruzar a distância entre eles e tocá-lo... Os braços se cruzaram diante de seu peito. Félix suspirou longamente.
– O que me diz de sete? Estou sendo bem razoável, não é... Carneirinho, o príncipe loiro da sua história abusa da inteligência de qualquer um... Pelos Cachos do Profeta, desculpe, mas é verdade!
A expressão do escravo fechou-se mais ainda. Aquilo não estava nada bom... Félix resolveu ser ainda mais magnânimo, e sorriu-lhe com simpatia.
– Muito bem, Carneirinho emburradinho... Me diga então você quantas vezes eu posso interromper.
– Três. – foi a resposta rápida dele, que não deixou Félix nem um pouco satisfeito.
– Por Alá... só três? Não, não, assim não dá... olha, que tal seis?
– Três.
– Cinco?
– Duas.
– Não, não, peraí... você não tinha falado três?
– Uma.
– Carneirinho! – O tom de voz de Félix fora reduzido a uma súplica agora – Isso não é justo! Daqui a pouco você vai me dizer que não posso interromper nem uma vezinha sequer...
Félix suspirou, já praticamente derrotado diante de um Carneirinho tão irredutível. Por um momento, considerou trocar o apelido dele para Camelinho. Porque ele parecia mais um camelo empacado agora. E esse camelo empacado acabara de sair vitorioso naquele pequeno embate de vontades.
– Três, Amo. – finalmente o loiro concedeu, ainda sério.
– Alá... olhai pra isto... – murmurou num fio de voz – Tudo bem, criatura, três. Eu posso interromper três vezes. Eu devo ter enlameado a entrada da Mesquita Sagrada para merecer um Carneirinho tão mandão quanto você. Se eu não quisesse tanto saber o final dessa história... nem sei, nem sei!
– O Amo aceita a regra?
O Sultão fez de tudo para segurar o sorriso. Ainda precisava manter um mínimo de dignidade diante de uma derrota tão vergonhosa... Três vezes! E ainda por cima aquele Carneirinho acabara de se apropriar da regra que ele mesmo criara. Sacudiu a cabeça, tentando parecer contrariado... mas na verdade, mal podia esperar pela continuação da história. E o pior de tudo é que o loiro à frente dele parecia saber muito bem quem é que tinha o poder na mão agora.
– Aceito, Carneirinho.
Enfim um sorriso iluminou o rosto coroado pelos adoráveis cachos loiros, contagiando Félix que foi obrigado a sorrir de volta. Como não fazê-lo? Já achava impossível...
E foi assim que a história contada pelo Carneirinho teve sua continuidade, para satisfação do ansioso Sultão. Mas para seu desgosto, a satisfação não durou muito tempo. Bastara a primeira burrada do príncipe Nahan para que ele soltasse a primeira exclamação de indignação da noite, fazendo seu Carneirinho voltar a assumir aquela expressão carrancuda, e qualquer sombra de sorriso voltara a fugir para o Ocidente mais rápido do que ele era capaz de dizer “Alá olhai pra isto!”
– Ai, Carneirinho... Não me olha desse jeito. Foi sem querer...
– Primeira, Amo.
– Mas você não pode deixar passar? Foi erro de iniciante. Você bem que podia relevar...
– O Amo aceitou a regra.
– Tá bom, tá bom... Aceitei sim. Sabe Alá porque... Tudo bem, vai. Ainda posso interromper mais quatro vezes, né? – ele ainda tentou, com uma ponta de esperança.
– Duas. – corrigiu o loiro, impassível.
O Sultão novamente desistiu soltando um longo suspiro. O escravo chamado Nicolas o olhava à espera. No mundo da imaginação exclusivo daquela mente coberta por cachos loiros, uma aventura pausada em um momento de suspense também aguardava. O Sultão deu de ombros. O que ele não fazia pela sua insaciável curiosidade...
– Duas... – concordou em um murmúrio resignado, recostando-se na almofada de seda que lhe servia de encosto na cama real – Você venceu, Carneirinho... Agora, por todas contas do Masbaha¹ ... continue a história, criatura mandona...
O Carneirinho olhou para o menininho de cabelos e olhos negros que tomara o lugar do poderoso Sultão na imensa cama que dividiam. Sorriu-lhe com renovada ternura, inclinando a cabeça de lado e aprumando-se em meio aos lençóis de seda. Abriu os lábios para permitir que a fantasia tivesse seu espaço naquele quarto, mais uma vez. O que ele não fazia pela platéia mais especial que jamais sonhara ter...
* * * * * *
(continua)
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