Carneirinho e as Cento e Uma Noites
7 Antes do Amanhecer – Parte III
Notas iniciais
Fahir imediatamente arrependeu-se de sua exclamação ao notar a sombra de choro voltar ao rosto do jovem loiro. Ah, não... será que iria chorar de novo? Não sabia dizer porque as lágrimas daquele Cacheadinho o deixavam tão mexido. Logo ele que sempre se considerara um sujeito frio, que nunca se importara com nada além das bolsas de ouro que podia acumular com suas façanhas... E pensando bem agora... Lançou um novo olhar simpático ao choroso príncipe diante dele.
– Olha, Cacheadinho, não me leve a mal... Eu sou assim mesmo, falo a verdade na lata... Mas me diga, você falou algo sobre uma Lacraia Gigante na porta do castelo?
– Sim... – respondeu Nahan com o olhar triste – Meu companheiro Eron foi transformado nessa besta horrível pela bruxa Amarilys... E quando eu penso que eu mesmo enfiei essa feiticeira dentro do meu castelo...
– Eu não ia comentar... Mas já que você falou, essa foi sim uma burrice sem tamanho, Cacheadinho! Além do que, a fama dessa bruxa corre solta por aí. Eu já ouvi falar desse golpe do ovo antes. Ela já tentou fazer isso com outros príncipes. Mas pelo que sei essa deve ter sido a única vez que deu certo.
Nahan estava impressionado. Aquele cavaleiro parecia mesmo ser muito bem informado e viajado.
– Nossa... mas como você sabe disso, Sir Fahir?
– Ah, eu sou um especialista em maldade, venha ela de criaturas humanas ou não. Já enfrentei muita coisa. Tenho uma lista enooorme de bestas e criaturas derrotadas pela força da minha espada! – A mão do cavaleiro se dirigiu à longa e vistosa espada na bainha presa em sua cintura como se quisesse confirmar o que dizia. O olhar de Nahan acompanhou a mão de Fahir e ele teve que concordar... Nunca vira espada mais imponente e... Longa do que aquela.
O olhar curioso de Nahan não passou despercebido a Fahir, que abriu um sorriso largo e satisfeito.
– É como eu dizia, Cacheadinho... Mas independente da minha experiência com criaturas malignas, o povo das Terras Médias de San Magno adora uma fofoca... Come, vive de fofoca. A história dessa bruxa maluca já correu distâncias enormes, viu...
– Eu nem imaginava... Ou jamais teria aceito essa mulher no meu castelo! E agora... Estou aqui sem saber o que fazer... Nem tirar minha própria vida eu consigo... – Com a expressão cansada e cabisbaixo, Nahan era a própria imagem da desesperança. Fahir olhou-o especulativamente, pesando os prós e contras de uma idéia que acabara de cruzar sua mente.
– Estava aqui pensando... Uma Lacraia Gigante seria uma ótima aquisição na minha lista de troféus de Caçador... – Ele esfregava o queixo enquanto olhava o jovem loiro, cuja expressão foi rapidamente tocada por um lampejo de esperança. – Até fiquei interessado... É isso! Vou ajudar você, Cacheadinho. – ele declarou confiante.
– Jura? Mesmo? – um sorriso começava a se formar no rosto ansioso do príncipe – Você vai mesmo me ajudar? A mim e ao meu bebê?
– Mas é claro que vou! Por uma módica recompensa, é claro... não saio pelas Terras Médias de San Magno fazendo caridade, né...
– Ah... – uma sombra de tristeza voltou ao rosto de Nahan – Mas eu não tenho nada para lhe oferecer como pagamento. Eu perdi tudo, meu castelo, meu companheiro... meu... bebê... – Fahir constatou alarmado que o queixo do loiro já começara a tremer. Ah, não, lá vinha a cascata de lágrimas de novo. Fahir adiantou-se e segurou com suas longas mãos o rosto do príncipe fazendo com que o encarasse. Uma lágrima escapuliu e escorreu por sua face, mas antes que ela caísse os dedos de Fahir a capturaram, enxugando-a delicadamente.
– Eu vou te ajudar, sim. Tá? – assegurou-lhe, olhando dentro dos olhos verdes brilhantes de lágrimas – Ainda não sei como, mas darei um jeito. Você vai ter seu bebê de volta. Tá bom? – aquela promessa saiu de seus lábios antes que pudesse pensar no motivo de estar se comprometendo de forma tão desprendida.... Talvez fosse só um instinto de proteção ainda incompreensível que aquela criatura cacheada lhe despertava. Tudo o que queria era que ele parasse de chorar... E ao que tudo indicava conseguira seu intento.
– Tá... – murmurou Nahan, já mais calmo, ainda cativo pelos olhos negros à sua frente. Seu olhar dizia que ele confiava cegamente naquele cavaleiro alto de cabelos negros que aparentava ter sido enviado diretamente dos céus para salvar sua vida.
Quando se afastaram, Nahan olhou agradecido para o cavaleiro.
– Fahir... Muito obrigado... Nem sei na verdade como lhe agradecer...
– Depois pensamos em alguma coisa. Vamos nos preocupar agora com essa Lacraia Gigante aí...
– É uma criatura tão perigosa e terrível... Fahir, tem certeza que consegue derrotá-la? Eu pedi ajuda a vários cavaleiros e até a alguns mercenários... Ninguém aceitou enfrentá-la...
– É que você não havia cruzado com a pessoa certa. Que para sua sorte sou eu! Sir Fahir, o Magnífico Cavaleiro Caçador de Coisas Sombrias e Outras Criaturas Fantásticas e Apavorantes.
Nahan piscou os olhos algumas vezes, confuso.
– É impressão minha ou esse título ficou mais longo?
– Não é impressão não, Cacheadinho. O meu título cresce a cada segundo!
O jovem príncipe acabou acompanhando o cavaleiro em sua risada, ainda que não tivesse entendido muito bem a piada. Mas uma coisa já sabia... Desde que conhecera aquele moreno de cabelos negros naquela ponte, já conseguia enxergar uma nova esperança em sua vida que há pouco tempo atrás simplesmente não existia. Devia ter algo a ver com aquele sorriso largo e divertido em seu rosto... ou talvez fosse aquela aura de autoconfiança que ele exibia, como se nada nem ninguém fosse capaz de acabar com seu humor. Uma coisa era certa... A vontade de procurar outra ponte de maior altura para pular já se extinguira por completo.
– O que foi? – Fahir estava um pouco desconcertado com o novo olhar de adoração vindo da criatura cacheada diante dele.
– Nada não... – murmurou Nahan com um leve sorriso – Estava aqui pensando em como você é bom. Você é um homem bom, Sir Fahir.
– Um homem bom, eu? Ah, mas era o que me faltava... Eu devo ter cortado pão dormido com a espada do Rei Arthur para ouvir uma coisa dessas... Não se engane a meu respeito, Cacheadinho. Eu sou um homem muito, muito mau. E justamente por isso eu sou a pessoa indicada para lutar contra essa criatura horrenda na porta do seu Castelo.
A declaração inflamada do cavaleiro não pareceu impressionar Nahan, mas ele apenas assentiu sorridente.
– Tá bom, então... é... – Fahir passou um dedo na sobrancelha — Vamos indo? Cadê o seu cavalo?
– Não sei... Como eu pretendia tirar minha vida, o libertei... Deve estar bem longe agora.
Fahir balançou a cabeça incrédulo e revirou os olhos, mas antes que soltasse outro impropério de indignação aqueles olhos verdes tristes rapidamente o fizeram desistir. Qual era o problema desses olhos que já conseguiam deixá-lo sem saber nem o que dizer?
– Bom, então não vai ter jeito... Você vai ter que ir comigo, no meu cavalo.
– Com você? Mas... assim, junto?
– É, comigo, na minha garupa... Não se preocupe, o Alazão é bem manso e forte. Ele aguenta nós dois. Vamos indo que temos um longo caminho até seu castelo.
E foi assim que uma inusitada dupla se formou: O cavaleiro negro experiente em criaturas malignas de todo tipo... E o desenganado príncipe de cabelos cacheados que agora depositava toda sua esperança naquela figura tão fascinante que cruzara seu caminho em um momento tão crucial. Nahan aceitou a ajuda de Fahir para subir na garupa de seu cavalo, e eles começaram a percorrer o caminho que levaria ao Castelo onde uma terrível besta montava guarda.
Durante o caminho, Nahan pôde saber um pouco mais sobre o cavaleiro que estava lhe prestando ajuda. Enquanto cavalgavam, Fahir fez questão de lhe contar cada façanha de que se orgulhava, cada criatura fantástica que padecera sob o fio de sua espada. Em certos momentos o jovem loiro se pegou rindo às gargalhadas do jeito com que Fahir contava essas histórias, sempre com suas tiradas irônicas e frases de efeito. Ele havia até se esquecido do som de sua própria risada, tão grande fora o sofrimento que tomara conta de sua vida... Mas aquele extrovertido cavaleiro fora capaz de trazê-la de volta e até fazê-lo esquecer, nem que fosse por alguns instantes, todas as agruras que passara.
Só uma coisa nunca abandonava o pensamento de Nahan... O rosto de seu bebê, de quem sentia-se quase desfalecer de tanta saudade. Essa era sua maior preocupação. Não se importava com mais nada além de recuperar o filho tão amado. Só esperava que ao menos Amarilys estivesse cuidando bem dele. E mal via a hora de olhar para o rostinho redondo com aqueles olhinhos verdes que eram tão iguais aos seus.
À medida que as horas passavam rapidamente e eles se aproximavam mais do castelo, Nahan sentia-se apreensivo com o que viria a seguir. Aceitara a ajuda de Fahir e seu íntimo enchera-se de esperança... Mas agora o receio o rodeava. A Lacraia era uma criatura muito terrível. Não que não confiasse em seu cavaleiro salvador... Mas ao mesmo tempo temia que a horrível besta fosse perigosa demais mesmo para um caçador tão experiente quanto ele.
Nahan estava imerso nos próprios pensamentos quando sentiu o Alazão estancar obedecendo ao comando de Fahir. Passavam agora por uma trilha que cortava uma floresta e terminava na beira do penhasco de onde uma ponte levaria à entrada do castelo.
– Por que paramos? – perguntou Nahan.
– Shhh! – sussurrou Fahir — Está ouvindo esse som?
Nahan ficou em silêncio e concentrou-se para ouvir. De fato, agora que Fahir atentara, achava que podia ouvir um ruído estranho que vinha do caminho à frente deles, mas como ainda vinha de longe, não conseguia distinguir que tipo de som era aquele.
– O que é isso?
– É a Lacraia, Cacheadinho... É a Lacraia roncando. – Fahir continuava sussurrando – Vamos nos apressar... Se a besta dorme, posso aproveitar para pegá-la de surpresa!
Nahan assentiu e eles continuaram a galopar mais rapidamente. E quanto mais se aproximavam, mais aquele som ignóbil aumentava de volume. Quando finalmente a trilha da floresta terminou, eles se viram ao ar livre, e puderam contemplar a impressionante visão da criatura bestial adormecida à entrada do castelo do outro lado da ponte. O som de seu ronco reberverava amplamente agora. Sem sentir, Nahan, que já enlaçava a cintura do cavaleiro com os braços, intensificou esse aperto. Logo uma mão dele cobriu a sua, tranquilizadora.
– Não se preocupe, Cacheadinho. Vou derrotar essa Lacraia, ela não vai nem saber o que a atingiu! – declarou Fahir, confiante como sempre.
Os dois desmontaram do cavalo e Fahir amarrou o arreio numa árvore. Armando-se de seu escudo, virou-se então para um ainda mais apreensivo Nahan.
– Fahir... Não é que não confie em suas habilidades, mas... Estou tão inseguro! Estou com medo por você... E se a Lacraia... E se...
– Ai, Cacheadinho, para com isso... Vira essa boca pra lá, pé de urso, abracadabra, três vezes!
Nahan tentou sorrir sem muito sucesso. Estava mesmo muito preocupado. E não era só porque aquele cavaleiro iria tentar salvar seu bebê... A preocupação era com ele também. Conheciam-se há poucas horas, mas já sentia dentro de si uma verdadeira afeição por aquele cavaleiro pomposo e engraçado. Simplesmente não queria que ele fosse transformado em geléia de baba ácida pela criatura bestial que roncava à entrada do castelo. Por um momento quase abriu a boca para fazê-lo desistir. Que tudo bem, não precisava fazer aquilo... Mas a face de Fabrício veio novamente à sua mente e ele calou-se.
– Você fica bem aqui com o Alazão, viu? – Fahir já se dirigia resoluto para o início da longa ponte de madeira e corda que levava ao castelo. Nahan deixou-se ficar apenas observando-o aproximar-se da ponte decidido.
– Espere!
Fahir virou-se surpreso. O loiro foi em sua direção enquanto tirava alguma coisa de dentro da roupa. Era um cordão em cuja ponta havia um relicário oval de ouro. Fahir nada entendeu quando Nahan tirou o cordão do próprio pescoço e o colocou em torno do dele. Sua mão coberta pela malha negra da luva colheu a peça reluzente na palma e observou-a.
– O que é isso, Cacheadinho?
– Dentro desse relicário tem uma mecha do cabelinho do Fabrício. Quando o cabelo dele cresceu, eu cortei a mecha e guardei aí dentro. Sempre levo uma parte do meu bebê comigo. Agora... – A mão do príncipe envolveu a dele, fechando-se em volta do relicário – quero que o leve com você... Para dar sorte. E quero que me traga de volta depois que tudo terminar.
Fahir engoliu em seco com o peso daquele olhar recheado de confiança e adoração centrado nele. Dentro do coração do frio cavaleiro, instalara-se um novo e estranho calor que ele ainda não sabia identificar a causa... Mas desconfiava ter algo a ver com o par de olhos verdes brilhantes fixados nele.
– Cacheadinho... – ele murmurou – Pela primeira vez em minha vida, não sei nem o que dizer...
– Diga apenas que vai voltar, para me devolver o cachinho do meu bebê. Promete?
– Prometo. Eu prometo, Cacheadinho.
Não falaram mais nada. Nahan permaneceu onde estava, com a mão no peito, procurando controlar a ansiedade que já voltara a dominá-lo, enquanto observava Fahir começando a cruzar a ponte.
“Volte com o cachinho do Fabrício, Fahir... Volte pra mim, são e salvo, por favor...”
Nahan franziu a testa para si mesmo ante esse estranho pensamento. Só podia ser o nervosismo que o fazia pensar desse jeito a respeito de alguém que praticamente acabara de conhecer... Mas aquele alguém que agora avançava pela ponte em passos cuidadosos mas decididos se transformara em sua última esperança de ter sua vida e tudo que lhe importava de volta. E o quão estranho era sentir que o cavaleiro negro em questão também fazia agora parte dessa lista?
Disse a si mesmo para lembrar-se de continuar respirando enquanto seu olhar seguia a figura de Fahir andando pela ponte. Ele recolocara o elmo negro antes de atravessá-la. Todo o porte de seu corpo indicava concentração máxima e determinação. Em uma mão, o escudo, na outra, a longa espada empunhada em riste. Qualquer sombra de brincadeira ou humor passava longe da figura soturna que seus olhos acompanhavam sem nem piscar. Medo e fascinação se confundiam dentro de Nahan, e ele engoliu em seco. Só lhe restava rezar em silêncio e torcer para que desse tudo certo...
O tempo inteiro, o som tenebroso do ronco da besta rasgava o ar cada vez mais alto. Fahir continuou avançando pela ponte sem hesitar, seus olhos nunca abandonando a figura da Lacraia adormecida. Dentro do elmo, seu rosto se retorceu numa careta de nojo ao notar um fio brilhante de baba ácida escorrendo da boca do monstro até atingir o chão onde já se formara um buraco fumegante.
“Um passo de cada vez... Um... Atrás do outro... Mais um...” Fahir repetia mentalmente a cada passo. Quanto mais se aproximava, maior aos seus olhos a besta parecia, e mais fortemente ele empunhava a espada. Só precisava chegar perto o suficiente dela e desferir um golpe certeiro na cabeça, certamente sua parte mais fraca... E pronto! A cada passo que dava, Fahir sentia-se mais confiante de que seu plano de pegar a besta de surpresa daria certo... Ele já chegara à metade da ponte quando algo o fez perceber que talvez não fosse tão fácil assim.
O silêncio tomou conta de tudo, o que definitivamente era um péssimo sinal... A Lacraia parara de roncar. Fahir imediatamente estancou imóvel no meio da ponte, o escudo levantado diante de si, a espada em riste... Bem à frente dele, um par de olhos verdes de inseto abriu-se e centraram-se diretamente nele. Duas longas antenas se agitaram sinuosas, quando a criatura peçonhenta começou a se elevar no ar, o que fez com que parecesse ainda maior.
– Pelas madeixas da bruxa Morgana! – foi o sussurro que lhe escapou por entre lábios crispados dentro do elmo.
Ao longe podia ouvir Nahan chamando seu nome em desespero. Isso fez com que saísse do transe em que se encontrava e recomeçasse os passos em direção à visão do inferno que lhe aguardava no fim da ponte. A Lacraia Gigante agora agitava todas aquelas perninhas cabeludas de forma desordenada, e sua bocarra coroada por um par de ferrões venenosos já começava a se abrir para desferir o primeiro jato de baba ácida em sua direção...
Confuso, Félix piscou algumas vezes, quando a voz suave interrompeu a narrativa de forma tão repentina. Como assim, se ele se comportara tão exemplarmente? Nenhum sapo pulara de sua boca dessa vez... Seguiu o olhar do Carneirinho que se fixara de repente na direção das amplas janelas avarandadas do quarto real. Finalmente compreendeu. A noite já não se fazia mais tão presente... Lá fora, uma leve claridade já se anunciava para afastar a escuridão que reinara por toda a madrugada.
Félix voltou o olhar para o jovem escravo que começava a se mover na cama, na intenção clara de levantar-se.
– Mas... Mas... Carneirinho, você tem que me contar! O que aconteceu com o Fahir? E o príncipe burri... digo, o Nahan, conseguiu recuperar seu castelo e seu filho?
– Meu Amo... Já vai amanhecer... – o loiro levantou-se e começou a recolher as peças de roupa largadas no chão. — Como o Amo mesmo determinou, preciso não estar aqui quando o sol nascer.
– Ah... é... é verdade, eu mesmo determinei... – Félix concordou enquanto tentava pensar no porquê daquela regra que ele mesmo havia criado. Pela primeira vez era difícil lembrar-se... E isso nem parecia ter tanta importância, enquanto assistia ele terminando de se vestir. Areia escorria rapidamente por uma ampulheta invisível em sua cabeça, enquanto sua mente dava voltas e voltas em busca de uma solução... Já completamente vestido agora, o loiro olhou para o Sultão, preparando-se para uma reverência final.
– Então... Acho que isso é adeus, meu Senhor...
Tudo que Félix conseguia pensar naquele momento era que não podia deixar que ele se fosse. Avançando em um movimento rápido pela cama, esticou a mão para segurar o braço dele, gesto que surpreendeu a si mesmo, talvez mais que ao jovem escravo.
– Fica mais um pouquinho... Conta o final da história...
O loiro não respondeu, apenas o olhou longamente em silêncio. Logo a noite desapareceria deixando lugar para os inevitáveis primeiros raios de sol da manhã. Um impasse se seguiu. O grande Sultão estava pedindo ou ordenando que ficasse?
Felix logo caiu em si da incoerência que cometia e largou seu braço. Não se entendia mais. Olhando dentro dos olhos dele, via que ele tambem não. Confuso, ele tentou surgir com uma idéia que resultasse em vê-lo de novo, pelo menos mais uma vez... Pelos Cachos do Profeta, era isso! Ele era o Sultão e era ele quem determinava as regras, e podia perfeitamente alterá-las. Se aquele escravo lhe agradara tanto, por que não repeti-lo pelo menos mais uma vez?
– E se você voltasse amanhã? — As palavras saíram de seus lábios antes que pudesse pensar sobre elas. Nunca saberia se teria feito alguma diferença.
Um sorriso abriu-se nos lábios rosados. A face dele iluminou-se como se o sol já tivesse invadido o quarto real antes que o amanhecer trouxesse seus raios dourados.
– Se assim o Amo desejar, voltarei sim, meu senhor.
– Seu Amo permitirá que você volte?
O sorriso se ampliou na face angelical.
– Meu Senhor ficará extremamente honrado em saber que o poderoso Sultão ficou satisfeito comigo. Creio que ele permitirá sim, Amo.
– E você poderá me contar o final da história... — Félix estava convencido que essa seria a única vantagem de repetir aquele adorável escravo... Além das que já eram mais do que óbvias. — Então está combinado. Volte de noite. — Ele era mesmo um gênio, e nem precisava de lâmpada! Aproveitaria aquele Carneirinho lindo mais uma vez... E ainda saberia o final da aventura. Félix desconfiava que nascera antes de seu tempo, só podia.
O loiro assentiu sorridente e dirigiu-se para a porta. Refastelando-se em meio às almofadas, Félix aproveitou para desfrutar da visão de suas nádegas redondas e perfeitas enquanto ele andava. Quando a mão do jovem pousou na maçaneta dourada para abri-la, veio-lhe à mente uma última pergunta.
– Espere... Qual é o seu nome?
– O Amo me nomeou Carneirinho.
– Não, não... Qual o seu nome verdadeiro? – Félix não sabia explicar porque sentiu necessidade de perguntar isso. Escravos não precisavam de um nome. Nem mesmo para servi-lo em seu leito real... Muito embora ele tivesse feito isso muito bem... Por Alá, em todos os sentidos, na verdade...
O jovem de cabelos cacheados como um Carneirinho abriu um daqueles sorrisos francos que tanto lhe chamaram a atenção ao primeiro olhar. A timidez voltara à voz suave quando finalmente respondeu, antes de sair do quarto real fechando suavemente a porta atrás de si.
– Nicolas.
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