Carneirinho e as Cento e Uma Noites
18 A História de Fahir - Parte IV
Notas iniciais
"Desde o primeiro momento em que meu olhar pousou sobre aquela criaturinha com cara de joelho sangrento, eu soube que assim que meu pai tomasse conhecimento de sua existência, estaria tudo acabado para mim. Minha felicidade recém conquistada viraria rapidamente cinzas a serem sopradas ao vento, logo ao primeiro olhar do Rei Cesare para a criança órfã que eu agora levava em meus braços, envolta na minha capa preta da qual abri mão para torná-la uma manta improvisada.
Enquanto eu me embrenhava pela floresta em passos rápidos, o corpo sem vida de Pércia ficava cada vez mais para trás. Cuidaria disso depois. Agora havia um problema mais urgente a ser resolvido, na forma do casulo de tecido preto que levava nas mãos, de onde somente um rosto redondo e ainda vermelho pelo esforço do nascimento era visível. Abaixei o olhar. Serena, a menina dormia o sono dos inocentes, como se os braços que a seguravam fossem o lugar mais seguro do mundo para um bebê se aninhar. Como a ignorância podia ser mesmo uma benção...
Ainda não estava bem certo do que fazer, mas aparentemente minhas pernas sim, pois algum tempo depois de caminhada, a floresta se abriu e eu me vi diante da margem de um rio. Exatamente nesta margem do rio onde nos encontramos, Cacheadinho.
Este foi o lugar onde eu me livrei de minha sobrinha.
Agora enquanto eu digo essas palavras a você, desejaria nunca ter que dizê-las, ou nunca ter que voltar aqui e relembrar tudo que eu fiz. Essas palavras tem sabor de fel em minha boca, que me arde por dentro como o pior veneno do mundo. Mas eu devo continuar, pois por ninguém mais eu voltaria aqui e olharia novamente para dentro desse meu velho abismo... Mas por você sim, Cacheadinho. E que os deuses tenham de mim uma piedade que absolutamente não mereço, quando você ficar sabendo realmente de tudo.
Assim que me vi ao ar livre, corri o olhar em volta deste lugar, à procura de alguma coisa, sem saber exatamente o que... Até que meus olhos bateram em algo que me pareceu providencial. Um tronco grosso de árvore jogado na margem do rio. Deduzi que chegara ali trazido pelo rio, e encalhara na margem lamacenta. Me aproximei do tronco e verifiquei que havia uma rachadura central, não muito grande, mas em tamanho suficiente para abrigar algo bem pequeno...
Como um bebê recém-nascido.
Logo tudo se desenhou em minha mente, e não parei para pensar muito. A urgência de me livrar do problema que dormia envolto pela minha capa me fez agir rápido. Ajoelhei-me junto ao tronco, e com cuidado para não acordar a ratinha, comecei a depositá-la na reentrância, mas um pensamento súbito me fez parar. Eu não podia despachar a criaturinha rio abaixo envolta na minha capa... Não que ela já não estivesse inutilizada com todo o sangue que a manchara, mas o problema era minha insígnia Real bordada nela. Eu me livraria do bebê mandando aquele tronco rio abaixo, e o que aconteceria a partir dali, não era mais meu problema. Que os céus decidissem o que ia ser feito dela. Grandes chances dela encontrar o mesmo destino que a mãe. Porém...
Havia uma minúscula, quase inexistente chance de sobrevivência para aquela criança. E deixar que ela fosse encontrada com minha capa personalizada enrolada nela não era algo inteligente de se fazer.
Relutante, eu retirei a criança da abertura na madeira, o que a fez emitir um gemido de protesto, e desenrolei a manta de seu corpinho agora trêmulo pelo frio da noite. Depositei a criança de volta ao tronco, e como um paliativo enchi seu interior com algumas folhas secas caídas das árvores próximas. Depois observei o resultado final. A criaturinha voltara a se aquietar em seu novo ninho de folhas. Eu sorri, e já me preparava para levar o tronco à água quando algo me chamou a atenção e me abaixei sobre a criança para ver melhor.
Havia uma mancha com um aspecto peculiar naquele pescocinho. Normalmente não teria atentado para um detalhe tão insignificante, já que o tempo urgia... Mas algo me fez passar o dedo sobre a mancha só para ter certeza de que não se tratava de simples sangue remanescente do complicado nascimento.
Não, não era mesmo uma mancha de sangue, e sim de nascença. Assemelhava-se a uma pequena borboleta. O desenho era quase perfeito, como se o mais meticuloso tatuador houvesse trabalhado no interior do ventre da minha irmã, e esse pensamento quase me provocou um ataque de riso.
Definitivamente não havia tempo para reflexões sobre as ironias que o destino gostava de pregar nos meros mortais. Aquele embrulhinho de problemas precisava navegar para bem longe. Sem esperar mais, eu arrastei-o até a margem, e com um pequeno pontapé, o tronco se juntou à correnteza, sendo levado rapidamente, até sumir de vista rio abaixo.
— Espero que saiba nadar, ratinha... – Eu murmurei, com uma risadinha de escárnio. Pronto, estava feito. Mas ainda não terminara. Era sempre assim com minha irmã... Sempre havia algo mais a ser resolvido. Mas dessa vez teria que ser a última.
Antes de voltar à clareira onde deixara Pércia, resolvi o problema da capa manchada de sangue escondendo-a entre as copas de uma árvore bem frondosa, dando dois nós firmes para amarrá-la num galho bem alto. Não havia tempo para uma providência mais eficiente no momento, e depois eu inventaria alguma desculpa para explicar a perda da capa. O que importava mesmo era chegar ao corpo sem vida da minha irmã o quanto antes, para que eu pudesse colocar todo aquele inconveniente para trás.
Mal sabia eu que o rei de todos os inconvenientes me esperava na clareira.
Quando finalmente irrompi esbaforido por entre as árvores, sei que pelo menos uma expressão não precisei fingir em meu rosto: Surpresa. A ingrata surpresa de encontrar meu chefe da guarda, agachado com o corpo de minha irmã em seus braços. E o terror dos terrores... A criatura ainda estava viva! Eu podia ver facilmente pela maneira como se debatia nos braços de Jamal, em aparente delírio febril, enquanto ele procurava, assustado, acomodá-la nos braços, incerto do que fazer.
Por alguns segundos eu tive que conter toda a fúria em meu íntimo para que ela não transparecesse em minha expressão. A infeliz da ratinha-mãe realmente não conseguia fazer uma coisa certa na vida, ainda que isso significasse apenas morrer? Não era possível... Pércia simplesmente criara uma resistência doentia em permanecer sempre em meu caminho, exatamente como um rato que sempre consegue escapar da ratoeira mais bem montada...
Mais uma vez meu raciocínio rápido veio em meu auxílio, e antes que Jamal pudesse somar dois e dois, eu juntei-me a ele, ajoelhando-me junto aos dois, exibindo em meu rosto a expressão mais preocupada e desesperada que minhas habilidades de atuar conseguiriam evocar.
— Minha pobre irmãzinha! – Exclamei dramaticamente, levando uma mão ao rosto inconsciente de Pércia — Graças aos Céus você a encontrou, Jamal! Estive procurando por ela por toda a floresta há nem sei quanto tempo!
— Estava? – Jamal me olhou com o que parecia ser um misto de confusão e desconfiança, e muito embora isso não tenha me agradado, não vacilei no meu papel de irmão preocupado.
— Claro que sim! Eu saí naquele momento para me aliviar, e levei um susto quando Pércia apareceu diante de mim, nessa condição terrível que você está vendo... Quando tentei acudi-la, ela saiu em disparada pela floresta e eu fui em seu encalço, mas acabei perdendo-a de vista. Coitadinha... – Passei a mão no rosto febril em estudada carícia, e lancei-lhe um olhar desolado, simulando um soluço. – Logo vi que ela não estava em seu juízo normal. Mas felizmente você a encontrou! – Eu agora sorria para meu chefe de guarda, mas por dentro queria esganá-lo. Jamal escolhera o momento pior de todos para mostrar outras habilidades que não fossem a de satisfazer as minhas vontades... Mas agora não havia outro jeito. Eu já não podia mais fazer minha irmã desaparecer. Tudo que me restava era minimizar os danos que com certeza o reaparecimento de Pércia me trariam.
Pelo menos a ratinha recém-nascida já devia estar bem longe rio abaixo a essa altura. E por falar nisso...
— Fahir... Ela ainda está sangrando muito. Acho que ela acabou de dar a luz... – Ele observou, com um estranho olhar sobre mim.
— Dar a luz? Jamal, o hidromel que você bebeu lá na taberna estava estragado? Se ela houvesse dado à luz, haveria um bebê aqui. Você vê algum bebê? – Apontei com o olhar em volta de nós, em tom mais ríspido do que gostaria. Eu já formara toda uma história para contar aos meus pais do que acontecera essa noite, e definitivamente não deixaria meu chefe de guarda, por mais diversão que ele me proporcionasse, estragar isso.
— Não... – Foi a resposta insegura do rapaz.
— Então vamos parar com esses bebês imaginários e levar minha irmã a um médico, o mais rápído possível! Vamos, criatura, mexa-se! Ou terei que salvar Pércia sozinho? – encerrei o assunto com urgência na voz, e felizmente Jamal desistiu dos questionamentos, pelo menos por ora. Em um esforço conjunto, carregamos minha irmã de volta para o vilarejo, enquanto minha mente borbulhava de pensamentos funestos sobre o futuro.
Um futuro com Pércia novamente em meu caminho...
Quem poderia imaginar o quão caro me sairia aquele bendito hidromel?
* * * * * *
O que se seguiu foi como se eu assistisse a uma peça de teatro de horror... A diferença é que eu não mais dominava os cordões que controlavam as marionetes. Cativo de uma piada cruel do destino, eu lutava para contornar todas as vertentes perigosas que a aparição de Pércia poderia provocar.
Como eu previa, meu pai imediatamente esqueceu tudo que acontecera assim que teve diante dos olhos a filha pródiga, agora em estado de vida ou morte, aparentando ter passado por maus bocados. Eu mantive meu papel de irmão dedicado e preocupadíssimo com as condições terríveis em que Pércia fora encontrada, mas por dentro remoía antigos sentimentos já esquecidos, ao contemplar a face devastada de meu pai.
A primeira providência foi cancelar a viagem até o seu Reino, Cacheadinho. O fato de já estarmos tão perto dos limites das terras de Krone nada significou diante dos novos acontecimentos. A aparição de Pércia tornou-se prioridade máxima. Bastou um olhar para a face desacordada de minha irmã para meu pai retomar a velha e irritante cegueira. Logo toda a comitiva real foi mobilizada no sentido de procurar o médico mais próximo da região para cuidar de seu estado de saúde ainda incerto. Só havia uma coisa jogando a meu favor. Pércia ainda encontrava-se inconsciente, acometida por uma febre que não cedia.
Enquanto traziam o médico ao vilarejo, meu pai me chamou para uma conversa particular. Quando percebi a intenção de Jamal de nos acompanhar, eu lancei-lhe um olhar ferino, comandando-lhe em silêncio para que não ousasse. Eu já tinha minha história toda pronta e não podia me arriscar a tê-la ameaçada por ninguém. Felizmente ele entendeu meu olhar e não me desafiou, mas o fato de ter tentado me surpreendeu. Não fosse todo meu empenho em apresentar uma história convincente ao meu pai sobre o retorno de Pércia, talvez eu pudesse ter de alguma maneira evitado o que ocorreu depois... Ah, Cacheadinho, eu e minha mania de querer me adiantar.
Finalmente expliquei ao meu pai tudo que acontecera. Minha versão, é claro. Achei por bem cruzar algumas coisas com a versão que Jamal contaria, se algo lhe fosse perguntado. O fato é... Quem o faria? Claro que a versão oficial seria a minha. Eu era o filho do Rei. O príncipe de Elcure. Minha credibilidade era inquestionável. Sendo assim contei ao meu pai como me assustara quando Pércia surgira do nada na floresta enquanto eu aliviava minhas necessidades, e as condições horríveis em que se encontrava, o que mal pude divisar antes que ela fugisse de mim.
— Mal a reconheci, meu pai. Como o senhor mesmo viu, minha pobre irmãzinha estava num estado deplorável, e me corta o coração dizer isso, mas sua expressão desvairada me levou a crer que estava completamente fora de si. Tanto é que fugiu de mim quando tentei acudi-la, se embrenhando floresta a dentro em disparada. Eu a persegui mas não sei como a perdi de vista. Felizmente Jamal estranhara minha demora e veio à floresta me procurar, e foi aí que a encontrou inconsciente. Então nós dois a trouxemos para cá o mais rápido que pudemos. – Finalizei, observando cuidadosamente sua expressão antes de abaixar o olhar e fingir-me abatido pela dor e preocupação.
Tentei dizer a mim mesmo que ainda era possível controlar toda a situação, se eu mantivesse a frieza e calculismo habituais. Meu pai parecia ter acreditado em mim. O histórico de Pércia também não falava a seu favor. Só o fato de ter fugido com uma tribo de ciganos e ter deixado tudo para trás já indicava que sua sanidade mental não merecia o menor crédito.
— Mas o que poderia acontecido com Pércia para deixá-la nesse estado?
— Não sei lhe responder isso, meu pai. Mas seja lá o que for... Temo dizer que acabou totalmente com seu juízo. Estou preocupadíssimo com a possibilidade de minha irmãzinha... – levei uma mão para tapar minha boca e fingi um soluço contido – Nem acordar mais.
— Vira essa sua boca pra lá, Fahir! – A negação veemente de meu pai me queimava os ouvidos. – Ela vai acordar sim. Nem que eu mesmo tenha que buscar o médico mais competente dos quatro cantos das Terras Médias de San Magno. Minha filha vai acordar, e vai ficar boa, ou meu nome não é Cesare Elcure! – Eu sabia que ele procurava dizer isso para se convencer, e eu rapidamente emendei.
— Claro, querido pai, imagina, é o desespero e a dor pela minha irmã que me fez dizer essas coisas... Ela vai se recuperar. Eu também darei o meu melhor pela minha doce irmãzinha! – O súbito embargo em minha voz era real, mas não pelo motivo que se esperaria. Era aquela velha dor me assombrando... A dor da ameaça de ser jogado de volta às sombras. Se é que já não o fora...
— Onde está esse médico afinal, que não chega nunca? – disse o Rei Cesare enquanto se afastava de mim e ia ter com os membros da comitiva real na outra sala. Pelo que me constava ele poderia ter passado através de mim, já que voltara a me tornar dolorosamente invisível. Não o segui logo. Permaneci imóvel, minha cabeça baixa e meu olhar distante. Mais precisamente para um curto e recente passado que ameaçava embotar-se rapidamente diante dos meus olhos, até desaparecer completamente.
Foi aí que lembrei-me de quem eu ainda era, e do quanto seria ridículo entregar a guerra antes de tentar vencer a batalha. Não podia desistir tão cedo assim. Era importante que eu mantivesse a calma, a frieza e acima de tudo, a inteligência. O que estava em jogo era algo que eu passara toda minha vida a perseguir. Ia deixar tudo se perder assim? Não, de jeito nenhum... Levantei a cabeça, respirei fundo, e andei até meu pai.
E foi nesse momento que o médico chegou.
* * * * * *
As horas seguintes se arrastaram com a tensão pesando no ar, enquanto aguardávamos do lado de fora do quarto onde Pércia fora acomodada, até que o médico, na verdade um monge¹ de um monastério localizado no Reino de Sobros, terminasse de examiná-la. Eu cheguei a torcer fervorosamente que nenhum médico próximo fosse localizado... Mas a sorte tomara o partido de minha irmã mais uma vez e fizera com que aquele sacerdote fosse encontrado no meio de uma viagem missionária entre reinos. Quando ouvi a notícia me esforcei para que meu sorriso de esperança tocasse meus olhos... Mesmo que minha vontade real fosse ranger meus dentes de raiva.
Eu suspeitava já ter memorizado cada detalhe entalhado na porta de carvalho, isso quando não espiava pelo rabo de olho para o Rei sentado ao meu lado. Eu não sabia o que me doía mais: A expressão do meu pai que parecera envelhecer vinte anos, sua posição encurvada ou as lágrimas que marejavam seus olhos, que ele nem fazia questão de disfarçar. Quando nossos olhares se cruzavam, eu forçava uma intenção de sorriso.
— Ela vai ficar bem, meu pai. – Eu lhe sussurrava, e ele voltava a olhar para o vazio. Eu sabia que meus olhos também estavam marejados, mas certamente nem precisaria me dar ao trabalho de fingir dor ou preocupação com minha irmã. Eu o fazia mais pelo velho hábito... Mas era notório que meu pai não me enxergava mais.
Após um tempo interminável aquelas portas pesadas de madeira se abriram lentamente, e o monge, um senhor de cabelos brancos e trajado com um hábito marrom escuro, finalmente revelou-se. Só naquele momento reparei melhor em seus trajes e soube que não se tratava de um monge qualquer. Meu pai conseguira trazer àquela cidadezinha o Abade do Mosteiro de Amosgnan², a figura religiosa de maior importância num âmbito de léguas de distância. Meu pai levantou-se imediatamente e foi ter com o sacerdote, cuja expressão não parecia nada animadora.
— Dom Efigênio... Como está minha filha? Ela acordou?
Eu logo já me juntara a eles, me postando ao lado do meu pai, com uma atitude solícita... Mas na verdade meu coração me subia pela garganta com tanta expectativa pelas notícias que o Abade traria. Consegui engoli-lo de volta para o lugar quando veio a resposta em tom de voz brando.
— Infelizmente ela ainda não acordou, Majestade, mas a febre baixou um pouco. – O Monge olhou em volta e abaixou o tom de voz – Talvez seja melhor conversarmos mais reservadamente. Somente os membros da família. – E os olhos azuis se fixaram em mim por trás de uma expressão indecifrável. Senti um arrepio subir-me pela espinha, mas mantive a pose. Sem demora meu pai atendeu ao pedido de Dom Efigênio, e nos trancamos em uma sala. Sentados a uma mesa, ouvimos o resultado dos exames que o Sacerdote praticara em minha irmã.
Dom Efigênio explicou que minha irmã entrara em uma espécie de sono profundo, conturbado e febril, que não respondia a nenhum estímulo do mundo desperto. E esse sono talvez fosse proveniente de algum grande choque emocional pelo qual passara. Ainda era impossível determinar quanto tempo levaria para acordar... Ou até mesmo se acordaria. Os exames mostraram ao Supremo Monge que Pércia estivera grávida, e acabara de passar por um parto certamente traumático, no qual perdeu muito sangue, mas a hemorragia já estava controlada. O problema maior agora era trazê-la de volta à consciência, para que talvez pudesse explicar ela mesma o que realmente acontecera, e qual o paradeiro do bebê que abrigara no ventre.
— Meu Deus... – murmurava meu pai, repetindo várias vezes sem conseguir acreditar. – Meu Deus... Minha filha... Pércia... – As lágrimas agora afloravam sem timidez pelas faces envelhecidas do Rei Cesare, e quando ele olhou desnorteado para mim, eu já contava com meu próprio estoque de lágrimas para acompanhar as dele.
— Fahir, quando vocês encontraram Pércia, não havia... – Meu pai quase expulsou as palavras pelos lábios — Nenhum bebê?
Eu fingi que não conseguia responder, apenas neguei com a cabeça, em seguida apoiei-a nas mãos com os cotovelos sobre a mesa, querendo aparentar total desespero com o que acabara de ouvir.
— Desculpe, meu pai... Dom Efigênio... Desculpem-me, mas... Não consigo segurar a emoção diante de notícias tão terríveis. Saber que minha amada irmã passou por tudo isso... Sozinha, perdida, vulnerável... E mais, saber da existência de uma sobrinha ou sobrinho, que nem cheguei a conhecer... E pior, não saber o que aconteceu com essa criança... Está me destroçando por dentro! – Abaixei a cabeça e me permiti alguns soluços sentidos para acompanharem a cascata de lágrimas que já escorria por minhas faces.
Não recebi nenhum consolo de meu pai, nem esperava por isso. Continuei com meu teatro de dor profunda, enquanto Dom Efigênio continuava falando sobre as expectativas de melhora para Pércia, que não eram nada altas. A coisa mais importante naquele momento era Pércia acordar. Enquanto isso não acontecesse, precisaria de cuidados e atenção constantes, e quando finalmente abrisse os olhos, a ausência do bebê que dera a luz era uma informação a ser tratada com todo o tato possível, para não chocá-la ainda mais do que decerto já fora.
Quando o Abade disse isso, ressaltando que aquele era um ponto crucial para qualquer melhora do estado de saúde de minha irmã, uma luz se acendeu dentro de mim, e eu soube exatamente o que fazer. Só esperava que meus olhos não brilhassem muito com a idéia maligna que já se formara em minha mente. Sim, eu sei, Cacheadinho. Mais uma, de tantas... Mas pelo menos posso dizer que foi a última de todas. Infelizmente, tenho que dizer também que foi a pior.
— Eu ficarei ao lado da minha irmã. Faço questão! – afirmei, determinado.
— Fahir, não podemos esquecer do bebê... Eu quero uma busca em todas as redondezas pelo meu neto, ou neta! Existe uma criança, e não descansarei enquanto não a encontrarmos. E você vai liderar essa busca. – Ele ordenou, recuperando um pouco a compostura de Rei, o brilho fraco de uma nova esperança no olhar.
— Perdoe-me, meu pai, por desobedecê-lo... Mas não posso! Não quero deixar minha irmãzinha sozinha nem mais um minuto! Veja o que aconteceu quando me deixei convencer por ela que seria bem cuidada pelos ciganos, que seria feliz em sua nova vida... Cometi um erro terrível em ter cedido ao amor imenso que sinto por Pércia e não tê-la impedido à força de partir! Sinto-me tão culpado. Fui traído pelo meu coração amolecido de afeição por Pércia. Jamais me perdoaria se lhe acontecesse mais alguma coisa. Não deixarei sua cabeceira, velarei seu sono noite e dia, até que acorde! Dou minha palavra, meu pai! – Exclamei num discurso inflamado e emocionado, que pareceu convencê-lo, fosse pela minha capacidade de dissimulação, fosse por seu estado emocional abalado por causa de tudo.
— Mas as buscas...
— Jamal, meu pai. Ele é a pessoa perfeita para comandar as buscas. Confio no meu chefe da guarda com minha vida, certamente posso confiar também a vida dessa pobre criança desaparecida. Tenho certeza que Jamal conseguirá encontrar esse bebê. – Arrematei, tomando cuidado de não acrescentar ‘com vida’. – Falarei com ele agora mesmo e darei todas as instruções para a formação do grupo de busca.
Finalmente o Rei aquiesceu, e intimamente eu suspirei de alívio. Pedi licença ao meu pai e ao Abade, levantei-me da mesa com reverências respeitosas, e saí do cômodo. Eu sabia que nunca encontrariam a ratinha. Muito tempo já se passara, e àquela altura, a criaturinha já virara o jantar de algum urso faminto, ou simplesmente se afogara em alguma correnteza mais forte do rio. Não importava. Tudo que me importava agora era assumir meu posto junto à minha adorada irmã, para garantir que eu fosse a primeiríssima pessoa que ela visse quando abrisse aqueles olhos castanhos, antes sempre tão cheios de brilho...
Um brilho que eu estava determinado a apagar com meu sopro final e letal.
Meu ânimo já era outro. As marionetes voltavam a dançar ao sabor dos meus dedos. E pelas sete trombetas do Apocalipse, eu faria de tudo ao meu alcance para que aquela fosse, enfim, a última dança de todas.
* * * * * *
Durante três dias e três noites, seguindo à risca o papel de irmão diligente e dedicado, eu permaneci à cabeceira da cama de uma Pércia ainda inconsciente, apesar de menos febril. De vez em quando, alguém entrava no quarto, e quando essa pessoa se aproximava da cama, sempre me encontrava na mesma posição: debruçado bem próximo a minha irmã, com sua mão entre as minhas, e meu olhar centrado na figura adormecida. Cumprindo fielmente o que prometera ao meu pai, eu passava praticamente todo o tempo junto de Pércia. Antes mesmo que a porta pesada de madeira se abrisse num rangido, pelo som dos passos eu já antecipara quem estava por entrar, e dependendo de quem fosse, eu adotava uma atitude diferente. Quando era o Abade, eu fingia rezar de olhos fechados. Quando ouvia os passos de meu pai, vestia no rosto a expressão mais desolada que conseguisse simular. Depois de dois dias já nem era preciso fingir muito. Minhas costas doíam miseravelmente e sei que olheiras terríveis rodeavam meus olhos, pois eu não me permitia dormir de jeito nenhum, para isso fazendo uso de inúmeros chás feitos com ervas estimulantes.
Acredito que meu pai tenha ficado até impressionado com tanta dedicação de minha parte para com minha irmã, mas não houve nenhum comentário nesse sentido. Eu não esquecia de sempre perguntar-lhe sobre o progresso das buscas pelo bebê desaparecido. Satisfação e alívio imensos me dominavam quando a resposta era sempre negativa, e eu traduzia isso com uma expressão de profunda decepção e tristeza na face.
Mas quando estávamos somente eu e Pércia naquele quarto, tudo mudava. Sei que meu rosto não demonstrava mais amor e preocupação com minha irmã mais nova, e sim uma autêntica expressão da mais pura maledicência. Se o Mal pudesse se manifestar na forma de uma criatura humana, tenho certeza que essa criatura seria eu, Cacheadinho.
‘ — Você precisa ter cuidado, criança... Muito cuidado! O mal, ele espreita, é traiçoeiro e não tem misericórdia... O mal nunca dorme. Nunca!’
As palavras de aviso da cigana me vieram à mente várias vezes, enquanto eu velava o sono de Pércia, e quando isso acontecia, se eu estivesse sozinho, eu deixava que um sorriso irônico tomasse meus lábios, pois não é que a charlatã de lenço no cabelo acertara direitinho em sua previsão?
Completamente alheia à presença do mal à sua cabeceira, Pércia seguia inerte em seu sono profundo, sem reagir a nada que acontecia à sua volta. As linhas de seu rosto, mais serenas depois que a febre amainou, eu já chegara até a decorar. Não obstante, eu aproveitava as longas horas da madrugada para sussurrar em seu ouvido todos os meus sentimentos verdadeiros sobre ela. Não importava se ela podia ouvir ou não. Um prazer doentio me levava a crer que talvez as palavras cruéis e malignas que dizia a ela na calada da noite pudessem penetrar através dos escudos da inconsciência e entrar em sua percepção. De qualquer modo era libertador ser eu mesmo, poder despejar minha sinceridade ainda que para ouvidos apáticos.
Finalmente, na madrugada da terceira noite, meu empenho foi recompensado, quando a mão de Pércia fez um leve movimento entre as minhas. Levantei a cabeça que estivera apoiada na borda da cama e aproximei-me de seu rosto. Todo o sono e cansaço dos últimos dias se esvaiu em segundos, enquanto eu a observava atentamente. Meu coração quis cavalgar para fora de meu peito ao perceber as pálpebras antes imóveis começarem a se mexer, e eu respirei fundo para domar a ansiedade. Chegara o momento pelo qual tanto esperara.
Como um abutre faminto e ansioso pelo banquete funesto, eu me debrucei mais ainda sobre minha irmã, e aguardei até que aquele par de olhos castanhos se abrissem totalmente e se fixassem em mim. Olhos amedrontados e desorientados... Nunca a palavra ‘Ratinha’ servira tão bem a uma criatura, e nunca uma ratoeira fora tão bem preparada antes.
A última ratoeira. E eu não permitiria escapatórias dessa vez.
Eu já me armara com um falso sorriso de felicidade nos lábios e apertei calorosamente sua mão entre as minhas. Ao me reconhecer, os olhos castanhos se iluminaram e Pércia começou a ensaiar um sorriso fraco.
‘Benvinda, Ratinha Dorminhoca...’ tive quase que morder minha língua para não proferir a recepção sarcástica, e o que saiu de meus lábios na voz mais suave e gentil que consegui entoar foi:
— Minha doce irmãzinha! Que bom que acordou..."
* * * * * *
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