Carneirinho e as Cento e Uma Noites
19 A História de Fahir – Parte V
Notas iniciais
“A primeira coisa que Pércia tentou fazer após abrir os olhos e sorrir para mim foi tentar sentar-se na cama, mas eu a detive com uma mão gentil, fazendo com que voltasse a deitar-se. Sacudi a cabeça mentalmente. Voltando dos mortos ou não, minha irmã não negava sua natureza sempre impulsiva. Além disso eu não poderia permitir que saísse daquele quarto, não ainda. Quem sabe nunca mais...
— Pércia, meu docinho, não se mexa... Você ainda está muito fraquinha. Fique deitada, viu? – Dirigi-lhe um sorriso amoroso, mas minha mão em seu ombro era firme. Ela não resistiu, fechando os olhos com um suspiro e voltando a descansar a cabeça no travesseiro.
— Irmão querido... – Ela abriu os olhos. — Como é bom ver seu rosto mais uma vez... – murmurou com os olhos marejados.
— Digo o mesmo, meu doce. – Fiz um carinho calculado nas madeixas castanhas, avaliando seu estado cuidadosamente. Mesmo que levemente pálida, Pércia parecia bem... Bem demais para quem acabou de acordar de um sono profundo de três dias. Mas eu garantiria que isso não durasse muito.
— Me sinto tão perdida, tão confusa... – Ela piscou os olhos e levou uma mão meio trêmula à cabeça. – Onde... Onde eu estou? – Seu olhar percorreu os contornos do quarto envolto em sombras, depois voltou a centrar-se em mim.
— Você está segura. Estamos com amigos. – Eu afirmei-lhe, ainda sorrindo. – Tive medo que não acordasse mais, mas felizmente você está de volta com esse sorrido lindo para aquecer o coração do seu irmão.
‘Porque você me ensinou que os ratos são criaturas resistentes, quem diria...’
As falsas palavras de carinho fizeram com que uma lágrima escorresse por sua face. E foi então que seu rosto se transfigurou de repente com as lembranças que lhe assaltaram.
— Fahir... Eu... Estou me lembrando agora... Eu dei a luz, lá na floresta... Você segurou minha mão... Você estava lá junto comigo!
— Sim, minha querida... – Preparei-me para o grande momento buscando rapidamente sua mão para segurá-la nas minhas com uma urgência que eu pretendia que soasse desesperadora.
— Meu bebê... Onde... Onde está o meu bebê? – Enfim, a pergunta crucial. Olhei para sua face ansiosa. Em seu olhar dançavam freneticamente esperança e medo pela minha resposta. Foi minha vez de transformar minha expressão do rosto radicalmente. Murchei meu sorriso, e não respondi logo. Fingi estrangular um soluço na garganta e apoei a testa nas minhas mãos que envolviam a dela. Senti lágrimas banhando minhas faces e minhas mãos.
— Onde está o m-meu... be-bê... Fa... hir... – Veio o fiapo de voz, já entrecortado por soluços sentidos. – Onde está meu bebê, meu irmão?
Eu aguardei mais um pouco com a cabeça baixa e os olhos fechados, em estratégica espera. Quando ergui o olhar para ela, lágrimas já escorriam copiosamente pelo rosto pálido de puro pavor. Pércia podia ser uma menina boba e ingênua, mas o que eu já lhe falara com meu silêncio significativo e pesaroso dizia muito. E eu sabia que o que diria com os lábios seria o tiro de misericórdia que resolveria todos os meus problemas.
— Fahir... – Pércia murmurou, soluçando mais fortemente. Se ela precisava ouvir com todas as letras, eu não me faria de rogado.
— Sinto muito, minha irmãzinha, mas seu bebê está morto. – Eu finalmente respondi, saboreando intimamente cada sílaba daquela frase.
— Morto? – Ela repetiu sem conseguir assimilar a idéia, com uma apatia incrédula na voz.
— O bebê já nasceu morto, Pércia. E talvez tenha sido melhor assim, já que a pobre criaturinha nasceu cheia de deformidades... – Eu levei uma das mãos para cobrir minha boca, e fechei os olhos como se a lembrança mais terrível me assombrasse. – Deformidades tão horríveis... – Eu acrescentei, vertendo mais algumas lágrimas de falso pesar, enquanto a memória real da criaturinha recém-nascida invadia meus pensamentos, com aquele par de olhos brilhantes de ratinha curiosa me encarando. Eu ainda não sabia, mas essa singular lembrança viria me assombrar de verdade por muito anos vindouros... Naquele momento, ela nada me trazia além de indiferença e asco pelo ser despachado rio abaixo.
— Não... Não... – Uma negação inicial era normal, mas o que eu pretendia ver surgir no par de olhos castanhos era o momento exato em que o limite entre a lucidez e a insanidade fosse cruzado. Eu sabia que já estava quase...
— Meu coração sangra por ter de ser eu a lhe contar isso, irmã querida... E mais ainda por ter lhe dizer que, como o bebê não pôde ser batizado, pois nasceu pagão, o cemitério dessa cidadezinha não aceitou enterrá-lo. Eu mesmo tive que cuidar de seu descanso final. Mas eu prometo que fiz com todo o carinho. A pobre criaturinha descansa em paz, na floresta, ao pé da árvore mais bonita que consegui encontrar...
— Não... – Era a única palavra que Pércia conseguia murmurar entre lágrimas, enquanto sacudia a cabeça em negação desesperada. – Não... Não...
— Eu ainda depositei flores em cima.
— Não...
— Flores bem lindas... Tão lindas quanto você, meu docinho...
— NÃO!
Essa foi a última palavra proferida por Pércia com o último resquício de lucidez que eu assistia desmanchar-se bem diante dos meus olhos. A negação elevou-se no ar, em um grito que cortou o silêncio da madrugada como a espada mais afiada. Logo, minha irmã gritava sem parar em total desvairio, sua face desfigurada pelo choque e pela dor excruciante. Com cuidado, levantei-me de meu posto e comecei a me afastar em pequenos passos para trás.
Estava feito. Minha irmã se fora, dando lugar a uma criatura totalmente insana e perdida dentro de si mesma. Os gritos aumentaram de intensidade e eu sabia que não demoraria até alguém aparecer, por isso corri para a porta. Antes que pudesse abri-la, meu pai e o Abade irromperam no quarto, com as expressões mais assustadas nos rostos.
Fingi estar imensamente aliviado com a chegada deles, e contei-lhes como fora rendido por um breve cochilo à cabeceira de Pércia, antes que os gritos insanos me acordassem, assim como acordaram todos na casa. Logo havia uma multidão de gente curiosa do lado de fora do quarto, entre membros da comitiva real, os criados, nosso anfitrião... Quando o olhar de Jamal encontrou o meu, eu rapidamente tratei de fechar a porta, enquanto os gritos horríveis e estridentes de Pércia nunca cessavam.
Meu pai foi o primeiro a aproximar-se da cama, com o Abade logo atrás. Pércia estava visivelmente fora de si. Meu pai tentou falar com ela, até mesmo tocar em sua mão, mas foi inútil. Ela continuava gritando incansavelmente e não reconhecia mais ninguém. O choque de perder seu bebê a raptou para um lugar desconhecido e inóspito: o frio vazio da loucura. Como um espelho embaçado que não devolvia mais o reflexo sobre coisa alguma.
E eu fui a pessoa que a levou até esse lugar, a tranquei lá e joguei a chave fora, tornando quase impossível seu retorno.
— Dom Efigênio, por favor... – A voz de meu pai era trêmula e suplicante. O soberano de Elcure agora não passava de um simples pai devastado pela dor de perder a filha mais uma vez, antes mesmo de poder de fato reencontrá-la. – Ajude minha filha...
O Abade não precisava responder com palavras. Seu olhar compadecido já dizia tudo. O monge simplesmente balançou a cabeça com uma expressão pesarosa.
— A princesa está presa em um lugar ao qual não temos acesso, Majestade. Tudo o que podemos fazer por ela, agora, é rezar por sua pobre alma.
— Tem que haver algo que possamos fazer, Dom Efigênio! – Eu protestei, mais para mostrar apoio emocional ao meu pai do que qualquer outra coisa. Foi então que o Abade olhou diretamente dentro dos meus olhos, e um lampejo indefinido e soturno piscou naqueles olhos azuis. Um pensamento louco cruzou minha mente. ‘Ele sabe...’
O que era, obviamente, o pensamento mais louco para se ter naquele momento. Mas logo o estranho encanto foi quebrado quando o silêncio invadiu o quarto. Os gritos morreram tão de repente quanto surgiram, sendo substituídos pelo entoar baixo e suave dos versos de uma canção. Nós três nos voltamos estupefatos para Pércia. Minha irmã não gritava mais... Mas aquilo era ainda mais perturbador do que os berros desvairados de antes. Com os braços cruzados sobre o colo, como se segurasse algo, Pércia cantava baixinho uma cantiga de ninar para um bebê imaginário enquanto o embalava nos braços. E mesmo que algumas lágrimas ainda escorressem pelo rosto pálido, ela sorria.
Quando a canção chegou ao fim, Pércia abaixou o rosto e fez bico com os lábios, beijando o ar onde supunha-se, a testa de um bebê deveria estar.
— Minha neném linda... Está com fome? – Sem o menor pudor, Pércia abaixou a camisola expondo um seio redondo e inchado de leite para alimentar o bebê que em sua loucura, somente ela podia ver. – Isso, meu amor... bebe bastante, enche a barriguinha... pra você crescer bem linda...
‘Como ela sabe que era uma menina?’ Foi a pergunta que me veio à cabeça, como se aquilo tivesse alguma importância. Vivendo junto com os ciganos, certamente ela devia ter aprendido alguma mandinga que lhe permitiu saber disso anteriormente, e mesmo em meio à completa loucura em que mergulhara, ela mantinha essa informação: que dera a luz a uma filha. Eu olhava para a mulher que tomara o lugar de Pércia e que amamentava com dedicação um bebê que não estava ali, e mesmo sentido-me enojado com a cena, não conseguia desviar o olhar. Mas me forcei a observar meu pai e o Abade, e percebi que eles também não sabiam o que fazer diante da cena bizarra que se desenrolava diante de nós.
Olhar para a casca oca de árvore em que se transformara minha irmã já era penoso, mais do que jamais pensei... Agora, olhar para a expressão de completo desespero de meu pai, era algo que não tinha explicação. Dessa vez eu já não tinha tanta certeza de conseguir consolá-lo ou amenizar sua dor sendo o único filho são. Eu conseguira sim, afastar Pércia de meu pai, provavelmente para sempre. Mas uma parte de meu pai a seguira, e um súbito receio de que talvez eu fora longe demais me dominou. Mas isso não era a única coisa que me afligia.
Talvez você não acredite em mim, Cacheadinho... Você tem todos os motivos para não acreditar, diante de tudo que venho lhe contando. Mas quando meu plano de exterminar com o juízo mental de Pércia se completou com sucesso, algo se mexeu dentro de mim. Não me atrevo a dizer que era remorso, ou arrependimento. Mas me incomodou mais do que eu gostaria, e sem saber como lidar com aquilo no momento, eu apenas abafei bem lá no fundinho de mim. Mas não fundo o suficiente é claro. Como vim a aprender mais tarde, certas coisas nunca ficam enterradas para sempre. Na maioria das vezes, elas voltam com força redobrada e incansável...
* * * * * *
Me desculpe por essa pequena pausa, Cacheadinho. Eu apenas precisava respirar fundo algumas vezes, antes de continuar. Porque não é fácil despejar tudo isso para fora... Assim como tenho certeza de que não é nada fácil para você receber tanta coisa em seus ouvidos. Principalmente quando vem se aproximando uma parte que... Não. Vamos na ordem.
Desde o surto de Pércia, vários dias se passaram até que meu pai decidisse, afinal, que deveríamos retornar a Elcure. O Rei alimentava a esperança que, uma vez inserida de volta ao lar, sua sanidade contaria com uma chance de ser restabelecida, ou pelo menos alguma parte dela. Pércia seguia do mesmo jeito. Não houvera mais surtos ou gritos, a não ser quando algo a fazia pensar que queriam tirar-lhe o bebê que ninava incansavelmente nos braços. Mas isso não durava o tempo inteiro. Havia longos momentos também em que Pércia apenas jazia no lugar, apática, olhando para o vazio. Ela era como uma tocha apagada... que só se acendia ocasionalmente na forma de fracas faíscas, apenas para cantar para o bebê invisível que levava no colo.
Decisão tomada, preparamos a comitiva real para o retorno da filha pródiga ao Reino de Elcure. Pércia foi acomodada na carruagem, junto com meu pai, Dom Efigênio e uma serviçal como acompanhante. Eu ainda não entendia porque meu pai fizera tanta questão que o sacerdote nos acompanhasse, afinal, o próprio Abade declarara que o estado de minha irmã estava além de qualquer esperança de cura. Mesmo assim o Rei Cesare insistira muito, e chegara a implorar-lhe que voltasse conosco, pedido que foi aceito por Dom Efigênio, talvez por pura caridade. Não propriamente com minha irmã... Já que todo o conhecimento médico do sacerdote nenhuma diferença prática traria para seu estado mental. Mas certamente caridade com o Rei, que ainda agarrava-se a uma tênue esperança de melhora para Pércia, assim que esta pusesse os pés no antigo lar.
Sendo assim, Dom Efigênio voltou conosco, em uma viagem que durou vários dias. Quanto a mim, a viagem de volta seguia como na ida: montado no Alazão, liderando a comitiva dos cavaleiros da Guarda Real, com uma diferença em relação à viagem de ida. Meu pai decidira-se pelo retorno ao nosso Reino, mas ainda relutava em desistir da busca pelo tal bebê desaparecido, por isso ordenou que Jamal e alguns membros da Guarda Real permanecessem naquele vilarejo, prolongando por mais um tempo as buscas pela criança perdida. Assim como o Rei Cesare agarrava-se desesperadamente a qualquer faísca de esperança pela cura da filha, da mesma forma ainda mantinha expectativas sobre uma possível sobrevivência de um neto ou neta. Eu sabia que ambas esperanças eram em vão, mas parte de mim até agradeceu a ausência de Jamal na viagem de volta. Desde o incidente na floresta, Jamal passara a sutilmente me evitar. Quando acontecia de estarmos no mesmo recinto e nossos olhares se cruzavam, ele rapidamente desviava o olhar.
Para uma pessoa que antes estivera tão próxima de mim, essa distância definitivamente era estranha. Eu me tranquilizava dizendo a mim mesmo que todos os acontecimentos recentes certamente contribuíam para essa sensação de paranóia... Afinal, Jamal não poderia nem teria como saber de absolutamente nada. Eu não podia me dar ao luxo de me deixar dominar por pensamentos desse tipo, quando havia uma lista de prioridades muito mais urgentes demandando minha atenção.
Eu conseguira apagar a luz na mente de Pércia, mas ainda havia muito com o que lidar quando chegássemos ao Castelo de Elcure. Restavam várias questões sensíveis para dar atenção, como minha mãe e minha avó por exemplo. Jamal que ficasse naquela cidadezinha mais um pouco, procurando inultilmente por um bebê que jamais seria encontrado, vivo ou morto. Fosse qual fosse o problema de meu chefe da guarda, teria que ficar para depois.
Finalmente a viagem chegou ao fim quando nossa comitiva cruzou os portões da fortaleza de pedra em torno do castelo de Elcure. Minha mãe e minha avó nos aguardavam na entrada do castelo, já cientes através de notícias enviadas por mensageiros, de que Pércia voltava conosco. De mãos dadas, ambas as senhoras sorriam, ignorando completamente as condições em que minha irmã retornava ao lar. Isso fora omitido propositalmente nas mensagens para poupar-lhes um sofrimento antecipado desnecessário.
Como você ja pode imaginar, Cacheadinho, sofrimento foi algo que não faltou, quando veio ao conhecimento delas toda a verdade sobre as condições de Pércia, inclusive quando puderam comprovar com os próprios olhos. Minha mãe chegou mesmo a desmaiar ao receber as notícias terríveis diretamente dos lábios do Rei. Quando assisti a Rainha sendo levada inconsciente para seus aposentos reais, sendo seguida por Dom Efigênio, percebi como fora providencial afinal que o monge estivesse presente. Confesso que deu uma dorzinha especialmente aguda em meu peito ao ver as lágrimas sentidas de minha avó diante de notícias tão dolorosas e da reação extremada de minha mãe.
Eu precisava reconhecer, era mesmo uma época triste para o Reino de Elcure. A sensação que pairava no ar era de luto. Pércia não morrera, mas certamente havia coisas piores que a morte. Como o esquecimento de si mesma. E essa sensação permaneceu sobre todos, como um manto fúnebre e pesado, roubando-lhes a alegria e a paz.
Tudo isso eu observava, como quem observa os resultados finais de uma longa e pelejada batalha. Entre mortos e feridos, ninguém realmente morrera, mas algo significativo se perdera. Tentei dizer a mim mesmo que deveria saborear o gosto da vitória, afinal, meu plano de emergência dera certo, não dera? Eu me safara, mais uma vez. Pércia se transformara em uma espécie de morta-viva, refém do próprio quarto e de cuidados diligentes constantes. Ela se tornara mais vulnerável que uma criança pequena.
A ratinha mordera a última ratoeira e fora pega pela armadilha certeira. Estava presa numa gaiola desprovida de portinhola. Em sua nova condição de invalidez mental, minha irmã se tornara mais uma vez o centro de todas as atenções. Só que era uma atenção triste, desesperançada e na verdade inútil. Não havia nada que alguém pudesse fazer para trazer a Pércia que eles conheciam de volta.
A fuga de Pércia com os ciganos fora um golpe duro no coração de meus pais... Mas não se comparava à situação de agora, quando tinham bem debaixo dos olhos uma criatura apática, vazia e entregue à insanidade que tomara o lugar da filha antes tão amada. Eu percebi que era difícil lidar com esse fato: O amor deles por Pércia era incondicional, irrestrito e inabalável. Talvez até houvesse se fortalecido depois de tudo que acontecera. Não só eu falhara em fazê-la desaparecer, como a fizera voltar para receber um amor ainda maior do que antes. Sim, Pércia se fora... Ao mesmo tempo, nunca estivera tão presente no papel eterno de roubar de mim o amor de meus pais.
Fiquei surpreso quando Dom Efigênio se ofereceu para ficar mais um tempo no Castelo, e naquele momento não saberia dizer o porque de sua estadia prolongada... Não podia ser mais por causa do estado agora estável de Pércia. Eu concluí que talvez estivesse relacionado à sede de conhecimento do Abade sobre a condição mental de minha irmã.
Após o choque e comoção iniciais dos primeiros dias, a vida no Castelo de Elcure começou a entrar em uma nova rotina. E ela girava quase que toda em volta de minha irmã: seu conforto e a atenção constante para com ela eram prioridade máxima. Meu pai, minha mãe e minha avó se revezavam à cabeceira de sua cama, em longas conversas que na verdade eram monólogos. Eles alimentavam uma esperança de que o som constante da voz das pessoas que a amavam, fosse na forma de histórias ou cantigas de ninar, seria capaz de trazê-la de volta ao mundo dos sãos.
Se eu tomava parte nesse revezamento de cuidados com minha irmã, Cacheadinho? Temo dizer que não. Mas nunca fui julgado por isso. A desculpa de que para mim a dor de vê-la nesse estado era grande demais para suportar sempre foi bem aceita. Além disso eles não faziam questão da minha presença. Desnecessário dizer que eu me tornara invisível mais uma vez. Não sobrara nem mesmo o papel de consolador de meus pais. Com as atenções todas voltadas para a criatura apagada que se tornara Pércia, eles simplesmente não tinham mais nenhum tempo para mim.
Numa das pouquíssimas vezes em que compareci ao seu quarto para visitá-la, tive o desprazer de ver em seus braços uma boneca de pano que eu já sabia ter sido confeccionada por minha avó, uma exímia costureira. Agora Pércia não precisava mais ninar o vazio. Minha avó até disso cuidara, provendo a neta com um bebê substituto que satisfazia-lhe a contento. Perguntei-me intimamente o que ela faria se eu arrancasse aquela boneca de seus braços... Mas nem esse pensamento foi capaz de me divertir. Não havia sentido nenhum em descarregar minha raiva e frustração em uma casca oca. Pércia era como a boneca de pano que ninava nos braços. Apenas um objeto inanimado que respirava e subtraía mais do afeto de meus pais a cada respiração.
De certa forma, eu também acabei me tornando uma espécie de morto-vivo, mas de um tipo bem pior do que a nova condição de minha irmã. Um morto-vivo consciente de tudo à sua volta, e dolorosamente invisível a todos, ainda mais do que antes, como nunca imaginei ser possível.
Novamente sem o amor dos meus pais, e sem a companhia de Jamal (com ou sem estranheza), eu só não podia dizer que minha solidão era total porque ainda podia contar às vezes com a atenção de minha avó Benícia, e os breves momentos em que passeava junto com ela pelos jardins internos do castelo, eram os momentos em que meu coração se aquecia com algum carinho. Mas isso nunca durava muito, pois a preocupação com Pércia e com tudo que se relacionava a ela dominava a atenção coletiva, e minha avó não era exceção.
Quando a ansiedade ameaçava roubar minha própria sanidade, eu recorria ao Alazão, talvez a última criatura vivente consciente da minha existência. Não foram poucas as vezes em que montei em meu cavalo e percorri longas distâncias através das planíceis extensas de Elcure. Eu galopava o mais rápido que conseguia, durante horas, até não sobrar mais forças nem em mim nem no Alazão, quando então parava à margem de algum rio e permitia que meu cavalo saciasse sua sede e descansasse, antes que voltássemos ao castelo.
Acho que eu estava tentando fugir de mim mesmo, Cacheadinho. Mas não funcionava muito bem. Afinal, para onde quer que eu fosse, independente da rapidez do galope do Alazão, era simplesmente impossível não carregar a mim mesmo e tudo que eu fizera, como uma sombra sobre meus ombros que me acompanharia sempre.
Quando o retorno da filha pródiga completou duas semanas, comecei a observar uma nova movimentação na rotina do castelo, e quando descobri o motivo, aquela sombra sobre mim ficou mais pesada. Todas as atenções agora estavam voltadas para os preparativos de um grande baile de comemoração. O aniversário de Pércia seria dali a alguns dias, e saber disso ativou dolorosamente minha memória para me lembrar que aquele dia era o dia de meu próprio aniversário.
E ninguém fora capaz sequer de lembrar disso.
Tudo bem que eu mesmo também esquecera, o que era mais do que compreensível depois de tudo. Mas... Meu pai? Minha mãe? Nem mesmo minha avó lembrara? Ninguém?
Não havia limites para tudo que essa nova boneca de pano inanimada chamada Pércia era capaz de me roubar. Agora sim, eu podia dizer com toda a convicção que não sobrara absolutamente nada que minha irmã já não tivesse tirado de mim.
Enquanto todos corriam de um lado para o outro preparando tudo para a festa, eu percorria os corredores do Castelo a esmo, sem saber o que fazer comigo mesmo. Os comentários cheios de expectativas pela novidade chegavam aos meus ouvidos só para reforçar como a Corte inteira, não só meus pais e minha avó, simplesmente adoravam Pércia, fosse ela uma inútil boneca de pano ou não. Percebi que havia uma nova esperança no ar que era quase paupável. Os burburinhos corriam soltos...
‘Quem sabe uma grande festa como essa, com direito a baile e banquete, não seria capaz de mexer um pouco com a memória da princesa doente? Quem sabe isso não a traz de volta?’
Como eu ficava enojado quando as pessoas sorriam bobamente, seus olhos brilhando de antecipação de que isso pudesse mesmo acontecer. A cada comentário desses que chegava aos meus ouvidos, era assaltado por ímpetos de me atirar no fundo de um lago bem profundo e escuro... Como disse eu uma vez a Epifânia em meu discurso sarcástico do ‘noivo cavalheiro’. Cheguei mesmo a sorrir tristemente ao me lembrar da minha noivinha fogosa. Tão ousada aquela criatura...
Epifânia escolhera justamente aquele período para visitar sua mãe, Tolinda¹, a Rainha do Reino de Sobros, por isso ela não estava presente quando retornamos a Elcure, e até aquele momento ainda não regressara dessa viagem. Em outras épocas, eu consideraria isto um alívio, mas agora...
Me surpreendi comigo mesmo. Podia eu ser mais patético? Eu devia mesmo estar no fundo do poço mais abandonado e lamacento de todas as Terras Médias de San Magno para chegar ao cúmulo de sentir falta de Epifânia. Só podia mesmo ser culpa dessa nova sensação de solidão, que nunca pesara antes tão esmagadora sobre meus ombros.
Soltei um suspiro desanimado e até para isso não parecia haver forças dentro de mim. Resolvi subir para me refugiar em meu quarto, o único lugar ao qual eu ainda podia dizer que pertencia. Mas o dia do meu aniversário do qual ninguém lembrara ainda me reservava algumas surpresas. Foi o que constatei assim que abri a porta do meu quarto e uma face feminina me encarou sorrindo da minha cama.
— Epifânia?
* * * * * *
— Boa noite, Fahir.
— Não sabia que você havia chegado... – murmurei enquanto fechava a porta atrás de mim.
— Eu pedi para não ser anunciada. Queria fazer uma surpresa pra você. – seu sorriso aumentou.
— Ah... Sim, meu docinho, você sem dúvida conseguiu... – A última coisa no mundo que eu poderia desejar no final do dia do meu triste aniversário era encontrar minha irritante e ciumenta noiva em meu quarto, um desagradável dejavú que eu me achava incapaz de administrar naquele momento. Ou em qualquer outro... Dei alguns passos pelo quarto em direção à minha cama onde ela permanecia sentada, só que dessa vez, ao contrário da outra noite fatídica, completa e devidamente vestida.
— Fahir... Eu queria te pedir desculpas pela forma como agi aquela noite. Você teve toda a razão em não ceder aos meus apelos. Foi muito inadequado da minha parte. Até hoje eu não sei explicar porque agi daquela maneira. Acabei te constrangendo tanto, e você foi tão cavalheiro comigo... Peço desculpas sinceras, meu noivo. Por tudo!
Confesso que essa nova atitude centrada de Epifânia pegou-me ainda mais de surpresa do que encontrá-la no meu quarto, e ela aproveitou minha falta de reação para levantar-se enfim da cama e aproximar-se, parando bem na minha frente mas sem demonstrar intenção de chegar mais perto.
— Você me perdoa, Fahir? – Senti sua mão colhendo a minha de forma carinhosa. Eu pigarreei mas não tive coragem de quebrar o contato.
— Minha doce noivinha... – me forcei a sorrir — Não há necessidade de pedir perdão. Vamos fingir que nada daquilo aconteceu, o que acha?
— Eu acho perfeito! – Sua face se iluminou de alívio e alegria. Eu assenti, e suavemente retirei minha mão da dela.
— Então estamos bem, não é mesmo? Estou muito contente com seu retorno, minha querida, mas vou lhe pedir para continuarmos conversando amanhã... – Eu afastei-me dela e sentei-me pesadamente na cama. – Estou mais destruído que armadura em dia de Justas²...
— Sim, eu sei, Fahir... Deve estar sendo tão difícil para você tudo isso que vem acontecendo. Eu já fiquei sabendo de tudo. A horrível condição da minha futura cunhada... O bebê desaparecido, o sofrimento dos meus sogros. Tudo isso já é tanta coisa para você lidar. Eu imagino que hoje é particularmente um dia mais difícil ainda.
— Como assim? – Franzi a testa sem entender. Epifânia se aproximou e sentou-se ao meu lado na cama.
— Feliz Aniversário, Fahir. – Seus braços me enlaçaram antes que eu pudesse evitar o contato. E para minha própria surpresa, meus braços a enlaçaram de volta. Nem eu podia imaginar o quanto necessitava do calor humano de alguém, até ser abraçado pela única pessoa que se dignara a se lembrar da minha data especial. Senti os olhos ardendo com um ensaio de lágrimas.
— Obrigado... – Eu sussurrei junto as mechas loiras de seus cabelos, e seu perfume me invadiu os sentidos, despertando uma antiga memória nada agradável. Aquele era exatamente o mesmo cheiro dos cabelos de Pércia. A Pércia sorridente de antes, que saltitava pelos corredores do castelo balançando suas longas tranças castanhas enquanto enchia meus ouvidos com suas fantasias românticas e sonhadoras. A Pércia que agora mesmo repousava em um quarto não muito longe dali, completamente oca por dentro, o olhar perdido no vazio e em tempos esquecidos e irrecuperáveis. A boneca inanimada cuja única função fora, era e sempre seria ser a desgraça da minha vida.
De alguma forma essa reminiscência do passado meu deu forças para conseguir separar o abraço de Epifânia. Até hoje eu não sei o que teria acontecido se eu não o tivesse feito. Não sei se por causa da minha momentânea fragilidade emocional, eu poderia ter me rendido aos seus carinhos... Sinceramente não sei. Uma criatura pode mesmo enlouquecer se deixar-se prender na armadilha do “E se...”. A única história que posso lhe contar, Cacheadinho, é a que foi. Por mais tenebrosa e ímpia que ela seja, é a verdadeira, que infelizmente não pode ser apagada.
O fato é que quando encarei Epifânia, o menino solitário e triste que quase tomara espaço dentro de mim dera lugar ao homem emperdenido que só conhecia esses sentimentos: Ódio. Raiva. Revolta. Ciúme. Mais ódio... Sim, sem dúvida esses sim, muito mais familiares e confortáveis do que as lágrimas que apenas ameaçaram surgir.
— Fahir... – Epifânia murmurou sem entender, pelo menos até olhar dentro dos meus olhos, onde certamente deve ter transparecido a mudança que já me revirara o íntimo. Eu me levantei da cama para afastar-me dela, e de repente me dei conta do quão perto eu chegara de abrir minha guarda, e do quanto isso poderia ter sido perigoso se não tivesse me recomposto a tempo.
— Eu realmente estou muito cansado, meu doce. – indiquei a porta com o olhar antes de dar-lhe as costas, torcendo para que Epifânia continuasse com sua nova atitude compreensiva e sumisse dali rapidamente. Como logo vi, eu estava pedindo demais, pois senti os braços de minha noiva me envolvendo por trás e seu queixo pousando em meu ombro.
— Não me mande embora, Fahir... Você precisa de mim, e eu estou aqui pra você. Por você... – veio o sussurro suplicante junto aos meus ouvidos, juntamente com seu corpo se colando às minhas costas de maneira insinuante. Eu revirei os olhos antes de me virar de frente para ela, enquanto me desvencilhava de seu toque de forma já não tão sutil quanto antes.
— Eu agradeço tanta generosidade, Epifânia... – emprestei um tom irônico na voz, mas nada parecia funcionar para fazê-la desistir de se aproximar novamente, o olhar ávido, ansioso... Eu me sentia como uma presa que tentava escapar de seu predador, só que eu podia ser tudo, menos indefeso. – Mas melhor não.
— Mas por que? – Ela chegou mais perto, e sem ligar para minha postura nada receptiva, envolveu minhas faces com as mãos, aproximando os lábios na expectativa de um beijo. – Eu posso fazer você se sentir melhor... Muito melhor, Fahir...
Antes que nossos lábios se tocassem eu finalmente perdi o último resquício de paciência e a afastei com um safanão brusco.
— Pare com isso, criatura teimosa! – não fiz questão de disfarçar a irritação na voz, e observei satisfeito sua expressão se transformar radicalmente com a compreensão de que seu bote falhara... De novo. – Será que eu lavei minhas ceroulas na última água da tina pra você não entender que estou exausto?
Epifânia me encarou, a face já ameaçando o choro, o queixo tremendo, os olhos cintilantes de indignação. Tive receio que ela fizesse a dramática ofendida como da outra vez, mas de alguma forma ela conseguiu engolir o choro, respirou fundo e endureceu a expressão.
— Tudo bem, Fahir, eu vou embora. – A noiva rejeitada passou por mim como uma rajada de ar frio e dirigiu-se para a porta. Sua mão parou na maçaneta e eu soltei um suspiro de exasperação. Definitivamente aquele dia parecia nunca chegar ao fim... Mas ela apenas olhou-me por sobre o ombro sem se virar.
— Só uma última coisa antes de eu ir. Eu vim aqui te oferecer apoio, carinho, meu colo... Simplesmente porque te amo, Fahir. Mas você me rejeitou e me humilhou mais uma vez, e não tem a mínima noção do que fez. Só quero que lembre-se disso.
Sem me dar chance de responder, se é que o faria, a porta se fechou silenciosamente. Soltei um muxoxo de desprezo para a porta fechada, e já apagando todo aquele inconveniente da minha mente, me despi, assoprei a lamparina e me joguei na cama. Me refastelei entre os lençóis frios, ansiando pela paz e pelo silêncio que meu quarto imerso na escuridão me proporcionava. Eu desejara tanto que aquele dia infernal chegasse ao fim que não parei para pensar que é preciso sempre ter cuidado com aquilo que se deseja.
* * * * * *
Os dias passaram mais rapidamente do que eu poderia desejar, e finalmente chegara o grande dia do baile de aniversário da princesa Pércia. O clima no Castelo de Elcure, antes tão taciturno e sombrio, de repente se tornara mais leve e alegre com a simples idéia de que em toda aquela comoção repousasse a mínima chance de minha irmã dar sinal de vida e emergir do fundo de sua loucura e apatia.
O dia mal começara e eu já sentia vontade de escapar dali montado no Alazão para o mais longe possível daquele ar festivo que parecia ter contaminado a todos. Depois de muito tempo eu conseguia ver sorrisos nos rostos da minha avó, da minha mãe... e até na face do Rei. A irritação me corroía o íntimo juntamente com aquele velho e familiar peso em meu peito. Eu me perguntava mais uma vez como um vazio pode pesar tanto e ferir com tanta profundidade, ainda que duvidasse que houvesse me sobrado o bastante de meu coração para sentir qualquer coisa.
Por mais que eu ansiasse por me distanciar de toda aquela alegria ilusória e inútil, eu sabia que minha presença era obrigatória. Sim, eu era o filho invisível. Mas se me ausentasse, eu seria momentaneamente retirado das sombras só para alguém apontar o dedo para o irmão desnaturado que fora capaz de não comparecer à festa especial e tão significativa da princesa. Ou seja, eu deveria aguentar o passar do dia e apenas esperar até que membros suficientes da Corte estivessem embrigados demais para notar minha retirada furtiva.
Como desgraça pouca é bobagem, as festividades começaram logo cedo, na hora do almoço, e se estenderiam até tarde da noite ou até o último cálice de vinho se esvaziar. Todo o grande salão do Castelo fora enfeitado e adornado em homenagem à princesa que completava naquele dia seus dezoito anos. No lugar de maior destaque, em um palanque em frente aos tronos, um rico e voluptoso banquete se extendia pela mesa comprida de madeira, e continuava também por todas as mesas laterais do imenso salão. Da entrada até a frente do palanque, um espaço aberto central fora destinado à dança dos casais de nobres.
Tudo especialmente planejado com o objetivo maior de atrair Pércia para fora de sua concha. E presenciar tudo isso só me despertava a curiosidade mórbida em saber se dentro dessa concha havia espaço para mais uma pessoa...
Eles a trouxeram para a mesa do banquete somente quando o sol desapareceu atrás do horizonte, e a acomodaram na cadeira central, entre os dois soberanos. Ao primeiro olhar, com os cabelos caprichosamente trançados e arrumados e seu elegante vestido de camadas rodadas de seda, era possível até confundi-la com uma pessoa sã. Mas era só cair o olhar sobre a inseparável boneca de pano que levava nos braços ou reparar no olhar contemplativo no vazio, para perceber que as elegantes vestes não passavam de enfeites para disfarçar a casca vazia de sanidade que cobriam.
Sim, era patético, era triste, mas eu parecia ser o único ali a me importar com isso. Mesmo que apenas o corpo de Pércia estivesse presente em sua festa de aniversário, todos os sorrisos e atenções eram para ela. Principalmente os de meus pais e da minha avó Benícia, sentada ao lado da Rainha. Eu sentara ao lado de meu pai, o que me fazia sentir-me como se a verdadeira boneca de pano inanimada fosse eu.
A minha frente na mesa, o vultuoso banquete Real não me despertava o menor apetite. Não havia muito o que fazer àquela mesa além de observar as criaturas se movimentando no salão, beber vinho e junto com ele sorver todo o sabor do fracasso que pairava sobre mim. Em um canto mais afastado do salão, um grupo de músicos animava o baile com seus instrumentos. O som da batucada dos tímpanos³ que acompanhava o ritmo das melodias que embalavam as danças dos nobres dava impressão de martelar cada um dos meus erros e pecados inconfessáveis.
E foi nesse exato momento que senti meu destino mudar. Não me pergunte como eu soube, Cacheadinho, mas alguma coisa se apertou bem dentro de mim quando subitamente os músicos pararam de tocar e os casais que dançavam se afastaram do centro do salão, abrindo um vão para que alguém pudesse passar. Uma pessoa acabara de cruzar os portões e adentrar o grande salão, e agora caminhava em direção a nós.
Vestida em um bufante e elegante vestido, Epifânia desfilou em passos calmos, a face séria, até parar de andar bem em frente a mesa de banquete principal. Então, ela sorriu e se inclinou em uma reverência.
— Vossas Majestades, princesa Pércia... – seu olhar se fixou em mim por último, e percebi claramente o sorriso abandonar seus olhos. – Príncipe Fahir, meu... noivo. – Era como se ela estivesse se obrigando a dizer essa última palavra.
— Achávamos que não viria mais, Lady Epifânia. – comentou meu pai em tom de voz bem humorado. – Venha, junte-se a nós na mesa. – O soberano de Elcure fez um sinal para um dos serviçais. – Tragam uma cadeira para minha futura nora!
— Majestade, eu jamais cometeria tamanha desfeita com a princesa Pércia, que tanto estimo. – respondeu minha noiva, ainda parada no mesmo lugar. – Estimo tanto que trouxe um presente muito especial para ela.
A essa altura eu a tudo assistia tomado por uma inexplicável paralisia. O protocolo dizia que eu deveria descer do palanque e receber minha noiva, para então trazê-la para sentar-se conosco, mas algo me dizia que Epifânia não viera até ali para comemorar o aniversário da futura cunhada. Um breve arrepio me subiu pela espinha como um prenúncio de algo inimaginável e sombrio.
— Um presente? Que maravilha, Pércia vai adorar, não é mesmo minha querida? – disse a Rainha Poliana, fazendo um carinho na face de minha irmã, que não reagiu, o olhar apagado e perdido no vazio, a face apática e inerte, as mãos agarradas à boneca de pano em seu colo como se a mesma fosse seu único motivo para ainda se manter respirando.
— Na verdade, é um presente para todos vocês. Ou quase todos... – novamente aquele olhar cortante gelando minha alma.
— E onde está esse presente? – quis saber o Rei Cesare.
Epifânia olhou para o lado e fez um sinal na direção dos convidados que também aguardavam para saber que presente seria aquele. Um pensamento louco me dominou a mente: Levantar-me daquela mesa, correr para os portôes abertos, selar meu Alazão e fugir dali o mais rápido que conseguisse para nunca mais voltar.
Claro que não fiz isso. Quando Jamal emergiu do meio das pessoas, carregando nas mãos algo arredondado, escuro e indefinido, eu ainda estava no mesmo lugar como se preso pelas forças invisíveis e poderosas do Destino. O choque de rever meu chefe da guarda após tantas semanas só não foi maior do que a compreensão súbita e apavorante do que se encontrava em suas mãos. Quando o embrulho misterioso foi entregue a Epifânia, que abriu-o só um pouco antes de jogá-lo com estudada cerimônia no chão do salão, todos ali presentes emitiram sons de indagação e confusão, sem fazerem a menor idéia do que era aquilo.
Mas infelizmente, eu sabia muito bem.
Epifânia acabara de jogar no chão a minha capa negra personalizada com o brasão da Realeza de Elcure. E quando o silêncio pesou sobre todo o salão à medida que mais pessoas iam reconhecendo o objeto, as letras F e E, bordadas a ouro no tecido preto, pareciam apontar uma acusação muda para mim.”
* * * * * *
Fale com o autor