Carneirinho e as Cento e Uma Noites

17 A História de Fahir – Parte III


Notas iniciais
“Ouve-me leitor Se este mundo Mais não é do que ilusão Por que desesperas Por que motivo te afliges E desiludes? Abandona a tua alma À fantasia das horas O teu Destino já está escrito” (Omar Khayyam)

Um bom tempo se passou desde a leitura da carta fatídica, quase um ano, durante o qual eu redescobria diariamente aqueles prazeres que me foram negados por tanto tempo. Era até difícil nesse período sequer lembrar-me de como era viver nas sombras. A luz do sol brilhava gloriosa sobre mim, só sobre mim, e talvez... Hoje, Cacheadinho, eu percebo isso. Talvez ela tenha me ofuscado os olhos e me deixado cego para coisas muito importantes que fariam toda a diferença mais tarde... Mas estou me adiantando.

Voltando àquela época dourada da minha vida, poderia-se dizer que eu me encontrava constantemente inebriado pela liberdade de poder viver como sempre almejei. Enfim livre da minha irmã, eu me sentia pleno, presente, inteiro. Cada dia era como uma festa. Excetuando-se, é claro, um casal de soberanos que repentinamente se viam suprimidos de alguém que costumava ser o centro de todo seu afeto.

Claro que meus pais não superaram a imperdoável deserção de Pércia da noite para o dia. Não saberia dizer qual dos dois foi mais afetado pela perda, mas se pudesse escolher um deles, diria que foi minha mãe. Houve um período em que praticamente não saía dos aposentos Reais, mergulhada em profundo pesar. Minha avó Benícia não a abandonava nem por um instante, inclusive cuidando para que não deixasse absolutamente de se alimentar. Isso às vezes ameaçava acender uma fagulha de culpa em meu íntimo, fagulha essa que eu tratava logo de apagar, dizendo a mim mesmo que ela um dia superaria.

Com meu pai as coisas funcionaram de forma bem diferente. Como ele mesmo determinara diante da corte no dia da leitura da carta, Pércia não mais existia para ele. Que lhe constasse, ele nunca tivera uma filha. E não se pode chorar pelo rompimento com alguém que jamais existiu. Eu nunca mais flagrei meu pai verter uma lágrima que fosse por Pércia de novo. Mesmo assim, investi com satisfação em um papel bem mais agradável e autêntico do que o de irmão protetor e amoroso. Agora eu era o diligente e amoroso filho único. O filho leal, que nunca os abandonaria e não lhes traria nem a mais leve sombra de desgosto que Pércia conseguira lhes causar. Por isso eu não me furtava a aproveitar qualquer oportunidade para lhes provar isso. Eu visitava minha mãe diariamente em seu quarto. Muitas vezes ela nada falava, apenas olhava para o vazio, ou através de mim. Eu não me importava, apenas segurava sua mão fraca e a apertava gentil mas firmemente, para que não esquecesse que eu estava ali.

Quanto ao meu pai, nossa convivência aumentou consideravelmente, para minha satisfação. Ele agora me incluía em coisas das quais eu era deixado de fora antes, como as reuniões do conselho de nobres para assuntos do Reino de Elcure. De vez em quando também saíamos para caçarmos juntos, e os momentos quando nos afastávamos do grupo de caça que nos acompanhava eram aqueles pelos quais eu mais ansiava. Eu nunca errava meu alvo e sempre ganhava um elogio, que às vezes nem era proferido em palavras. Um simples olhar de aprovação, um balançar de cabeça que fosse, ou até mesmo um eventual tapinha afetuoso nas costas... Isso valia mais que ouro para mim. Esses momentos eram tão perfeitos. Somente eu e meu pai. Várias vezes me perguntei como é que pudera viver antes sem isso.

Lembro certa vez de termos chegado ao topo de uma colina além da qual era possível ver o sol escondendo-se atrás das montanhas distantes, dando adeus ao dia num convite à noite que já se anunciava. As cores do céu límpido eram deslumbrantes e pareciam dançar entre si formando novas cores vibrantes. Eu e ele ficamos ali até a última claridade do sol ser engolida pela linha do horizonte. Não falamos nada, nem era necessário. Pelo canto do olho, espiei seu perfil, e me perguntei se ainda pensava em Pércia, mas sua expressão nunca entregava nada.

Após alguns meses todos os meus esforços com minha mãe foram finalmente recompensados. Mais conformada e com a tristeza um pouco dissipada, ela voltou a frequentar os banquetes da corte. Um pouco de cor voltara às suas faces. Em algumas manhãs, junto com minha avó Benícia, eu e ela passamos a fazer agradáveis passeios pelos jardins em volta do castelo, e às vezes ela até conseguia sorrir ao vislumbrar alguma nova flor recém desabrochada. Eu me adiantava em colhê-la e encaixá-la em seu cabelo, o que aumentava seu sorriso.

Enquanto Pércia virava cada vez mais uma mancha perdida no passado que se desvanecia rapidamente, e diante da progressiva superação de meus pais, cada um à sua maneira, eu senti que nenhum mal faria dar mais atenção a partes da minha vida que sempre foram negligenciadas ou pouco aproveitadas, justamente porque eu dedicara quase toda minha vida aos planos de me livrar de Pércia. Subitamente, nessa nova vida, havia todo o tempo do mundo para outras coisas quase tão prazeirozas quanto ser mais uma vez o centro de atenções de meus pais.

Como o membro da guarda, Jamal, por exemplo. Agora que eu não precisava mais bancar a ama-seca da minha irmã em período quase integral do dia, uma boa parte desse tempo livre eu podia me dar ao luxo de dedicar à diversão que era treinar com ele. Fiz questão de aumentar o tempo dos treinos que se tornaram diários, decisão que meu pai não estranhou. Para um futuro Rei, era importante manter-se sempre com as habilidades de batalha afiadíssimas, em complemento com as intelectuais, das quais eu nunca descuidei.

A saída secreta do castelo fora exposta e fechada permanentemente, mas eu não precisava mais dela para os meus momentos de escape. O que antes era um leve e descomprometido flerte, acabou virando algo mais entre eu e Jamal. Nossa proximidade aumentou juntamente com o tempo de treino de espada que compartilhávamos.

Cacheadinho, espero que me entenda nessa parte da minha história, até porque não possso nem quero lhe omitir nada. Preciso lhe dizer que antes de cruzar uma certa ponte de pouca altura e conhecer um certo príncipe loiro quase suicida... Eu nunca acreditei no amor. Essa palavra sempre soou aos meus ouvidos como um elemento fantasioso usado em contos de fadas para afastar os temores noturnos das crianças mais ingênuas. Eu só acreditava no amor dos meus pais, e depois que o consegui de volta, não parei mais para pensar se o outro tipo poderia existir ou não.

Sabendo ou não o que era amor, hoje posso dizer que nunca amei Jamal. Mas gostava dele, e ele se gostava ou não de mim, não me importava verdadeiramente. Ele atendia certas necessidades de um aspecto de minha vida, e em troca, tornei-o meu protegido da Guarda Real, privilegiando-o com promoções seguidas de posto em nossa Guarda. Consegui fazer com que se tornasse chefe da Guarda Real, antes que... Mas espere, estou me adiantando de novo.

Eu não podia mais reclamar da minha vida. Quero dizer, eu quase não podia... Quando eu achava que havia removido todos os empecilhos de meu caminho, e já me deitava nos louros da merecida vitória... Algo me fez lembrar da importância que pequenos detalhes podem ter. O que costumava ser um leve incômodo na minha vida cresceu para tornar-se um verdadeiro problema.

E o nome desse problema atendia por Epifânia.

Creio que tudo começou em uma noite como outra qualquer na minha nova vida feliz, quando eu voltava de uma sessão de treino de espada estrategicamente marcada por mim no quarto de Jamal. Tão cansado quanto satisfeito, qual não foi minha surpresa ao entrar no quarto e me deparar com minha futura esposa deitada na minha cama, vestindo nada mais que uma camisola de seda que deixava entrever muito mais do que eu gostaria de ver. Venci o choque para me aproximar da cama, e nem mesmo minha expressão séria a desanimou, pois ela esticou-se languidamente entre os lençois brancos e lançou-me seu olhar mais sedutor. Ou assim ela pensava... Eu só me dividia entre a vontade de rir e uma indignação velada. Minha cama era meu reduto sagrado de descanso. E agora, eu entrava em meu quarto para encontrar uma mulher praticamente seminua deitada nela e o horror maior... Se oferecendo vergonhosamente para mim.

Epifânia deve ter percebido alguma coisa em meu rosto, pois a expressão sedutora rapidamente murchou para um misto de confusão e decepção. Antes que virasse algo mais, eu tapei meus olhos com uma mão.

– Minha querida e amada noivinha... Vamos fingir que nada disso aconteceu. Pendurado naquele cabideiro tem um manto. Quero que se cubra com ele e volte imediatamente ao seu quarto. Tome cuidado para não ser vista por ninguém. Não queremos nenhuma ameaça à sua virtude. – Eu anunciei-lhe ainda com os olhos tapados, o que adiantava muito pouco para afastar da minha mente o que infelizmente fora obrigado a ver. Mas tudo bem... A próxima sessão de treino com Jamal resolveria isso.

– Meu noivo... Você... Você não me quer? – Ela protestou debilmente, uma sombra de choro já se manifestando na voz. Por todas as Cruzadas Reais, eu precisava tirá-la do meu quarto o quanto antes. A minha paciência para lidar com lágrimas naquela época era quase tão grande quanto a que eu usava para lidar com Pércia. Quase nenhuma. Tudo que eu queria naquele momento era descansar, mas Epifânia sabe-se lá porque, resolvera externar seus sentimentos por mim da maneira mais inconveniente possível.

– Criatura tão amada do meu coração... Não existe nas Terras Médias de San Magno um desejo maior do que o que sinto por você, mas eu jamais passaria por cima da sua honra para aplacar esse desejo. Se for necessário, estou disposto até a me afogar no lago mais profundo e gelado, se o fogo que me consome se tornar forte demais para eu aguentar. Mas... Não devo. Até pensar nisso já me deixa culpado o suficiente. – Segurei o sorriso com toda a força. Desde a falsa carta de Pércia, eu me admirava comigo mesmo com minha recém-descoberta habilidade de atuar, e confesso que isso me divertia deveras.

– Mas nós vamos nos casar! – Um novo protesto com a voz mais chorosa. – Qual é o problema, Fahir?

– O problema, minha querida noivinha, é que ainda não casamos. Por favor, não me faça implorar, guloseima mais apetitosa do meu banquete... Faça como falei e retire-se aos seus aposentos agora. Nunca mais falaremos sobre isso. Não vou repetir, meu doce. – Eu finalizei com a voz firme, e permaneci com os olhos tapados enquanto a ouvia soluçar baixinho. Logo o barulho da porta de madeira se abrindo e fechando com alguma violência me permitiu enfim soltar um suspiro de puro alívio.

Depois desse desagradável interlúdio, as coisas com Epifânia nunca mais foram as mesmas.

A noiva antes paciente e compreensiva se transformou na mulher mais carente, ciumenta e exigente que já tive o desprazer de conhecer. Epifânia chegava ao cúmulo de sentir ciúme até do tempo que eu dispensava aos meus pais, e isso era o maior absurdo de todos. Acabou tornando-se um círculo vicioso. Quanto mais isso piorava, mais eu a evitava, e mais ela se revoltava. Quando ela conseguia ficar sozinha em minha companhia, desfiava em meu ouvido uma lista infindável de cobranças e reclamações. Confesso que em certos momentos quase senti saudade das confidências românticas de Pércia. Bom, eu disse quase... O fato é que Epifânia se tornava a cada dia a pessoa de quem eu mais desejava estar bem longe. Eu perdera tanto tempo antes que agora me via na obrigação de compensar a mim mesmo todo o tempo perdido. Em dobro.

O tempo foi passando, as estações mudando, e Epifânia embora houvesse migrado de noiva para novo estorno da minha vida, era um problema que eu pensava saber administrar, e do qual até me esquecia na maior parte do tempo. Como você verá a seguir, Cacheadinho, talvez esse tenha sido o meu maior erro tático. Logo eu, que passara a maior parte da minha vida sentindo na pele o que era ser ignorado pelos meus pais em prol da minha irmã caçula... Eu mais do que ninguém deveria saber melhor o que a rejeição é capaz de provocar no coração de um ser humano.

Mas eu estava cego, duplamente cego. Tanto pela felicidade inebriante que me preenchia quanto pelo excesso de auto-confiança que inflava minha vaidade até limites nunca antes imaginados. Eu simplesmente tratei de aproveitar ao máximo minha nova vida e encostei Epifânia no canto mais esquecido dos meus pensamentos. Mas é claro que ela não ficaria lá para sempre.

Chegamos num ponto da minha história em que o Destino parece agora rir de mim, como os deuses certamente apreciam fazer com os pobres mortais... Pois é aqui que as nossas histórias quase se cruzaram, Cacheadinho. Não mentiria para você dizendo que essa idéia não me agrada e não brinca com certas fantasias... Quantos anos deveria ter você nessa época? Dezessete, talvez dezoito. Certamente eu te conheceria antes da Lacr... digo, do seu falecido companheiro Eron. Mas como você não demorará a perceber, a providência divina sorri para você desde cedo, já que não permitiu que isso se concretizasse, para seu próprio bem.

Desde já lhe peço desculpas, Cacheadinho, se o que vou contar agora despertar em você velhas tristezas. Meu pai, Rei de Elcure, soberano das Terras Médias do Norte, sempre foi amigo de longa data de seu pai, Rei de Krone, soberano das Terras Médias do Sul. Havia muita harmonia e amizade entre os dois, ainda que suas formas de reinar diferissem bastante entre si. Eu sei que hoje seu pai não está mais entre nós. Mas há doze anos atrás, sua mãe, a Rainha de Krone, faleceu vitimada pela Peste Branca¹, após vários meses de luta contra a terrível doença que nem os mais competentes médicos e curandeiros de todo o Reino conseguiram derrotar.

Me lembro em uma manhã de estarmos reunidos no salão do conselho, sentados à espaçosa mesa pesada de carvalho, eu, meu pai, alguns nobres e o escrivão Real. Todos riam de alguma piada que eu acabara de contar. Até meu pai sorriu balançando a cabeça. Desde que minha irritante irmãzinha fora removida de nosso convívio, até mesmo sua tolerância para o lado extrovertido da minha personalidade aumentara. Eu ainda me deliciava com esse pensamento quando o Arauto do Rei adentrou o recinto. As risadas remanescentes se extinguiram e todos nos levantamos em reverência à figura do mensageiro, que após tocar brevemente a corneta que trazia, permaneceu em pé no meio do salão, segurando nas mãos uma carta que retirara de seu bolsão de couro. Todos podiam ver pela sua expressão solene que ele trazia notícias muito sérias do Sul, de onde acabara de chegar. Quando a carta lacrada pelo selo de Krone foi entregue ao Rei Cesare, este hesitou por um momento antes de abri-la e um pesar repentino cruzou-lhe as feições ao ler seu teor.

– A esposa do meu bom amigo, a Rainha de Krone... Está morta. – Ele anunciou simplesmente. Todos emitiram sons de lamento respeitosos. Eu fiquei em silêncio, observando meu pai, que parecia genuinamente triste pela perda que atingira o Rei de Krone. Tive ímpetos de abraçá-lo, mas os reprimi, é claro. Eu sabia que meu pai não apreciaria semelhante gesto de afeto nem mesmo se estivéssemos em esfera privada, que dirá publicamente. Limitei-me a abraçá-lo em pensamento, onde eu poderia tranquilamente imaginá-lo me abraçando de volta.

De repente meu pai virou-se para mim, e eu retesei-me, aguardando suas ordens.

– Filho, prepare agora mesmo uma comitiva da Guarda Real. Partiremos amanhã pela manhã. Não posso deixar de prestar minhas condolências pessoalmente ao meu grande amigo.

– Sim, meu pai. – Eu assenti prontamente, antes de prestar-lhe uma leve reverência e me retirar do salão para obedecer suas ordens.

Na manhã seguinte partimos em uma carruagem e em um número suficiente de membros da Guarda Real para garantir a segurança da comitiva naquela viagem rumo às terras do sul. Após alguns dias de jornada, pernoitamos em um vilarejo já próximo dos limites do Reino de Krone. Meu pai e a comitiva de nobres se instalou na casa do comerciante mais próspero do lugar, que fez questão de oferecer hospedagem aos visitantes tão importantes. O soberano de Elcure passando pelo pequeno vilarejo era um acontecimento que dificilmente seria superado no futuro.

Com a Comitiva Real devidamente acomodada, resolvi que eu e Jamal merecíamos alguns momentos de folga. Juntos, é claro. E escolhemos passar esses momentos no único lugar que se propunha a oferecer algum lazer naquela pobre cidadezinha: Uma Taberna cuja fama de ter o mais delicioso hidromel² já percorrera todos os quatro cantos das Terras Médias de San Magno.

Mesmo antes de entrar no ‘Recanto do Fauno’ já era possível ouvir os acordes alegres da canção que vinha de seu interior, som que se intensificou quando adentramos a taberna. Não era a primeira vez que eu pisava num lugar daqueles, mas talvez nunca houvesse estado antes em um lugar tão animado. Em um canto mais recuado, em cima de um palanque de madeira, um trio de músicos tocava com seus instrumentos. Um homem com uma rabeca³ a tocava de olhos fechados com um sorriso no rosto. Outro tamborilhava um bodhrán⁴ com igual estusiasmo. Entre os dois uma mulher soprava uma flauta de bambu. Tanta alegria contagiava os casais que se moviam pelo salão, trotando com os pés rápidos em combinados passos de dança, entre risadas descontraídas. Algumas pessoas em círculo à volta dos casais batiam palmas no ritmo da música.

Enquanto eu procurava com os olhos por uma mesa mais reservada onde eu e Jamal pudéssemos nos sentar, um centro de comoção se formou entre dois homens que disputavam a mesma mulher para uma dança. Visivelmente alcoolizados e aos berros, os dois proferiam ameaças um contra o outro, sendo contidos por outros amigos para não se atracarem em uma briga. Tão concentrados estavam na desfeita, não repararam que a pretendida parceira de dança já arranjara um terceiro par e com ele rodopiava pelo salão entre risos. Os dois homens então se olharam e rindo também, se abraçaram efusivamente entre promessas de amizade e lealdade eternas. Era no mínimo engraçado.

– Pobres criaturas... – Eu comentei com falsa condescendência, pois preciso admitir que toda aquela naturalidade e efusividade jamais seria encontrada nos bailes da Corte Real que eu estava acostumado a frequentar. Aquele era um lugar caótico, barulhento demais e qualquer elegância passava longe... Mas os pobres diabos pareciam genuinamente felizes. Isso eu não podia negar, ao olhar para a dupla de bêbados já abraçados e amigos novamente, brindando com suas canecas de madeira cheias de vinho barato.

Mas tudo bem. Eu também já tinha minha própria felicidade, conquistada a duras penas. Olhei para Jamal e sorri-lhe, sendo logo correspondido. A noite prometia muita diversão, o meu tipo favorito de diversão. Mas antes, nada como degustar uma boa bebida em agradável companhia. Finalmente achamos uma mesa mais afastada do barulho e nos acomodamos. Logo uma figura maltrapilha e meio curvada se aproximou de nossa mesa. Quando o odor que vinha daquele monte de trapos encardidos chegou ao meu olfato, eu torci o nariz de nojo.

– É você quem vai nos servir, criatura perfumada? – Perguntei com um sorriso sarcástico, tentando entrever algo de seu rosto, já que um capuz o ocultava quase todo. Não houve resposta. Além de fedorenta a criatura ainda pecava pela falta de educação. O que se esperar de um estabelecimento como aquele, que contratava de serviçal alguém tão patético e sujo? — Deixa pra lá... Traz uma garrafa do melhor hidromel desse lugar, e duas taças. – Disse-lhe com descaso, e virei-me para olhar para Jamal, piscando-lhe um olho.

Quando a criatura maltrapilha, que parecia dominada por um estranho fascínio pela minha pessoa, não se mexeu do lugar, eu voltei-me mais irritado ainda.

– É assim que tratam os clientes nessa espelunca? Anda logo, criatura, temos sede! – Eu ordenei, o que pareceu quebrar o encanto. Ao vê-la afastar-se (ou vê-lo, não havia a certeza de se tratar de um homem ou uma mulher) reparei na forma arredondada de seu corpo. Suja, maltrapilha e gorda... Não havia dúvidas de que aquela boca sabia muito bem se abrir quando interessava.

Entreti-me conversando com Jamal, e só fui lembrado da figura mal cheirosa quando sem cerimônia, uma bandeja contendo duas taças e uma garrafa foi rudemente depositada na mesa. Antes que eu pudesse abrir a boca para reclamar da grosseria, ela já se afastara para servir outras mesas. Soltei um muxoxo de desdém e servi a bebida nas taças para poder brindar com Jamal. Não demorou muito para que a criatura estúpida que nos servira fosse completamente esquecida.

O tempo passou rapidamente como sempre acontece quando estamos nos divertindo. Eu sabia que logo precisaríamos ir embora da taberna. No dia seguinte, seguiríamos viagem rumo ao Reino de Krone, e partiríamos bem cedo. Eu já estava meio alto pela bebida mas ainda não queria que a noite terminasse, por isso instruí Jamal a pedir mais uma garrafa de hidromel ao serviçal mal-cheiroso assim que o avistasse. Seria nossa despedida daquele lugar. Enquanto isso eu iria lá fora me aliviar.

Os fundos da Taberna ficavam próximos à entrada de uma frondosa floresta, e foi para lá que me dirigi em passos rápidos em busca de um lugar mais reservado para me livrar do leve incômodo que beber demais sempre causa. Eu estava tranquilamente de pé em frente a uma árvore deixando escapar um suspiro satisfeito de alívio quando uma mão agarrou meu braço, quase expulsando minha alma de meu corpo de sopetão. Recompus-me como pude e voltei-me com um pulo, minha mão já procurando por instinto minha espada, e qual não foi minha surpresa ao encontrar o monte de trapos fedorentos da taberna bem atrás de mim.

– Criatura! – Eu exclamei em um misto de espanto e alívio, já que o que a figura tinha de mal-cheirosa, parecia ter de inofensiva. Suspirei exasperado, em seguida a irritação substituiu o susto. – O que significa isso, poço de sujeira... Você me seguiu até aqui?

O vulto encapuzado não me dignou com uma resposta em palavras, limitando-se a levar as mãos às abas do capuz e abaixá-lo, afinal revelando o rosto. Poderia jurar que meu coração falhou uma batida ou duas, quando uma face feminina me encarou, imediatamente sequestrando todo o ar que havia em meu peito.

Os olhos castanhos de Pércia estavam fixos em mim como se não acreditassem ainda no que viam... Mas duvido que acreditassem menos do que eu, que fiquei apenas olhando para minha irmã como se olhasse para uma assombração, o que de fato ela praticamente era. Descobri-me incapaz de falar, e me perguntei se essa habilidade estaria para sempre perdida. De repente Pércia, que parecia ter decidido ser a ilusão a frente de si uma realidade, se jogou nos meus braços num abraço desesperado.

– Irmão! – Foi o murmúrio embargado junto ao meu ouvido, e por alguns momentos nada fiz além de permanecer imóvel, refém dos seus braços e do cheiro pungente que as vestes maltrapilhas exalavam. Uma tontura ameaçou me dominar e eu receei desfalecer, mas de alguma forma meus sentidos não me traíram. Para compensar, todo o álcool que consumira no Recanto do Fauno já abandonara meu corpo completamente.

– Irmãzinha... – Consegui balbuciar, ainda com minha irmã abraçada a mim aos soluços. Venci meu próprio choque para envolvê-la com os braços enquanto mil perguntas giravam pela minha mente desnorteada. Quando o choro amainou um pouco, consegui afastar o abraço e olhei para ela. As lágrimas haviam deixado trilhas brancas por seu rosto quase todo coberto pela sujeira. Pércia piscou os olhos castanhos e marejados com um ar desprotegido na face, parecendo desejar um novo abraço, mas definitivamente eu precisava de algumas respostas.

– Pércia, meu doce... – Levei as mãos aos seus ombros e segurei-os firmemente para evitar um novo abraço — Não é que eu não esteja vibrando por dentro de alegria em te encontrar, mas... Estou mais perdido que um minotauro cego dentro de um labirinto... Pode me dizer o que está fazendo aqui, vestida nesses farrapos fedorentos e servindo mesas em uma taberna, quando deveria estar ao lado de seu príncipe cigano vivendo o amor dos seus sonhos?

Quase me arrependi da pergunta quando sua face se crispou e ela explodiu em novas lágrimas, escondendo o rosto com as mãos. Eu suspirei e me obriguei a abraçá-la novamente, dando leves tapinhas em suas costas, me perguntando se o fato de meus braços se encontrarem em torno de uma figura tão rechonchuda tinha algo a ver com aquele reencontro tão insólito. Um alarme de más notícias já soava na minha cabeça mas ignorei-o. Pércia chorou e chorou entre meus braços. Eu me mantive em paciente silêncio até que ela esgotasse todas as lágrimas. Quando seu corpo parou de se sacudir, eu tentei de novo.

– Pronto, querida... Está mais calma agora? Vamos, conte ao seu irmãozinho aqui tudo o que aconteceu...

Primeiro eu precisava entender como minha irmã fora parar ali, naquele fim de mundo, em uma situação tão deplorável e patética. Depois de me inteirar de tudo, eu rapidamente pensaria em uma forma de consertar as coisas. Um calafrio me assaltou a espinha ao me lembrar da presença de meu pai, hospedado bem ali no vilarejo. Como será que reagiria ao reaparecimento da filha pródiga? Coloquei esse pensamento de lado por ora. Precisava de todo meu sangue frio como nunca precisara antes, ou não conseguiria lidar com esse problema da forma apropriada.

Pércia não abriu mão do meu abraço enquanto começava a me contar tudo que lhe acontecera. Talvez tenha sido melhor assim, pois dessa forma não podia divisar todas as expressões reveladoras que certamente devem ter desfilado por meu rosto quando a história começou a se desenrolar.

Com a voz abafada junto ao meu peito, Pércia revelou que os problemas no paraíso cigano de seus sonhos levaram poucos meses para surgirem. Após o encantamento e paixão iniciais, Ninho revelou-se um homem extremamente grosseiro, egoísta e insensível, beirando a violência física. O grande amor tão sonhado por Pércia virara cinzas rapidamente. As brigas se tornaram um hábito diário, até o cigano passar a ignorá-la completamente. E não era só isso... Talvez em apoio a Ninho, toda a comunidade cigana passou a ignorá-la também. Logo era como se não a enxergassem absolutamente. Ela havia virado uma pária, um fantasma indigno tanto do medo das crianças quanto da pena dos adultos.

Por mais que isso soe desprezível, Cacheadinho, algo obscuro dentro de mim comprazeu-se com o fato de minha irmã experimentar algo a que eu fora acostumado desde pequeno: Não existir para as pessoas que eu amava. Toda a felicidade que eu vivera nos últimos meses não apagara totalmente da minha memória essa sensação angustiante.

Após várias tentativas frustradas de reconciliação, tanto com o marido quanto com os demais ciganos, Pércia simplesmente desistiu e fugiu do acampamento dos ciganos no meio da noite. A dura realidade destruíra seus sonhos cor-de-rosa com pesadas e impiedosas botas negras. Vagando de cidade em cidade, ela conseguiu sobreviver graças à caridade ocasional de estranhos, e pegando carona com mercadores e viajantes, acabou se estabelecendo na taberna, devido à generosidade do dono do lugar, que sentira-se penalizado com sua condição e lhe oferecera um emprego servindo as mesas.

– Sua... Condição? – Eu repeti sem entender, uma ansiedade nova oprimindo meu peito perigosamente.

Pércia afastou-se mais de mim, e respondeu minha pergunta abrindo o manto encardido para revelar uma enorme barriga de gravidez. Olhei para aquilo e engoli em seco o que parecia uma montanha de pedregulhos em minha boca. Me lembro de ter pensado ‘Tudo bem, foi engraçado, mas já chega, podem me acordar agora...’

– Meu irmão... – Ela exibiu um sorriso triste – Você vai ser titio...

– Ah... – Eu murmurei vagamente, sem conseguir sorrir, sentindo-me sem forças sequer para tentar. Pelo menos havia uma coisa que eu podia conceder à minha irmã, uma habilidade nova atribuída a pouquíssimas criaturas: A de me deixar sem saber o que dizer. Limitei-me a apenas olhar para ela em aturdido silêncio. Pércia fechou as abas do manto voltando a esconder a barriga proeminente.

– Eu visto esses trapos sujos para manter os clientes mais abusados longe... Se bem que nos últimos meses, acho que nem precisaria. Do jeito que estou enorme, ninguém iria querer sequer olhar pra mim... – Os olhos castanhos escureceram e se encheram de lágrimas. Os lábios tremeram um pouco e novamente seu olhar buscou o meu por consolo. Mesmo com minha falta de reciprocidade, ela se atirou em meus braços em novo rompante emocionado. Tive que juntar todas as forças dentro de mim para não afastá-la para longe com um safanão violento.

– Oh, meu irmão... Foi Deus quem te trouxe aqui nesse lugar... Você foi enviado pelos céus só para me salvar! – Ela suspirou nos meus braços, e dessa vez, meu abraço não foi mais tão protetor, limitando-se a um toque relutante e frio, como se a proximidade com ela fosse uma sombra funesta sobre toda a felicidade que eu já me acostumara a desfrutar.

– É para isso que servem os irmãos mais velhos, não é, meu doce? – Eu murmurei ao passar a mão com calculado carinho por seus cabelos emaranhados, enquanto minha cabeça fervia mais do que o caldeirão da bruxa Morgana em busca de um plano de ação. No redemoinho de pensamentos desconexos que me dominava, só uma certeza eu tinha: Grávida ou não, Pércia precisava desaparecer. Novamente, e dessa vez para sempre. Eu não deixaria tudo que eu levara tanto tempo para conseguir ser ameaçado por seu retorno... Ainda mais com a desagradável surpresa que trazia dentro daquela enorme barriga.

A primeira providência a tomar era levá-la embora dali, pois Pércia estava perigosamente próxima de meu pai. O Rei Cesare se saía muito bem em proclamar em alto e bom tom que não tinha mais filha, mas eu me lembrava perfeitamente do olhar de meu pai para Pércia quando do seu nascimento, e das lágrimas que derramara tanto com sua chegada quanto com sua partida, ao ler aquela carta... Eu sabia que bastaria um olhar em Pércia para tudo ser perdoado e esquecido. E nem vamos falar da criaturinha por nascer. Um bônus de segurança que minha tola irmã nem imaginava possuir.

Eu perderia tudo mais uma vez. Seria jogado de volta na escuridão para lá apodrecer miseravelmente. Não, não, não! Cada veia de meu corpo gritava essa negativa, e com ânimo renovado pela revolta, eu apartei o abraço e olhei sério para Pércia.

– Precisamos ir embora daqui, fugir o mais rápido possível... Nosso pai está na cidade, e se ele por acaso sequer puser os olhos em você... Nem sei, nem sei o que é capaz de fazer! – Eu simulei uma expressão apavorada, em que ela acreditou instantaneamente.

– Ele não me perdoou, não é? — Ah, o ataque dos lábios trêmulos de novo não...

– Irmãzinha, certas coisas é melhor nem pensar nelas. Não há tempos para lágrimas agora, criatura. Venha comigo, vou te levar pra longe daqui, deixar você em segurança. Vamos logo... – Segurei seu braço com urgência e praticamente arrastei-a sem muita delicadeza. Engolindo as lágrimas, ela me seguiu sem protestar.

Não havíamos nos embrenhado muito floresta a dentro quando Pércia estancou, soltando um gemido de dor. Eu voltei-me impaciente e já ia puxar seu braço quando um barulho molhado se fez ouvir. Ambos olhamos para o chão onde uma poça d’água se formara aos pés de Pércia. ‘Não, isso não está acontecendo...’

O que aconteceu a seguir foram momentos de puro caos. Fosse pelo nervosismo, por emoções demais ou simplesmente porque já chegara mesmo a hora... Aquela criança escolhera o pior momento para chegar a este mundo. Pércia se contorceu de dor caindo de joelhos no solo, segurando a barriga com as mãos, a face crispada pelas dores iniciais do parto.

Inicialmente apenas assisti seu sofrimento, ainda parado em pé diante dela, avaliando minhas novas possibilidades. Não estávamos muito distantes da taberna, mas longe o suficiente para seus gritos de dor não serem ouvidos, ainda mais com o som alto da música que tocava no interior. Teria sido fácil simplesmente permanecer ali e esperar que a natureza seguisse seu curso. Sem uma parteira competente por perto, e depois de atravessar tantas agruras em sua gravidez, eu sabia que as chances de que o bebê não vingasse eram razoáveis... Além dela mesma não sobreviver também.

Eu nada fiz além de olhá-la, o que ela mal reparou, tamanha a dor que a afligia. Os gemidos aumentaram de frequência junto com as contrações que a torturavam. Em dado momento minha irmã ergueu a face contorcida de dor para mim e uma mão trêmula se estendeu em minha direção, uma súplica muda pela ajuda do irmão mais velho. Seu olhar se assemelharia ao de uma corça antes de ser abatida pela flecha certeira do caçador. Alguma coisa naquele olhar vulnerável me revirou por dentro, e até hoje eu não sei explicar porque acabei segurando sua mão e me ajoelhei ao seu lado. Ela me brindou com um meio sorriso entre lágrimas, e logo a dor voltou a desfigurar sua face e disparar gemidos mais sofridos de seus lábios.

Quando sua mão apertou a minha com força desmedida e seu rosto assumiu um esgar quase monstruoso, soube que o momento estava bem próximo. Minha irmã se prostrara na relva com as pernas abertas, por entre as quais um bebê já trilhava seu caminho para a vida do lado de fora. Meu primeiro impulso foi desviar o olhar quando notei que a cabeça do bebê já coroava, buscando a saída com uma obstinação que se traduzia nos gritos cada vez mais altos e desesperados de Pércia. Com minha mão presa à dela, fechei os olhos, um aperto doloroso no peito roubando-me o ar. Os gritos de dor soavam familiares aos meus ouvidos e me arrastaram para um passado tão indesejável quanto doloroso. O dia do nascimento de Pércia. O dia em que minha curta infância feliz teve seu fim.

Não obstante a desagradável nostalgia, resisti bravamente e continuei ali, com minha mão quase estrangulada pela dela, até que um grito mais alto me fez abrir os olhos. Pércia jogara a cabeça para trás, entregue ao próprio desatino de dor, enquanto o bebê deslizava de dentro dela para depositar-se na relva, jazendo imóvel ainda com o cordão umbilical o ligando à mãe. Nada mais que um embrulho repugnante, sangrento e molhado.

A mão de Pércia enfim afrouxou seu aperto até soltar-se da minha. Eu aproximei-se de seu rosto inconsciente, observando-a cuidadosamente. Nenhuma reação. Abaixei meu ouvido junto ao seu nariz procurando sentir sua respiração, e nada. Pela primeira vez naquela noite depois que toda a loucura começara, uma esperança se acendeu dentro de mim.

– Pelo jeito virei filho único... – Comentei para ninguém, sem ainda conseguir acreditar na minha sorte. Eu acabara de me livrar de minha irmã... Dessa vez, de forma realmente definitiva. Se aquilo fosse um sonho, eu seria capaz de esganar a criatura que tentasse me acordar.

Foi quando o som mais agudo e irritante cortou a noite ferindo meus ouvidos. Vinha do embrulho de sangue e carne na relva, que não estava mais imóvel. Pequeninas pernas e braços se abriram e se mexeram no ar, enquanto eu olhava em enojada fascinação.

Era incrível constatar como o destino tem uma mania perversa de tratar aqueles que tentam inutilmente fugir de seus desígnios. Não há como escapar de sermos tragados de volta... Há apenas como fazer sinuosos desvios que podem ser longos ou curtos, mas que mais cedo ou mais tarde, sempre levam de volta para o mesmo lugar.

– A tola da sua mãe está morta... Mas agora, tem você pra atrapalhar... – Com um suspiro exasperado, retirei minhas luvas negras para não manchá-las de sangue, e com as mãos nuas, recolhi o bebê da grama, trazendo-o diante de mim para observar melhor a pequena criatura. Pude ver que era uma menina.

– Mais parece uma ratinha... Como sua mãe. Filha de ratinha, ratinha fedorenta é... – Murmurei para a criança à minha frente, e como se entendesse a ofensa, seu rosto vermelho e enrugado se contorceu em um começo de choro. – Cala a boca... Cala a boca, cala a boca! – Ordenei-lhe, e por incrível que pareça, ela obedeceu, parando de chorar e me olhando com seus olhinhos brilhantes e vivazes.

– Ah, ratinha... – Minha voz não passava de um sussurro repleto de escárnio pela criaturinha patética que segurava nas mãos. — O que faço com você?

* * * * * *

O silêncio invadiu os aposentos reais do Sultão de Khoury como um convidado inesperado, quando uma mão de dedos longos se pôs sobre os lábios do Carneirinho, interrompendo a história. Os olhos do escravo loiro arregalaram-se levemente ante esse gesto repentino, e por alguns momentos os dedos ali ficaram como se para assegurar a pausa sutilmente forçada na história. Quando enfim Félix os recolheu, Nicolas permaneceu calado, aguardando uma explicação para a interrupção.

Félix suspirou nervosamente, e movendo-se na cama, sentou-se com as pernas para fora, ficando de costas para o Carneirinho. Após alguns minutos ele quebrou o silêncio.

– Carneirinho... Desculpe por isso, mas... Sinceramente, eu... Eu não sei se quero continuar ouvindo a sua história. – Ele confessou. Nicolas não podia ver sua expressão mas nem precisava. Sua voz já transmitia toda a aflição que certamente lhe dominava. O escravo sabia disso porque ao mesmo tempo em que contava a história, as reações de seu Amo não lhe escapavam à percepção. Seu nervosismo aumentara visivelmente desde o momento em que aquela soturna sombra pairou sobre o cavaleiro negro na clareira do caminho para o rio. À medida que a história de Fahir era contada, a ansiedade do Sultão crescia na mesma intensidade com que a aventura assumia um clima mais denso e misterioso, caminhando para um desfecho certamente nada animador.

E não obstante as reações mal disfarçadas na face de seu ouvinte, até aquele momento pelo menos, Félix conseguira se conter em atormentado silêncio, e aguentara até onde pôde. Talvez até tivesse aguentado mais do que poderia se esperar.

– Amo... O senhor deseja que eu não conte mais nada? – Nicolas perguntou com delicadeza, ansiando internamente que sua curiosidade fosse mais forte do que seu aparente nervosismo. Que lhe constasse, não havia coisa pior para uma história do que não ter sua conclusão... Simplesmente pairar para sempre sem final, flutuando no etéreo... Nenhuma história merecia isso. O Carneirinho torcia fervorosamente para ouvir um “não” para aquela pergunta, porque se ouvisse um “sim”, precisaria respeitá-lo. Não se pode forçar ninguém a ouvir uma história, ela precisa que desejem ouvi-la, tanto quanto precisa de alguém para contá-la.

Sem ainda responder, Félix virou-se de volta na cama, sentando meio de lado para encarar o Carneirinho, que aguardava sentado de pernas cruzadas, sua posição de contador de histórias, enquanto exibia uma expressão compreensiva na face. Ainda assim o Sultão sentiu-se mais uma vez culpado, e pior... Um dilema terrível o consumia. Ele queria e não queria continuar ouvindo. Neste momento parecia quase impossível decidir o que fazer. Foi então que uma idéia iluminou seu semblante e ele ensaiou um sorriso para o escravo.

– Acabo de pensar numa solução, Carneirinho. Olha... – Ele engatinhou entre os lençois de seda e aproximou-se de um Carneirinho já sorridente, sentando-se altivo à sua frente, mostrando um novo ânimo. – Por que não fazemos assim: Não precisa me contar mais nada que o Fahir fez. Eu não quero... Não, eu não preciso na verdade saber o que ele fez. Isso não me importa. Pula essa parte toda e me diz só se o Nahan vai perdoá-lo, e se eles ficarão juntos. É só isso que quero saber. – Félix concluiu, orgulhoso da própria idéia, mas seu orgulho murchou tão rapidamente quanto o sorriso do escravo loiro já desaparecera, sendo substituído pela velha expressão fechada que Félix já conhecia.

– Ai, Carneirinho...

– Não, Amo. Eu não posso fazer isso. Não seria justo com a história. Ela precisa ser contada toda, até o fim, sem pular nenhuma parte. Isso seria como... Trapaça. – Mal terminara de falar e Nicolas levou uma mão para tapar a própria boca, como se houvesse proferido a pior ofensa. Certamente aquela palavra não soaria bem aos ouvidos de seu Amo... Mas quando olhou para o Sultão, viu que ele parecia nem ter ouvido, ou se ouviu, não deu importância. Seu rosto só expressava decepção. Algo indefinido apertou o peito do Carneirinho quando Félix abaixou a cabeça com o peso da tristeza de não saber o final da história. Mesmo assim, ele sabia que precisava ser firme. Cabia ao Sultão achar dentro de si mesmo coragem para enfrentar qualquer sombra indesejada que o passado de Fahir pudesse ter invocado.

– Meu Amo... – Uma leve esperança brilhou nos olhos negros do Sultão quando ele levantou a cabeça e encarou o Carneirinho – Eu lhe darei dois caminhos, e o senhor escolherá um deles.

O escravo loiro estendeu as mãos para a frente, e elevando a direita no ar, anunciou:

– Nessa mão, está a opção de continuar ouvindo a história até o final, como tem que ser. Como toda história tem que ser contada, se alguém desejar que ela seja contada.

O olhar de Félix dirigiu-se para a mão de Nicolas, que logo a abaixou enquanto erguia a mão esquerda.

– Nessa mão está a opção de não contar mais essa história. Ela será interrompida e o senhor jamais saberá o final. Ao invés disso, poderei começar a contar outra, se assim o Amo desejar, e se ainda quiser ouvir minhas outras histórias. – Ele concluiu, abaixando a mão sobre o joelho esquerdo, para fazer par com a pousada sobre o joelho direito, e abaixando o olhar meio triste, simplesmente aguardou pela decisão do Sultão.

Naquela noite, desde que o Carneirinho recomeçara a contar a história do Cacheadinho e do cavaleiro Fahir, era como se tivessem atravessado eras enquanto Nicolas conduzia sua platéia de um só a mundos incríveis de fantasia com cavaleiros, princesas, ciganos, príncipes e criaturas fantásticas. Mas na verdade, só se haviam passado algumas horas no mundo real que rodeava a imensa cama do quarto Real. Do lado de fora do balcão que dava para o jardim do palácio, a madrugada mal nascera. Era a magia da imaginação distorcendo o tempo para que todo um mundo novo coubesse dentro daquele quarto, sobre aquela cama, no breve e eterno espaço que fizera morada temporária entre o Carneirinho e seu Amo.

Agora, a decisão de continuar ou não essa viagem só dependia do Sultão.

Enquanto o olhar de Félix passava de uma mão de Nicolas para a outra, ele não dava mostras de pender mais para um lado do que para o outro. Uma mão do Sultão subiu à sua têmpora no gesto característico de passear o dedo pela sobrancelha, em seguida, ele a migrou para os lábios onde se refugiaram para que roesse nervosamente as unhas. Seu olhar agora era frenético, mudando rapidamente de um lado ao outro, na expressão máxima da ansiedade e sem conseguir decidir qual mão do Carneirinho escolher.

Com um suspiro paciente, Nicolas apenas aguardou.

* * * * * *

Notas finais
¹ Peste Branca – Como era chamada a Tuberculose na Idade Média. ² Hidromel – Bebida alcoólica derivada da fermentação do mel diluído em água. O hidromel tradicional leva água, mel e levedura. ³ Rabeca – Instrumento musical de corda friccionado com arco, equivalente ao violino. ⁴ Bodhrán – Instrumento musical de percussão irlandês que assemelha-se a um tamborim. Para quem quiser ouvir a música que tocava no Recanto do Fauno, veja aqui: https://www.youtube.com/watch?v=xKnZgDyS38g Por essa nem eu esperava. Não estava prevista essa aparição do Sultão e do Carneirinho, mas o que fazer se Félix precisava de uma pausa para respirar. No próximo capítulo descobriremos a escolha do Sultão. Até lá! :)