Carmesim
3 Diários, pensamentos
Capitulo 3-
Nicolas não sabia exatamente o que fazer. Ele paralisou por um instante. Michelangelo ria incessantemente. Era como um trovão em agudo. Sua voz que era claramente doce há alguns momentos atrás simplesmente se transformou em algo cheio de ódio e dor. Se movendo estranhamente, a alma possuída de Michelangelo começou a se aproximar de Nicolas. Por esse motivo, Nicolas acordou e correu pelo caminho de volta ao campo de flores. Ele correu muito rápido, tropeçou e quase caiu, mas chegou até lá.
Ao chegar lá, ofegante e cansado, ele olhou para trás para saber se havia sido seguido. Para sua felicidade, ou não, não havia nada atrás dele, porem, ele ainda estava na vila. Nicolas decidiu fugir, correr dali. Não era seguro continuar num lugar assim. Então ele correu ate a praça da vila, procurou o caminho por onde ele havia entrado e para seu desespero, nada encontrou. A trilha de flores carmesim por onde ele havia caminhado simplesmente desapareceu em meio à floresta. Sim, Nicolas estava preso naquela vila. Nesse momento de desespero, surgiu Mich. Uma luz branca da escuridão descrevia bem o pequeno em vestes impecáveis. Nicolas, sem esperar pelas palavras de Mich, começou seu monologo aos berros:
N: COMO VOCÊ PODE ME TRANCAR AQUI? VOCÊ VIU O QUE ACABOU DE ACONTECER? EU NÃO SEI EXATAMENTE O QUE VOCÊ QUER, MAS OLHA, ISSO ESTÁ MUITO BIZARRO NÃO ACHA? CONTE-ME O QUE ESTA ACONTECENDO LOGO!
M: ... Você claramente ainda não entendeu não é? Talvez se você olhar pra trás... Talvez você se dê conta... Mas não, ainda esta muito cedo... O que eu posso dizer-te é: fique longe do que você viu no riacho. Mataria-te se você tivesse lhe dado a chance. Aquilo é a razão de tudo que você vê aqui...
N: SÉRIO, NÃO ME DIGA? AGORA ME FALE COMO SAIO DAQUI.
M: Abra o portão e conserte seus erros.
Mich apenas sumiu depois do que disse. Nicolas sentou nos bancos da praça e começou a pensar num modo de escapar dali. Mas mesmo que pensasse, ele sabia o que tinha que fazer. Nicolas decidiu seguir as instruções que lhe foram dadas. Seu raciocínio lhe ajudaria. Ele se lembrou das palavras ditas por Mich. As respostas estavam, afinal, nas suas memórias. Foi então que ele se lembrou de algo que talvez lhe ajudasse. O quarto de Mich.
Lá ficavam todos os pertences do garoto, poderia ser de algo útil afinal. Nicolas, então, correu até a rua que levava à casa de Mich. Era do lado direito do portão, o mesmo lado pra onde ficavam os campos de flores.
Cada rua tinha apenas uma casa na ponta e essa casa se estendia até o começo da rua. Mesmo assim, todas as entradas das casas ficavam no fim das ruas. Nicolas não se lembrava muito bem de como era a casa, mas tinha que entrar. A casa estava velha e caindo aos pedaços. Ele abriu a porta com cuidado e deu um passo a frente. Hesitou, pois estava muito escuro. Realmente, não era possível enxergar nada ali. Foi nesse momento que sua memória ajudou-lhe. Ele viu em sua mente o caminho para o quarto do pequeno. Nicolas contou ate três e correu pelo mesmo caminho que sua mente lhe dissera que era correto. Quando adentrou a casa, seus olhos se fecharam de medo e ele correu. Quando chegou até a porta correta, abriu-a e entrou. Ainda de olhos fechados, virou-se e fechou a porta que fora aberta com força e desespero.
Quando abriu os olhos, teve uma surpresa. Havia velas acessas no quarto. Estava claro, diferente do ambiente lá fora. O quarto de Mich era pequeno. Havia uma cama, um armário, um criado-mudo, algumas prateleiras e uma segunda porta. Essa porta era de madeira e abria para o lado. Nicolas, então, decidiu procurar algo nos pertences de Mich.
Depois de revirar um pouco o guarda-roupa pequeno de Mich, Nicolas achou certos encadernados com os dizeres ‘Não leia’ escritos na capa. Eram os diários de Mich. Dois minilivros encapados em vermelho com um laço que os mantinha fechados. Nicolas abriu um deles e começou a ler. Eis que estava escrito, a mão, o seguinte texto:
-Hoje fomos ao bosque. Caminhamos e conversamos. Ele me levou pra tomar sorvete na cidade. Quando riram da minha roupa, ele me defendeu. Ainda não sei o que é esse sentimento, mas sei que cresce.
-Hoje, eu o levei para conhecer a vila, Ele a achou bonita e calma. Quando minha mãe o viu, sorriu e o recebeu bem. Fez um lanche para nós e depois nos deixou a sós. Ele foi cavalheiro, pacifico e delicado.
-Faz uma semana que nos conhecemos e já estamos muito próximos, como ele pode ter tantas coisas em comum comigo? Chega a ser estranho.
Então, havia MUITAS paginas faltando em seguida. Pareciam ter sido arrancadas. O resto das paginas não eram legíveis, haviam embolorado ou haviam sido rabiscadas. Mas entre elas, a última ainda era legível. Ela dizia:
-Hoje eu o deixei ir. Era hora. Mesmo que tenha sido eu que disse adeus, ele já havia me deixado há muito tempo. O coração era vazio, ele não me amou verdadeiramente. Está doendo demais, meu peito esta gritando, o que eu faço?
A verdade é que Nicolas não estava pensando, ele não assimilou o que estava escrito no exato momento em que leu. Ele só abriu o próximo diário e leu a continuação. Esse diário só continha algumas paginas. O resto estava em branco.
-As lembranças, os lugares... Tudo me lembra ele. Quero me sentir amado novamente. Quero ele do meu lado. Eu o preciso.
-Faz uma semana que não escrevo aqui. O tempo esta passando muito rápido. Eu não vejo anoitecer ou amanhecer. Tudo perdeu o sentido.
-A dor no meu peito está constante e duradoura, ela não para ou dá trégua. Eu me pergunto como ele está ou o que esta fazendo... Dói imagina-lo longe de mim.
-Não aguento mais, vou até a cidade procurar por ele! Eu preciso vê-lo!
-Eu gostaria de ter ido até a cidade hoje, mas minha mãe me levou até os médicos da vila para ver a minha dor no peito. Eles examinaram e não encontraram nada de anormal, mesmo comigo descrevendo os sintomas que eu sentia e dizendo que estava doendo naquele exato instante. Os médicos, então, chamaram o chefe do templo e conversaram com ele a sós. Minha mãe participou dessa conversa, mas não quis me contar o que era.
-Minha mãe foi ate um encontro com os vileiros e voltou chorando. Ela se trancou no quarto e não me respondeu. No dia seguinte, ela fingiu que nada aconteceu e simplesmente desviou dos assuntos.
-Faz um mês que não escrevo nada aqui. Minha dor me impediu disso. Isso aconteceu porque eu fui ate a cidade e vi meu amado. Sim, ele estava bem. Mas estava com outra pessoa. Eles tinham um anel no dedo e se beijavam na frente de todos. As pessoas riam de mim pelas minhas roupas, mas eu não liguei. Estava anestesiado pela dor que senti naquele momento. Fiquei derrubado aqui por um mês.
-Hoje o chefe do templo me disse que tinha certeza de que eu havia sofrido um juntamento. Eu não sei o que é isso. Estou com medo. Essa noite vários guardas começaram a vigiar minha casa pelo lado de fora e de dentro.
-Fazem 9 meses que te perdi.
O diário acabou aí. Nicolas lembrou-se da seguinte cena:
‘Estava ele e seu namorado na praça. Ambos felizes e trocando caricias juntos. Ele comprou um algodão-doce para seu namorado e os dois sentaram e começaram a trocar beijos. Nicolas notou que algumas pessoas passavam rindo alto. Achando que estavam rindo dele e de seu namorado, Nicolas parou e olhou em volta. As pessoas riam de alguém que estava vestido de branco até o chão e chorando logo perto. Era Mich. Algo que Nicolas notou era que seu cabelo estava branco em uma parte. Ele chorava sem parar, olhando a cena dos dois juntos. ’
Nicolas, ao acordar de seus pensamentos, ouviu a voz de Mich. Não sabia de onde a voz vinha, mas continuou a segui-la. Nicolas saiu do quarto de Mich pela porta por onde havia entrado. Ele fechou os olhos e correu em direção à voz, virou num corredor e abriu uma porta-de-correr. Deu de cara com a varanda da casa que por sinal dava nos campos de flores carmesim. Ali, ele encontrou Mich, que sozinho, cantava uma canção. Eis a letra:
“O vento bate, as flores abrem, o cheiro que se espalha.
O verão passa e as águas sobem. E dor, o rio requesta.
Amor e ódio, dor e alegria. Preto e branco, a luz do dia.
O campo que, de vermelho, se tingirá...
Um puro sacrifício necessitará.”
Quando Nicolas se aproximou, como um flashback, ele viu uma cena que, por ventura, havia acontecido ali há muito tempo atrás. No tempo em que o sol ainda banhava aquele vilarejo...
‘Chegou à cena um guarda do templo. Ele tocou o ombro de Mich e iniciou o seguinte dialogo:
G: Você deve se apressar, está quase na hora da cerimônia. As águas estão esperando.
M: Eu gostaria de ao menos ir até o campo das flores novamente. Até o meio.
G: Levarei-te lá. Porem, devemos nos apressar. O chefe lhe chamou há algumas horas...
M: Entendo... Vamos até lá então?
Ambos caminharam até o campo que ficava logo à frente. ’
Nicolas, vendo aquilo, decidiu ir até o campo, o campo das flores que tinham cheiro de sangue. Mas antes, ele viu algo caído no chão. Era um papel com algo escrito a mão. Nicolas soube o que era no mesmo instante. Era uma das folhas rasgadas do diário. Nela estava escrito:
-Te odeio tanto, gostaria de lhe matar com minhas próprias mãos. Sabe isso tudo que esta acontecendo? Tudo pelo o que estou passando? Tudo o que meu destino me reservou? Está acontecendo por SUA causa. Meu cabelo está ficando branco devido a raiva que tenho dentro de mim. E a culpa é sua!
Logo após ler isso, ele sentiu a aura do local se cobrir em vermelho. O ambiente ficou pesado. Nicolas já sabia quem estava vindo. Era a alma perdida e louca de Michelangelo. A porta da casa começou a fazer barulho. Nicolas não pensou duas vezes e correu em direção ao campo florido. Correndo sem olhar para trás, ele adentrou o caminho em meio as flores e subiu a colina carmesim.
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