Carmesim
4 A colina das flores de sangue
Notas iniciais
a maior parte da história está aqui!
Capitulo4-
Enquanto subia as pressas a grande colina de flores vermelhas, Nicolas se deu conta que ali não era um lugar comum. Ele se lembrou de que os melhores momentos que ele havia vivido com Mich aconteceram ali. Não era atoa que Mich quisesse ir até lá. Nicolas se perguntava incessantemente porque aquilo estava acontecendo com ele. Ele realmente estava curioso para saber o porquê Mich parou de escrever no diário. Por dentro, ele se sentia mal por ter lido aquele bilhete rancoroso, mas sabia que a culpa era toda sua.
Quando se aproximou do topo da colina, houve mais um dos flashbacks onde ele revivia algo com Mich:
Lá estava Mich. Sentado no chão com as pernas jogadas para o lado e olhando o horizonte. O sol brilhava forte naquele dia e as flores balançavam com a brisa. Nich se aproximou e sentou do lado de Mich. Ele olhou para o rosto do garotinho e se assustou, pois viu lagrimas. Mich enxugou suas lagrimas e lentamente olhou para Nich. Os dois tiveram a seguinte conversa:
M: Eu amo sentar aqui, sentir o cheiro das flores e ouvir o vento dançando. Era o nosso passatempo favorito. Sabe, você leu alguns dos meus diários, porém, lá não está registrado nem metade dos sofrimentos que passei depois que me deixaste.
Mich respirou fundo e começou a contar uma velha historia para o curioso rapaz:
M: Você sabe por que essas flores tem esse cheiro peculiar? Elas são chamadas de Carmesim Cintilante. Essa espécie de flor só é encontrada em nossa vila. Como um presente dos deuses, elas nos trazem honra. Mas, tê-las em nossos campos não envolve apenas isso.
Mich, com um pouco de sofrimento na voz, continuou:
M: O rio que banha nossa vila no inverno não é um simples rio. Ele se chama Correntes de Hades. Ele é algo estritamente proibido de ser falado ou até mesmo escrito. Esse é o motivo para os meus diários terem sido rasgados. Esse rio tem uma espécie de contrato com nossa vila. Ele nos dá colheita prospera e esse campo maravilhoso de flores. Enquanto essas flores estiverem bonitas, podemos concluir que nossas relações com o Rio estão fortes. Porém, para que elas estejam fortes, o Rio requesta uma certa cerimônia. É como uma oferenda para os deuses.
Nich tremeu ao ouvir aquilo. Ele temia o que ouviria em seguida. Ficou calado e apenas ouviu a historia que o menino das vestes brancas contava em meio ao som do vento:
M: A oferenda em si é algo básico e não muito difícil de encontrar. Porém, a forma mais pura de encontra-la, seria dos restos de um coração que fora quebrado. Só um coração quebrado causa na pessoa um sentimento tão doloroso e maldito capaz de acalmar as águas do rio. O rio demanda uma oferenda de ÓDIO.
Nich tremeu novamente com as palavras ditas ali. Com um olhar trêmulo, continuou a ouvir:
M: Quando esse ódio se torna tão forte a ponto do cabelo da pessoa ficar branco, acontece um fenômeno chamado juntamento. Quando uma pessoa sofre o juntamento, quer dizer que ela se converteu em parte de ódio e parte de amor. Isso faz com que a pessoa se torne a oferenda perfeita para o rio. Segundo os monges do templo, o momento exato para fazer o ritual é quando exatamente metade do cabelo se tornou branco, isto é, exatamente metade da pessoa se tornou ódio e metade ainda é amor.
M: Você sabe a razão disso? É porque, para fazer a transferência desse ódio para o rio, é necessário o sacrifício de uma vida. Mesmo que seja apenas metade dela.
Nich entendeu na hora. Chocou-se ainda mais. O ritual do qual Mich estava falando era bizarro. Ele não conseguia entender. Por que sacrificar alguém? Na cabeça dele, mesmo que em meio a bagunça das informações, ele compreendeu. Mich seria o escolhido para performar esse ritual e perderia a vida ali. E o pior, a culpa era toda de Nich.
Mich, olhando fixamente para os olhos de Nich, continuou seu monólogo:
M: Está com medo? Está se sentindo culpado? Você matou metade de mim. O sofrimento de te perder foi tão insuportável que eu comecei a morrer por dentro. Por culpa disso, fui destinado a morrer... Morrer de um modo doloroso... As águas daquele Rio eram tão frias que me causaram arrepios pelo corpo todo...
Nich, nesse momento, começou a chorar e não sabia o que dizer. Era algo cruel. O que ELE fez foi cruel. Tão cruel que lhe causou lagrimas. Lagrimas de desespero ao imaginar tal atrocidade. Nesse momento, Mich interrompeu suas palavras e abraçou Nich.
Mich apertou Nich nos braços por um momento. Esse momento se estendeu pelo tempo necessário para que Nich se recomposse e parasse de chorar.
Mich, ajoelhado na frente de Nich e segurando seus ombros, continuou:
M: Quando o tempo do ritual chega, o escolhido ou escolhida deve se manter são e procurar distrações. O crescimento do ódio deve parar exatamente na metade. Foi por isso que me foi permitido sair da vila algumas vezes. E eu ia até a cidade te ver. Queria ver como você estava, se estavam te maltratando ou algo assim. Mas eu só fui uma vez e essa vez você deve se lembrar muito bem. Aquilo acelerou o crescimento do meu ódio, pois me causou ainda mais sofrimento. Entenda que quanto mais eu sofresse, mais eu morreria.
Nesse momento, Nich puxa Mich para o seu colo e começa a desmanchar seu cabelo. Mich deita no colo de Nich, mas continua a contar a trágica historia:
M: Se o ritual é bem sucedido, o Rio se esvazia e o campo se torna fertilizado. O corpo do escolhido é levado pelo rio e, alguns dizem que, o sangue desse corpo se torna a fragrância do campo e a cor desse sangue se torna o tapete que cobre o campo. Porém, para que ele dê certo, a repartição entre ódio e amor tem que ser exatamente igual. É a única condição para isso.
Nesse momento, Nich deu um beijo na testa de Mich e o apertou em seu peito. Aquele pequeno menino foi totalmente coberto pelo abraço urso de Nich. Foi então que Nich disse:
N: Lembra de quando ficamos procurando joaninhas no bosque?
M: Sim, lembro. E que havíamos estabelecido pontuações pela cor?
N: Exato! Eu me lembro de cada sorriso que você deu quando achava alguma vermelha e me passava no placar. Afinal, você fez questão de que ela valesse mais.
M: Desculpa amor, é porque eu já sabia onde encontra-las.
Os dois começaram a rir muito. Então, Mich disse:
M: E você lembra quando brincamos de esconde-esconde nesse campo? Você sempre me achava tão fácil! Deveria ter algum truque também.
Em meio a risadas, Nich respondeu:
N: Sim, as pontas da sua roupa ficavam sempre a mostra quando você se escondia. Aí eu simplesmente dava a volta e te surpreendia por trás.
Mich sorriu e, se desprendendo do abraço de Nich, ajoelhou na frente do rapaz novamente e disse:
M: Então, se você se lembra de tudo o que passamos juntos, deve saber qual é a lembrança importante que você deve achar aqui, não é?
Nich respondeu de prontidão:
N: Sim, nossa primeira vez.
Nich deitou na grama verdinha e Mich deitou em seu peito logo em seguida. Nich abraçou fortemente Mich e os dois ficaram desse jeito por um tempo.
Nich começou a dizer:
N: Mesmo longe de você, eu senti muito a falta do seu sorriso, do seu jeito meigo. Se eu não posso mentir, pelo menos o pouco de verdade que me resta eu gostaria de lhe dizer. Eu realmente te esqueci. Esqueci nossas lembranças, nossos momentos. Agora em saber que você sofreu tudo isso por mim, eu carrego esse fardo.
M: Eu gritava todas as noites porque a dor no meu peito era insuportável. Eu queria você me abraçando e fazendo aquilo tudo passar. Do mesmo jeito que você está fazendo agora.
N: Você está me fazendo lembrar tudo. Exatamente tudo que eu esqueci. Eu realmente não presto né?
Interrompendo Nich, Mich se levantou e disse:
M: Está chegando a hora novamente. Nosso tempo junto está se esgotando. Esse é o limite da nossa memória.
Mich, então, tirou uma minichave do pescoço e entregou a Nich. Mich disse em seguida:
M: Essa chave abre o lugar que esconde o ultimo item que você precisa para abrir o portão. Lembre-se de onde ela é e use-a. Mas se apresse, pois o ritual está para começar... Novamente...
Então, o pequeno menino de cabelos escuros se pôs em seu caminho, o caminho que o levaria para seu cruel destino novamente.
Foi então que a ilusão da memória se acabou, deixando apenas a chave na mão de Nicolas, que estava sentado vendo sua criança partir.
Nesse momento, a colina se converteu totalmente em vermelho. Não só as flores, mas sua atmosfera. O escuro da noite junto com a aura demoníaca. Era a alma carmesim.
Nicolas levantou e se virou para encontrar Michelangelo, dessa vez não fugindo. Mesmo aterrorizado, ele continuou ali.
Naquele momento, a alma de Michelangelo tomava conta de toda a colina. Era enorme e maligna. E talvez não tomasse apenas a colina, mas também o céu que a cobria. Entre gargalhadas e olhares mortais, ela se dissipou no ar sem tocar um dedo em Nicolas.
Foi nesse momento que Nicolas percebeu que o fim daquilo tudo estava próximo.
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