Carmesim
2 A cachoeira
Capitulo 2-
A vila em si era pequena. Na entrada, havia uma praça principal com alguns bancos com um jardim e a partir dessa praça, havia 4 caminhos ou ruas. Esses estreitos caminhos levavam as casas. A memória de Nicolas recobrava todos os detalhes que Mich havia lhe contado. Cada ponta de rua guardava a casa de uma das famílias que habitavam a antiga vila. No meio, havia um portão. Mich nunca disse realmente o que havia além daquele portão, mesmo que Nicolas perguntasse. Era como um segredo da vila toda.
Nicolas adentrou o local, porem, como o flash de uma câmera, a próspera e amistosa vila se tornou um lugar devastado e desolado. Como se a vida nunca tivesse tocado aquele lugar. A única cor visível ali era o vermelho carmesim das flores no jardim central da vila. Uma nevoa densa e branca cobria o local todo, o cheiro era de bolor misturado com sangue. A escuridão que cobria o local era algo que lembrava sujeira. Parecia uma capa por todo o céu.
Dentro a nevoa, no meio do jardim, Nicolas viu a silueta de um garoto vestido de branco. Ele brincava com as flores dali, colocando as no nariz e sentindo o seu cheiro. Era Mich. A mesma aparência alegre e doce. Nicolas se aproximou e houve o seguinte dialogo:
M: Então você finalmente veio... Eu esperei por muito, muito tempo, aqui nesse lugar frio e sombrio.
N: ...
Nicolas não sabia o que dizer em meio a essa situação. Mich estava sentado de costas pra Nicolas nesse momento, porem foi levantando aos poucos, ainda de costas, enquanto continuava:
M: Faz tanto tempo que não ouço sua voz e mesmo assim, você nem sequer me responderá? Realmente você mudou. Mas, o motivo pelo qual você esta aqui não é esse. Eu te chamei aqui porque preciso que me ajude. Só você tem o poder para isso. Busque as respostas em suas memórias. Só elas te tirarão daqui, só elas tem o poder de me ajudar.
N:... O que você quer?
Mich apenas apontou para o portão principal. Nicolas ao olhar aquele portão, desviou o olhar do menino. Nesse pequeno desvio, como mágica, ele havia sumido. Nicolas foi ate o portão, ainda se perguntando onde o pequeno havia ido. Lá, ele viu que o portão havia sido selado. Mesmo que o empurrasse, não se moveria tão fácil. Então, sua memória lhe foi útil em lembrar um de seus momentos com Mich.
‘... Depois de passarem o dia todo juntos, Mich e Nich, o casalzinho fofo e xodó de todos estava cansado e procurou um lugar pra se sentar. Na praça principal da pequena vila, eles sentaram-se em um dos bancos. Mich deitou no colo de Nich e relaxou da caminhada. Nich lhe fez muito carinho, bagunçando lhe o cabelo e com seu jeitinho, o fez rir. Com certa curiosidade, Nich perguntou ao garotinho algo que talvez ele não pudesse responder. Seguiu-se o dialogo:
N: Nós fomos ao campo, à trilha, ao bosque e agora estamos na praça. Bebê, aonde você quer ir agora? Talvez além daquele portão haja algo interessante!
M: Amor, não há como passar por ali. Aquele portão é trancado. Lá fica o tempo da família principal. É proibido falar sobre lá ou o que acontece lá, então eu não sei de nada. Mas por que não vamos dar uma volta?
N: Ah, então há um templo aqui? Conte-me mais sobre isso, vida!
M: Bom, o que eu sei é que esse templo prepara o festival de subida do Rio. Há um rio aqui por perto que em certa época do ano, transborda e acaba invadindo uma parte da vila. Esse festival serve para comemorar esta cheia, que sempre traz boa pescada e fertiliza os campos de flores.
N: Por que não vamos até esse rio então? Quem sabe há uma cachoeira ou algo do tipo? Aí podemos tomar banho lá.
M: Na verdade, esse rio é secreto, não se sabe onde ele começa ou se localiza. Mas, podemos ir até um lugar que conheço que tem uma cachoeira.
E então os dois fizeram seu caminho até lá... ’
Nicolas, ao ver essa cena em sua cabeça, relembrou do quanto o sorriso de Mich lhe fazia falta. Viu que mesmo tendo alguém, Mich era diferente. Ele decidiu por ir até a cachoeira onde os dois haviam ido naquele dia de verão. Seguiu seu caminho pelo lado direito da pequena vila, pelo mesmo caminho que levava ao campo de flores.
Porem, nesse caminho, algo aconteceu. Algo que lhe assustou. Ele ouviu vozes saindo de uma casa. Era a casa pela qual ele passou do lado para tomar seu caminho. A casa parecia abandonada, então não havia como ter alguém ali dentro. Eram vozes de homens que diziam:
Temos um candidato. Ele pode servir. Só precisa do juntamento. O juntamento pode fazer o truque para partir.
Nicolas correu pelo caminho, e com muito medo, começou a hiperventilar. Ele passou então pelo campo das flores cor de sangue. Elas permaneciam perfeitas. Seu cheiro parecido com sangue era forte nesse local. Havia muitas delas, milhares delas. Nicolas desceu pelo caminho alternativo, adentrando a trilha no bosque que uma vez o levara até o local thermal. O local onde havia uma cachoeira.
Enquanto se aproximava, começou a ouvir uma voz. Era a voz doce de Nich. Dizia palavras sem sentido, que não podiam ser entendidas. Porem, sua voz permanecia com o timbre calmo e sereno de sempre. Quando chegou, Nicolas não encontrou ninguém no local. Apenas a água branca e cristalina da cachoeira que fluía no pequeno riacho. O Som em si já era refrescante e relaxante. O cheiro ali era característico de vegetação molhada. A água era quente, afinal era uma fonte thermal. Com certeza uma das riquezas do pequeno vilarejo.
Nessa calmaria, então, foi que Nicolas sentiu um toque no ombro, e quando virou...
Foi como se aquele dia estivesse se repetindo. O calor, a luz do sol e ali estava ele, sorrindo. Mich olhou nos olhos de Nich e disse:
M: Então, vamos dar um mergulho ou não?
Um silêncio repentino tomou conta, mas logo em seguida, Nich respondeu:
N: Claro, por que não?
O dia estava se repetindo, exceto porem, as coisas que Mich diria a seguir:
M: Você sabe que essa cachoeira está escondida em nossa vila há muito tempo? Apenas os puros de coração sabem sobre ela. Eu lhe mostrei porque queria que sentisse as gentis águas que por ela fluem. Olhe bem pra essa água que flui. Ela é usada na purificação do escolhido. Ela lava os pecados da carne e os abranda por certo tempo.
Mich se sentou e colocou os pés na água. Isso sem levantar suas longas vestes brancas, molhando-as.
M: Sabe, foi aqui que nós juramos estar sempre juntos. Foi aqui que nossos sentimentos foram ficando cada vez mais fortes. Foi aqui que eu decidi deixar a primeira memória importante que você precisava se lembrar. O nosso primeiro beijo. O momento que seus lábios selaram os meus. O momento em que você cobriu nossas palavras com ações. Foi quando eu tive certeza que você me amava... Porem, talvez não tivesse tanta certeza assim né... Afinal...
Interrompendo o monologo do menino, Nich disse algo por puro impulso:
N: Mas eu te amei! Foi verdadeir...
Conforme as mentiras repentinas e malditas saíram dos lábios de Nich, a fina luz que ali sentava e dizia instruções começou a falhar. Mich parecia sumir e parecia fraco. Foi então que ele se levantou e disse:
M: Se você quer sair daqui e resolver o problema que criou, você não pode mentir. Não minta. Mentiras são proibidas. Deixe-me apenas terminar. Esse dia teve uma das minhas lembranças mais importantes. A partir de agora, sua missão será revivê-las e relembrar as suas. Só assim você achará a chave para aquele portão. Nesse local, há uma delas. Tente se lembrar do presente que você me deu.
Foi então que como um flash, Nicolas voltou a aquela noite sem lua. Ele se sentou as margens do rio e tentou recordar do momento que os dois tiveram ali. Foi então que lhe veio a imagem. A imagem de quando eles se beijaram. Ele se lembrou de que havia realmente dado um presente a Mich. Aquele presente era um colar com as iniciais ‘M&N’. Porem, o momento em que ele havia lhe dado o colar era exatamente o momento em que os dois estavam na água. Juntos, um do outro.
Tudo fez sentido. O colar estava no riacho. Nicolas devia recupera-lo. Nicolas tirou suas vestes e, começando pelos pés, se submergiu num mergulho até o fundo do riacho. Dentro do rio, ele começou a ouvir a voz de alguém. Não era a voz de Mich. Ou seria? Era uma voz esganiçada. Parecia rir desesperadamente. Parecia a voz de um assassino. Não poderia ser de Mich.
Mesmo ouvindo as coisas ininteligíveis que a voz dizia, Nicolas continuou a procurar. Algo brilhou no fundo das águas. Um brilho dourado. Era o colar. Nicolas subiu até a superfície para tomar ar e voltar no fundo para pegar o colar. Ao voltar para a superfície, a voz parou. Porem, ao retornar a água, a voz voltou a ecoar em seus ouvidos. Quanto mais se aproximava do colar, mais alto a voz ficava. Foi ficando mais alto, mais alto, mais alto. Ate que parecia um grito. Um grito de horror com as seguintes palavras:
‘MENTIROSO! SUJO! APROVEITADOR!’
Ele então tocou o colar. Imediatamente sua mente se cobriu de coisas. Foi como um flashback.
Ele viu a seguinte cena dentro de sua cabeça:
‘A ultima vez que os dois se viram. As últimas frases agonizantes de Mich. ‘Você não me deixou escolha, você mentiu até o fim, você fez com que as coisas chegassem a esse ponto. Só espero que não te arrependas. ’ Nicolas simplesmente virando as costas pra pessoa que lhe amava e saindo como se nada tivesse acontecido. Mich murmurando pra si mesmo ‘se cuida, meu amor.’ Lagrimas saindo de seus olhos, a voz quase travada. Mich correndo ate o caminho das flores, descendo ate a trilha para a cachoeira. Correndo em meio lagrimas e murmúrios de dor. Chega Mich na cachoeira e cai de joelhos nas pedras. Chora como um bebê, aos poucos se desfazendo de seu rosto angelical. Segura fortemente seu colar. Num surto de raiva, ele o arranca e joga no riacho. O colar desce ate o fundo das águas acompanhado das palavras. ‘Por quê?’. ‘
Nicolas então abre os olhos e vê que está deitado nas pedras ao lado do riacho. O colar está em sua mão. Ele se levanta e coloca suas roupas rapidamente devido ao frio daquela noite e analisa tudo que sabe. Naquele momento, ele parecia ter conseguido uma peça chave. O Colar M&N tinha uma forma peculiar. Todas suas letras juntas pareciam formar uma figura. Ele então o colocou no pescoço e começou seu caminho de volta a vila.
Entretanto, uma voz louca e tremula gritou em seu ouvido assim que ele deu as costas para o riacho.
‘IMUNDO!’
O que aconteceu a seguir foi arrepiante. Uma aura vermelha e doentia tomou conta do lugar. O que era calmo e relaxante antes se tornou algo insuportável. Quando Nicolas se virou pra ver o que aconteceu ou que havia lhe gritado os ouvidos, eis que no meio do riacho aparece a silueta de uma pessoa vestida em vermelho e de cabelos grisalhos. O cheiro de sangue espalhou-se no ar nesse momento. Uma gargalhada extremamente louca tomou conta do silêncio que até então reinava. Foi com essa gargalhada que essa pessoa levantou a cabeça e foi possível identificá-la. Era uma alma, uma alma com ódio, uma alma carmesim, uma alma louca... E era a alma de Michelangelo.
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