Caring Is Not An Advantage
10 Capítulo 10
A noite era de tempestade. Os trovões e clarões invadiam o escritório do Holmes mais velho. Não tardou para a eletricidade se render á chuva e logo nada mais poderia ser resolvido.
– Receio que o melhor é irmos para casa, senhor.
O guarda chuva foi aberto e Mycroft caminhou até o carro que partiu abrindo caminho por entre as ruas molhadas.
Em casa o mais velho se livrou dos sapatos molhados e se viu imerso numa atmosfera estranha. O apartamento não dispunha de um único feixe de luz e tudo era absurdamente quieto. A sensação de que algo estava errado o invadiu como um soco no estômago.
Mycroft caminhou com a ajuda do pequeno feixe de luz do celular e desviou dos móveis até parar em frente à única porta fechada: A do quarto de Sherlock.
As mãos hesitaram por um segundo e no outro o mais velho agarrou a maçaneta com força – mais do que a necessária – abrindo e revelando a cena que ele não queria ver.
Não havia luz assim como nos outros cômodos. Os relâmpagos forneciam apenas um instante de clarão e durante um desses pequenos segundos de luz Mycroft viu o irmão na cama — o corpo se contorcia enquanto os lábios sussurravam coisas sem sentido.
O mais velho ficou ali, parado no quarto escuro enquanto sentia a mente dá um nó.
Aproximando-se com alguns passos ele parou ao sentir as meias úmidas. Havia uma voz clara – talvez a voz da razão – que o gritava para não olhar, mas não resistiu. Precisava ver para crer porque tudo parecia surreal demais. A pequena luz iluminou o piso frio revelando as seringas, diversos recortes de jornal e sangue. Havia sangue em toda parte. Mycroft avançou e avistou o canivete ao longe.
Finalmente ele se aproximou da cama e deixou o corpo se afundar no colchão macio. As mãos suaves acariciaram um Sherlock delirante, um irmão que o mais velho não reconhecia mais. Com a voz embargada ele questionou – mais para si mesmo do que para o irmão.
– O que você fez, meu irmão? Por que se machucar tanto?
O corpo do mais novo ficou agitado, os olhos estavam perdidos em algum lugar distante demais daquele quarto e então veio a resposta – num ápice único de sanidade e realidade.
– Por que você deixou de ser meu irmão?
Um raio dividiu o céu.
Lighting strike
Inside my chest to keep me up at night
Dream of ways
To make you understand my pain
O trabalho de Mycroft requeria foco, objetivo e em uma noite ele chegou a se questionar se ainda tinha um coração como antes.
Naquele momento teve a sua conclusão.
Ele tinha, pois acabara de senti-lo se quebrar. Mil pedaços afiados caindo ao chão como vidro, manchando todo o piso como aquele sangue. Sangue do seu irmão. Seu irmão caçula que se começou a se destruir por pensar que ele não se importava mais.
If you want more love
Why don't you say so?
If you want more love
Why don't you say so?
Se importar é difícil. Se importar dói.
Não interessa o quão dura é a sua armadura. Alguém irá quebrá-la e irá fazê-lo sangrar, se lembrar de que ainda é um humano.
Mycroft segurou Sherlock nos braços e o acolheu em seu peito. Sentiu todos os espasmos daquele corpo inundado de química, deixou que o sangue dos machucados manchasse a roupa social, cantou canções que Mummy costumava cantar, se culpou por todos os anos que deixara o irmão sozinho, se culpou por ter se tornado tão distante e quase virado uma lembrança. Durante toda a noite os braços do mais velho seguraram o caçula com a mesma determinação usada antes para deixá-lo no internato.
I don't care if we don't sleep at all tonight
Let's just fix this whole thing now
I swear to god we're gonna get it right
If you lay your weapon down
God only knows how much I'd love you if you let me.
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