Caretrisse
6 Uma cicatriz no queixo
Notas iniciais
6
Encontro Paulo próximo a cantina e pergunto o que aconteceu nas primeiras aulas e ele diz que nada demais, Cristina acena pra mim mas sinto Paulo tocar o meu braço.
“Oi?”, digo.
“Você bateu na Isabela?”, ele pergunta.
“Nada demais.”, respondo, e ele ri.
Ando em direção aonde Cristina está sentada, quando estou chegando perto da mesa ela olha pra mim levantando a sobrancelha, ela abre a boca para falar porém desiste e faz um gesto com a mão como se dissesse “deixa pra lá”. Ficamos ali sentadas até tocar o sinal para a próxima aula. Levantamos e seguimos para nossas salas.
Tento me concentrar no que a professora Maria fala mas não consigo, Junior me cutuca com o lápis e pergunta se estou bem, digo que sim. São duas aulas seguidas da mesma matéria que parece que não terminam nunca. O sinal toca e os alunos começam a guardar seus materiais rápido e todos ao mesmo tempo, fazendo a sala ficar muito barulhenta, parece que ninguém gosta das aulas de geografia. A professora tem uma régua verde na mão, ela bate forte com a régua na mesa e todos viram para olha-la.
“Calma, gente. O mundo não vai acabar.”, ela fala, com sua voz extremamente irritante.
Eles a ignoram e começam a sair ligeiro da sala. Eu não acho Cristina então decido ir para casa sozinha, quando estou perto do portão Miguel olha para mim enquanto tenta acompanhar a saída dos alunos.
Duas garotas que devem ser do sétimo ou oitavo ano começam a discutir, a menina de cabelos loiros fala alto: “Eu vou te jogar por cima desse muro.” Miguel me olha rindo e eu rio também. A garota repete várias vezes a mesma coisa, que vai jogar a outra por cima do muro, e a outra xinga ela de idiota e sem noção.
Miguel caminha até elas para tentar acabar com a discussão, quando passa perto de mim, ele aponta para a loirinha e fala: “È a sua irmã?” eu rio e faço sinal de positivo. Ele conversa com as garotas pedindo para elas pararem de brigar e irem para casa, elas o obedecem.
Lucas se aproxima de mim e pergunta se já vou para casa, respondo que sim.
“Então vamos?”, ele diz.
“Vamos.”, digo.
Percebo que Miguel está olhando para nós, Lucas começa a caminhar e eu sorrio para Miguel, que não retribui o sorriso e parece sério demais.
Já estamos distante da escola e Lucas passa o braço sobre os meus ombros, eu paro de caminhar e olho para ele, que bate no peito e tosse umas três vezes como se tivesse se preparando para um discurso. Eu levanto a sobrancelha.
“Tenho uma coisa muito importante para dizer.”, ele fala.
“O quê?”
“Na verdade, é uma pergunta.”
“Uma pergunta?”
Ele segura as minhas mãos.
“Querida Tris, quer namorar comigo?”
Olho para ele e fico confusa. Não quero namorar com ninguém. Lembro de Cristina dizendo que ele é o MEU cara, então demoro um pouco para responder.
“Ah. Hm. Preciso pensar, eu acho.”, digo, e percebo que ele ficou triste.
“Claro.”, ele parece decepcionado. “Eu entendo.”
“Desculpa.”, penso um pouco. “Fiquei surpresa, sabe?”
“Não, tudo bem. Eu posso esperar.”, ele volta a sorrir.
Quando chego em casa, escuto a voz da minha mãe cantando na cozinha, entro no meu quarto e jogo a bolsa no chão. Me deito na cama, pego o meu celular, meus fones de ouvidos e coloco Legião Urbana para tocar. Depois de uns 20 minutos a minha mãe abre a porta do quarto e pergunta se não vou almoçar, falo que não. Ela senta na cama e pergunta se aconteceu alguma coisa e eu digo que não. Ela me olha com uma expressão triste.
“Quando eu chegar do trabalho podemos conversar, tá bom?”, ela diz, passando a mão nos meus cabelos.
“Tá.”, digo.
Ela me dá um beijo na testa e sai, o que me deixa aliviada. Sempre nos sentimos a vontade para chorar na frente de nossas mães. E eu não queria chorar.
Resolvo levantar e tomar um banho, quando estou terminando de vestir a roupa alguém bate na porta e fala: “Cristina está aqui para falar com você.” Eu sorrio quando escuto a voz do meu pai.
“Pai?”
“Oi.”, ele responde. “Cristina quer falar com você.”
“Já estou indo, pai.”
Abro a porta e vejo Cristina deitada no sofá e assistindo televisão. Ela me conta que alugou um filme incrível e que o meu pai falou que vai fazer pipoca.
“A TV daqui é muito melhor que a lá de casa.”, ela fala.
“Hum.”
“O que foi?”, pergunta sem tirar os olhos da TV.
“Nada.”
Passamos a tarde vendo filmes, eu e o meu pai rimos muito dos comentários de Cristina sobre os filmes, ela comeu quase toda a pipoca sozinha e não parava de falar um só segundo. Eu geralmente também faço comentários que ou fazem as pessoas rirem muito ou quererem bater em mim. Mas hoje eu tinha coisas demais na minha cabeça.
Minha mãe chegou do trabalho e foi preparar o jantar, Cristina jantou conosco e depois nós quatro jogamos um jogo de tabuleiro, que foi muito divertido. Senti falta do meu irmão, e pude perceber que meus pais também deviam estar pensando a mesma coisa.
Cristina acabou ficando até 8h aqui em casa, e eu então vou acompanhar ela até o meio do caminho, ela sempre faz isso quando vou na casa dela e eu faço o mesmo.
Estamos quase na metade do caminho, caminhamos em uma calçada de um barzinho que está meio cheio hoje, toca umas musicas românticas e Cristina começa a dançar como se estivesse em uma peça de teatro, eu rio muito e decido imita-la, estou dançando de costas quando esbarro em alguém, viro e ele segura em meus braços. È Miguel.
“Oi.”, ele diz, sorrindo.
“Oi. O que você está fazendo aqui?”, digo, sorrindo surpresa.
Fico nervosa porque é a primeira vez que o vejo fora da escola, sem a farda que ele tem que usar. Ele está de short e com uma camiseta branca simples, ele parece mais jovem. Olho bem para ele tentando guardar essa imagem dele.
“Você é o porteiro?”, Cristina pergunta.
“Sim.”, ele responde.
“E aí, cara? Cadê o dinheiro?”, um cara grita de dentro do bar.
“Já vai!”, Miguel responde. “Vocês querem alguma coisa? Querem beber alguma coisa?”
“Não. Tudo bem.”, digo.
“Você está namorando com a Isabela?”, Cristina pergunta, e ele olha para mim
“Vamos embora.”, digo, olhando para Cristina.
“Foi só uma pergunta.”, ela diz.
Eu começo a caminhar mas ele segura meu braço.
“Você ainda está chateada?”
“Não.”
Acho que nunca estive tão próxima dele como agora, posso ver o rosto dele perfeitamente, observo que ele tem uma cicatriz no queixo que fica escondida pela barba muito mal feita.
“Tenho que ir.”, digo.
Ele demora um pouco para responder.
“Tudo bem.”, ele diz.
Ele continua me olhando e eu me viro para Cristina, que me olha pensativa.
“Na verdade” ela diz. “Eu vou para casa daqui, Tris. E agora você volta sozinha.”
Eu olho para ela confusa e Miguel continua sério.
“Sozinha. Desamparada.”, ela fala para Miguel, com a mão no ombro dele. Ela me dá um tchauzinho e começa a caminhar.
“Porra! Cadê o dinheiro?”, o homem volta a gritar de dentro do bar.
“Vai a merda!”, Miguel responde.
O homem anda até a entrada do bar.
“Vai se foder, Quatro!”
Fale com o autor