Caretrisse
7 Dois minutos
Notas iniciais
7
Ainda estou em pé na calçada do bar esperando enquanto Miguel foi resolver o assunto do dinheiro, não deve fazer cinco minutos que ele entrou. Me sinto ansiosa demais, conheço Miguel a bastante tempo e sempre soube que ele era diferente, não sei como explicar isso, acho que sempre estivemos ligados de algum jeito. Eu o vejo saindo e percebo que estou nervosa, lembro do apelido que ganhei do Senhor Augusto, mas sei que estou mais feliz do que nervosa.
Então ouço alguém gritar meu nome, me viro e observo Lucas correndo em minha direção.
“Ei!”, ele diz.
“Oi.”, digo.
“Eu te vi e não acreditei. O que você está fazendo por aqui?”
“Oi.”, Miguel diz e eu me viro para olha-lo.
“Mas é o porteiro da escola?”, Lucas fala e começa a rir.
“È.”, respondo.
Miguel continua sério e não diz nada.
“Você vai para casa? Já é tarde, sabia? Posso te deixar em casa.”, Lucas fala e me puxa para perto dele.
“Não precisa.”, digo.
“Você já olhou a hora? Olha, acho que precisa sim.”, Lucas diz.
“Qual o problema com você?”, Miguel fala.
“Lucas, não precisa mesmo.”, falo e me aproximo de Miguel.
“Tris, você não está saindo com esse cara, está?” Lucas fala com a expressão séria. “Você sabe a idade dele? Pelo amor de Deus!”
“O que você quer dizer com isso?”, Miguel fala.
Eu puxo Miguel pelo braço e me coloco a frente dele.
“Ele não sabe o que está dizendo.”, digo.
“Eu sei muito bem o que estou dizendo!”, Lucas fala atrás de mim.
De repente Miguel vai para cima de Lucas e dá um soco na cara dele, o que o faz se desequilibrar e andar dois passos para trás.
“Não tenho medo de você! Por que não bate mais?”, Lucas diz, com um sorriso cínico no rosto.
“Porque eu não quero!” Miguel fala e dá as costas.
Eu posso ver nos olhos dele toda a raiva que ele está sentindo. Queria dizer alguma coisa, que eu o entendo e que ele não tem com o que se preocupar, mas prefiro caminhar até Lucas e tentar acabar com isso.
“Lucas, por favor.”, eu digo colocando as mãos nos ombros dele.
“Você está vendo aqui?”, Lucas diz apontando para o rosto. “Ele me deu um soco! È esse tipo de gente que você gosta?”
“O que te interessa de quem ela gosta?”, Miguel fala e anda para perto de onde estamos.
Ele está atrás de mim, eu me viro e fico de frente para ele, estamos tão próximos um do outro que eu penso que poderíamos nos beijar exatamente agora. Porém ouço uma voz, que não é a de Lucas, gritar o meu nome.
“Tris!”, é a voz do meu pai.
Observo meu pai andando até onde estamos, e minha mãe vindo logo atrás.
“Senhor Andrew!”, Lucas diz, e estica a mão para um cumprimento.
“Oi Lucas, tudo bem?”, meu pai fala sem dá muita importância a ele.
“Beatrice, estávamos procurando por você.”, minha mãe diz.
Eu entendo que os meus pais sejam protetores mas eles ainda me tratam como se eu tivesse cinco anos e não soubesse me virar sozinha. Será como as pessoas me veem de verdade?
“Eu disse que poderia leva-la em casa, Senhor Andrew, mas ela não me ouviu.”, Lucas fala.
“Está tudo bem, mãe.”, digo.
“O que foi isso no seu rosto, Lucas?”, meu pai pergunta.
Eu olho para Miguel e ele está com a expressão séria, olho para Lucas e vejo ele fazer uma cara triste.
“Esse cara”, ele fala e aponta para Miguel. “Me deu um soco, e eu nem conheço ele. Ele chegou aqui e me deu um soco, com certeza é um bêbado vagabundo!”
“O que?”, eu falo.
Como ele pode ser tão cínico? Mas que covarde! Olho para Miguel que continua com a mesma expressão séria. Meu pai me puxa para perto dele, e eu tento falar mas não consigo. Minha mãe olha para mim como se quisesse entender o que está acontecendo.
“Você é um covarde, sabia? È isso que você é!”, eu falo olhando para Lucas.
“Você não sabe o que está fazendo, Tris!”, Lucas fala.
“Eu vou quebrar o seu nariz, eu juro que vou!”, eu digo me aproximando dele.
Então sinto Miguel me puxar de leve pelo braço, mas eu continuo encarando Lucas.
“O que está acontecendo aqui?”, meu pai pergunta.
“O que está acontecendo, Senhor Andrew, é que eu acho melhor vocês levarem a Tris para casa e darem alguns conselhos para ela, porque ela não está batendo bem da cabeça.”, Lucas responde.
Eu vou realmente quebrar o nariz dele, penso. Então Miguel segura minha mão entrelaçando seus dedos nos meus e eu continuo parada no mesmo lugar.
Não quero olhar para ele porque sei que posso chorar, não queria que ele tivesse que passar por isso.
“Vamos para casa, Tris.”, meu pai diz.
Eu olho para a minha mãe.
“Vamos, Tris, é melhor.”, ela diz.
“Dois minutos, está bem?”, digo.
“Não.”, meu pai fala.
“Está bem sim, vamos esperar logo ali.”, minha mãe fala e sai caminhando, o meu pai demora um pouco, depois segue a minha mãe.
Eu me viro para Miguel e ele está de cabeça baixa, Lucas começa a caminhar e quando passa por mim fala: “Você está maluca, Tris.” E continua andando.
Miguel me puxa para perto dele e me abraça, eu fecho os meus olhos e ele me abraça mais forte.
“Ele está certo. Me desculpa.”, ele sussurra.
“Qual o problema?”, pergunto ainda com os olhos fechados.
“Eu não gosto de você.”
Eu afasto um pouco o corpo do dele e o encaro. Ele está mentindo, tenho certeza que está. Eu posso ver isso nos seus olhos, ele está mentindo. Eu sei que ele está mentindo. Meu Deus, ele está mentindo, não está?
“Você está mentindo.”, digo e sorrio.
“Desculpa.”, ele diz e olha para o lado, colocando as mãos no bolso.
Continuo olhando para ele. Eu fiz alguma coisa errada? Sinto as lágrimas vindo e tento segura-las.
“Vamos, Tris.”, é a voz da minha mãe.
Demoro um pouco a responder. O que eu fiz de errado?
“Vamos.”, eu falo.
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