Caretrisse

8 Estrelinhas


8

Quando abro a porta do meu quarto e me deito na cama puxando o cobertor até meu nariz, começo a piscar varias vezes seguidas para o teto, estou procurando as estrelinhas, eu pisco de novo, de novo, e de novo mas elas não aparecem.

Antes tinham estrelinhas no teto do meu quarto, eu lembro quando o meu pai colocou as estrelinhas lá, e também lembro quando ele as tirou. È só fingir que não aconteceu, ou simplesmente não pensar muito, eu penso.

Quatro? Jura? Que apelido idiota. Eu também sou uma idiota, ele não gosta de mim, qual o problema? Eu não vou chorar, não é o fim do mundo.

Não tenho numero preferido, e nunca achei um numero tão legal a ponto de ser meu numero preferido ou sei lá, numero da sorte. Mas se eu considerasse um numero importante ou especial, não seria o numero quatro, tenho certeza disso.

O meu despertador toca e eu levanto da cama, me olho no espelho e descubro que não troquei a roupa quando cheguei em casa ontem a noite. Eu olho para minha camiseta, então a puxo um pouco e tento descobrir o cheiro que ela tem. Quando percebo o que estou fazendo, começo a tira-la bem rápido, de repente estou sem roupa e de baixo do chuveiro.

“Você está atrasada.”, minha mãe fala.

Saio do banheiro e a encontro sentada na minha cama.

“Tudo bem?”, ela diz.

“Sim.”

Eu abro a porta do meu guarda-roupa e procuro pela minha farda da escola.

“Quem era aquele?”, ela pergunta.

Respiro fundo e olho para o teto, cadê vocês, estrelinhas?

“Não era ninguém, mãe.”

“Impossível. Era alguém sim, eu conseguia vê-lo. Ou será que estou ficando louca?”

As vezes esquecemos a mãe que temos, mas é por pouco tempo.

“Não, você não está ficando louca, mãe. Era alguém sim, alguém que eu não quero falar sobre, está bem?”, eu falo enquanto pego minha farda e começo a vesti-la.

“Por que o Lucas não gosta dele?”

“Ele só... não gosta dele.”

Termino de me vestir e fico de frente para o espelho, minha mãe está sentada na cama atrás de mim então eu posso vê-la me encarando pelo espelho. Ela levanta e coloca as mãos nos meus ombros.

“Eu não sei pelo que você está passando, mas quando quiser falar sobre isso, estarei aqui.”, ela fala.

“Tudo bem, mãe.”, digo.

Ela me encara no espelho mais uma vez e sorri antes de começar a caminhar em direção a porta.

“Mãe.”, falo quando ela já esta quase saindo do meu quarto.

“Oi.”, ela fala e vira para me olhar.

“Estou sentindo falta das estrelinhas.”, digo e ela ri.

“Talvez esteja sentindo falta de você mesma, estrelinha.”, ela fala e sai.

E quando foi que eu esqueci de mim, mãe? Quando foi que eu esqueci a garotinha que gosta de estrelinhas? E porque estou pensando nisso agora?

Eu passo pelo portão da escola e chego na porta da minha sala, a professora já está dando aula. Eu corri igual uma louca para isso, estou quase sem conseguir respirar para isso. A professora Julia olha na direção da porta e vê o meu rosto pelo vidro, eu sorrio.

Ela abre a porta e aponta para minha cadeira, todos os alunos da sala olham para mim.

“Qual é, gente? Não é novidade que ela tem uma preferida.”, é a voz de Jeanine.

Eu procuro por ela e a encontro sentada exatamente atrás da minha carteira, ela não é da minha turma, o que ela está fazendo aqui? Não é possível. Quando estou chegando perto para me sentar, a garota ruiva passa um chiclete para Jeanine e ela sorri para mim, eu sento na carteira e me concentro no que a professora Julia começou a escrever no quadro.

“Você pensou que eu tinha esquecido de você? Vamos pensar um pouco, você pode roubar meu namorado, claro que pode. Mas você não vai roubar meu lugar nessa escola, ouviu bem? Você ganha batalhas bobinhas, eu ganho a guerra.”, ela fala próximo ao meu ouvido.

“Belo discurso. Você pensou nele agora, ou deixa eu pensar, teve que planeja-lo a noite toda? Lhe desejo uma boa guerra, sabe? Porém lamento informar que você vai ter que lutar sozinha, eu não estou interessada.”

“Claro que não está. No que você está interessada mesmo? Já sei, você está interessada no porteiro da escola que, por sinal, é bem mais velho que você. E deixa eu pensar mais um pouco... Te rejeitou?”, ela fala e ri.

Eu engulo em seco, respiro fundo três vezes e tento me concentrar no que a professora Julia está falando.

“E eu me achava boa em superar rejeições, mas será que você teria tempo para me dar umas aulinhas? Você é ótima!”

Eu me viro e dou uma tapa forte na cara dela, ela prepara a mão para bater em mim mas quando está chegando perto, eu seguro o braço dela bem firme e com a outra mão bato na cara dela repetidas vezes até ela começar a gritar. Todos estão olhando para nós duas, claro, e a professora Julia está vindo em nossa direção.

“Beatrice, por favor!”, professora Julia fala, quase gritando.

Então eu paro e solto o braço de Jeanine, que coloca as mãos no rosto e encosta na carteira.

“As duas para diretoria, agora!”

Eu levanto e começo a caminhar, a professora Julia vem logo atrás de mim segurando a mão de Jeanine.

Estamos na diretoria, eu e Jeanine estamos sentadas uma do lado da outra em um sofá que fica bem perto da porta, a sala da diretora é minúscula.

A técnica em enfermagem da escola chega para levar Jeanine até a enfermaria, a professora Julia está conversando com a diretora Marlene então Jeanine sorri para mim antes de sair.

“Diretora Marlene, seu marido quer falar com a senhora.”, Miguel fala.

Eu viro o rosto e o vejo na entrada da sala, segurando no trinco da porta. Eu o encaro e ele me encara com a expressão séria, será que ele não vai mudar nunca? Eu respiro fundo e continuo com os olhos fixos nele.

“Obrigada, Miguel.”, a diretora responde.

“Por nada. Esse é o meu trabalho.”, ele diz e sai.

A diretora liga para minha mãe e depois me deixa sozinha com a professora Julia, que senta do meu lado no sofá, no lugar que Jeanine estava sentada.

“Qual o problema, Tris?”, ela pergunta.

Eu olho para ela mas não falo nada.

“Sua mãe vai ficar muito decepcionada.”

“Eu sei. Me desculpa.”, digo.

“Você é melhor do que isso.”, ela fala.

Então eu olho para o teto e pisco várias vezes.