Caretrisse
5 Nervosa
Notas iniciais
5
Percebo que acabei dormindo no caminho porque quando estamos chegando perto da escola Cristina começa a me acordar, gritando e cantando perto de mim como uma louca. E eu grito de volta xingando ela: “Você é uma maluca!”, e ela continua cantando, Lucas começa a rir de nós duas enquanto levanta e coloca a mochila nas costas. Está todo mundo conversando ou falando alto, levanto e pego minha bolsa, Cristina coloca a dela no meu ombro e sai andando em direção a porta do ônibus, que para em frente a escola e os alunos começam a sair.
Eu desço e tento encontrar Cris, tem alunos entrando e vários ainda na calçada, começo a caminhar então olho para o portão e vejo o Porteiro-Idoso, ele está conversando com uma pessoa. Eu paro e fico observando.
Isabela está quase encostando nele, ela começa a chorar e ele passa a mão no rosto dela. Não posso acreditar, é o que eu repito várias vezes na minha cabeça. Ela fala alguma coisa no ouvido dele e eles se abraçam. Sinto tanta raiva que acho que vou explodir.
Vejo Cristina e lhe entrego a bolsa, ela me olha com uma expressão séria.
“Tudo bem?”, ela pergunta.
“Sim, mas não vou assistir aula.”, digo
“Por quê? Aconteceu alguma coisa? Você está esquisita, ou nervosa, sei lá.”
“Eu estou normal.”, falo e saio andando depressa.
Ouço Cristina gritar: “Aonde você vai?”, mas não respondo.
Viro a esquina e de repente estou em uma pequena lanchonete que fica perto da escola e eu nem sabia que existia. Um senhor de uns 60 anos está no balcão, me aproximo e ele pergunta se quero alguma coisa, peço uma água. Ele me entrega e eu sento em uma das mesas, o senhor, que tem o nome Augusto bordado no avental, olha para mim.
“Está tudo bem com você?”, ele diz.
“Sim.”
“Ah. Mas parece nervosa.”, ele ri.
“Está rindo de mim?”, pergunto.
“Sim.”, ele responde. “Quer me contar o que aconteceu?”
“Não.”, digo.
“O quê? Foi um garoto?.”, ele pergunta.
“O seu nome é Augusto?”
“Sim.”
“Então vou te apelidar de Augusto-OCurioso.”, falo e ele começa a rir.
“Vou para a cozinha, se não se importa. Fique a vontade para pensar, Garotinha-Nervosa.”
“Obrigada. Mas não estou nervosa.”
Gostaria muito de me olhar no espelho agora, me sinto uma criancinha correndo com medo porque não quer encarar alguém ou alguma coisa. Como eu posso ser tão burra? Era claro que Isabela ia fazer a vitima, por isso ela não discutiu comigo depois, por isso me ignorou como se eu não tivesse feito nada de ruim para ela. E eu não fiz, eu ajudei ela. Não deveria me importar com isso, nem sei porque estou com raiva, de verdade.
“Augusto-OCurioso!”, grito e ele aparece.
“Oi, Garotinha-Nervosa.”
Lhe entrego o dinheiro da água e saio, quando estou na calçada vejo Lucas, ele me vê e começa a sorrir, caminho até ele.
“Indo para algum lugar?”, pergunto.
“Na verdade, estava a sua procura.”
“È mesmo?”, digo.
“Eu juro.”
“Por quê?”
“Porque não te achava na escola.”
“E a sua namorada? Você se perdeu dela?”, pergunto.
“Não tenho namorada. Terminei com ela para ficar você.”
Penso em como Cristina ia adorar saber disso, e em Jeanine me provocando na biblioteca.
“Tenho que ir para escola.”, digo.
“Vamos.”, ele diz, pegando na minha mão e me puxando.
Quando entramos na escola, sentamos em um banco e esperamos o sinal tocar para próxima aula, se formos agora, provavelmente o professor não vai nos deixar entrar. Lucas me conta que é neto do Sr. Alexandre e que o pai dele também trabalha na farmácia, que conhece o meu pai e os dois até conversam de vez em quando.
Estou fazendo alguma coisa certa, acho que meu pai ficaria feliz se soubesse que conheço Lucas. Estou olhando para Lucas enquanto escuto o que ele fala, coisas sobre a primeira vez que ele foi na farmácia e o que ele sabe sobre o trabalho lá, então ele para de falar e fica olhando para trás de mim. Eu me viro e vejo Miguel.
“Posso falar com você?”, ele diz.
Lembro dele passando a mão no rosto de Isabela e eles se abraçando, não sei porque estou pensando nisso e não sei porque sinto tanta raiva.
“Não.”, digo.
Ele olha sério para mim, e eu viro o rosto para ver Lucas, que me olha esquisito.
“Não achei legal você ter batido na Isabela. Nem sei o motivo, mas só queria te falar, que isso não combina com você.”, Miguel diz.
“Não me importo com o que você acha.”, falo, ainda sem olhar para ele.
“Por que você está fazendo isso?”
“Isso o que?”, pergunto, e me viro para olhar pra ele.
“Você bateu em uma garota. Você já olhou para o rosto dela?”
“Ah, meu Deus, claro! Você está com pena dela.”
“Não..”, ele começa mas não o deixo continuar.
“Ela também bateu em mim se você quer saber!”, eu digo depois de levantar.
“Eu não vou brigar com você!”
“Por que você não vai consolar a garotinha indefesa?”
“Já consolei.”
“Òtimo!”
Lucas levanta e tenta fazer com que eu sente no banco de novo segurando meu braço, acho que ele está tentando me acalmar, não sei direito. Miguel olha para mim e depois para Lucas, e começa a caminhar. Depois de alguns minutos o sinal toca, Lucas vai em direção a sala mas eu digo que preciso ir no banheiro.
Entro e encontro Cristina que me enche de perguntas sobre onde eu estava e o que eu estava fazendo, conto para ela sobre Lucas e ela começa a fazer uma dancinha esquisita.
“Meu Deus, ele é o SEU cara!”, ela diz.
“Você acha?”, pergunto.
“Claro, vocês praticamente foram feitos um para o outro.”, ela responde, e eu rio.
“Eu gosto dele.”, digo. E penso nele falando comigo no ônibus e perto da lanchonete, eu realmente gosto dele.
Nós saímos do banheiro e eu vejo Miguel saindo da secretaria, vou até ele e digo: “Desculpa por tudo que eu disse, só estava muito...”, faço uma pausa. “ muito nervosa.”
“Tudo bem.”, ele diz.
Ficamos nos olhando por um tempo, então Isabela chega o abraçando, ela passa a mão nas costas dele e depois fica segurando seu braço com a cabeça encostada no ombro dele.
Não posso ficar nervosa, penso.
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