Cara certo, hora errada.
8 Dia de ações de graças.
Oito.
DIA DE AÇÕES DE GRAÇAS.
Vinte e três de novembro. Ações de graças. Samantha tagarelava sobre diversos assuntos e principalmente sobre ir para casa no dia de ação de graças e eu dizia o mesmo, porém meus planos eram outros. Bem outros. Nicholas era o único não animado, pelo visto sua família não tinha muito para agradecer esse ano, mas eu tinha e ele também. Era um cara cheio de saúde e com uma garota perfeita nas mãos. Ele deveria parar de se lamentar um pouco, mas tem sido meio impossível desde então.
Eu os ouço discutir, ele não quer nem ao menos visitar a família de Sammy e eu sei que ela está magoada por isso. Pelos sacrifícios que ela fez por ele alguns meses atrás. Bons meses atrás. Cinco ao todo. E é esse tempo em que tenho Ellie comigo e a cada dia eu posso ter certeza das escolhas que fiz. Passamos horas a fio conversando pela internet e ela me mostra suas fotos e trabalhos da faculdade. Reclama dos professores. Dos colegas de classe. Fala sobre seus cursos e o trabalho que tem sido tão pouco ultimamente. Mas principalmente nosso principal assunto é a saudade constante. Dependendo da época do mês ela chora. Mas previsivelmente na TPM. E é completamente impressionante a forma como eu nunca me decepcionei com ela. Mas ela sim, comigo muitas vezes. Como quando lhe disse no mês retrasado que não iria à festa de aniversário de Elise Sparks, mas fui. E liguei completamente bêbado e chorando confessei. Ellie ficou sem falar comigo por cinco dias. Mas ela confiou que eu não tivesse feito nada de errado.
Estar longe dela é difícil. Mas, muito mais foi no mês passado. Seu aniversário. Ela ganhou uma festa surpresa dos amigos e eu não pude estar com ela. Nós conversamos menos de uma hora e somente para agradecer o presente que eu havia lhe enviado. Um de muitos. O Box de livros que ela tanto queria, “O cara certo na hora errada”, seis livros ao todo. Mas prometi que o melhor presente viria no mês seguinte, ela não entendeu muito. E eu sei a cara de surpresa que ela fará quando finalmente entender.
— Você planeja ir a Los Angeles? — Assenti, Samantha caiu na cama e riu — Você vai pegar todo seu dinheiro e ir a Angeles? Espera mais um mês. Férias. Poderá ficar lá por mais tempo. Vamos todos nós.
— Não dá. Eu posso voltar mês que vem... Mas preciso ir agora, Sammy. Preciso vê-la. Você me pede isso porque está todos os dias com Nikki.
— Eu entendo. Mas... Ela ao menos poderia ter falado com a mãe dela. Olha a despesa. Passagem de avião, hotel... Vai ficar muito pesado! — Ficamos quietos, respirei fundo. Ela tinha razão, mas não me importava.
— Eu já fechei o pacote e paguei. Passagem sem reembolso. Embarco amanhã de manhã. Mamãe adiantará o dia de ação de graças para nós. Eu preciso ir para lá, vocês não querem vir?
— Querer eu quero. Vou convencer o idiota do seu amigo. — Eu ri.
xXx
— Ethan! — O abraço mais quente e aconchegante do mundo me acolheu. Mamãe sorriu e avaliou-me, atitude normal de mãe. Ao menos se agradou do que viu, não fez nenhum comentário. Puxou-me para dentro. Na enorme sala alguns dos meus irmãos estavam sentados vendo futebol na tela plana. — Olhe quem chegou.
— Ethan! — Brian levantou-se e abraçou-me — Estava com saudades viadinho!
— Olha a boca! — Mamãe lhe deu uma tapa e ele riu, ela saiu rindo.
— Jason, Eric, Seth! — Gritei e eles tiraram os olhos da tv e levantaram-se para me fitar. — Você está maior, pirralho.
— Eu já posso te derrubar, Ethan. — Então Jason socou meu estômago e finalmente conseguiu me derrubar pela primeira vez sem que eu facilitasse.
— Vocês podem parar com isso! — Camile grunhiu. Ela segurava o pequeno Henry em seus braços enquanto Alice correu para a sala e se jogou em meu colo.
— Tio Ethan! — Gritou animada.
— Olá, anjo. Ei Henry! — Gritei e ele gargalhou. Uma criança feliz. Lembre-me de Ellie instantaneamente. Pelo sorriso e também por sempre dizer que quer conhecer minha família. E de como mamãe ficou feliz quando disse a ela que estava namorando uma menina (virgem), mas Camile não acreditou muito. Mariah não deu atenção e Lennie ficou completamente enciumada.
— Como está Ellie, hein? Mamãe colocou o porta-retratos de vocês junto com os da família. Quando vai trazê-la aqui? — Camile perguntou com sua atual voz de mamãe-urso protegendo seu filhote e eu abracei Alice.
— Ellie é da família Cammy. Em breve. Assim que me formar. A mãe dela é doente, já expliquei...
— Por que ela é doente, tio? — Perguntou Alice.
— Ela já vai ficar boa querida, está tomando aquele remédio que você adora de morango! — Camile respondeu e Alice comemorou.
— Podemos ver Ellie na câmera? — Questionou Alice.
— Claro amor! Jason vá pegar seu laptop. — E obedientemente ele se levantou do chão e foi.
Enquanto eu ligava e conectava tudo Alice me perguntava sobre Ellie. Onde ela morava, quantos anos tinha, o que fazia da vida. As perguntas rotineiras de toda vez que me via. E dessa vez acrescentou que Ellie era muito bonita e que o papai a achou uma “belezinha”. Todos nós rimos e Cammy corou.
Já havia avisado para Ellie sobre a conferência e ela estava lá na hora combinada. Sorriu grandiosamente quando aceitou a chamada e diferente dos dias normais em que nos vemos ela estava arrumada. Pela primeira vez com cabelos lisos e novamente maquiados. Impecável.
— Isso tudo é para mim? Não é? — E lá estava minha risada — Estou simplesmente morrendo de ciúmes da minha família agora. Não quero exibir você.
— Ethan! — Censurou-me e arrancou suspiros de Alice encantada. Três anos, mas mais parecia ter sete.
— Vovó, Ellie está aqui! — Gritou ela. Coloquei o laptop na mesa de centro virado para o sofá, meus irmãos voltaram-se a se sentar e fitaram Ellie. Lembro-me da primeira vez que a exibi para eles. Fora surpresa e ela estavam toda descabelada, mas eu queria que fosse natural.
— Ah! Querida! — Minha mãe correu da cozinha e acenou para ela.
— Olá senhora Collins! Como vai? Feliz dia de ações de graças!
— Ótima, agradeço a Deus por você Ellie. Feliz dia de ações de graças, mande um beijo para sua mãe. Melhoras a ela. — Me sinto mal por mentir para minha mãe... Mas Ellie morre de medo da sua e pretendo resolver isso assim que desembarcar amanhã.
— Obrigada, ela com certeza vai mandar outro... E eu que agradeço por vocês. Por Ethan. Melhor presente que eu poderia ganhar... — Ruborizou e eu ri.
— Que linda meu amor! — Cammy riu atrás de mim e Henry acompanhou — Diga oi para titia, Henry, diga!
— Olá lindinho... — Brincou ela. Henry gargalhou mais. — Ele é tão lindo Camile!
— Obrigada Ellie. E você está linda. Se eu fosse Ethan teria muito cuidado, Los Angeles é cheia de homens lindos, ricos, famosos... — Intrigueira. Mas eu ri. Camile só estava com ciúmes e Ellie sabia disso.
— Mas é o que eu digo todos os dias... Eu te amo! Mas um homem rico nos tiraria do sufoco de tanto estudar, não? — Gargalhamos!
— Quando eu ficar rico pode deixar que chuto sua bunda, amorzinho.
— Chuta a bunda! — Alice imitou e nós rimos mais.
— Aí está a queridinha da família. Ganhou até foto no mural Ellie. Está com a corda toda! Para quando é o casamento? — Ellie riu tímida, Lennie sabia intimidar alguém.
— Seis anos, talvez!
— Você não vai suportar esse ser insuportável por tanto tempo. Boa sorte com o próximo! — Brincou e Ellie gargalhou.
— Já chega, digam tchau suas cobrinhas... — Todas acenaram e Ellie mandou beijos. Corri para os fundos e entrei no quarto do Jason trancando a porta — Achei que nunca iria ficar a sós com a namorada mais sexy do mundo inteiro. Para onde você pensa que está indo assim?
— Sair com a Emma — Ela riu e eu fiz cara de mal. — Você é tão fofo com ciúmes. Tão fofo que fica cafona. Lindo!
— E você é muito descolada pro meu gosto! Quero ver a roupa, fica de pé. — Ela riu e ficou. Estava com um vestido razoável. Acima do joelho, mas não curto. Era bege com rendinhas por todos os lados. E usava salto. Linda.
— Estou bonita? — Perguntou e eu assenti.
— Você é linda, meu amor. Linda.
— Estou com muita, muita, muita saudade! Venha logo, está bem?
— Logo estarei aí. Bom passeio e mande um beijo para Emma — Nós rimos.
— Idiota! Tchau.
Revirei na cama do meu irmão imaginando-a. Quem a olharia, quem a teria... Quem teria o prazer de lhe tocar. E quis dormir o mais rápido possível para o tempo correr depressa e eu poder estar em seus braços outra vez após meses.
xXx
Ellie não atendia seu celular. Passava das nove e eu tinha acabado de desembarcar. Seria surpresa se eu aparecesse em sua casa? Não. Teria ao menos dar um tempo dela avisar a mãe. Isso teria que acabar de uma vez. No décimo sexto telefonema ela atendeu com a voz grogue.
— Poxa amor. Nove horas. Dormindo... — Murmurou bem baixinho e eu ri — É feriado Ethan, o que houve?
— Amor. Aeroporto. Agora. — Eu ri quando ela gritou “o quê?” do outro lado da linha.
— Eu vou matar você... Matar Ethan. Espere, chegarei o mais rápido possível.
— Eu posso encontrar você aí. Falar com a sua mãe.
— Minha mãe viajou Ethan! Estou na Emma! Você não avisa. Que diabos de surpresa são essa? — Estava visivelmente alterada.
— Na Emma? Você não me falou nada... O que está acontecendo Ellie?
— Ela foi hoje de manhã... Eu ia falar. Não precisava ter pressa para um assunto bobo desses. — Respirou fundo e eu ouvi alguns murmuro do outro lado da linha — Vou desligar antes que acorde Emma. Estarei aí em quinze minutos.
15. 20. 45 minutos e eu a vi correndo pelas pessoas. Cabelo bagunçado. Com o mesmo vestido de ontem à noite e saltos altos. Maquiagem borrada... Algo estava muito errado. Eu não me levantei, estava puto. Mais que puto e ela deveria saber disso. Ellie era vaidosa demais para usar a mesma roupa do dia anterior para me ver. Ela estava praticamente em sua rua. A não ser que tenha mentido.
— Ethan! — Gritou sem ar quando se aproximou. Meu orgulho era grande, mas o amor que eu estava guardando bem maior. E mesmo toda bagunçada ainda era minha, me pus de pé e quando ela chegou a recebi com um abraço apertado. Ela retribuiu com a mesma intensidade — Eu não acredito que você está aqui! Ethan! Você deveria ter me avisado!
— Surpresa. — Murmurei tentando soar o mais natural possível.
— O que houve? — Mas ela percebeu — O que aconteceu?
— Você não estava na Emma. Onde você estava? — Eu nunca tinha a visto assim. Pálida. Sem palavras. Sem graça. Sem jeito.
— Eu estava na Emma sim.
— Você nunca mentiu para mim. O que está havendo, Ellie?
— Eu estava na Emma! Quer que eu prove? Minha palavra não basta mais? — Silencio... — Tudo bem, eu provo. — Ela pegou o celular em sua bolsa e discou o número de Emma, chamou três vezes até que ela atendesse.
— Oi, Ellen... O que diabos aconteceu? Cadê você?
— Me desculpa sair assim sem avisar. Minha mãe precisou de mim antes de ir.
— Você me deixou assustada. Não faça mais isso. Você vai voltar que horas?
— Não se preocupe Emma, preciso pegar umas roupas em casa e estou com uma amiga. Eu te ligo mais tarde. Durma e desculpa acordá-la. — Desligou. Fiquei em silêncio — Desconfiar de mim?
Eu não sabia o que ela tinha feito, mas que era mentira, era. Tudo. Eu ri falsamente, estava na cara de Ellie que estava mentindo. Como ela podia? Depois do sacrifício que eu havia feito só para vê-la. Como ela podia olhar nos meus olhos e mentir assim?
— Então não é dessa vez que eu vou me resolver com a sua mãe? — Ela negou com a cabeça.
— Eu sinto muito. Mas ela já sabe que tenho alguém. Está mais ou menos encaminhado. Eu senti tanta saudade! — E me abraçou de novo. Seu cabelo estava cheirando a cigarros e bebida. Como o cabelo de Sammy depois de uma noite no pub.
— Onde você esteve ontem à noite, Ellie? — E ela me olhou outra vez amedrontada. Pálida. Respirou fundo, mas não encontrou palavras. Ela estava mentindo... Por quê?
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