Nikki me olhou com aqueles famosos olhos de ônix e sorriu. Sorriu sem aparente humor, é claro que ele não estava humorado. Eu desviei meus olhos dos seus e deixei cair sobre Emma, ela estava há alguns metros de mim sentada na borda da piscina com seus pés dentro da água. Samantha estava com ela. Mas as duas não pareciam conversar, assim como eu e Nikki. E isso me incomodava ao extremo, a falta de assunto era tão notória que até seus pais perceberam isso.

— Então você pretende ir aonde hoje? — Ele perguntou depois de intermináveis minutos em silêncio. Eu dei de ombros e fingi pensar.

— Andar por aí... — Digo. Ele assente — Só andar Nikki.

— Pelo visto vocês dois só andam “por aí” não é? — Não digo nada e ele não insiste. É claro que percebo sua curiosidade em saber um pouco mais sobre a pessoa com quem tenho estado, mas também ele está tão envolvido em seu luto que não se importa se eu não estarei aqui para o almoço. Ou o jantar. Ele simplesmente não se importa com muita coisa desde então.

— Você não iria querer ir mesmo se eu te chamasse, está parecendo uma namorada ciumenta cara. — Rio, mas ele não parece achar graça. — É sério Nikki. Se você quer ir é só dizer... — Puro blefe.

Se Ellie simplesmente colaborasse... Ela me deixasse falar. Mas no fundo, bem no fundo eu a entendo. Se for chatear tanto sua mãe quanto Nikki é melhor nem dizer.

— Eu não quero ir. Só é estranho. Você está saindo com uma garota é não conta nem pra gente. O que é, ela é um traveco?

— Porra Nikki!

— É isso que nós estamos pensando. Emma até sugeriu uma aposta. Sério Ethan é só dizer. Ela tem nome?

— Ellie.

— Não parece nome de traveco — Eu estou tremendo. Simplesmente. Não sabia que dizer o nome poderia ferrar tudo ou não. Mas Nikki pareceu nem notar. — Só quero que saiba que se for um traveco... Tudo ok por mim.

— Você é um completo babaca. Estou vazando. — Posso ouvi-lo rir enquanto ando apressado para a saída. É bom vê-lo rir finalmente.

Manga. Sorvete de Manga tem um sabor adorável, Sammy faz o melhor. Parece tão gostoso como esse que estou provando agora. E Ellie está completamente suja de chocolate. Ainda bem que seu biquíni é preto... Se não. Em falar em biquíni... Socorro. Cadê o ar? Eu quase voltei a minha adolescência quando tive uma crise de falta de ar no colegial quando vi Vallie Susete de biquíni no torneio de natação. Nem preciso dizer o quão foi constrangedor porque fazia tempos que minha asma não dava sinal de vida. E eu não tinha bombinha ali pelo mesmo motivo. Acabei sendo socorrido e expulso da equipe de natação. E me odiei tanto que fiquei sem me olhar no espelho por quase três semanas. Hoje me odeio muito mais porque foi a última vez que tive um ataque. E a olhando agora... Preciso de uma bombinha. Essa mulher simplesmente suga todo meu ar.

— Você está me olhando com uma cara estranha! — Vejo sua boca se mover, mas não ouço o que diz. Meu rosto balança e Ellie me tira do meu transe recente — Está bem?

— É o calor — A única desculpa plausível que aparece.

— Tudo bem. Você estava falando sobre a Samantha. Que fez algo que não sabe se vou gostar o que aconteceu?

Fico em silêncio. O mais constrangedor até então.

— A convidei para jantar com a gente hoje.

— O QUÊ? — Ela grita. E cora ao mesmo tempo. Adorável. — Você simplesmente não fez isso. Fez?

— Eu fiz! Mas relaxa. Ela já sabe de tudo desde o inicio. Ela não falou nada para o Nikki. Você não precisa gritar assim.

— O que falta em você é juízo. E senso de comunicação. Deveria ter perguntado antes. — Mais silêncio — Eu diria não e nós não precisaríamos dessa cena agora.

— Tudo bem. Fica calma. Não precisa ser hoje... Amanhã. Pode ser? Assim você se prepara. Como quiser.

— Ethan...

— Ela quer conhecer você. — Digo firme — E você pode ser gentil e ir. Não pode?

— Eu realmente não sei.

xXx

— Você acha mesmo que ela vai vir, Ethan?

— Ela virá Ellie. Confie.

— E se ela trouxer o Nicholas? — Ela estava evidentemente preocupada com isso. Respirei fundo e segurei a sua mão — Eu não quero aborrecê-lo. Você não deveria ter convidado ela!

— É a minha melhor amiga e ela quer conhecer você. Eu vou embora há dois dias. Pode ser um pouquinho menos cabeça dura? — Ela riu. Aquele sorriso que eu amava, assentiu.

Apesar de Nikki suspeitar ter algo errado, eu deixei muito vago sobre a pessoa que eu estive saindo várias vezes durante essa semana. De dia, ou à noite. Mesmo em função de seu luto ele relaxou quando eu ao menos liberei o nome da felizarda, como ele mesmo dissera. E claro, brincou algumas vezes sobre ela ser ele, ou na verdade ela ser puro fruto da minha imaginação fértil. Agora falávamos abertamente sobre isso até com ele. E os dois debochavam de mim dizendo o quando era patética a forma que a cada dia eu estava mais envolvido na teia da menina de 18 anos... Ainda.

Ellie e eu fomos ao cinema por duas vezes. E na maioria do filme ela se manteve concentrada, me avisou que quando entrava em uma sala de cinema era tele transportada para outra dimensão e não mentiu. Mas eu consegui roubar um beijo ou outro. Após disso nós comemos hambúrguer e tomamos milk-shake. E fomos à praia e eu comprei latinhas de cerveja e refrigerante, salgadinhos e chocolate. Aquilo pareceu fazê-la feliz o suficiente. Nós rimos e falamos sobre politica e televisão a maioria do tempo, discutimos até e depois rimos mais pelo nosso comportamento bobo. E a cada instante eu ficava mais fascinado pela desenvoltura que ela lidava com as coisas. Em certos momentos como esse era difícil acreditar que um encontro bobo com a amiga do cara que você está saindo pudesse causar tanta aflição.

— Olha ela ali! E sozinha! Viu sua boba? — Ela riu nervosa.

Samantha passou pela porta do restaurante com pressa, procurou por nós e me viu quando eu acenei. Andou rebolando do jeito mais tortuoso e suspirou assim que levantei e lhe abracei. Ela retribuiu com rapidez.

— Ellie, esta é a Sammy. Minha versão feminina. — Ellie se levantou, uma sorriu para a outra timidamente, Samantha deu um beijo na bochecha de Ellen que fora retribuído com rapidez.

— Eu pensei que ela fosse sua versão feminina! — Brincou Samantha.

— Ela é tão superior. Vocês duas são. Eu sou apenas um homem cru na vida!

— Tão apaixonado. Vomitei arco-íris. — As duas riram e quando se sentaram, voltei a me sentar. — Já pediram? Morrendo de fome!

— Sim. Eu estava com medo de chegar e esfriar. — Ellie iniciou tímida, Samantha sorriu.

— Fofa! Ela é um encanto, Ethan. — É, ela é. — O Nicholas me deixou aqui e foi levar sua irmã no cinema. Aí na volta eu posso pegar uma carona com o novo casal lindo do ano!

— Para com isso, Samantha — Ela riu. Ellie estava desconfortável e eu agradeci aos céus quando a comida chegou. — Ellie que recomendou. Eu nunca tinha comido isso! — Era uma espécie estranha de ostra ensopada. Nem sabia que existia. Era a pior entrada que eu já tinha visto, mas até provar o gosto e tornou-se tudo que eu queria comer então.

— Que gosto refinado! Me diz, Ellie... Você deve comer isso aqui todos os dias, não? — Sammy perguntou e Ellie riu.

— Na verdade não! Minha mãe era dona de um restaurante em Tennessee. Fruto do mar era a sua especialidade. E eu lembro que adorava isso! — Tomou um pouco da sopa com nome esquisito e sorriu para Sammy e eu — E você Samantha, Ethan me disse que faz direito, mas quer migrar para a carreira policial. Por quê?

Samantha riu de boca cheia e usou o guardanapo para limpar. Concordou com a cabeça.

— Meu pai era policial. Minha é policial e meu irmão é policial. Coisa de família... Mas você, sua mãe tinha um restaurante e seu pai era administrador, algo assim. Por que cinema?

— Eu não sei — Simples e direta como sempre — Eu nunca soube o que queria ser na vida. Eu ainda não sei se é cinema, apesar de amar. Eu amo fotografias também.

— Ah! Ela trouxe nossas fotos na praia. Mostre a ela, Ellie! — Exclamei. Apesar de querer deixa-las conversar, eu queria me gabar pela garota que eu estava saindo e dizer “ela é mesmo uma menina de ouro” queria ser como Nikki que tinha a melhor namorada do mundo. Mas Ellie não era a minha garota.

— Ela está comendo, Ethan... — Murmurou tímida.

— Ah! Manda ver, não tem problemas. O Ethan fala tanto das suas fotos. Aliás, ele passa o dia inteiro falando de você. Eu acho que quando ele se for, vocês não vão esquecer um do outro tão cedo. — Silêncio. Não gostávamos de falar do adeus.

Ellie mexeu na bolsa e tirou um álbum de fotos. Passou para Samantha.

— As primeiras são distintas, alguns trabalhos, fotos na rua... Nada demais. As da praia estão no final. — Disse.

Samantha foleou lentamente e eu encarava suas reações, ela era tão transparente como eu, algumas ela deixava uma feição ruim e outras soltava longos sorrisos.

— Eu não sei dizer... Há uma melancolia profunda nessa — Virou-a para nós. Era um menino de rua sentado. Olhos fundos. Parecia estar com fome, ou sede. Ou os dois. Ao mesmo tempo frio. Carência. Medo. Abandono. Ellie encarou a foto por alguns instantes e tomou mais da sua sopa.

— Você precisa ver através disso. Através desse menino há pais que provavelmente estão na mesma condição. Talvez ele esteja abandonado, talvez seus pais estejam trabalhando por algo, catando lixo na rua... Pedindo dinheiro no sinal. Mas, atrás desses pais estão as autoridades do nosso país. Atrás de cada criança passando frio, fome, miséria nas ruas etc., estão às pessoas que elegemos para nos representar. Você precisa ver que isso também é nossa culpa. Que nós deixamos isso acontecer. — Silêncio. Samantha virou a página e não disse mais nada. Eu sorri para Ellie e segurei sua mão sobre a mesa, ela sorriu de volta.

As fotos tão esperadas da praia surgiram. Sam riu em algumas, principalmente em uma que eu estava com um peixe empalhado. Ele era enorme e pesado, estava à venda. Há muitas de mim em várias posições, sorrisos, momentos de descanso ou distração. E há várias de nós. Beijos. Eu tirei algumas dela sozinha distraída e não imaginava que ela tinha revelado.

— Você vai. Mais fica. — Apontou para as fotos. Eu não tive reação para responde-la.

— Vou precisar de umas suas então. — Assentiu.

O restante do jantar fluiu perfeitamente bem e engraçado. As duas fizeram piadas e Sam contou histórias sobre mim. Muitas delas quando eu ainda era um garoto escorrendo meleca correndo atrás dela pela barca enquanto íamos estudar. Camile gritando para eu ficar quieto, Samantha rindo porque minha irmã brigava comigo o tempo inteiro. De como eu as envergonhava. Eu era um menino terrível. Ellie pareceu gostar e querer mais, ouviu e deu boas risadas, nos fez rir também. Encontramos um amigo seu na saída do restaurante, foi um clima tenso. Bem tenso.

— Noam, este é o Ethan. — A voz dela soou tão tremula.

— Seu novo namorado, Ellen? — Fora hostil. Ele não usou seu apelido. Eu o encarei.

— E essa é a Samantha. Amiga dele. — Nos desejou boa noite sem desviar os olhos dela. — Nós precisamos ir, Noam. Foi bom te ver.

— Igualmente, Ellen. — E ele entrou no restaurante sem dizer tchau.

Caminhamos para o ponto de táxi, Ellie em silêncio e Samantha e eu sem graça. Ela não iria comentar sobre isso e eu não iria perguntar. Enquanto paramos a espera de um táxi eu a puxei para um abraço. Tínhamos intimidade suficiente para isso agora. Ela deixou sua cabeça descansar no meu peito e eu acariciei e beijei seus cabelos.

— Sabe o que eu acho quando vejo vocês dois juntos? — Samantha iniciou, olhamos prestando atenção — Que isso não vai acabar. É muito intenso. Vocês vão dar um jeito de continuar.

— Seattle é muito longe — Ellie disse simplesmente.

— Só se apaixona assim uma vez na vida. Eu consigo ver em vocês isso. Não pode ser diferente para você, está nos seus olhos — Referiu-se a Ellie que abaixou a cabeça, a apertei em meus braços. O silêncio continuou até que um táxi encostou, entramos, Ellie informou o endereço e ele partiu sem mais perguntas. O dia de partir estava próximo.