ADEUS LOS ANGELES.

Minha mala estava pesada. Não de objetos, mas de sentimentos. Eu estava levando recordações demais. Sentimentos demais. Coisas que nenhum aeroporto poderia me impedir de embarcar por excesso de bagagens. Tudo estava dentro do meu coração sufocando-me. Primeiro a imagem de Margareth, meu primeiro encontro com Ellie. Nosso segundo encontro, terceiro, quarto... E hoje perdi as contas de quantas vezes nos vimos principalmente nas últimas vinte e quatro horas. Eu não dormi, estive com ela toda a noite deitados no chão da sua sob um lençol fino que ela trouxe de casa. Ellie cantou. Ela canta! O que mais essa mulher não faz? Depois pude ver, mesmo no escuro, a forma delicada que ela fechava seus olhos e dormia tranquilamente. Eu iria sentir saudade disso. Como quando ela adormeceu em meus braços na volta da praia. Principalmente do jeito que ela me sorria.

— Não seria o caso de você contar para o Nikki? Assim ela pode levar você ao aeroporto e vocês se despedirem descentemente. — Murmurou Samantha incomodada. Fiz que não com a cabeça. Ela fechou o último zíper de sua mala e me encarou — Ele vai entender.

— Eu já me despedi. — Disse.

— E não quer se despedir de novo? — Fiz que não com a cabeça.

— Você vai se arrepender...

— Ei Sam, tudo bem. Eu estou bem. Vamos se não quiser perder o voo.

Observei enquanto Samantha abraçava e beijava a família de Nikki. Ele tinha uma aparência bem melhor, sua irmã chorou quando ele a beijou e Sammy a abraçou.

— Obrigado pela hospedagem, senhora Watson. — Ela sorriu e me abraçou. Apertei a mão do pai de Nikki e abracei Emma. Sussurrei em seu ouvido — Sabe aquela sua amiga? Ellen?

— Sim? — Ela sussurrou de volta.

— Diga a ela que eu disse que ela é muito bonita. — Emma riu baixo.

— Ela me disse que você é o mais bonito de todos, mas não saia se gabando por aí, seu palhaço. — Paralisei por alguns instantes. Ela nunca me disse que havia contado as coisas para Emma. Mas Emma não tinha cara de quem sabia. Eu sei que as duas saíram duas vezes essa semana, foram ao shopping fazer compras e ao boliche. Mas Ellie não mencionou ter dito nada sobre nós. Pode ter sido um comentário inocente. Não sei.

xXx

— Sua garota não veio irmão? — Nikki respondeu assim que terminou o seu check in.

— Ela tinha trabalho hoje — Samantha respondeu por mim — Foi coisa boba amor.

— Você pode dar uma chance para a Ellen.

— ELLEN? — Praticamente gritei.

— Elise! Desculpa, confundi! — Ele riu da própria confusão — Aquela loirinha que entrou esse ano e está fazendo Educação Física.

— Que horror! Aquela gente de E.D acha que faz Cinema! Eles se acham os maiorais. Aquela é perca de tempo e dinheiro! — Eu ri.

— Eu não imaginei que seria assim, Sam — Sussurrei só para ela, olhei para os lados na esperança de Ellie está em algum lugar. Mas não. Ela não estava em lugar algum.

— Com o tempo será melhor, Ethan. Fé.

Seattle, 16h34min

Uma semana depois.

Eu estava sentindo falta do calor de Angeles, mas logo me adaptei ao meu habitat. O frio não estava reconfortante, se é o que estão pensando, pelo contrário. Uma boa costela para me esquentar seria bom.

Um grosso casaco, luvas, calça jeans, bota, touca. Frio demais. Demais. E o pensamento lá nela. Nenhum sinal de Ellie, eu também não posso reclamar, eu não a procurei desde então. Suspirei.

Parei na fila da máquina de café, tinha cerca de cinco pessoas na minha frente. O campus estava vazio esta tarde, mas Elise da Educação Física estava ali. Eu achava que ela me perseguia, os cabelos curtos repicados eu reconhecia de longe. Mas seu rosto era comum. Muito comum. E seu sorriso era comum. Ela tinha espinhas, e seu nariz era gordinho, como Nikki gostava de dizer. Não havia nada em Elise que pudesse me atrair atenção e me prender nela. Nada. Ela não era Ellie, por mais que seus nomes se parecessem e começassem com a mesma letra, nem de longe poderiam ser a mesma pessoa.

— Ei, sua vez — A voz atrás de mim acordou-me. Andei para a máquina de café e enfiei uma nota de um dólar e algumas moedas. Cliquei no cappuccino. Adicionei o máximo de açúcar e esperei enquanto a engenhoca fazia seu trabalho. Um minuto depois o copinho de cappuccino estava pronto, o retirei e mexi com a pequena colherzinha que vinha.

Continuei a caminhar, agora havia ao menos um café para me aquecer. Fui para o bloco C de salas. Entrei na sala 412. Samantha e Nikki estavam na última fileira de cadeiras. Sentei-me na última da fila de Nikki, bem atrás dele.

— Café? Obrigado! — Tomou o copinho miúdo e virou, estirou a língua para fora e suprimiu um grito — Avisar que está quente seria bacana!

— Esperar eu oferecer também, olhudo. — Samantha riu da cena.

— Abigail na área. Fico me perguntando até quando ela vai aturar aquela berruga na ponta do nariz! — Sammy reclama há quatro anos da mesma coisa e nunca pensou se a mulher deveria gostar da sua berruga na ponta do nariz.

A aula iniciou-se e arrastou-se, enquanto tia Abby falava sobre normas regulamentadoras de alguma coisa sobre o código penal, eu vagava pela internet procurando o facebook de Emma, a irmã de Nicholas. Achei sem muita demora e frustrei-me ao procurar por “Ellen” ou “Ellie” e não achar nada.

— Ei, o que você está fazendo? — Sussurrou Sam quando viu que eu estava preso no celular.

— Vendo se ela tem facebook. — Ela riu.

— Deixe comigo! – E piscou – Amor, Emma me disse que a mãe de uma amiga tem um restaurante de frutos do mar. Você me leva um dia? — Samantha solicitou. Nicholas a encarou sem entender.

— Que amiga; amor?

— Ellen... Acho que é essa.

— Ah... Isso era em Tennessee. Você quer ir para Tennessee? — Ele não escondeu o espanto, Samantha riu.

— Por quê? O nome do restaurante era até com o sobrenome deles... Qual era mesmo?

— Não recordo. Mas o sobrenome é Sandler. O que deu em você?

— Quero comer ostras! — Rebateu desviando o assunto, eu ri. Nicholas não entendeu absolutamente nada. Mas o assunto cessou quando Abigail encarou os dois.

Pesquisei “Ellen Sandler” apareceram todas. Menos ela. Respirei fundo “Ellie Sandler”. O navegar resolveu ficar lento justo nessa parte. Eu odiei isso. Mas então a foto dela fora exibida a seguir. Loira, óculos de sol, alça do biquíni aparecendo e para minha surpresa uma das fotos que eu tirei dela no dia em que fomos à praia. Amostrei para Sammy que riu em expectativa. “Adiciona” ela sussurrou. Eu pensei bem. Não tinham como eu ver nada, as configurações bloqueavam meu acesso e então não pensei muito. Enviei a solicitação de amizade. Que mal tinha? Tivemos uma ótima semana juntos. Poderíamos ser amigos.

Resolvi guardar o celular quando Abby começou a lotar o quadro com seu garrancho já conhecido. Copiei em silêncio e assim que às cinco e meia apontaram no meu relógio ela pegou seu material e se despediu com uma simples boa tarde. Acabou.

Duas ruas depois eu estava em casa. Era bom viver na minha própria casa, por mais que eu tivesse que dividi-la com mais quatro pessoas. Nicholas e Samantha eram fáceis de levar, até Jeniffer e sua namorada. Elas mal saiam do quarto e quando saiam iam direito para a rua. Não havia sinal das duas na sala ou na cozinha. Não comiam em casa, ou usavam a casa. Só dormiam e saiam. Dividiam o mesmo quarto, o que deixava um sobrando. Isso dizia que podíamos locar o quarto se todos tivessem de acordo.

— Futebol da liga B vai começar panaca. É nesse que seu irmão vai jogar? — Ri. Brian estava no Lacoste há dois anos, na série B e não tinha oportunidade de jogar. Era sempre o reserva. Ele era bom e esperançoso de que sua hora chegaria.

— Vamos ver. Quem é que sabe. — Respondi ao Nikki. Sammy logo apareceu com pipoca e Coca-Cola.

— Só torço e vejo por causa do Brian. Há dois anos isso! — Sammy reclama quando Lacoste sofre uma falta — Isso foi roubo! — Gritou ela. — Seu irmão não podia ser do clube de xadrez?

— Ele gosta de futebol, Sammy. — Eu rio e ela faz bico. Nikki gosta quando ela fingiu saber sobre futebol, mas na verdade não sabe nada.

— Cartão amarelo! Dá logo cartão amarelo pra esse merda ser expulso!

— Amor... Expulso é cartão vermelho... — Gargalhei. Ela jogou pipoca na cara de Nikki.

— Cala a boca! Olha só aquilo, vai ser pênalti! — Agora jogou pipoca em todo o tapete da sala — Saiu! Foi o vermelho que chutou! É da Lacoste o passe!

— FINALMENTE ACERTOU! — Gritei e Nikki gargalhou. Mais pipocas, em mim e nele. — Os de vermelho são os Craissers, espertinha.

— Você entendeu!

Enquanto ela me xingava meu celular vibrou e meu coração acelerou forte. (você tem uma nova mensagem) dizia. E eu cliquei para ver.

“Você tem câmera aí? Ellie.” Era o que dizia. Eu ri.

“Eu tenho. Por quê?”

“Vídeo conferencia. Alguém aqui precisa confessar que está morrendo de saudades...”

“Sempre soube. Rs”

“Esse alguém é você. Sabemos. Como me achou no facebook?”

— Então gente... Vou descansar um pouco. Dor de cabeça!

— James Hunter acabou de cair no gramado! Chutado pela Craissers. Nosso lateral esquerdo vai ser substituído. E lá vem nosso menino. A nova estrela da Lacoste. Brian Collins! — Gritou o narrador. Samantha gritou jogando toda a vasilha de pipoca para o alto. Vejo meu irmão pular fazendo pé-de-chinelo e aquecendo os músculos.

“Baby, você me trouxe sorte. Meu irmão acabou de entrar em campo. WNU, Lacoste. Brian Collins” Enviei com um sorriso mais bobo do mundo de puro orgulho. Samantha pulou no sofá e Nikki se defendia das pipocas.

— Eu vou buscar cerveja! — Ele gritou.

— Brian! Brian! — Samantha insistia.

“Eu estou vendo o jogo! É a estreia dele! Você não me falou que seu irmão jogava futebol! Parabéns! Sou fã do Lacoste, era o time do meu pai, mas na época dele estava na série A . rs”

— Brian! Brian! Campeão! — E Samantha continuava e batia a vasilha na mão e pisoteava as pobres pipocas espalhadas no sofá. Eu não sabia se ria mais dela, por Brian está jogando ou por estar falando com Ellie novamente após uma longa semana de pura saudade.

“Eu não contei, não sei por que. Você precisa ver como Samantha está pulando no sofá e espalhando pipocas por todo o lado! Estamos bebendo. Vamos brindar ao Brian. A mim e a você”.

— Cerveja, amigo? — Peguei a garrafa da mão de Nikki. Ele puxou Samantha do sofá — Se for beber vai ter que parar de pular.

— Brian! Brian! Campeão! Campeão! — Ela pegou sua cerveja, mas corria pela sala e batia na boca imitando um índio. Eu queria bater nela por não nos deixar ouvir o jogo.

“A nós por quê? Por não estarmos mais juntos? Vamos comemorar só por Brian.” Eu sabia que ela estava com uma cara zangada agora.

— Vou ver o jogo do quarto! Ela não me deixa ouvir! É a estreia do meu irmão, ele vai me perguntar tudo sobre isso! — Nicholas assentiu e Samantha continuou sendo uma indiazinha. Corri para o quarto, era um pretexto. Eu precisava ligar o notebook e vê-la. Veria o jogo, mas a veria também.

Sintonizei a TV na WNU e liguei o notebook.

“Nós estamos juntos... Longe, mas estamos Ellie.” Respondi assim que me conectei ao facebook, ela estava online.

Ethan Collins 18:40.

N é difícil achar quando se procura.

Ellie Sandler 18:41.

Não é difícil achar quando se sabe o sobrenome... Quem te informou? Brian está jogando bem! Lacoste é um time pequeno para o talento dele. Toda essa família é talentosa assim, ou só você e seu irmão?

Ethan Collins 18:42.

N tenho talentos, Ellie. Samantha descobriu p mim. Então quer dizer q só eu senti saudades? Hm... Bom saber.

Ellie Sandler 18:42.

Se continuarmos com isso vamos nos machucar muito, Ethan.

OLHE! GOL! SEU IRMÃO FEZ UM GOL!

Foda-se o gol do Brian. Que porra é essa de “vamos nos machucar muito”? Cliquei no botão da câmera. Estava enviando um pedido de vídeo conferência. Não demorou muito para que ela aceitasse. Sua imagem encheu a tela. Ela estava com os cabelos presos. Primeira vez que a via de cabelo preso. Sem maquiagem alguma, havia poucas olheiras aparecendo, ainda assim continuava linda. E uma blusa de alça. Em pensar no frio que estava fazendo aqui, por mais que o aquecedor estivesse ligado eu ainda usava um casaco.

— Mais que mulher linda! — Disse. Ela riu do outro lado, ouvir o som da sua risada era tudo que eu precisava. Contagiante.

— Muito frio aí? — Levei o notebook até a janela e abri. Estava chovendo forte — Nossa, eu não aguentaria um dia se quer! — Grunhiu e parecia com medo. Fechei a janela e voltei a me deitar. Sorri. — Lindo. Todo vermelhinho... — E ela riu mais.

— Nem se fosse por mim? — Ela fez uma cara pensativa e riu. — Eu amo quando você rir... Amo quando você faz essa cara de “você não ama nada” — Ela riu ainda mais porque notei suas caras e bocas.

— Você é um idiota. Talvez eu fosse aí... Quem sabe... Ignoraria um frio por certo futuro advogado! — Esperança. Queimou no meu coração e eu não pude conter o largo sorriso — Se você não fizesse essa cara de cachorro feliz seria bem mais fácil...

— Eu não consigo controlar Ellie! Desculpe! — Ficamos sérios. Eu odiava esses momentos — Eu só estou sentindo sua falta. Tanto... Que soa idiota.

— Sentimentos não são idiotas.

— Você é tão mais inteligente que eu. Como simplesmente pôde nos meter nessa roubada, hein? Quem mandou ser tão linda assim... E engraçada... — Ela revirou os olhos. E eu não estava ligando para mais nada.

— Você é um idiota. Mas esse sentimento não. E agora você tem que enfrentar isso como um homem. Para de choramingar, só mulheres choramingam. Eu não estou choramingando! — Séria novamente. Me dando bronca, eu ri. — Talvez eu choramingue um pouquinho... Mas eu posso.

— Só você? Que machista. — Fiz bico.

— Só eu. Ou então conto para a Sammy e deixo-a ficar te chamando de gay.

— Você sabe que eu não sou gay, Ellie Sandler! — Ela gargalhou. — Já está colocando as asinhas de fora... É só a gente dizer que sente saudades que elas já pensam que é um “eu te amo”. Vê só.

— Não é um “eu te amo...” — ainda ria — É um “eu estou apaixonado por você”. — E ficou séria. Nós dois... Alguém bateu na porta e entrou em seguida.

— Ganhamos! Ganhamos! Brian! Brian! Campeão... Campeão! — Samantha subiu em cima da minha cama e pulou igual uma maluca. Dançou e sambou. Virei à câmera para sua direção e ouvi Ellie rir dela. Em seguida Sam desceu da cama e fechou a porta, correu para Ellie.

— Meu Deus ela é linda demais! Oi Ellieeeee — A segunda parte fora sussurrada.

— Oi Sammy. Brian venceu! — Fez uma comemoração. — Eu estava dizendo para o Ethan que ele está caidinho por mim e acredita que ele negou?

— Ethan mente muito mal! — Gritou Sam — Ele está apaixonadinho! Apaixonado! Apaixonado! Apaixonado! — E lá voltou ela a pular. Macaquinha.

— Saia do meu quarto, traidora... — Rindo se foi. — E você. Quando te ver novamente... Vou te dar umas...

— Ethan! — Ela me interrompeu com um grito — Você fala demais. Faz de menos. Quando você me vê, eu quero outra coisa... E se você for me bater enquanto tivermos na cama... Eu vou adorar.

Silêncio. Ela riu do outro lado da linha. Sem nenhum rubor. Nunca adentramos assuntos como esse, mas então lá estava ela iniciando uma série de provocações.

— Você fala isso porque estou a 1.135km de distância. — Fora tudo que consegui dizer — E sim... Eu estou... Completamente apaixonado. Por você.