ELISE SPARKS.

O caminho para o trabalho estava abarrotado de lama por causa da chuva. Eddie do almoxarifado limpava com Will da coordenação de alimentos. E eu sabia que sobraria para mim, mas tudo bem. Quando eu entrei em minha sala o Sr. Phillips deixou “toneladas” de papeis sobre minha mesa. Pequenos processos que eu deveria ler e analisar, provavelmente colocar em ordem alfabética fazendo necessárias anotações sobre cada caso. E seria minha tarefa só de hoje! Coisas que eles acumulam durante meses... Não dão toda a atenção que um cliente necessita, se eles soubessem que a fortuna que pagam não lhe garante ganho de causa.

— Então Ethan, esses são os de amanhã e esses os de depois de amanhã. Antes das cinco? — Assenti e ele sorriu satisfeito indo. Eu só estava ali pelo dinheiro e as horas curriculares necessárias, caso contrária já teria ido embora há tempos. Sentei-me em minha cadeira e conferi o celular mais uma vez, nenhuma resposta. Reli a mensagem que Ellie me mandou pela manhã e bocejei. Ficamos conversando por toda a noite e depois da minha declaração pude ouvir um “estou com saudade” e “sinto sua falta”, disfarçados com outras palavras. Apesar de todo o jogo de sedução ela era dura na queda. Mas, sua mensagem estava lá...

“Indo para a faculdade. Pensando em você, bom dia Ethan”... Pensando em mim, saboreei as palavras mentalmente e sorri. Tive que desligar o telefone se quisesse trabalhar e ir a tempo pegar as aulas da noite na faculdade já que havia trocado meu horário no estágio.

Almoço? Sem almoço. Só os fracos almoços. Havia diversos casos, alguns até importantes, variam de varas familiares a homicídios, furto seguido de homicídio, furtos, agressão, pedofilia. Menores infratores... Havia de tudo. E isso me deixava absurdamente ansioso. Eu queria ter meu diploma na mão, mesmo sabendo que seria só o começo. Mesmo sabendo que teria que passar na prova da OAB. Conseguir uma vaga em um escritório qualquer, conseguir casos... Muito provavelmente trabalhar para o ministério público. Muito provavelmente resolver casos na vara de família... Muito provavelmente ter um inicio de carreira bem tedioso.

Ás cinco eu deixei o escritório. Caminhei até o ponto de ônibus o mais rápido possível ligando o celular, a condução parecia esperar por mim e em menos de quatro quarteirões eu estava na faculdade e em casa. Na entrada encontrei Nikki, James e Elise.

— Achei que fosse chegar mais tarde que isso! — Meio de semana sempre chegava tarde. Apertei a mão de Nikki e James enquanto Elise inclinou-se para beijar meu rosto. Meu celular apitou em meu bolso.

“Você pode ligar sempre que quiser, Ethan. Não precisa pedir. Se eu não puder atender vou rejeitar e retorno quando assim que puder...” Sua mensagem chegou, dizia que havia sido enviada ás 15h00 da tarde. Eu havia desejado bom dia e perguntado se poderia ligar para ela. A resposta não poderia ser mais satisfatória.

— Que cara é essa, Ethan? — Só então percebi que sorria abertamente — O que tem no celular que te deixou tão feliz? — Elise perguntou enquanto eu discava o número de Ellie já imaginando que iria ter que colocar mais crédito assim que desligasse.

— Ethan! Espere cinco minutos, sim? Estou com o macarrão no fogo. Eu já volto! — Eu sorri. A voz doce, porém apressada.

— Tudo bem. — Lhe respondi e vire-me para Elise — Oi? O que você perguntou.

— Deixa... Hoje é aniversário do James. — Informou-me e eu o felicitei — E nós vamos ao pub aqui perto. Você não quer vir? Sam disse que você adora dançar. Nós podemos nos conhecer melhor. — Nicholas me encarou segurando uma risada.

— Vamos cara! Vai ser divertido. Convidei a galera de economia e administração. Só pessoal bacana! Você vai se divertir. — James insistiu. Elise fez a minha famosa cara de “cachorrinho abandonado”. Não cola comigo. Não com ela fazendo, se fosse Ellie...

— Eu não sei pessoal. Tenho muito trabalho para fazer...

— Qual é Collins. Você não precisa ficar muito. Apenas algumas bebidas. Umas danças... Eu posso te ajudar com os trabalhos. Eu me viro bem, pode apostar. — Com certeza. Eu acredito.

— Você e a Sammy vão? — Perguntei ao Nikki e ele assentiu.

— Vamos Ethanzinho! — Insistiu ela e tocou meu ombro balançando-o. Fechei meus olhos com força quase sendo ríspido com ela.

— Tudo bem. Até logo, pessoal. — E então eu saí antes que me arrependesse de manda-la para puta que pariu.

— Ethanzinho... Belo apelido. — Droga! Havia simplesmente esquecido dela do outro lado da linha, mesmo segurando o celular no ouvido. — Ethan, eu preciso desligar. Falamo-nos depois, até.

Tu-tu-tu... Fora tudo que eu ouvi a seguir. Maldita Elise Sparks.

xXx

— Eu estava com a Ellie no telefone enquanto ela gritava Ethanzinho! Aquela vagabunda conseguiu-me foder. Já liguei para ela 10 vezes e só dá caixa postal. Deixei mil mensagens. Entrei no facebook e nada dela.

— Se acalma Ethan. Ellie é muito madura...

— E mulher. E mulher é um bicho ciumento. Ela gosta de mim, Sammy. Ontem eu disse que estou apaixonado por ela, hoje ela me ouve topando sair com Elise. Você acha que ela vai confiar em mim? Estamos longe um do outro! É claro que vai desconfiar de mim a partir de hoje.

— Você aceitou na educação. Ela ouviu que Elise insistiu e você não disse que iria. E então quando disse que iria deixou ela lá falando sozinha. Ellie não é boba. Ela é esperta. Só está querendo chamar sua atenção Ethan, se acalme.

— 1.135km de distância. Eu não posso simplesmente ficar calmo.

— Olha. Amanhã bem cedo eu ligo para Emma ir a uma floricultura. Ela vai pedir o arranjo mais lindo do mundo inteiro! Vamos falar com o vendedor pelo telefone para informar o endereço, depositamos o dinheiro na conta dela e pronto. Tudo certo. Ela vai pirar. Um cara de Seattle mandou flores para ela.

— Você acha que vai dar certo?

— Não sei. Pode ser. Agora relaxa. Vamos sair e beber um pouco. Você precisa relaxar, passou uma semana de cão por causa dela. Não adianta nada mais uma semana de cão.

Ok. Tudo bem. Talvez Samantha tenha razão. Talvez essa história de flores funcione, apesar de todo o risco.

O pub está completamente cheio de pessoas distintas. Umas sentadas em mesas redondas com muitas garrafas de cerveja, uísque ou tequila. Outros ocupam a pista de dança e deixam seus corpos bailarem ao som da batida eletrônica. Samantha está sendo embalada por ela nesse momento. Há uma fumaça com cheiro de flor velha e luzes piscando por todos os lados. Caminho com Nikki para o balcão de bebidas, ele pede dois chopps e esperamos o barman trazer.

Não vejo Elise. Não vejo James. Não vejo turma de Educação Física, Economia ou Administração por aqui.

— Elise vai aparecer daqui a pouco. Ela é gata cara. Serve para distrações. — Nikki resmungou no meu ouvido pegando sua cerveja, virou até a metade. Eu tomei um gole grande digerindo o que ele disse.

— Sabe qual é? Eu estou com aquela garota de Los Angeles...

— De Angeles? Agora você enlouqueceu de vez! — Gritou ele. Fiquei em silêncio.

— Eu estou apaixonado, cara! — Gritei em seu ouvido. Ele franziu o cenho, não respondeu. Também não poderia. Elise chegou a seguir e passou sua mão por meus ombros e beijou meu rosto. Estava com um batom-vermelho-vadia.

— Pensei que você não iria vir... — Sussurrou em meu ouvido. Ao contrário do atrito que Ellie causava, Elise não causou nenhum.

— Vim. Não por você, me solta, por favor.

O que leva as mulheres a serem oferecidas assim? Elise soltou-me, mas eu percebi a confusão em sua mente. Ela cambaleou para trás até se perder na multidão. Nikki me olhava com cara de confusão. Conferi meu celular, 00h12m. Nenhum sinal de Ellie.

“Talvez você não goste de caras grudentos ou sei lá. Mas eu sou grudento. Eu sou chato. Possessivo. Ciumento. São meus defeitos... Elise não significa nada, eu não sei o que você está pensando. Vamos conversar Ellie. Preciso de você.”

Décima sexta mensagem. Talvez Samantha tenha mesmo razão sobre as flores.

xXx

“Ellie está te enviando uma solicitação de videoconferência...”

Quando sua imagem explodiu na tela meu coração sacolejou. Observei bem sua aparência. Eu precisava guarda-la em minha mente, não sabia se seria a última vez que a veria. A linha do seu rosto estava marcada pelas olheiras, dessa vez maiores. E os olhos inchados. Ellie estava de casaco e seu nariz estava tão vermelho quanto o meu.

— O que você tem? — Eu questionei preocupado.

— Gripe — Seca — Eu queria mesmo saber como você conseguiu me mandar flores...

— Um homem tem seus segredos — Ela riu e espirrou — Você já foi ao médico?

— É só gripe, Ethan. — Respirou fundo — Como foi sua noite de ontem? — E brava.

— Um horror. Você me ignorou de propósito ou sei lá, fez de sacanagem. Nunca mais faça isso comigo, Ellie. Já é muito difícil estar longe de você. Isso não é brincadeira. Não pode brincar assim comigo.

Silêncio. Ela deu uma risada sarcástica e soou seu nariz sem vergonha alguma. Eu ri, foi engraçado, apesar do momento exigir toda seriedade possível.

— Não pode impor regras. Nós não temos nada, Ethan. — Arqueou a sobrancelha e um sorriso cínico explodiu no seu rosto. Cerrei os punhos.

— Você leu o cartão, Ellie. Você não é boba. Eu espero a minha resposta, você o tem aí com você? — Assentiu que sim.

— “Quem é Elise perto da mulher que conseguiu me conquistar em sete dias? É você, Ellie. Só você. E mesmo de longe quero me arriscar em uma relação, mesmo sendo maluco e idiota como você mesma diz tantas vezes. Mesmo longe quero ter você na minha vida na certeza que em todo feriado possível estarei aí com você e toda vez que for possível estará aqui comigo. Eu quero que você seja minha o tempo que tiver que ser, e então, topa?”

— E então, Ellie?

— Isso é o pedido de namoro mais estranho, possessivo e doente que eu já li. — Rimos — Eu topo se nosso segredo ainda estiver de pé, Ethan. — Seriamente murmurou.

— Mas! Não! Nicholas é meu amigo. Como meu amigo não vai poder saber sobre a mulher com que eu namoro. Negativo! — Ela deu de ombros e negou com a cabeça.

— Ethan, você continua longe. Estamos estudando e trabalhando. Nós dois sabemos o sentimentos e como é forte. Só nós dois. Minha mãe não. Se você revelar nosso segredo nunca mais vamos nos ver. — Seus olhos lacrimejaram e eu respirei fundo sabendo que iria ceder.

— Ellie, você precisa dizer para ela. Precisa e logo. Quando eu for aí te ver tem que ser certo. E então eu converso com ela e ela vai confiar Ellie.

— Eu sei, eu vou falar. Mas mantenha sua palavra, por favor, Ethan! — Implorou.

— O que eu não faço por você, hein? Tudo bem. Não chora. Por mais difícil que seja não falarei nada. Não poderei postar nossas fotos para o mundo ver. Se postasse Elise saberia que eu estou namorando... — Ellie gargalhou.

— Você dizer já é o suficiente, Collins. E você pode colocar relacionamento sério, eu vou colocar. Não precisa ter a pessoa.

— Tudo bem, Ellen Sandler... Tudo bem.