Canção Da Morte

3 Capítulo 3 - Promessas e Reencontros


Karen ainda tinha lágrimas nos olhos enquanto seguia seu caminho sozinha, mais uma vez. Despedir-se de Abel, depois de um ótimo mês de namoro, tinha sido realmente doloroso. Sua vontade era de ficar e aproveitar mais o tempo que tinha com ele, mas sua consciência pesava. Há muito tempo ela tinha feito uma promessa a sua irmã, Karina. Tinha prometido encontrar o verdadeiro dono de um estranho colar de prata; sua irmã mais velha confiou nela, sabia que ela poderia realizar essa tarefa, mesmo que Karina estivesse morta, ela iria fazer isso para honrar a memória que tinha de sua irmã que não via durante anos.

Abel tinha ficado perplexo, não sabia por que Karen estava indo embora assim de repente, perguntou se tinha feito algo errado, se Karen não gostava mais dele. Ela tinha dito que não, mas que precisava resolver assuntos de família, e quando ele se ofereceu para acompanhá-la, ela recusou, não podia envolvê-lo nisso. A tristeza tomou conta do rosto dele, mas já dominava o coração dela há muito tempo.

Agora com os olhos já enxutos, Karen não parava de pensar naquela noite, a noite em que conheceu Azore, o Cavaleiro de Peixes, que estava sempre sorrindo e não demonstrava o menor respeito por seus inimigos. O homem que havia lhe contado a história de Athena, a deusa protetora da Terra. Uma entidade antiga que zelava pelo bem das vidas neste mundo e que periodicamente era desafiada por Hades, o deus do submundo, a terra dos mortos. Azore tinha lhe dito que Athena a escolheu para ajudá-la a salvar o planeta mais uma vez. Como ela poderia ser capaz de tanto? Pensava a todo o momento, porque tinha ela que ser a escolhida para essa missão?

Refletia sobre os dons que Peixes havia dito que ela possuía. Será que ele havia conhecido Karen antes? Ela não se lembrava de ninguém que houvesse conhecido que se parecesse com ele. Preferiu acreditar que era só um palpite, um golpe de sorte. Pelo que ela tinha visto, ele era um especialista em golpes, só não tinha certeza se todos eram de sorte ou de propósito.

E quem seria aquele estranho no telhado? Azore o conhecia, mas será que podia confiar nele? Sua aparência inspirava medo em Kida; decidiu pensar em outras coisas, como por exemplo, aquele estranho artefato que carregava consigo.

Que história envolvia aquele colar? Será que pertenceu a alguém importante? Porque o verdadeiro dono não o procurou? Talvez nem estivesse mais vivo. Mas poderia ter filhos, sobrinhos, netos... Alguém que por direito deveria receber aquilo de volta. E ela iria devolvê-lo.

Distraída em seus pensamentos, Kida não percebeu que seus poucos passos levavam-na cada vez mais longe, quando deu por si, percebeu que havia percorrido em minutos uma distância que qualquer um levaria horas e horas.

- Aconteceu de novo? Não pode ser... – falou em voz baixa, pensativa.

- Eu disse que você tinha dons, não disse?

Ela virou para ver quem falava e foi surpreendida por um sorriso espontâneo, de alguém que não respeitava nem os pensamentos das pessoas.

- Azore? O que faz aqui? Pensei que tinha partido? Já faz dias que não o vejo.

- Sim, realmente precisei partir. Estou aqui para avisá-la que mesmo distante, estarei cuidando para que não se machuque.

- Obrigada, mas para onde você vai?

- Preciso encontrar alguns amigos. Temos que conversar, sinto que algo está prestes a dar errado. Cuide-se Athena.

Ele lhe deu uma rosa, mas garantiu-lhe que essa não possuía veneno, ela aceitou e viu-o partir pelo caminho que ela mesma viera. Em poucos instantes já estava fora do alcance de seus olhos. Quem quer que fosse esse jovem, ela sabia que podia confiar nele, guardou sua rosa e continuou seu caminho.

Ao chegar a primeira cidade ela foi muito imprudente e saiu perguntando para qualquer um se sabia quem era o dono daquela relíquia prateada, seu discurso, obviamente atraiu ladrões que desejavam possuir aquele colar. Felizmente nada aconteceu, ela já tinha saído da cidade antes que pudesse ser alcançada. Decidiu ser mais discreta na sua busca, procurou colocar anúncios em postes, deixando seu telefone para contato, ainda era o mesmo celular que havia recebido tempos atrás.

Procurava falar com poucas pessoas sobre o colar, perguntava sempre para quem não representaria grande perigo para ela, como pessoas idosas, que além de muito bondosas, deveriam conhecer bastante gente ou autoridades públicas que tinham por função proteger pessoas, mas ela descobriu que infelizmente nem todas cumprem essa função com êxito.

O tempo passava e Karen continuava sua jornada, o dinheiro que havia reunido para a viagem estava suprindo suas necessidades, mas isso não seria pra sempre. Precisava concluir isso, o mais rápido possível. Não aguentava mais mudar de cidade em cidade, não aguentava mais ficar longe de casa, longe de Abel.

Foram três longos meses e duas semanas procurando por alguém que nunca tinha visto; suas forças já estavam acabando, sua vontade era de abandonar tudo e voltar pros braços de seu amado. Determinou-se a procurar em mais uma vila, se não tivesse sucesso, desistiria dessa busca inútil.

Parecia que o destino tinha ouvido suas palavras, um senhor que gerenciava uma pequena loja de antiguidades, reconheceu aquele objeto com que Kida já estava familiarizada. Ele contou-lhe que pertenceu a uma família bem rica que morava por ali. Um pai, uma mãe e um único filho, uma linda criança, calma, serena. Um garotinho de cabelos esbranquiçados que era a alegria daquela casa. Até que a família inteira havia mudado, o pai havia ficado rico e resolveu ir morar numa cidade não muito longe dali. Ela agradeceu e resolveu partir de volta. Essas informações trouxeram suspeitas que Karen iria comprovar para ter certeza de tudo.

Durante o tempo em que esteve viajando, ela via Abel todos os dias, o incrível talento musical do rapaz havia sido descoberto e agora ele tocava em vários lugares diferentes. Teve até a oportunidade de ver uma entrevista dada por ele na televisão. Ele contava que além de flauta, tocava também harpa e piano.

Ele revelou era apaixonado por ópera e instrumentos antigos, músicas líricas, tudo que lembrasse o passado, não dele, mas da humanidade, se bem que sentia que ambos estavam mais próximos do que imaginava. Mas a felicidade de Karen foi ao ver a resposta dele para a repórter que perguntava se ele estava disponível para as fãs apaixonadas que não deixavam de ir assisti-lo.

- “Sinto muito, mas já sou comprometido.” – Disse dando uma piscada para a câmera, como se soubesse que Karen o assistia.

Aquele garoto já tinha tanta coisa, e ao que parecia iria ganhar mais uma, como alguém poderia ser tão iluminado assim? Bem, talvez ele merecesse tudo que tinha. Sua conduta era exemplar onde quer que estivesse, não havia nada de que se queixar sobre aquele adolescente.

O mês estava acabando, ainda assim Karen conseguiu chegar a sua antiga cidade, no último dia, seus passos curtos fizeram-na chegar mais rápido do que qualquer corredor profissional. Não podia conter a alegria de estar novamente em casa. Encontrar com Abel foi a melhor das sensações que tinha experimentado, queria fazer-lhe muitas perguntas, mas foi impedida por um convite:

- Karen, fui convidado para tocar numa cerimônia na casa do deputado, gostaria muito que você fosse comigo. Você vai?

- Claro! Adoraria ir com você!

Ela pensou em não alarmá-lo e falar com ele depois que se apresentasse na cerimônia.

A festa estava repleta de pessoas, muitas estavam ali apenas para ouvir as melodias suaves do namorado de Karen, a festa do deputado era apenas um pretexto, inclusive para ela.

Abel tocava o piano maravilhosamente, suas notas agudas ecoavam por todo o salão, extasiando as almas dos presentes, quase que os fazendo ficar em transe ao som daquelas músicas.

Depois de terminar seu pequeno show, ele tirou-a para dançar, enquanto a orquestra que havia sido contratada entoava músicas mais animadas do que as daquele jovem prodígio, mesmo assim não podiam superá-lo.

E nas voltas e voltas daquela dança, Karen pensou estar louca, por que ao olhar sobre os ombros de Abel, ela viu uma mulher no alto da escadaria principal. Seus longos cabelos pretos tinham a mesma tonalidade do vestido que usava, ao seu lado estava um homem com cabelos e olhos dourados, alguém que ela pensou já ter visto antes, mas não com olhos dourados e sim prateados, talvez fossem irmãos, mas ela achava improvável. Ela voltou sua atenção para a mulher que mesmo estando diferente, aparentava características que permitiam reconhecê-la sem nenhuma dificuldade.

A música foi interrompida e todas as atenções voltaram-se para o casal no topo da escada. O homem foi quem falou primeiro:

- Meus caros convidados, estamos muito felizes de partilhar de sua presença. – Sua voz era firme. — Gostaríamos de agradecer a todos que vieram prestigiar nosso querido deputado. Especialmente você, nosso pequeno tesouro: Abel, o melhor músico jovem que existe atualmente! E como gratidão, gostaríamos de te dar um presente!

A mulher segurava uma pequena caixa de prata e ao abri-la o presente foi revelado: Um colar de prata com um pingente.

Karen não acreditava no que via, era impossível que aquele colar estivesse naquela caixa, procurou em sua bolsa, mas não o encontrou. Sua mente parecia não aceitar a mensagem enviada por seus olhos. Algo estava errado, ela pensou.

Esperou que a mulher de cabelos negros se aproximasse e foi ao seu encontro com um sorriso.

- Karina! Minha irmã! Como senti sua falta! – ela exclamou enquanto abraçava a irmã mais velha.

- Solte-me! – respondeu a outra de forma áspera.

- Mas irmã?! – Karen não entendia aquela reação.

- Saia, daqui. O que eu queria de você eu já consegui. Não preciso mais de você! – ela ameaçou dar um tapa em Karen, que desviou o olhar.

Janelas se quebraram e todos, até o homem no degrau mais alto da escadaria, ficaram assustados ao ver dois homens atravessarem o vidro e caírem de pé no chão do salão principal, ambos vestindo armaduras de ouro.

Um deles era jovem, com cabelos azuis, tinha um olhar determinado e um sorriso que não conseguia esconder. Sua armadura dourada era lisa para quem via de longe, mas de perto era possível observar as pequenas partes de ouro unidas, como se fossem escamas. Seus cotovelos possuíam estruturas pontudas, triangulares e arredondadas nas pontas, como barbatanas. Em suas costas, em alto relevo, dois peixes estavam posicionados de forma que faziam um círculo com seus corpos dispostos em posições contrárias. Ele caiu, correu e segurou a mão de Karina, impedindo-a de bater em Karen.

O outro caiu alguns metros depois de Azore. Seus cabelos eram vermelhos, bem como seus olhos. Ele era forte, um pouco mais velho que o primeiro. Sua armadura era cheia de desenhos e figuras em alto relevo, principalmente na região do tórax. Mas o que mais chamava atenção eram suas ombreiras e seu elmo. As ombreiras tinham o formato de duas patas de leão, delas saíam garras que se prendiam ao braço da armadura. Seu elmo tinha um formato ondulado, algo que chamava muito a atenção.

Sua atenção estava totalmente voltada para o homem misterioso que permanecia na parte mais elevada do recinto.

- Eu disse que estaria cuidando de você, não foi? – Azore olhava para Karen com um jeito protetor.

- Pandora, termine logo isto! Não temos tempo a perder. – Ordenou a figura que permanecia observando tudo imóvel, soberano.

- Sim, mestre Hypnos! – Karina respondeu prontamente.

Pandora? Por que ele a chamou assim? Karen não conseguia compreender o que estava se passando. Mas sabia que permanecer ali era perigoso, para ela e para Shen.

- Hikaru! Eu tenho tudo sobre controle! Tire as pessoas daqui! – Azore gritou para seu companheiro.

Mas sua voz pareceu não fazer efeito, o Cavaleiro de Leão já estava subindo a grande escadaria numa velocidade impressionante, preparando-se para atacar Hypnos.

- Hypnos! Eu vou te matar! Nem que seja preciso derrubar esta casa! – Hikaru advertiu seu oponente, que não esboçou reação nenhuma.

Ao ouvirem a ameaça de que aquele lugar seria derrubado, as pessoas começaram a fugir, assustadas, procurando salvar suas vidas da catástrofe que estava por vir. As portas mesmo sendo grandes, não permitiam que todos passassem de uma vez, e cada vez mais convidados iam aglutinando-se na saída. Empurravam uns aos outros, lutando para sobreviver, algumas pessoas caíram e foram pisoteadas pelas outras.

Abel observava tudo atônito, queria fazer alguma coisa, tomar alguma atitude para ajudar aquelas pessoas que o amavam e também a sua música, mas seus músculos não obedeciam, estavam paralisados pelo medo.

Ao perceber que Hikaru estava mais próximo, Hypnos fez seu primeiro movimento. Ele apenas pisou num degrau abaixo daquele em que estava e subitamente uma intensa luz dourada começou a criar rachaduras em toda a escada, um daqueles feixes de energia luminosa atingiu Leão que foi arremessado alguns metros acima. Em poucos segundos, a escadaria estava toda destruída, restando apenas escombros no chão. Hypnos permanecia no seu lugar, como se nada tivesse acontecido.

No andar inferior, Peixes e Pandora já estavam lutando durante algum tempo. Pandora tentava aproximar-se de Abel e Azore impedia-a, protegendo o rapaz como se protegesse Karen, até que sua inimiga fez surgir do ar um tridente de prata, uma arma que ela parecia usar muito bem. Karen estava do outro lado do salão, tinha se afastado a pedido de Azore, mas pensava em um jeito de chegar até seu namorado sem precisar passar por aquele campo de batalha. Nas portas as pessoas continuavam tentando fugir, desesperadas.

Hypnos apenas olhava para aquela cena, como se já tivesse presenciado muitas batalhas antes. Ele não pareceu perceber o vulto que se movia atrás dele, até que um grito ecoou pelo salão:

- Relâmpago de Plasma! – O Cavaleiro de Leão estava vivo e acabara de lançar um de seus golpes contra o misterioso adversário.

Infelizmente não surtiu efeito, seu relâmpago amarelo viajou pelo ar mais não atingiu o alvo, ele atravessou Hypnos como se ele fosse um fantasma, e foi atingir uma das paredes, fazendo com que se quebrasse e caísse sobre aqueles convidados que tentavam se salvar.

- Não! – Hikaru lamentou os efeitos de sua técnica.

- Idiota! Você não pode me atingir! Eu não estou pessoalmente nesta dimensão, esta é apenas uma projeção minha, se eu estivesse aqui você já estaria morto! –Hypnos disse.

- Mesmo que demore toda Guerra Santa, eu ainda vou te matar maldito, nem que eu vá pra Zona Cósmica novamente! – Hikaru falava enquanto saía para tentar salvar as pessoas debaixo dos escombros da parede.

Azore estava lutando fortemente contra aquela mulher que ficava cada vez mais enfurecida por ter um inimigo tão persistente, ele não permitia que ela se aproximasse de Abel de jeito nenhum. Até que Pandora teve uma ideia para afastá-lo:

- Vamos ver quem você realmente protege, Cavaleiro. – Ela falou apontando seu tridente na direção de Karen.

Ela não acreditava que sua irmã seria capaz de fazer isso, será que Karina poderia mesmo matá-la? Teve sua resposta quando um raio atravessou o salão indo a sua direção, rapidamente Peixes se moveu e impediu que o raio atingisse Karen, mas infelizmente ele sofreu as consequências daquela descarga elétrica e caiu ao chão. Karen correu para socorrê-lo.

Hikaru ao ver que seu amigo estava caído, investiu contra Pandora criando em suas mãos mais um Relâmpago de Plasma. Mas não chegou a fazê-lo, uma sombra negra passou por seu corpo e imediatamente ele estava caído, inerte.

- Esperei dois séculos por esse momento e não será um verme como você que irá atrapalhar meus planos! – A voz de Hypnos era arrogante. – Pandora faça, agora!

Azore recobrando a consciência disse a Karen que impedisse sua irmã, que ele estava bem e se recuperaria logo. Ela correu em direção a Abel, mas já era tarde. Karina estava colocando o colar no pescoço dele.

- Seja bem-vindo, Imperador Hades! – disse dando um beijo no namorado de Karen.

Ao ver aquela cena, ela se enfureceu e partiu em direção a irmã, ao se aproximar deu um tapa no rosto dela por ter feito aquilo. A outra revidou com uma força muito maior, fazendo Karen desmaiar aos seus pés.

- Maldita! Vai pagar por isso Pandora! – Peixes não conseguia conter sua raiva, agora de pé ele correu em direção a sua adversária.

De repente, Hypnos apareceu atrás de Abel e uma aura negra começou a envolver Pandora, Kida, Abel e o próprio Hypnos. Em instantes aquela aura tornou-se uma nuvem negra que não permitia ver nada. A energia que ela gerava começou a destruir os alicerces do lugar, fazendo com que as paredes e o teto caíssem. Azore correu até o corpo do amigo cavaleiro, pegou-o nos ombros e carregou-o para fora. Do lado de fora ele observava a casa desmoronar e a nuvem negra se dissipar, revelando que os quatro haviam desaparecido. Ao olhar novamente para o corpo sem vida do Cavaleiro de Leão ele percebeu que tinha perdido seu amigo e tinha perdido Athena. Pela primeira vez não havia sorriso em seu rosto.