Canção Da Morte

2 Capítulo 2 - Cosmos e Meninos de Rua



Cansado, era assim que Ìllias se sentia naquele momento, ele já havia percorrido três bairros, tantas ruas que já havia perdido a conta, mesmo assim seus perseguidores não o deixavam. Provavelmente o dono daquela barraquinha da feira tinha oferecido algum dinheiro para aqueles garotos. “Mas eu peguei apenas algumas maçãs, será que vão fazer tanta falta assim?”, pensava ele enquanto fugia. Das outras vezes em que precisava se defender, ele ficava e lutava, foi assim da última vez em que ele foi pego roubando, cinco garotos foram atrás dele e voltaram chorando para suas casas. Morar na rua era um grande desafio, além da fome e do frio que eram companheiros certos, ainda havia o preconceito das pessoas, muitas evitavam se aproximar dele, pensavam que ele fosse fazer algum mal para elas, ninguém lhe oferecia ajuda e Íllias já havia desistido de pedir por socorro, já que seus pedidos nunca eram atendidos. Era considerado por todos daquela nova cidade como um rebelde, um adolescente que fugiu de casa, largou os estudos e que roubava por prazer, nas outras cidades por onde passou não foi diferente. Não sabiam que se tivesse escolha sairia desta vida, mas desde que se lembrava vivia na rua, talvez seus pais também não tivessem casa e acharam que abandoná-lo seria melhor para ele. Estavam enganados.

Enquanto pensava, distraiu-se e entrou em uma rua sem saída, tentou retomar a fuga, mas já estava cercado pelo bando, atrás de si só uma parede alta demais para escalar, a sua frente onze jovens mercenários querendo se divertir batendo num pobre coitado. Teria que lutar.

Eles investiram contra o jovem que esquivava de todos os golpes que conseguia, mas ainda sim eles eram muitos e estavam vencendo a luta. Recebeu um chute e acabou a alguns metros de distância. Sentia dor, suas costelas, braços, pernas doíam como nunca antes. Olhou para as casas nas laterais daquele beco que pareciam formar um caminho para o céu, talvez estivesse na hora de trilhar esse caminho, morrer parecia muito melhor do que continuar nessa vida miserável.

Mas foi surpreendido por uma sombra que parecia cair do alto daquelas casas, ouviu o som de algo caindo no chão. Achou que era algum tipo de ilusão da sua mente; precisava sair daquela situação, senão iria apanhar mais do que já tinha apanhado. Levantou-se, fechou os olhos por uns instantes por causa da dor, porém ao abri-los teve uma nova surpresa, um rapaz alguns anos mais velho que ele estava brigando contra os onze garotos com seus olhos fechados e incrivelmente estava ganhando.

Íllias olhava bem para aquela cena, o rapaz parecia voar, de tão rápido que era nenhum dos golpes atingiam-o, seus longos cabelos castanhos voavam ao vento, num dado momento ele recuou, ficou mais próximo do jovem que assistia tudo aquilo caído no chão e disse:

- Vai me ajudar ou vai ficar só olhando? – ele falava como se realmente precisasse de ajuda.

- Porque você está me ajudando? – Íllias não estava acostumado a receber auxílio de estranhos.

- Justiça, essa é uma das atitudes mais escassas nesse mundo. Um contra onze? Achou mesmo que poderia sair vitorioso?

- Bom, agora eu acho. – Disse ele entusiasmado ao ver que tinha uma chance de se safar de mais uma encrenca.

Íllias levantou-se e ambos começaram a lutar lado a lado, aqueles meninos mesmo em maior número não tiveram chance para aquela dupla.

Durante o combate, o mais jovem daquela equipe de dois lutadores, olhou para seu companheiro para ver como ele estava se saindo bem e viu algo impressionante, uma luz totalmente estranha estava ao redor dele, uma aura dourada cobria todo seu corpo, como se emanasse dele.

Mas isso não era o mais incrível, ao olhar suas próprias mãos ele viu a mesma luz nelas, só que essa tinha um tom azulado.

Seus ossos queimavam, entretanto, não havia dor, ele sentiu como se uma força totalmente nova fluísse por seu corpo. Seus inimigos estavam quase todos caídos ou haviam fugido, seu protetor havia baixado a guarda, a luta estava vencida.

Porém um dos poucos que ainda estavam no beco levantou-se e ameaçou atacar aquele novo amigo com um golpe covarde pelas costas, ao ver seus movimentos Íllias tentou golpeá-lo, mas não estava próximo o suficiente, seu soco não atingiu o adversário, porém aquela luz que ainda brilhava em seus punhos ganhou forma, já não era apenas um brilho azul, tornou-se uma bola de energia que voou por todo o beco e atingiu o alvo, salvando aquele sujeito que acabara de ajudá-lo.

Ryoji ainda olhava surpreso para aquele menino loiro que tinha acabado de descobrir seu cosmo, sem nenhum treinamento ele despertou uma força interior que a maioria não se dá conta de que possui.

- Meus parabéns! – disse ele entusiasmado pelo que acabara de ver.

- Como? Como eu fiz isso? – Íllias não acreditava no que tinha feito, aquela luz já havia deixado suas mãos, mas ele continuava olhando seus dedos.

- Você acaba de despertar seu cosmo, garoto. Um cosmo muito poderoso por sinal.

- Cosmo? O que é isso? – ele estava curioso para saber como tinha conseguido aquela façanha.

- Sinto muito criança, está na minha hora de ir. Tenho uma longa jornada para fazer, se quiser pode me acompanhar. Não acho que queira permanecer nesta cidade por muito tempo.

- E pra onde você está indo? Posso saber? – ele não entraria numa viagem sem saber seu destino.

- Claro que pode. Estou indo salvar o mundo! – ele ria como se falasse sobre algo realmente fácil de fazer.

- E a propósito quem é você? – Agora que passaria certo tempo aprendendo com esse amigo, precisava conhecê-lo, ele pensou.

- Eu sou conhecido como Cavaleiro de Virgem. – disse o rapaz muito seriamente. — Venha e aprenderá muito mais do que eu posso ensinar. Mas lhe dou um aviso prévio: estamos indo para uma guerra, aquela luta do beco não é nada comparado com o que está por vir. – Disse Ryoji num tom sério.

Eles caminhavam para cada vez mais distante da cidade. Deixando todo aquele ambiente, aquelas lembranças e aquelas pessoas.

- Ei cara, quando foi que você colocou essa mochila? – Íllias perguntou sobre o objeto que apareceu nas costas de seu novo conhecido, como se por mágica.

- Você está vendo-a? Isso é um bom sinal. Na verdade ela sempre esteve comigo, mas você não podia vê-la antes, agora que seu cosmo despertou você verá muita coisa que grande parte da população sequer imagina.

Ainda bem que as pessoas não veem, pensou ele, uma dupla de rapazes carregando uma mochila de ouro, seria alvo fácil para ladrões, infelizmente ele sabia pensar como um.

Ele observou aquele estranho objeto, uma mochila em forma de cubo, feita de ouro, com algumas inscrições em uma língua que ele desconhecia e havia uma figura que se repetia nas quatro laterais da mochila: uma mulher de joelhos com suas mãos juntas, parecia estar rezando, olhava em direção ao céu como se esperasse por salvação que não podia encontrar na Terra. O que quer que estivesse dentro daquilo, deveria ser muito valioso.

Enquanto andavam iam conversando, Virgem explicava para seu mais novo discípulo o que era o cosmo, como controlá-lo, falava sobre o que é ser um cavaleiro de Atena e o mais importante: contava a ele o que era a Guerra Santa, os dois deuses que se enfrentavam a cada duzentos anos, o destino do mundo decidido em cada batalha travada por eles.

- Ouça bem o que vou lhe falar meu amigo. Tudo neste universo é formado por pequenas partículas, que se unem para formar alguma coisa.

Desde uma simples pedra até as pessoas. Mares, seres vivos, o planeta, as estrelas, as constelações, até mesmo o espaço sideral, tudo está conectado através de uma energia que para muitos é invisível, essa energia é responsável por manter as relações entre todos os elementos do universo. Essa energia misteriosa é chamada por nós de cosmo. Para simples humanos como eu e você o cosmo nos permite apenas mudar algumas dessas interações entre as moléculas, construir conexões ou até mesmo destruí-las, transformá-las segundo nossa vontade. A partir do momento em que o cosmo de alguém começa a queimar, é preciso controlá-lo, condicioná-lo para fazer o que quiser. Poderá se defender e atacar usando apenas o poder de seu cosmo terá a capacidade de sentir a aproximação de qualquer um, inimigo ou aliado e receberá habilidades que nenhum homem jamais sonhou. — Ryoji falava com Íllias da mesma forma que um professor fala com um aluno, serena, atenciosa, disposta a sanar qualquer dúvida que ele poderia ter.

- Eu aceito correr o risco, se você diz que eu posso ser poderoso, eu quero sentir esse poder. Quero vencer guerras e impedir que as pessoas passem por tudo que passei. – Íllias se lembrava de companheiros que havia encontrado nas ruas, alguns em situações piores do que a dele.

Íllias não sabia o que lhe esperava pela frente; na estrada, olhou mais uma vez para trás e viu a mesma cena se repetir: um garoto pobre fugindo de uma cidade, indo para outra, na esperança de encontrar um lugar onde se encaixasse, um lugar para chamar de lar. Desta vez era diferente, não estava saindo sozinho; mesmo que Ryoji fosse um estranho, ele havia salvado sua vida e estava lhe oferecendo uma oportunidade, o que ninguém havia feito por ele.

Uma gama imensa de possibilidades surgia a sua frente, se abandonar tudo que conheceu até agora era o maior dos sacrifícios que teria de fazer, então valia a pena tentar.

Agora ele caminhava rumo ao desconhecido, mas estava feliz, não apenas por deixar seu mundo para trás, mas por estar indo em direção a algo novo. Um novo mundo estava surgindo e como quer que fosse, Íllias já fazia parte dele.