Candy
1 Ira
Notas iniciais
Tudo começou quando Sakura bateu a porta do apartamento que nós duas dividíamos e urrou:
— Sasuke é um babaca... ARGH!
Nem me preocupei em levantar os olhos do livro de Stephen King que eu estava lendo. Afinal, ouvir Sakura reclamar de Sasuke era tão normal quanto as mortes de Kenny em South Park. Sakura e Sasuke namoravam desde a adolescência. E, na minha opinião, era um romance que deveria durar apenas na adolescência. Mas, que por algum motivo inimaginável, os dois estavam juntos até hoje; ambos com 22 anos e 6 de namoro. Talvez o Cúpido, ou o que quer que seja a droga do nome, gosta de se divertir vendo casais se matarem. Talvez ele ganhasse muito dinheiro do Investigação Discovery.
— Será que você pode me dar um pouco de atenção? Ou devo esperar que a senhorita termine esse livro de — Sakura simplesmente se jogou no meu lado do sofá, deixou a sacola que trouxe com ela de lado, e arrancou o livro das minhas mãos. Deus, será que eu não posso ter uma vida normal onde eu possa ler um livro em paz sem que eu tenha uma colega de apartamento maluca. — 453 páginas? — ela bufou irritada. Eu suspirei fundo e olhei bem para os seus olhos verdes. Às vezes, fazer o papel de melhor amiga é um saco.
— OK, Sakura, respira e se acalma — eu disse, lentamente tirando meu precioso livro de suas garras. — O que o Sasuke-kun fez dessa vez?
Sakura inspirou fundo, suas bochechas estavam vermelhas de raiva. Ela tirou o cachecol que vestia e passou as mãos pelos seus cabelos rosas, claramente transtornada, uma careta retorcia seu rosto. E ela ainda conseguia ficar bonita.
— O que ele fez? O que você acha que aquele I-D-I-O-T-A fez? — ela perguntou baixinho, estava tentando se controlar para não surtar. Eu odiava quando ela era subliminar desse jeito e me fazia adivinhar a merda que Sasuke tinha feito dessa vez. Podia dizer que minha bola de cristal tinha quebrado e que ela cuspisse de uma vez só para irritá-la ainda mais. Mas era óbvio o que ele havia feito, porque qualquer pessoa normal saberia que dia era hoje. Mas Sasuke não era uma pessoa normal e pouco se importava em procurar saber quando era o Dia dos Namorados. Afinal, com certeza ele achava que essas datas comemorativas eram apenas jogadas de marketing — o que eu concordava, de certa forma.
— Esqueceu o dia dos namorados? — eu respondi o óbvio e deixei meu livro sobre a mesinha. Sabia que teria que ouvir muitos palavrões e não havia espaço para leitura, pelo menos não nessa noite.
— Sim, esqueceu o dia dos namorados — ela repetiu, sacudindo uma mão com raiva e jogando seus cabelos para trás. Ela parecia estar segurando o choro, e eu queria abraçá-la e dizer que tudo ia ficar bem. Mas de repente ela cerrou os punhos e sibilou: — Como alguém pode esquecer esse dia? Parece até que ele vive numa caverna que não tem TV nem as porras dos outdoors que dizem que hoje é a droga do dia dos namorados.
Eu suspirei.
— Sasuke é o Sasuke, Sakura — olha como eu sou inteligente. — Parece que você não entende. Ele é o cara que me deu meias de gatos de aniversário. E eu odeio gatos.
— Ele tinha esquecido seu aniversário e foi presente de última hora — eu deveria me ofender com isso. Sério. Ele poderia me dar um livro ou até mesmo dinheiro para que eu comprasse um livro. Mas o bastardo me deu meias. Como se esse milionário idiota passasse fome. — Mas quer saber de uma coisa? Eu tenho algo que você vai gostar — ela disse de repente, tirando um litro de vinho da sacola que ela trouxe junto com ela. — Esse é o vinho favorito dele e eu paguei caro pra caralho. — Primeiro palavrão, estamos começando bem. — E quem vai beber essa noite somos nós duas. — Ela deu um sorrisinho e correu para cozinha igual a uma criança para pegar o saca-rolha e duas taças. Definitivamente bipolar.
— Ino-porca, você bem que podia me dar uma ajudinha aqui, né? — ela gritou da cozinha. Eu revirei os olhos e me levantei, indo até a cozinha e vendo o vexame que a testuda era para abrir uma simples garrafa de vinho.
— Me dá isso aí — eu disse, pegando o vinho e o saca-rolha das mãos dela e abrindo com facilidade. Eu me segurei para não rir do olhar de surpresa genuína que ela me deu antes de me oferecer as duas taças, que eu as enchi sem reclamar. — Esse é o melhor vinho que eu já tomei — eu falei abobalhada, bebericando mais um gole. O sabor agridoce desse vinho era bem diferente dos vinhos que eu tomava escondido juntos com as cervejas com os meus amigos na adolescência.
Então eu não sei como isso veio a acontecer, só sei que terminamos de tomar o litro inteiro de vinho, eu sempre fui fraca para vinho, diga-se de passagem, e no minuto seguinte estávamos nós duas sentadas na bancada da cozinha enquanto tomávamos latinhas de cervejas que estavam escondidas em algum lugar obscuro da geladeira do nosso apartamento. Provavelmente os meninos que trouxeram da última vez que apareceram por aqui, mas eu realmente não me importava. O que importava era que eu estava completamente bêbada e Sakura não parecia estar num melhor estado.
— Cuidado pra não cair... cair da bancada — eu ri que nem uma doida e Sakura me acompanhou.
— Se eu cair — ela riu. — Vo-você me segura?
Eu comecei a gargalhar e cai para o lado dela, e quando eu olhei para Sakura percebi que ela me olhava sério. Nossos rostos estavam bastante próximos, narizes quase se tocando, por um segundo eu fiquei ali, parada, sem conseguir me mexer, apenas olhando no fundo dos olhos dela. Meu coração começou a bater mais depressa, eu nunca tinha olhado para ela desse jeito. Aquilo me assustou. Sakura então mordeu o lábio inferior, um pouco impaciente, e fez algo que eu nunca imaginei que pudesse acontecer. Sakura se inclinou um centímetro a mais na minha direção e nossos lábios se tocaram.
Eu fiquei sem reação, não sabia o que ela queria com aquilo. Aí senti sua língua passar pelo meu lábio, pedindo passagem. Então eu mandei tudo pro ralo, fechei os olhos, enfiei uma mão entre seus cabelos e abri a boca, correspondendo o beijo com vontade.
Para com isso! Você está bêbada! Sakura está bêbada! Vocês vão se arrepender.
A parte sensata gritou de alguma parte de dentro da minha cabeça, mas a parte perversa, a maior, fez eu apenas ignorar e continuar a beijá-la. Sakura beijava tão bem. E tinha um sabor tão doce. Então eu a fiz ir se inclinando para trás, ainda com as bocas grudadas, enquanto ela deitava sobre a bancada. Eu me apoiei com os cotovelos ao lado de sua cabeça e fiquei em cima dela. E nossas bocas finalmente se afastaram. Nós duas ficamos novamente nos encarando, enquanto sorvíamos a maior quantidade de ar que nossos pulmões conseguissem aguentar. Sakura estava tão bonita, seus lábios estavam inchados e vermelhos por causa do beijo. Eu não consegui resistir e me inclinei novamente e puxei seu lábio inferior com os dentes, ela sorriu e apenas o barulho de nossos beijos cortavam o silêncio da cozinha.
O que aconteceu depois foi o que marcou as nossas vidas.
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