Canção da Sereia
29 Querido diário... - RS
Notas iniciais
Lancey
Quando finalmente estamos na casa, Willian deixa Nora no quarto com Mason e os interrogatórios começam no andar de baixo.
– Foi Mellow, ele queria nos entregar para o que seja que está nos perseguindo. — Megan diz. — Ele bateu em Mason e pegou minha arma. Nos levou aquele lugar e mandou tirarmos a roupa. Então empurrou Nora naquele buraco, eu corri quando ele se distraiu. Quase me acertou um tiro. — Ela começa a chorar e é abraçada por Kall que a beija emocionado por ela estar bem. No entanto... alguma coisa não parece certa...
– Vou subir e cuidar de Nora. — Willian anuncia.
– Eu gostaria de falar com ela a sós. — Me levanto e fico na frente dele.
– Ela teve uma noite difícil, você pode falar amanhã. — Ele me diz com grosseria.
Cara irritante!
– Sei o quão difícil foi a noite dela, eu estava lá. — Ele faz uma carranca. — Só preciso de alguns minutos. Quero saber se ela está bem. Nora é minha família, eu preciso cuidar dela.
Ele relaxa e volta pro sofá.
– Subirei em 15 minutos, Lancey. Não esteja lá.
Como se eu precisasse de autorização dele para vê-lá. Só avisei para evitar mais dramas.
Subo apressado. A primeira coisa que faço é arrumar uma blusa na minha mala. Depois entro no quarto de Nora. Ela está sentada na cama, está enrolada numa coberta e Mason injeta algo em seu braço. Chego mais perto. Droga! Ele não está injetando, está tirando. Será que alguma coisa em seu sangue iria denunciar seu novo status?
Ele acaba de tirar e sai do quarto. No instante que ele fecha a porta eu vou para cama e ela me abraça forte.
Décima vez?
– Você contou?
– Não, e você?
– Não. Não vamos contar nada, ok? Não até ter certeza com o que estamos lidando. Precisamos saber se isso vai voltar, Nora.
Ela concorda. Está pálida, com olheiras fortes. Parece muito com a garota que encontrei no hospital um ano atrás. Amedrontada.
Os miados começam. Não sei como esse gato entra e saí dos lugares. Não o vi quando entrei, e a porta do banheiro está fechada.
Sardinha fica sobre duas patas e arranha meu bolso com as patas de frente. Me lembro do que peguei na casa destruída.
Levo a mão ao bolso e o gato pula na cama, ficando entre Nora e eu, bem em frente ao objeto. Isso não é comportamento normal de um animal.
– Achei isso naquele lugar. — Digo a ela que pega e desamarra. — Megan disse que Mellow levou vocês.
Ela levanta a cabeça e me olha assustada, então confirma.
– Está mentindo Nora, eu posso ver isso.
– No momento, é assim que tem que ser.
No momento? O que isso significa?
Ela tira a capa de couro. Há algo enrolado em um tecido encardido, que algum dia deveria ter sido branco. Desenrola aquilo com cuidado para não estragar o que tem em baixo.
Uma caderneta pequena. É isso que há. É velha, está desgastada. Ela abre, parece um diário. Há datas em cada folha. Algumas estão manchadas e não dá pra ler, mas outras estão em perfeito estado.
Sardinha bate na caderneta que caí no chão aberta.
– Esse gato tá agindo muito estranho. — Eu digo me abaixando pra pegar a caderneta.
Sardinha salta para o chão e bate a pata nas folhas abertas. Isso definitivamente não é normal.
– Nora...?
– Eu já sei... Só... pega isso.
Olho para ela e depois para o gato que não tem mais os olhos laranjados, agora estão verdes como os de Nora.
– Cacete... é a criatura? — Me afasto.
– Lancey! — Ela chama minha atenção. Está com a mão em meu ombro. — Só pega isso. Não é a criatura. Mas seja o que for quer mostrar algo e eu quero ver de uma vez, pra que deixe meu gato em paz.
O gato se afasta e senta, me encarando. Pego a caderneta e volto pra cama. Isso é assustador demais. Mulheres possuídas, gatos possuídos... espero que nada decida que sou um bom partido para participar da sessão possessão.
– Olha isso... — Nora aponta pra folha que Sardinha tocou com a pata.
“5 de janeiro de 1897
Quando o ritual acabou, os gritos ficaram mais altos, mais desesperados. Então eles cessaram, como se nunca tivessem existido. As mulheres saíram uma a uma. Até que finalmente localizei Joane no fim da caverna. Ela tinha as mãos sujas de sangue, assim como a mulher da floresta.
Algumas delas sorriram ao passar por mim. Não entendo como poderiam sorrir depois disso. Como qualquer uma delas poderia fazer qualquer coisa depois da monstruosidade que fizeram. Que nós fizemos.”
Nora vira a página. Não dá pra ler, e nem a seguinte, estão muito manchadas. Passamos para a próxima.
“9 de janeiro de 1897
Há corpos, pela praia toda. Elas estão mortas, todas mortas
As mulheres da ilha tentam disfarçar sua culpa, mas elas a têm, todas elas. E as vozes... elas voltam todas as noites. Como podem gritar estando mortas? Como elas podem gritar? Será que os gritos vem do inferno?
Minha irmã está estranha. Ela não come direito, não dorme. Seu marido ajuda aos outros homens a enterrar as criaturas. Mas são tantas. Nós não fizemos certo, é o que sinto. Aquilo nunca deveria ter acontecido. Nós mexemos com algo desconhecido. Algo que não era pra ser tocado. Algo que nem ao menos nos fazia mal realmente. E agora esse tormento volta todas as noites. Os homens dizem não ouvir nada. Mas elas estão lá, as vozes. Elas clamam por justiça contra nós. Elas juram vingança. O que nós fizemos? É calpa daquela mulher. Ela nos atiçou a isso.”
Uma batida na porta nos assusta e Nora empurra a caderneta pra baixo da coberta. A porta é aberta e Willian enfia a cabeça para dentro do quarto.
– Ta hora de sumir Lancey. — Ele me avisa. Não sei nem que reação deveria ter. Preciso ler mais, preciso saber o que aconteceu. E preciso, definitivamente, fazer um exorcismo nesse gato que me encara do chão.
– Só mais um minuto, Willian. — Nora diz. — Ele vai dar banho no Sardinha pra mim.
Nossa, que desculpa mais esfarrapada. Quem pensaria em dar banho em um gato depois da noite de terror que tivemos.
Como que pra confirmar, Sardinha mia.
– Vou... — Willian olha pro gato, será que ele percebeu? Olho pro animal que tem os olhos laranjados agora – vou tomar banho e fazer os curativos, ok? Mas eu volto.
Nora sorri pra ele e concorda.
– Você está bem? — Ele pergunta.
– Sim. Você pode pedir pra Megan me trazer algo pra comer?
Ele sorri e concorda, depois saí do quarto.
Nora tira a caderneta de baixo da coberta e abre na próxima passagem.
“12 de Janeiro de 1897
Joane não voltou. Nem Lyra. Ou Josefine. Elas desaparecem. Não estão em nenhum lugar na ilha. A mulher da floresta não quer nos ajudar. Ela disse que fez o que pedimos, as consequências eram nossas e não dela.
Meus sobrinhos choram o tempo todo por causa da mãe. O marido de minha irmã não fala com ninguém. Ele apenas saí de manhã para procurar e volta de noite para dormir. Meu pai não se alimenta direito, sua saúde está cada vez pior. Temo que ele não passe dessa semana. Lyra poderia curá-lo, como médica da vila, mas ninguém tem a remota ideia para onde ela foi. Talvez as três estejam juntas. Mas onde? O que estariam fazendo?”
“20 de Janeiro de 1897
Ontem enterrei meu pai e minha sobrinha. Hoje matei minha irmã.
A mulher da floresta finalmente veio até nós.
Essa não é mais sua irmã. Ela disse antes que eu cortasse a cabeça de Joane.
Ela não precisava ter dito isso. Eu soube no momento em que ela apunhalou a própria filha, que não era ela.
Nós pecamos. O pecado mais imperdoável de todos. Nós assassinamos inocentes. É assim que eu vejo.
Estefan, meu sobrinho, está tão triste e desesperado. Meu cunhado decidiu partir com ele, seguir em frente. Eu gostaria de ir, de escapar disso. Mas não acho que posso. Cinco mulheres perderam a vida tentando sair da ilha. Elas começaram a se atacar dentro do barco assim que entraram. Antes dele partir já estavam mortas.
Ninguém entende. Acham que pode ser um surto de raiva. Mas eu sei que não é. São nossos pecados sendo cobrados.”
A porta é aberta. Megan entra com uma bandeja.
– Oi, querida. Você está bem?
Ela parece normal, apesar de cansada. Ela deixa a bandeja no criado mudo.
– Pode nos dar um minuto, Lancey?
Olho para Nora, mas ela não tira os olhos de Megan.
– Não, ele sabe.
Megan concorda e fecha a porta. Senta numa poltrona distante. Sardinha salta para seu colo e logo os olhos da mulher estão verdes como os dele antes.
Puta que pariu? Será que serei o próximo?
A loira sorri.
– Não vou possuir você. – Ela diz com uma voz diferente, denunciando que Megan já não está mais conosco. - Vocês estão com meu diário.– Ela diz.
Nora está assustada, no entanto, não está surpresa. Levanta a caderneta.
– Você deve evitar o mar.– Ela diz, mas está olhando para fora – Ainda pode se transformar se elas a tocarem.
Mas que inferno está acontecendo aqui? Me sento mais reto na cama, deixando Nora atrás de mim.
– Estou muito fraca, não poderei ficar por muito mais tempo nesse mundo. – Ela diz – Elas precisam de três, não esqueça.
Então Megan está de volta. Ela nos olha e pisca. Não sei o que pensar.
– Alguém quer me explicar?
Megan fecha os olhos por um instante. Lágrimas escorrem por sua bochecha.
– Elas as mataram... — Ela diz com sua voz normal – Mataram todas elas...
– Todas as sereias. — Nora diz e me volto pra ela.
– É o que essa coisa falou? É o que está escrito aqui?
Elas concordam.
– Eu vi... — Megan diz. — Quando ela me... possuiu. Eu vi... As mulheres da ilha se uniram e mataram todas elas. Cometeram assassinato.
Fale com o autor