Caminhos para o meu coração
2 Era uma vez, uma menina tola
Uma vez, Lelo me disse que poderia sempre contar com ele. E naquela época em especial, eu precisava muito ter alguém para desabafar, e acabou que ele se tornou meu porto seguro. E lamento profundamente por isso. Estávamos com nossos amigos no parque Ibirapuera. Sentamos embaixo de uma árvore e começamos a conversar. Eu desabafava sobre algo do qual não me lembro, deve ter sido algo banal, como sempre. Mas ele me disse:
— Sabe, July, você precisa relaxar um pouco, se divertir, ficar com outros caras...
Senti um calafrio no final da frase dele. "Ficar com outros caras" o que ele está querendo dizer? Eu jurava que o que tínhamos era sério.
— O que você disse? — eu o encarei, não queria acreditar nessas últimas palavras que ele disse com tanta naturalidade.
— Pra você relaxar. — Ele riu.
— Não. Você falou para ficar com outros caras... — Porque ele me sugeriu isso? — Não considera o que temos como algo sério?
— July... Não estamos namorando. — Ele ri. — Estamos só ficando, claro que não é nada sério.
— Ah. Então é isso que você faz? Quando quer relaxar você fica com outras garotas?
— O quê? — Ele ri mais nervoso. — Espera, desde quando a nossa conversa passou a ser sobre nós?
— Desde que você veio com esse comentário infeliz.
Não o deixei responder, apenas saí de perto, e no mesmo dia, eu segui o seu conselho, não para relaxar, mas apenas de vingança. Pois a outra certeza que eu tive, além de ele não nos considerar como algo sério, é de que ele havia ficado com outras garotas, e isso machuca meu orgulho, e agora, quero machucar o dele. Cansei de ser tola, de ser a garota meiga que se apaixona por uma dúzia de palavras.
No final do dia, ele já sabia que eu tinha beijado outro garoto, um amigo dele, Renan, e veio me arrastar para uma conversa.
— Soube que você ficou com outra pessoa.
— Assim como você sugeriu, não?
— Ah, então se eu mandar você pular de uma ponte você vai?
— O quê? Olha, eu só queria te irritar, pois o seu comentário me abalou muito.
— Eu não estou irritado. — Ele não me olhava, olhava reto, para o horizonte. — Agora a gente simplesmente não vai ficar mais. Acabou.
— O... O quê? — Eu dou risada, nervosa e confusa. — Para com isso.
— Não, não paro. Não quero mais, você ficou com um amigo meu!
— O que têm? Foi você quem falou isso! — Eu elevo a voz, mas logo abaixo o som. — Vamos... Vamos esquecer, ok? Eu estava com raiva. Eu quero só você... — Eu tento abraçá-lo, mas ele empurra meus braços.
"Chega!" Digo a mim mesma, não aturo tanta humilhação. Eu simplesmente saio correndo do parque. Sem levantar a cabeça, peguei um ônibus para o metrô e depois fui pra casa. Cabisbaixa, deito na minha cama e lá fico. Foi então que chorei. Todas as lágrimas que segurei pelo caminho, derramei no meu quarto, na minha cama, onde não tinha ninguém mais para assistir, apenas a doce solidão.
Foi naquele dia que eu jurei nunca mais acreditar em garotos com palavras bonitas. Aquele um mês e meio tinha sido o melhor da minha vida até então, mas era tudo uma farsa. As palavras bonitas, o carinho... Ele me fez amá-lo para depois jogar tudo fora. Tinha certeza que para ele não havia sido apenas eu, não fui a única garota pra ele nesse tempo. E isso machuca. Com orgulho e coração feridos, eu jurei nunca mais ser uma garota tola.
Mas não posso dizer que depois daquilo nunca mais o vi. Na semana seguinte, saímos todos juntos, e eu fiquei com o amigo dele de novo, mais pelo fato dele querer do que eu. Seu nome era Renan, e infelizmente ele gostava de mim, e eu não retribuía, apenas pensava no Lelo. Fomos pro parque novamente, andar de skate, de bicicleta ou apenas sentar e conversar. Estava conversando com um amigo, que, em meio a nossa discussão, ele disse:
— Não aguento discutir com feminista!
E eu ri, pois ele estava perdendo na discussão e eu, como sempre, ganhando. Renan se aproximou rapidamente e me perguntou:
— Você é feminista? — Meu amigo saiu de perto ao perceber seu semblante de desaprovação.
O.B.S.: Eu tinha 14 anos, e ao ver Renan com aquele olhar de desaprovação, me senti acuada, envergonhada.
— Não, claro que não. — Eu ri e lhe dei um beijo.
Nós brincamos, nos beijamos e mais tarde ele foi embora junto com mais uns 3 amigos. Sobrando apenas eu, Lelo e mais dois amigos. Ele me chamou para conversar, eu fui.
— Você e o Renan... Estão juntos?
— Por que a pergunta? — Questiono ríspida.
— Nada...
Eu sento na grama, e ele senta ao meu lado.
— Ele pelo menos não parece um babaca com palavras falsas.
— É assim que me classifica? Ótimo, mais fácil pra você me esquecer.
Eu olho pro chão. Sua grosseria é tremenda que machuca meu coração.
— July... — Ele continua. — Você gosta mesmo dele? — Eu balanço a cabeça negativamente. — Então estar com ele é errado.
— E o que seria certo? Continuar sofrendo por você? Continuar sendo idiota?
— Você nunca foi idiota. Nada do que eu te disse era mentira. Você foi a que mais cheguei perto de me apaixonar. Mas estragou tudo.
— Eu? Você não me deu valor. Mereceu o que aconteceu.
— Mas foi você quem saiu machucada, não eu. Você quem está apaixonada por mim.
— E você se diverte, não? — Eu o fito agora, mais perto de seu rosto, carregando uma raiva.
— Não. — Ele chega mais perto. — Isso te torna mais irresistível.
E então, ele me beija, e eu sei que deveria ter parado, fugido, mas apenas retribuí o beijo, era tudo o que mais queria naquele momento. E como fui burra!
— Eu só não quero ter nada com você, pois não sei se você vai fazer isso comigo de novo. — Ele disse quando voltávamos do parque, íamos para o metrô a pé.
Soltei de sua mão, abaixei a cabeça. Eu realmente estraguei tudo!
Não conversamos mais, ele tentou, mas eu não queria conversar com ele. Depois cada um foi para seu lado, e demorei para voltar a falar com ele. Descobri que contaram pro Renan sobre o que aconteceu, e ainda levei bronca de uma amiga "Você não merece ninguém. Onde já se viu largar um garoto que gostava muito de você, magoá-lo e ainda ficar com um babaca que não te dá a mínima?"
Pois é, onde já se viu? Nem eu sabia responder. Algum tempo depois eu voltei a falar com o Lelo, mas apenas por mensagens, até que decidi me afastar de todas aquelas pessoas, todo aquele ciclo de "amizades", com o coração partido e ferido, decidi me concentrar apenas em estudar, tirar notas boas e ir para uma boa faculdade. Foi quando eu finalmente estava começando a parar de ser tola.
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