Caminhos para o meu coração
4 Mãe Biológica
Logo depois de Filipe, o príncipe que virou sapo, eu perdi contato com todos aqueles meus amigos, incluindo Lelo e Renan. Focando apenas em Estudar, minhas notas aos poucos viraram as melhores da sala. Aos 16, já estava com título de Nerd, minhas piores notas eram 8,5, e eu passo o dia todo estudando, desde que chego em casa até as dez horas da noite.
Minha vida social se resume à Sabrina e ao Gabriel. Eles são o meu oposto, gostam de sair, de ir para festas, se divertir, enquanto normalmente passo meus sábados em casa lendo um livro, vendo um filme ou estudando.
Não posso negar que uma vez ou outra penso em meus fracassos com Lelo e com Lipe, sinto vontade de chamá-los, de vê-los. Mas nesses últimos anos eu aprendi a ter orgulho, e só quero que eles me vejam para saber o quanto superior me tornei, a ponto de se arrependerem de terem me largado, como quem larga o resto de um sanduíche não satisfaz mais. Mostrar-lhes que não sou insuficiente, embora ainda me sinta assim.
Eu cresci, emagreci, fiquei mais bonita. Mais atraente. Talvez um dia eu me torne aquele "mulherão" que qualquer homem terá sorte só de chamar minha atenção. Minha vaidade aumentou, para ser sincera, antes eu era uma moleca, agora sou uma mulher, não saio de casa mal vestida, sem me arrumar bem.
Depois do colégio, fui direto para casa, como sempre faço todos os dias, eu sempre olho pra cima, para o céu, para os prédios, acho mais bonito do que olhar para as pessoas, que normalmente estão sempre apressadas ou zangadas. Não sei porque, mas adquiri um pouco de misantropia. Uma leve misantropia. Pois acredito que a humanidade ainda tenha algo de belo, mesmo que oculto dentro de tanta coisa ruim, que tenho aversão à socializar com pessoas.
Cheguei em casa, fiz o almoço. Ninguém nunca está em casa, minha irmã está na faculdade e depois trabalha, minha mãe sempre trabalha até tarde no escritório. Meu pai... Não tenho pai. Não, ele não morreu, eu não o conheço, e creio que nem minha mãe biológica o conhece. (moro com uma tia, Carla, que eu e minha irmã chamamos de mãe, tínhamos outra mãe, companheira da Carla, Adriana, mas ela morreu de câncer quando eu tinha 8 anos) Minha mãe biológica é, ou era, não sei, prostituta, e entre vários abortos, eu e minha irmã sobrevivemos simplesmente por que a mãe Adriana era irmã da minha mãe, e fez vista grossa quando ela estava grávida de mim e da minha irmã, meus outros quase-irmãos não tiveram tanta sorte.
Eu descobri tudo isso aos 10 anos, mal tinha superado a morte de uma das minhas mães, soube que a biológica nunca me quis, bem, isso explica as raras visitas que ela nos faz. Não tenho preconceito contra minha mãe, acho que isso me abriu a mente, prostituta é como uma mulher normal que vende seu produto, o próprio corpo.
Depois de almoçar, comecei a estudar. Minha mãe chegou às 21hrs, decidi parar os estudos mais cedo para lhe fazer companhia em seu lanche. Ela sempre faz um lanche depois que chega em casa.
— Como foi seu dia? — Ela me perguntou.
— Foi normal, e o seu? — Perguntei fingindo interesse.
— O de sempre, problemas que só eu resolvo e blá-blá-blá. — Ela ri.
— Sabe mãe, vai ter uma olimpíada de física. O colégio está indicando alunos. E o professor acabou por me indicar.
— Nossa! — Ela abre um sorriso. — Que ótimo filha! Vai ser quando?
— Vai ser no dia 18 do mês que vem... — No mesmo dia do aniversário da minha mãe biológica.
— No mesmo dia do aniversário da Carol?
— Sim...
— Tudo bem, ela vai ter que entender.
Teria mesmo, afinal a vida é minha, queira ela ou não.
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