Caminhos para o meu coração

5 O Garoto que Cheirava a Livro Antigo


Não me olhe com dó. Eu odeio isso. Vejo dó no olhar da minha mãe, quando digo sobre a minha mãe biológica.

— Você deveria tentar se entender com ela. — Sempre me aconselha

— Eu me entendo com ela. Vira e mexe a gente ri, conversa, mas ela não é minha mãe. Eu só tive duas, uma morreu e a outra está aqui agora. Ela tá mais pra uma tia distante do que pra uma mãe.

— Você fala com muita indiferença dela. July eu nunca te ensinei a ser assim.

— Você me ensinou a não ser trouxa, mãe. Quantas vezes ela não apareceu no meu aniversário? Mentiu pra mim inventando histórias sobre meu pai que nem ela sabe quem é? Dia das mães que ela perdeu? Apresentação de escola que ela só via a metade e ia embora? Acho que não fará mal eu deixar de aparecer no aniversário dela.

Minha mãe fica pensativa, e diz:

— Você quem sabe. Já está grandinha o suficiente. Só não quero mais ouvir que eu estou fazendo a sua cabeça e a da sua irmã para afastar vocês dela.

— Ninguém pensa assim. — retruco.

— Seus tios sim.

— Não ligo para eles. Só sabem reclamar que somos mimadas e metidas porque você tem dinheiro e eles não.

— Eu sei... Meu deus, que família fui me meter? Não sabia que sua mãe vinha com todo esse pacote quando a conheci! — Ela ri, e eu também.

— Quantos anos vocês fariam, se ela ainda estivesse viva?

Minha mãe dá um outro tipo de sorriso, aquele de que chegou a mais doce lembrança. Foi o sorriso mais bonito que já vi.

— 30 anos... Nos conhecemos bem cedo. 10 anos depois descobrimos o câncer, 20 anos depois ela morreu. Mas sabe, ela nunca morreu de verdade pra mim.

— Bonito isso. Um dia espero saber o que é isso.

— Um dia você vai. Amor é uma coisa bonita demais para se viver sem.

"E muito fatal para se viver com" penso, mas me calo, não é hora para minha besteiras pessimistas. Escuto a porta da sala abrir, é minha irmã chegando em casa. Ela entra na cozinha e vai direto pra geladeira, tirando alguns potes de comida. Arroz, feijão, carne.

— Como foi seu dia hoje? — Minha mãe pergunta.

— Normal, tivemos aula prática de gastronomia, cada um fez um prato típico do Brasil. E o de vocês? — Ela pergunta colocando a comida num prato e levando ao microondas.

— O meu foi monótono, mas a sua irmã se inscreveu numa olimpíada de física!

— Agora vamos ver se consegue alguma coisa né. — Ela brinca. — Se inscrever é fácil, ganhar é mais difícil.

— Acha que não sei? — Dou risada. — Mas eu me viro.

Dito isso, me levanto e saio da cozinha. Vou para meu quarto no final do corredor, onde estão meus materiais, e começo a estudar.

Sim, minha vida se baseia nisso. Em Estudar e estudar. Trocar algumas mensagens com uns amigos e estudar. Mas hoje eu mexi mais no celular, achei uma foto antiga numa rede social. Minha e de Lelo... Não pude resistir mandar-lhe uma mensagem.

"Oi... Ainda lembra de mim?" Mando.

Continuei estudando por mais 15 minutos até receber uma resposta dele:

"Como me esqueceria de uma ruiva?"

"não sei... Mas então, queria te ver!" Respondo de imediato, por puro impulso.

"Sério? Quando?"

"Amanhã lá pelas 15:30 no shopping aqui perto de casa, vc lembra, né?"

"Claro, estarei lá."

Não respondo. Agora eu queria saber porque eu quero vê-lo?

Porque mandei a mensagem? que desnecessário! Eu tenho que continuar estudando e só! Nada de falar com babacas do passado. Não devo ser trouxa de novo. Nunca mais.

Depois de estudar, vou dormir. Revejo a conversa, não acredito que mandei a mensagem. Não quero vê-lo! Mas agora já foi, só me resta esperar por amanhã.

* * *

Coloquei a melhor roupa, fiz chapinha, me maquiei, estou a mulher mais bem vestida deste shopping. Quando ele me ver, vai sentir o que perdeu. Vai ser como se tivesse dispensado a mulher mais perfeita que ele poderia um dia conseguir. Eu sei que não sou nada disso, mas ele não. Ele tem que pensar que eu sou perfeita, que eu estou perfeita, e que ele me perdeu pra sempre.

O vejo se aproximar, uma calça jeans preta, blusa vermelha e pulseiras no braço direito. Ele me encontra, vejo seu sorriso se alargando de longe. Acelera o passo até mim e me envolve num abraço apertado. Eu o abraço de volta, sinto o seu cheiro. Cheiro de livro antigo, como amo esse cheiro!

— July! Quanta saudade! — Ele me dá um beijo no rosto e me larga. Eu dou uma risada nervosa.

— Se sentia saudade porque nunca mandou mensagem?

— Eu ando muito sem tempo, trabalhando e estudando muito, e você? Como você mudou!

— Eu cresci né... Não sou mais uma menina de 13 anos.

Ele me olha de cima abaixo e comenta:

— Isso é totalmente perceptível. Quer dizer... Você está incrível! O que tem feito?

— AH, na correria também, estudando, saindo com meus amigos.

— Entendi, vai para muitas festas? — Ele pergunta e nós começamos a andar.

— Sempre que dá, sim. — Minto. — Adoro festas, me divirto muito.

— A sua cara... Inteligente e gosta de curtir uma boa festa. E... Anda saindo com muitos caras?

— "Com muitos caras"? — Eu dou risada. — O que você está querendo dizer com isso?

— Nada, nada... Eu só estava curioso.

— Não. — Respondo. — Eu não estou saindo com muitos caras.

— Neste momento, você não tem nada com ninguém?

— Não mais. Eu acabei de magoar um garoto, então achei melhor dar um tempo nessa coisa de relacionamento sério.

— Uau. — Ele assovia. — Isso foi um aviso?

— Talvez, quem sabe. — Sorrio, tudo que contei é mentira, mas ele só precisa saber o quão melhor que ele me tornei, mesmo que seja mentira.

— Então quer dizer que você virou uma mulher poderosa e perigosa?

Nós sentamos num dos restaurantes da praça de alimentação, eu o olho e assinto, rindo.

— E você se tornou o que?

— Um aventureiro que gosta do perigo. — Ele sorri e pisca. Se aproxima de mim.

— Mas cuidado que uma aventura sempre machuca no final.

— Nem sempre.

Ele está mais perto, e mais perto. Ouço meu coração bater cada vez mais rápido, como se fosse saltar de meu peito. Ele mexe no meu cabelo, me olha com seus grandes olhos negros, e aos poucos, seu rosto fica cada vez mais perto do meu. Até que ele me beija.

E meu deus... Que beijo!

Confesso que sentia falta disso, de sua mão na minha cintura, de sentir aquele gostinho de sua boca, se respirar aquele cheiro de livro antigo. Que um dia me conquistou.

Mas agora, ele pode vir com todas as armas, que eu já vesti minha armadura.