Caminhos
4 Decisões
— Mas, André, isso é muito perigoso.
— Eu me sinto na obrigação de me tornar o seu mentor. Você precisa aprender a caçar direito.
Desde que André havia descoberto que eu era um caçador de almas (e vice-versa), eu o pedia para ser meu mentor, mas ele recusava, dizendo que não estava preparado para algo tão importante.
— Ei! Não foi você mesmo que disse que não era bom o suficiente pra se tornar o meu mentor?
— Eu não era. Isso foi a quase um ano atrás. Hoje eu sinto como se eu pudesse te ensinar tudo o que sei. Você quer ou não?
— É claro que sim! – Como num impulso, abracei André forte, o deixando envergonhado. – Ah, me desculpa. Eu me empolguei com a notícia...
— Tudo bem, pode continuar.
Abracei André novamente e dessa vez ele me abraçou de volta. Me senti muito feliz, não só por ter encontrado alguém para me ajudar a caçar almas, e sim porque era o André. Eu estava muito, mas muito bobo com aquela situação.
[8 anos depois]
Acordei com Athos me abraçando, ainda dormindo. Tirei os braços dele de mim e me levantei. Ainda estava preocupado com ele, mas no fundo sabia que ele iria ficar bem, no final de tudo. Peguei um copo de café da cafeteira e me sentei no jardim de trás de casa. Ele estava muito verde, como sempre. “Athos realmente tem um dom para cuidar de coisas”, pensei. Fiquei mais um tempo ali, observando o jardim, enquanto tomava meu café.
— Athos está bem? – André apareceu do lado, se sentando ao meu lado.
— Não sei, talvez. Por que a preocupação?
— Alasse está preocupada com ele. Sabe, aquele negócio de almas irmãs e tal.
— Interessante.
Não que eu fosse grosso com André ou não gostasse de falar com ele, eu estava muito preocupado com Athos para prestar atenção no que André falava. Depois de algum tempo conversando com André, eu o ofereci um copo de café e fui pegar para ele. Na volta, ele não estava sentando no banco do jardim.
— André? Por que você sempre faz isso?
— Isso o que?
— Aonde você estava?
— Eu fui no banheiro.
— Ah. Pegue aqui seu café. – André pegou sua xícara e se sentou. – E então, como vai a caça na sua região?
— Pouco movimentada, como sempre. E na sua?
— Também.
— Ahn, Turon... Eu queria conversar com você sobre uma coisa.
— Diga.
— Lembra de quando nós, er...
— Sim. O que houve?
— Então, nós meio que terminamos aquilo de uma maneira não tão legal e você nunca conversou comigo sobre aquilo, sempre me evitando. Eu achei que seria legal da sua parte deixar eu me explicar, mesmo depois de 6 anos do ocorrido.
— Não preciso das suas explicações, André. Você perdeu o direito de me chamar de amigo há 6 anos atrás e nunca vai conseguir recuperar isso. Agora, se puder me dar licença, tenho que ir cuidar do Athos.
— Turon, por favor... – André se levantou do banco e me abraçou por trás — ...eu imploro.
Meu coração, mesmo que por um instante, pareceu parar. Era como se, ao André me abraçar, todo o mundo à nossa volta desaparecesse num piscar de olhar. “Sempre isso. Quando você vai crescer, Turon?”, eu murmurava para mim mesmo, enquanto a respiração de André perto do meu ouvido me deixava ansioso para o que viria a seguir.
— Turon, eu te amo. Me dá outra chance, por favor.
Meu coração parou outra vez. Dessa vez, por mais tempo, e mais intensamente. Era como se a cada segundo que eu passasse ali, entrelaçado em seus braços, André ficasse mais quente e, meu corpo, cada vez mais apaixonado pelo dele.
Me virei rapidamente, abraçando André de volta. Apertei ele com força, como se meu corpo quisesse dizer sim, mas eu só queria ficar calado. Meu desejo era dizer sim, com toda a força do mundo, mas ao mesmo tempo, eu sabia que recusar era a melhor coisa a se fazer.
— Turon... – André suspirou em meu ouvido — ...diga algo.
— Me abrace.
— Mas nós já... – O abracei mais forte — ...tudo bem.
Eu não queria ter que dizer aquelas palavras. Eu não queria ter que fazer decisões, pois não queria arcar com as consequências das mesmas, eu queria apenas fiar ali, abraçado com ele pelo resto da minha vida.
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