Shigeru foi se deitando sobre sua presa, devagar, um braço escorando o próprio peso, o outro segurando o membro, para dar-lhe a direção correta. Satoshi fechou os olhos ao sentir a cabeça roçando sua entrada... já tinha sido invadido por dedos, por isso não estava fechada de todo. A lubrificação improvisada – o que era aquilo não sabia — também ajudava. Ainda assim, teve dúvidas sobre se conseguiria acomodar tudo aquilo...

De olhos cerrados, aguardou, a respiração ligeiramente alterada. Nisso sentiu a extremidade daquele membro deslizar pra dentro de si. Gemeu por antecipação, mas não abriu os olhos. Sentindo que havia “encaixado”, Shigeru pôde enfim deitar-se. Satoshi sentiu o peso daquele corpo sobre o seu, o calor que emanava dele... gostou da sensação... mas ainda estava tenso. Shigeru ajeitou-se mais um pouco, e Satoshi fez o mesmo, dobrando suas pernas até o ângulo que achou melhor. Depois sentiu dedos deslizarem por seus cabelos, os dois corpos estáticos... sentiu vontade de abrir os olhos, porém não o fez.

Quando as mãos saíram de seus cabelos, sentiu o colchão afundar um pouco na altura da cabeça... Shigeru estava se apoiando ali, com certeza.

Uma língua tocou seu pescoço e escorregou morosamente... teve arrepios... e tal como a língua desceu, subiu em seguida, tão preguiçosa quanto antes, até chegar-lhe na orelha... uma mordiscada de leve... Shigeru mexeu a cintura, forçando-se um pouco mais pra dentro... Satoshi gemeu, as mãos indo pousar sobre as costas de seu amante.

Esse penetrou-lhe mais um pouco...

Satoshi pressionou de leve suas unhas contra aquelas costas... Ainda estava de olhos fechados... preferia assim, por enquanto. Apesar de não ver, todos os outros sentidos pareciam ampliados.

...um hálito quente... que só podia vir de uma boca...

...lábios tocando os seus...

...uma língua buscando a sua...

Beijaram-se, Satoshi quase estático pelo nervosismo, e Shigeru penetrou-lhe mais, dessa vez um tanto. Soltou um gemido curto e seco... abraçou seu amante com força, confiou nele...

O beijo tornou-se mais inquieto, mais apressado. Satoshi, ainda nervoso e receoso, procurava afogar-se naqueles lábios, concentrar-se ali, enquanto não tinha certeza se aguentaria o resto. Shigeru, por seu turno, começava a mover os quadris, devagar, em movimentos curtos, seus cotovelos apoiados na cama e suas mãos segurando o rosto diante de si, delineando aquela boca com a qual se deleitava.

E algo foi se agitando em Satoshi, conforme sentia aquela carne ir e voltar dentro de si, ainda de forma tímida...

...tinha sua porção de dor... tinha sua porção de prazer...

Correram os minutos, vagarosamente...

Sentiu uma mão segurar seus cabelos com força, aquela língua sair de sua boca ganhando novamente seu pescoço e voltando ao rosto e aos lábios. E sentia-lhe cada vez mais nítido o cheiro da pele... como era bom. Quente, emanando desejo.

Os rostos separaram por um instante... sentiu-lhe a respiração. Quando aquela língua tornou a passear por seu pescoço, foi penetrado com mais força e trincou os dentes... um impulso forte percorreu seu corpo, fazendo-o estremecer. Mal assimilou, foi sufocado por um beijo possessivo, e veio nova investida.

Sentiu a dor e o prazer claramente, subindo-lhe a espinha como duas serpentes, e gostou, e quis mais... e teve mais, a um ritmo cada vez mais regular, cada vez mais forte. Tal como seus gemidos.

O beijo desfez-se, e não sentiu mais aquela respiração quente contra sua pele. Shigeru tinha levantado um pouco o corpo, prosseguindo o resto a golpes constantes...

Estaria encarando-o?

Por que não abria os olhos para descobrir...?

Tirou as mãos daquelas costas e buscou um rosto. Achou, afagou-lhe os contornos... o ritmo aumentou... um braço separou mais suas pernas... Gemeu e a cada gemido foi mais invadido... Shigeru gostava? Gostava de ouvir seus gemidos?
Uma estocada mais forte... contraiu-se... Os corpos se apertaram com mais força, Shigeru deleitando-se com os gemidos, enquanto mãos deslizavam pelas suas costas.

Satoshi abriu os olhos.

Pararam ambos.

Não estava errado. Shigeru o encarava de olhos bem abertos. Não sabia se ficava bem de rosto quando gemia. Tomara que não ficasse ridículo, porque estava sendo integralmente assistido. Viu uma ponta de um sorriso sexy naqueles lábios, viu a satisfação de quem domina.

Aproveitou a pausa para respirar um pouco. Sabia que tudo aquilo tinha sido só o início... tomou o quanto de fôlego pôde... tinha medo ainda?

Não.

Ou talvez um pouco, mas não o suficiente para fazê-lo parar.

Aquela ponta de sorriso que viu achou nele mesmo um reverso ideal. E todos os momentos do passado em que imaginou que aceitaria Shigeru a qualquer preço, pois queria apenas ser dele, encontraram ali, enfim a sua essência.

Fez-se mais calmo, então. E quando parou de ofegar, sua expressão entregou o jogo.

Queria tudo.

Não soube dizer se Shigeru captou seus pensamentos. Talvez só uma sombra deles, por instinto. Mas o fato é que, dando por encerrada a trégua, segurou-lhe firme, deixou-lhe o peso do corpo e penetrou fundo, dessa vez acomodando quase tudo em seu interior. Satoshi contraiu-se, todavia não conseguiu se mexer muito, seguro que estava por aqueles braços. Prensado contra o colchão, ao arbítrio da voracidade alheia, tentou relaxar, pois outra atitude seria inútil.

De olhos bem abertos, apertou contra si aquele rosto de onde uma língua se lançava esporadicamente ao seu pescoço. Arfante, sentiu a segunda, a terceira, a quarta estocada, os músculos retesando-se instintivamente.

Gemia alto, às vezes virando o rosto para algum lado, mordendo os lábios, e a marcha prosseguindo... as sensações se misturando... a saliva molhando sua pele, o sal do suor alheio, a textura daquela língua, o calor daquele corpo, o ar frio do quarto batendo-lhe na pele a lufadas irregulares... e mais que tudo, aquela porção de carne indo e voltando em suas entranhas, que se contraíam tolamente só pra serem vencidas à força depois...

... dor e deleite subindo-lhe em ondas, o lençol enroscando-se por debaixo do corpo...

“...ser devorado...”

...apertou a cabeça contra a cama, abriu a boca buscando ar, mas uma outra boca encontrou-lhe... seus lábios eram sugados e não conseguia reagir... não tinha coordenação para um simples beijo, a cabeça já lotada pelas sensações que vinham de baixo... só podia gemer, ofegar, passear as mãos nervosamente pelo corpo de seu afoito garoto...

Cravou as unhas nos ombros de seu dominador e arranhou-lhe costas abaixo, descarregando do único modo que encontrou. Mal sentia as investidas separadamente... sabia pelo peso do corpo que ele ia e voltava, mas a sensação da penetração, antes pontuada de idas e vindas, convertia-se rapidamente numa coisa contínua, uma corrente elétrica constante a confundir-lhe os músculos e a mente...

“...ser desejado...”

...um rio caudaloso no qual se afogava... Não conseguia mais coordenar-se ou pensar em nada complexo, tudo se dissipava. Quando Shigeru também começou a gemer, algo a mais acendeu-se, que o fez separar à força aquele rosto do seu e olhá-lo...

... não sorriu, nem gemeu, nem fez coisa alguma... somente olhou, enquanto gotas de suor caíam em seu rosto... trouxe-o pra junto de si e dessa vez conseguiu concatenar um beijo...

....que não durou muito.... separam-se para poder gemer...

....estava quente, muito quente. Shigeru ergueu-se... Agora de de joelhos, o corpo vergado, sons irregulares escapando de sua boca, puxou Satoshi para junto de si pela cintura e recomeçou, sustentando um ritmo forte...

E cada vez mais. Mais forte, mais rápido, mais aflito. Seus olhos bem abertos estavam fixos em Satoshi, e agora, naquela posição mais distante, deu-se conta do que tinha diante de si – seu pequeno menino, o cabelo desarrumado, a boca semi-aberta deixando escapar os gemidos, a expressão tensa mas satisfeita, o corpo se mexendo desordenado, as pequenas mãos fechadas, segurando o lençol com força...

Que tesão do caralho!

Aquela visão o fez querer mais e mais, e o tempo, como cúmplice, se alongou. Uns minutos só e pareceu bem mais, gostosamente mais, do jeito que fantasiara.

E escoados esses minutos, Shigeru parou. Satoshi, curioso, abriu os olhos. Não precisou especular o que viria a seguir, pois a pausa durou pouco. Sem uma palavra sequer, foi virado de lado, e seu afoito amante deitou-se às suas costas. Era óbvio o que aconteceria... levantou uma perna, segurando-a no alto. Foi agarrado por trás, na altura da barriga, por um braço e, não mais que uns segundos depois, foi novamente penetrado, ao mesmo tempo em uma respiração quente e descompassada arrepiava-lhe os pêlos da nuca.

Tudo recomeçou, e sentiu que gozaria muito, em breve. Sensação que se intensificou quando uma mão encontrou seu membro rijo. Encontrou e não ficou só nisso, claro. Agora Shigeru lhe masturbava e, ao mesmo tempo, penetrava-o sem dó... certamente não resistiria muito.

Não foi muito, de fato, mas pareceu que foi. Intermináveis minutos em que mexeram-se aqueles dois montes de carne e calor, suando sobre lençóis retorcidos e emitindo sons irregulares pontuados de silêncios sofridos. Até que Shigeru sentiu um líquido branco brotar por entre seus dedos... Satoshi estava gozando e muito. Foi inevitável o efeito — deu um pique final, praticamente asfixiando Satoshi com uma das mãos e penetrou rápido... e forte.... e inteiro... e ambos num silêncio custoso... os dentes trincados... os lábios selados...os músculos retesados...

... um último movimento...

... um gemido que escapa......

....uma mão que se estica, involuntariamente.........

......buscando algo que não acha...............

Um jato de líquido quente nas entranhas.

.....corpos trêmulos.... espasmos perdidos..... de cansaço, de alívio....

....contrações finais, suspiros longos....

...mãos repousando contra o lençol, lânguidas...

Um silêncio, não completo, pois restou o som de respirações alteradas e o ar-condicionado, indiferente em seu ruído de fundo. Palavras não.

A súbita percepção do frio do ambiente, se chocando com a calidez daqueles corpos... a umidade do lençol...um abraço apertado pra compensar... os segundos passando, ainda sem palavras.

Tudo aquietou-se.

A inércia foi quebrada por um beijo que Shigeru depositou na bochecha de seu exausto menino. Este sorriu, meio trêmulo ainda, segurou a mão de Shigeru com força... não achou nada pra dizer...

O frio era o único incômodo. Shigeru percebeu e cobriu-o com a própria camisa, resgatada de um canto da cama. Abraçaram-se de novo, agora sim estava tudo perfeito.

Satoshi estava bastante dolorido... certamente precisava de mais prática. Durante aqueles minutos mais alucinantes, tinha pensado várias vezes em pedir ao outro pra parar, porque às vezes doía muito e quase que só doía. Algo o impediu, não sabia o quê, e o fez aguentar firme, deixando escapar algumas lágrimas. E não se arrependia nem um pouco.

– Tá tudo bem, Satoshi?

– Tá tudo bem, Shigeru... tudo bem...

Satoshi estava exatamente onde queria estar.

Cansado e acalentado, adormeceu.

***

Teve sonhos curtos, confusos, sem significado. Acordou devagar, conforme o som do ar condicionado foi tomando o lugar de seus devaneios.

Veio a si por fim. Não viu muita coisa, porque o quarto estava completamente escuro. Percebeu-se coberto por dois lençóis, certamente colocados por seu atencioso garoto. Não fosse isso, estaria morrendo de frio, já que ainda estava sem roupa.

E Shigeru?

Ouviu sons vindos do banheiro, cuja porta estava fechada. A torneira da pia abriu, fechou, depois o chuveiro ligou, emitindo seu inconfundível zumbido elétrico. Seguiu-se o som da água caindo.

Sentou-se na cama devagar, dando uma longa espreguiçada.

Abraçou-se pensando em tudo que havia acontecido e foi tomado por um sentimento manso e bom. Pensou em deitar de novo, no que ouviu um ruído.

A porta...

...havia se aberto um pouquinho, sozinha.

Bem, então não estava trancada. A fresta era pequena, não dava pra ver nada, e nem era esse o ponto. O fato é que a porta não estava trancada... poderia abrí-la, não?

Pelo som da água caindo de forma irregular, presumiu que Shigeru continuava seu banho, tranquilamente. Não havia mesmo muito sentido em se preocupar com a nudez, depois de tudo que havia ocorrido. Mas que a porta estava aberta, estava... e....

...e o que, Satoshi?

“ No que eu tô pensando, afinal..?”

Entrar...?

Talvez... pra fazer alguma gracinha. Pra jogar conversa fora. Pra olhar aquele corpo no claro... Afinal, só o tinha visto no semi-breu... Pra mais alguma coisa?

Quem sabe. Mas não se sentia muito disposto a repetir aquela experiência, assim, tão rápido. Ainda estava meio doído, na verdade. Os hormônios iam acordando, mas devagar.

Ficou ali, sentado sobre a cama, calado, nu e enrolado em dois lençóis, o ar frio contra o rosto, ouvindo as variações do som da água caindo, advinhando os movimentos que aquele corpo estaria fazendo. Não se aguentou e levantou-se. Com ou sem sexo, queria estar perto dele.

Chegou próximo à porta, hesitou... abriu um pouquinho, bem devagar...

– Satoshi...?

...e foi imediatamente percebido.

Sem saída, desfez-se dos lençóis e abriu um pouco mais. Não entrou. Apenas colocou a cabeça pra dentro. Estranho, mas ainda sentia-se constrangido em aparecer assim, nu.

O vapor ainda não havia embaçado o vidro e via o corpo de seu menino, agora sim com clareza, debaixo da luz forte do banheiro. Via-o como merecia ser visto.

E os hormônios acordaram um pouco mais...

– Acordou agora?

– É.

– ahn...

Satoshi, meio apaspalhado, não entrou, mas também não tirou a cabeça da porta.

– Entra....

Que remédio? Teria de entrar nu mesmo. Devagar, abriu a porta e entrou, visivelmente envergonhado. Até porque ficar reparando muito no outro lhe causava reações óbvias e visíveis que só aumentavam seu constrangimento.

Puxou pra si uma toalha, tentando fingir que só fazia isso por fazer. Depois que cobriu-se, sentiu-se bem melhor.

Shigeru notou tudo isso, claro, porém manteve-se quieto. Só que não por muito tempo... não era só Satoshi que estava acendendo ali...

– Dormiu bem...?

– Bastante – Satoshi sorriu ao responder... lembrando o motivo do cansaço...

Houve algum silêncio...

– Vem cá...

– ...pra quê..?

Shigeru não conseguiu evitar uma risada...

– Vem, pô... tá com vergonha de mim, é?

– Claro que não...

Satoshi aproximou-se do chuveiro, meio desconfiado, ainda com a toalha enrolada no corpo. Shigeru abriu a porta do box e continuou displicentemente enxaguando os cabelos.. isso até seu parceiro aproximar-se e ficar ao alcance das mãos, quando então...

– Shigeru!!

– Hahaha...

...foi puxado pra dentro com toalha e tudo, sendo o tecido atirado pra fora do box em seguida. Um empurrãozinho discreto e a porta de vidro fechou-se.

Ficaram um de frente pro outro, Shigeru segurando Satoshi pelos ombros, ainda rindo daquela mistura de vergonha e contrariedade em sua face, achando-o fofo naquela total incapacidade de dizer alguma coisa.

Olharam-se... olharam os corpos um do outro... e repararam, ambos, no indisfarçável sinal de sua crescente excitação.

Shigeru não ria mais.

Nada disseram. A água caía, o vapor subia, o vidro embaçava... fora isso, silêncio.

Shigeru misturou suas mãos aos cabelos já meio molhados de um passivo Satoshi. Colocou-os mais perto da água e ficou a observar as mechas se desfazendo... tudo tão lento...

...tão lento...

Ninguém ouviu o som abafado e úmido das costas de Satoshi batendo contra os azulejos da parede.