Caminho para a distância
2 Chuva
Talvez por já ter percorrido muitas florestas, achou que se sentiria melhor em uma. Caminhando duzentos metros chegou a uma grande trilha, por onde normalmente transitavam os excursionistas. A mesma pela qual entrara na cidade.
Sua roupa... bastou alguns metros de caminhada a céu aberto para que ficasse encharcada.
Por que as coisas tinham de ser tão complicadas?
Já estava com raiva da própria decisão de ter saído. Todavia, já molhado, não viu grande benefício em voltar. Até que era algo diferente... um gesto impulsivo, andar na chuva sem preocupação com as roupas. Sentiu-se mais aliviado por um momento.
Enveredou trilha adentro.
(...)
Caminhava a passos largos e não tinha ninguém por perto. Nada mais se ouvia além da chuva e uns poucos trovões.
" Dane-se a tempestade... "
Persistiu caminhando e pensando. Achou que a chuva não seria um incômodo, só que esta foi ficando mais e mais pesada, convertendo em lama o solo abaixo de si.
Escorregou... O pé esquerdo deslizou um pouco na lama, sujando seus tênis e a ponta da calça, mas conseguiu firmar-se e evitou uma queda patética.
Encostou-se numa árvore, a respiração alterada... passou a ouvir a chuva e seus próprios batimentos. Deu-se conta que estava cansado e não por nada. Caminhar por sobre um lamaceiro daqueles era tarefa árdua. Os pés afundavam, a roupa pesava, e não enxergava direito, com a chuva a bater-lhe contra o rosto.
Tomou a decisão de parar. Ao menos até que retomasse o fôlego necessário para fazer o caminho de volta.
Embrenhou-se um pouco mais na mata, procurando um lugar seguro. Foi aninhar-se ao pé de uma árvore gigantesca.
Sentado, começou a reparar em outra coisa... o frio. Natural, com as roupas molhadas do jeito que estavam. Encolheu-se e desejou que a chuva passasse logo. Desejou não ter feito a besteira de sair do quarto.
Agora estava lá, ainda triste, só que também cansado e com frio. A graça daquela empreitada havia durado pouco. Ao menos estava abrigado da chuva.
Vislumbrava um pedacinho da trilha por entre as árvores quando viu passar correndo um vulto. Pela altura, certamente um pokemon. Levantou a vista, mas já tinha passado. E tão mal passou, veio outro, também esgueirando-se pela beira da trilha.
Teria algum treinador por ali?
Timidamente levantou-se e foi andando devagar.
"Será que eu não vi ele passar? "
Supôs que o treinador deveria estar à frente de seus pokemons e que provavelmente teria passado enquanto ainda escolhia um lugar para sentar-se. Por isso, ao chegar na beira do caminho, olhou na direção que os pokemons tinham seguido, na expectativa de vê-los. Realmente os viu, ao longe, mas nem sinal de treinador.
– Satoshi...?
Gelou. Não tinha como confundir aquela voz...
– Shigeru...?
– O que você faz aqui, no meio dessa chuva...?
Não respondeu... o susto tinha sido maior.
– Fala!
– Você... não ia para outra cidade?
– É, eu ia, mas houve uma mudança de planos e... como você sabe??
– Err...o professor me disse...
– Meu avô não aprende! Não tem nada que dizer pra onde vou ou pra onde deixo de ir! Isso não é da sua conta!
Falou com tal rispidez... feriu Satoshi sem sequer desconfiar.
– Diga isso a ele e não a mim!!
Shigeru riu...
– ... aposto que você é que pergunta...
– Eu?? Pra que eu ia querer saber isso??
– Você sabe que sou um vencedor e por isso fica me seguindo, na esperança de descobrir alguma fórmula mágica... — riu com vontade — Não existe fórmula mágica, Satoshi. É meu talento natural e isso você nunca terá! Acostume-se... e da próxima vez que falar com meu avô direi que não quero que ele diga onde eu vou pra você. Não quero você atrás de mim, perdedor!!
Satoshi sentia-se ainda mais humilhado que no sonho. Não podendo se conter, empurrou Shigeru com força, e este só não caiu porque foi dar com as costas numa árvore.
A primeira coisa que pensou foi em revidar, quando ouviu Satoshi dizer perturbado...
– Não é por causa disso que eu pergunto !
Deu-lhe as costas e foi sentar-se de novo.
Shigeru ficou em silêncio... então ele perguntava realmente? Não pensou nisso quando falou. Era bem típico do avô falar mais que a boca e quase sempre também dizia a ele onde Satoshi estava. Não pensou que Satoshi perguntasse por ele.
Por que fazia isso?
Ficou curioso, entretanto um empurrão era um empurrão. Não deixaria barato.
" Por que ele não muda?? "
O riso, o escárnio... tudo igualzinho ao menino de preto no sonho. Enfim, esse era Shigeru. O de branco, gentil e desejável, só existia em sonho mesmo.
Encolhido, Satoshi ouviu seus passos na lama...
– Escuta aqui!
Recebeu um chute fraco nas pernas...
– Acha que pode me empurrar assim, fracote?!
– Me deixa!!
– Não, não deixo!!
Outro chute... Satoshi firmou as mãos no chão e encarou-o raivoso...
Shigeru pareceu não se intimidar.
– Vem, fracote!!
Foi a deixa. Satoshi deu vazão a sua raiva e partiu pra cima. Deu um bote na cintura do rival com tanta força que foram ambos para a lama. E rolaram... rolaram pateticamente.
Estranhamente não se viu nenhum soco, embora qualquer um dos dois pudesse acertar facilmente o rosto do outro. Ficaram apenas tentando imobilizar-se, e Shigeru levou a melhor.
– Por que você pergunta !?!
“...?”
Satoshi não entendeu e nem ligou muito... estava mais preocupado em soltar-se.
– Me solta!!
– Por que você pergunta por mim...?
Ah...agora havia entendido!
– ....?
A pergunta surtiu o curioso efeito de paralisar ambos. Shigeru ficou visivelmente sem jeito em fazê-la e isso quebrou o timbre hostil da voz, por mais que tenha se esforçado em mantê-lo. Satoshi notou tudo isso e, por sua vez, ficou igualmente desconcertado, pego de surpresa pela inesperada questão.
Coube a ele tomar a evasiva típica – fazer-se de idiota.
– Do que você tá falando...?
Uma evasiva e ao mesmo tempo um teste... Shigeru repetiria a pergunta?
– Bah!
Não. Com um movimento brusco, saiu de cima de Satoshi e pôs-se de pé.
Por um longo minuto permaneceram cada qual olhando numa direção e realinhando as roupas na medida do possível. Estavam ambos sujos de lama e isso os constrangia, além do já natural constrangimento de quem brigou e não sabe bem o porquê. Só não se pode falar em silêncio, porque a chuva prosseguia firme.
Apesar dos pesares, Satoshi sentiu-se culpado. Afinal, partira dele a primeira agressão física. Conhecia o gênio de Shigeru... não devia ter caído tão fácil nas suas provocações. Se bem que isso era cada vez mais difícil. Seu estado de humor piorava a cada dia. E por causa de quem? Shigeru! Passava tanto tempo esperando a chance de vê-lo, mesmo que de longe, e de repente o encontrava assim, de cara, pra ouvir o quê? Provocações! Ah, não! Isso não está certo!
“ Não está certo! Não está certo!”
É. Não está. Porém...
“ ... eu não devia ter empurrado ele...”
Forçou-se um pouco, a voz saiu baixa...
– Shigeru...
O outro virou-se devagar, um ar de contrariedade, de quem não quer assunto.
– Que foi...?
– Desculpa.... por ter te empurrado...
Shigeru virou a cara sem cerimônia, provocando-lhe raiva e tristeza, em medidas iguais. Não encontrou ânimo pra dizer coisa alguma, então encostou-se na árvore e lá permaneceu, olhando o chão. Lá estava o objeto do seu desejo, e não podia obter mais dele que desgosto. Como sempre. Quis sair dali e também quis ficar. Sentia-se ridículo em reconhecer isso, mas preferia olhá-lo e pagar com todos esses dissabores a perdê-lo de vista novamente.
Aquela briga... e a pergunta de Shigeru? Ocorreu-lhe isso, num lampejo... e a pergunta de Shigeru, o que significou? Porque quis saber a razão dele sempre perguntar sobre seu paradeiro? Que resposta queria ouvir naquele momento?
“ Nunca foi fácil te entender, Shigeru...”
Ficou a observá-lo, de costas, ar distraído, olhando a chuva. Os trovões pareciam aproximar-se.
Via-lhe beleza, de qualquer jeito, mesmo ensopado de lama. Embora o usual efeito de suas rebeldes mechas de cabelo ficasse prejudicado, a roupa colada ao corpo lhe destacava os contornos e...
– Satoshi?
– Ahn?!
– Por que tá me olhando...?
Nem percebera que ele tinha se virado...
– Nada... – respondeu, forçando pouco caso.
– Então não olhe.
A frase era de uma secura cortante. Mas Shigeru não tornou a virar-se. Ficou olhando diretamente para Satoshi, que percebendo isso, sentiu-se na urgência de dizer algo...
– Cadê suas coisas?
Shigeru limitou-se a apontar duas bolsas médias, protegidas da chuva num canto próximo.
– Ah...
Tornou ao silêncio. Satoshi quis falar algo, sem saber o quê, e não conseguiu. Ficou quieto, percebendo recrudescer a chuva.
– Parece que não poderemos seguir viagem por enquanto.
Foi tudo que Shigeru disse e não obteve resposta.
Ficaram lá.
Sem se olhar...
Sem se falar...
Chuva maldita...
...ou não?
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