Caminho para a distância
3 No olho da tormenta, a paz
A chuva não dava trégua...
Satoshi, novamente sentado ao pé da árvore, mantinha os olhos fechados, como se fosse cochilar.
Claro que não iria e nem queria. Estava perturbado demais pra isso.
Um dia estranho, que havia decidido encerrar logo cedo, mas que um impulso estendeu até a imprudente andança na chuva e ainda promoveu um encontro com Shigeru, com direito até a rolar na lama. Lembrava-se disso a cada vez que um pé de vento atingia suas roupas úmidas e o frio lhe tomava o corpo. Pra que foi sair da cama? Tinha tudo para estar arrependido.
Não estava.
Olhou adiante... a uns quatro metros dali, estava Shigeru, sentado também, encolhido, olhando a chuva. Estava de costas, por isso podia observá-lo bem, sem o risco de ser percebido.
Os anos tinham feito dele alguém bem diferente do garotinho de antes. De corpo, era parecido com Satoshi, apenas um pouco mais alto. Seu rosto tinha ganho feições adolescentes, sem perder nem um pingo da beleza de antes. Sua voz não era mais a de criança, mas também não propriamente grossa. Estava num meio-tom, suave e firme.
Riu baixinho enquanto reparava no cabelo de seu rival, normalmente belo, um castanho bem escuro, atiçado por um corte que o deixava dividido em mechas mais ou menos iguais. Toda essa beleza estragada pela lama.
Suas roupas, igualmente enlameadas e coladas ao corpo, completavam a figura trágica.
Ainda assim, via-lhe beleza. Achava engraçado, mas não que o tornasse feio. Tornaria feio para qualquer outro, para ele não.
Ia fechar os olhos de novo, quando enfim viu algum movimento. Ficou observando, enquanto Shigeru puxava a blusa, tentando descolá-la do corpo e conforme ela descolava num lugar, colava noutro, irritando-o ainda mais.
Novamente achou graça.
Vendo que não teria jeito, Shigeru tirou a camisa.
É... isso mudava tudo....
Pobre Satoshi... por mais que tentasse, não conseguia desviar o olhar daquele corpo. Por baixo não estava sujo, já que a blusa ficara com a maior parte da lama. E mesmo que estivesse... aquele corpo assim exposto despertava certos pensamentos, pensamentos que ele tentava afastar, em vão.
Sua temperatura deve ter subido alguns graus só por conta daquilo.
" Isso é ridículo... "
Esfregou o rosto com as mãos, lentamente, mesmo sentindo a terra nas palmas arranhar-lhe a pele.
" Como é que pode...?"
Pode podendo, Satoshi. Dar voltas não adiantava. O fato era que Shigeru o atraía. Bem verdade que quase às vezes era de uma forma mais psicológica. Porém, vê-lo sem camisa trazia à tona aspectos menos psicologicos daquela atração. Não era a primeira vez que debatia consigo essa questão. A presença ao vivo de Shigeru era dispensável para que Satoshi percebesse sua atração pelo menino. Mesmo separados, ele estava em seus pensamentos. Já tentara parar com isso mais de uma vez, e em todas sabia que não adiantaria, como de fato não adiantou. Desde algum tempo, aceitava razoavelmente essa verdade, mas vez por outra oscilava.
Não poderia ser diferente? Não sofreria bem menos se fosse diferente? Que fosse por um garoto, mas pelo menos não aquele!
Esse último pensamento o incomodava... não sabia o porquê.
Absorto nessas reflexões, não reparou que Shigeru o observava discretamente por sobre os ombros.
– Satoshi!
Despertou...
– Ahn...?
– Tá me olhando de novo... que foi?
– Que foi o quê?! Não posso??
Arrependeu-se na mesma hora.... mas já estava dito.
– Pode...se você gosta... – disse isso com a indiferença de quem não ouviu nada de mais e deu de ombros.
“......?!?”
– Não... não! Eu não gosto! Só estava distraído!
Recebeu um olhar hostil como resposta... outra vez não compreendeu o motivo. Fechou os olhos. Shigeru voltou a olhar a tempestade, que piorava um pouco mais.
Não durou dois minutos... levantou-se, apanhou suas bolsas e, sem explicação alguma, veio sentar-se ao lado de Satoshi, ao pé da árvore. Emburrado, enlameado e sem camisa.
A temperatura de Satoshi subiu mais alguns graus.
Procurou algo pra falar...
– Cara... você vai ficar doente! Sem camisa nesse tempo!
– A camisa tá cheia de lama... – Shigeru respondeu sem nem olhar para ele.
– Mas pode fazer mal... pega outra...
– Você é minha mãe, por acaso?
....
– Não... não sou. Faça o que quiser.
Fixou-se na chuva e fingiu não ligar pra mais nada, embora sua atenção estivesse toda no corpo ao seu lado.
Subitamente, por nada, Shigeru embolou a camisa e atirou com força na direção da trilha. Esta afundou lentamente numa poça de lama. Satoshi olhou-o... parecia tenso.
– Tá maluco...?
Shigeru não respondeu. A fisionomia fechou-se mais...
" Por que ele tá tão nervoso? "
– Shigeru... – falou com todo o tato possível — ...algum problema?
– Nenhum.
Não queria conversa.
Começou a ventar forte.
" Era o que faltava..."
A tormenta deu uma guinada significativa em termos de violência... rajadas de vento sacudindo as árvores, chuva mais pesada, e os raios, até então tímidos, passaram a marcar presença. O centro da tempestade devia estar passando sobre a cabeça dos dois garotos.
Os trovões foram se tornando mais intensos.
Olhou para Shigeru, que tremia de frio...
– Shigeru... veste uma camisa, cara...
Entre as batidas dos dentes, respondeu um "Tá...".
Depois, timidamente, esticou a mão até a bolsa, abriu e procurou uma camisa. Mas não parecia normal. Tremia, tinha a fisionomia tensa e olhava pra cima a cada novo estrondo.
Puxou apressado a primeira camisa que encontrou, vestiu. Depois se encolheu.
A cada trovão, encolhia-se mais. Fora o fato de que continuava tremendo muito.
– Shigeru...
Virou-se para Satoshi, uma expressão assustada, mas nada disse.
– Que foi, Shigeru...?
Olhou pro chão... parecia envergonhado.
– Nada...
Outro estrondo, um galho despencou ali perto. Os dois se assustaram, Shigeru bem mais que Satoshi.
– Satoshi…
– Ahn... fala...
Chamou mas não disse nada. Satoshi olhou-o mais um pouco, preocupado, até que deu por si...
– Shigeru... você ainda tem medo de raios?
Timidamente, fez que sim com a cabeça.
– Depois de todo esse tempo...
De fato, quando ainda crianças, Shigeru desaparecia para dentro de casa tão logo se ouvissem trovões, mesmo que os raios ainda não fossem visíveis. Nunca soube o porquê. No entanto, isso eram memórias de infância. Nunca imaginaria que esse medo ainda se preservasse.
Essa reflexão foi cortada por uma luminosidade intensa, de uma descarga que caiu bem próxima dali. Seguiu-se a isso um estrondo ensurdecedor.
– Nossa! Essa foi pra valer mesmo... Se você tem medo dessas coisas, tá perdido... hehehe...
Silêncio.
– Shigeru...?
Colado à arvore, paralisado, olhando fixamente para o lugar onde o raio caiu — assim estava Shigeru naquele momento. Alarmado, Satoshi pôs uma mão no seu ombro e sacudiu-o de leve...
– Cara! Se liga! Não é pra tanto...
– Eu quero ir embora daqui...
Era pra tanto. O pavor na voz não deixava dúvida... era um medo daqueles com os quais não se discute. Por isso a aproximação dos trovões o havia deixado tão tenso. Por isso havia vindo sentar-se próximo e aguentou mudo, até que não pôde mais e teve de chamar por Satoshi.
– Nós vamos, Shigeru... assim que der...
– Eu quero ir embora!
Sua voz tinha um tom de quem ia chorar. Satoshi ficou sem ação. Não tinha muito o que dizer, pois fobias não se vencem com argumentação. E quanto a fazer algo, estavam ambos presos ali debaixo daquela árvore até que o pior passasse. Limitou-se a observar Shigeru. Depois pôs uma mão no seu ombro e apertou um pouco, como que para trazê-lo de volta à razão. Shigeru conservava-se tenso e silencioso. Não encarava a tormenta, preferindo olhar para o chão.
Novo estrondo. Shigeru encostou-se ao seu corpo, ofegante... Satoshi pensou bem...
" Pro inferno se ele não gostar... "
Passou o braço por trás de seus ombros e puxou-o pra si. Um meio-abraço.
Shigeru não reclamou nem um pouco. Ao contrário, achegou-se mais, como se pedisse para ser abraçado com mais vigor.
Satoshi teve de controlar o nervosismo. Toda aquela proximidade, de repente...
E quando acabassem os raios?
" O depois a gente deixa pra depois "
Abraçou Shigeru com mais força, aproximando seu rosto dos cabelos do assustado garoto. Não ligava que estivesse sujo de lama... os dois estavam. Só queria estar o mais perto possível... nunca soubera bem porquê, mas queria isso há tempos, e essa era sua primeira chance. Sentiu uma certa culpa por estar pensando nisso. Era como se estivesse aproveitando-se da situação. Olhou as mãos de seu garoto rebelde, encolhidas contra o corpo... viu que seus dedos tremiam, e era de medo, não de frio... de medo... e sentiu mais culpa, porém nisso seu pensamento fez uma volta... Os dedos dele tremiam de medo, Shigeru todo tremia de medo. E pra fazer passar seu medo, fazê-lo sentir seguro, não havia nada melhor que pôr pra fora seu desejo de protegê-lo. Protegê-lo de tudo.
Se acaso também fosse frio, faria passar cedendo-lhe o próprio calor. Estando próximo... muito próximo.
Chegou a pensar nesses exatos termos e achou tudo muito poético. Não se importou...era poético mesmo. Tanto quis abraçá-lo, por tanto tempo, que agora quase desejou que os raios durassem mais. Não durariam, infelizmente.
Shigeru estava alheio a tudo isso, mais preocupado com os trovões que ainda sucediam-se fortemente. Aninhado como estava, os braços de Satoshi à sua volta, seu único impulso era apertar o corpo de seu protetor cada vez que ouvia um novo estrondo.
– Shigeru... tenta ficar calmo...
– Não dá... — a voz ainda era de choro.
– Você tá me deixando preocupado...
Agarrou-se ao pescoço de Satoshi, visivelmente alterado, e escondeu o próprio rosto junto ao dele.
“ Não fica assim...”
Ouvia claramente sua respiração, imaginando como Shigeru devia estar amedrontado para chegar a se aninhar nele dessa forma. Estava fragilizado de uma forma que nunca vira antes, e isso lhe cortava o coração. Mudou de idéia, e passou a querer que aquele momento acabasse logo, pelo bem do seu menino. Abraçou-o como pôde e ficou quieto, esperando que aquilo passasse algum senso de proteção.
E conseguiu... Shigeru foi se acalmando, aos poucos...
Os trovões iam se afastando...
Os minutos escorreram devagar...
Continuava a chover forte, porém o pior passara. Os trovões eram ouvidos ao longe, e a ventania havia sido substituída por um vento leve.
Satoshi ficou esperando. Aproveitando os momentos daquele abraço, que sabia serem os últimos.
E lentamente Shigeru retomou o controle. Ainda respirava forte, como se houvesse corrido uma grande distância, e tremia um pouco.
Desgarrando devagar de Satoshi, sentou-se frente a frente com ele, meio metro de distância, e cruzou as pernas. Olhava para baixo e tinha as mãos apoiando o rosto. Parecia triste...
– Tudo bem com você...?
Demorou mais de um minuto para vir a resposta. E quando veio...
– Fiz papel de idiota, não?
Um misto de vergonha e raiva na voz...
– Do que você tá falando...?
Não respondeu, apenas balançando negativamente a cabeça.
– Shigeru... todo mundo tem algum medo...
– Droga!! E justo aqui, com você!
Continuava olhando pra baixo, irritado demais para encarar aquele que o tinha acolhido minutos atrás.
– Shigeru! Olha pra mim!
Estranhamente obedeceu, talvez pela raiva estampada naquela ordem.
– Será que... — parou, meneou a cabeça — ...será que é tão humilhante ter precisado de mim pra alguma coisa?
– Não posso ter medo de raios!
– Qual o problema — o medo ou eu?!?
– Ah, cara...
– Sem essa de "Ah, cara" !! Qual o problema de ter sido justo aqui, comigo?!
Shigeru não respondeu.
Ficou um quase silêncio... só o ressoar de um trovão solitário e distante...
– ...só você mesmo pra perguntar algo assim...
– Eu quero que responda!
– Mas eu não quero responder, me deixa...
Satoshi reparou... o tom daquelas frases não era de arrogância e zombaria, como usualmente. Parecia estar sendo franco ao dizer que não queria responder. Como se a pergunta o perturbasse.
" Droga!! "
Respirou fundo... precisava de calma.
– A chuva tá passando... — Shigeru observou, enquanto se levantava.
– É... tá mesmo... – respondeu indiferente.
– Bom... acho que já dá pra eu seguir meu caminho — algo se movia no mato — Ah! Aí estão vocês!
Três de seus pokemons cochichavam, completamente molhados. Haviam ido na frente e voltado ao notar a ausência do mestre. E provavelmente preferiram não interromper o diálogo dos dois amigos. Era mais divertido perambular pela floresta.
– Voltem já!
Num minuto Shigeru recolheu os três em suas pokebolas. Depois olhou pra Satoshi, que continuava sentado, o semblante tenso, a vista voltada para o chão...
Pobre Satoshi... Nunca esperou grandes agradecimentos da parte de Shigeru, mas no mínimo ele poderia ter sido menos rude. Como sempre, queria só o básico. Logo, queria demais.
– Você vai ficar aí...? – perguntou Shigeru.
– O que vou fazer ou não é problema meu.
– Você não está hospedado nessa cidade?
– Estou, e daí ?
– Então melhor vir...
Shigeru não parecia realmente preocupado se ele iria ficar ou não...
– Problema meu.
– Deixa de ser cabeça dura...
– Vai pro inferno!
– ... vem logo...
... no entanto, apesar de não parecer preocupado, insistia bastante.
– Que diferença faz pra você se eu vou ou não?
– Se continuar aqui, molhado assim, pode ficar doente.
– E você acaso liga pra minha saúde?
– Ligo.
Esperava tudo, menos que ele dissesse "Ligo". E o curioso é que dizia que ligava, porém num tom de indiferença. A resposta e o tom da resposta apontavam em direções contrárias.
Cansado fisicamente e sem vontade para discutir mais, pôs-se de pé e passou pelo seu "rival", ganhando rapidamente a trilha por onde viera.
– Vamos logo, então.
Shigeru riu...
– Melhor assim... um treinador doente por ficar pegando chuva na floresta seria o cúmulo do amadorismo. Nossa geração seria rotulada como perdida.
Satoshi sentiu a raiva ocupar-lhe todos os espaços. Era um gracejo comum e até bem inofensivo, comparado aos que normalmente ouvia. Mas dito naquele momento teve um efeito enorme.
Tinha dito que ligava, só para depois alfinetar isso.
Repensando tudo, aquela experiência estava oscilando entre o agradável e o insuportável. E pensar que tinha gostado de abraçá-lo...
...e pensar que ainda gostaria...
Sem sequer virar-se, deixou escapar uma única palavra...
– Imbecil...
E saiu caminhando a passos largos.
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