Abriu os olhos devagar.

Não era a luz da manhã que o acordava... tinham fechado bem as cortinas. Já dormira o bastante, o suficiente para descansar o espírito do dia anterior.

Que dia!

Espreguiçou-se lentamente... agarrou um travesseiro...cerrou os olhos de novo, dando o primeiro sorriso. Dedicou-se a lembrar aqueles bons momentos... Shigeru confessando que gostava dele, o beijo, os beijos... os muitos que vieram, depois que se soltaram mais....

....os agarrões....

Apertou o travesseiro com força.

Até que foram bem ousados para quem tinha acabado de começar. Shigeru era o mais folgado, já queria meter-lhe a mão por baixo das roupas. Satoshi era resistente... Dizia-lhe apenas “Devagar, Shigeru... calma... tá indo muito rápido...”.

Shigeru era afoito. Não que Satoshi não quisesse fazer umas coisinhas a mais com ele, porém tudo ainda era muito novo. Preferia um ritmo mais lento, para que tudo fosse bom como planejava. Tinha medo do desconhecido, porque era tudo desconhecido, mesmo vindo daquele que amava.

Que modos charmosos tinha seu menino! Shigeru às vezes parava tudo por uns segundos, depois passava do altamente sexual para o calmo... olhava-o no fundo dos olhos... mexia no seu rosto devagar, com um jeito delicado, ou como um felino cansado. Aquilo tudo dava-lhe um frio e um calor, uma paz e um tesão, uma timidez de querer desviar o olhar lutando com uma vontade de ser possuído... pelo olhar, pelos lábios, pelas mãos, por aquele corpo...

Apertou o travesseiro mais...

Naquelas horas não dizia nada. Ficava mudo também, observando, sem mexer-se, aguardando o próximo gesto. Suspenso no silêncio. E daí a pouco Shigeru encerrava o momento contemplativo com um beijo longo e tornava à quase-aflição sexual de antes. Satoshi chegava a achar graça daquele ímpeto todo; às vezes ria, e Shigeru invariavelmente perguntava do que estava rindo. Como insistia em responder “Nada.. nada...”, e continuava rindo, acabava por ser beijado e amassado com mais força. Um doce castigo.

Correu-lhe na cabeça um desses momentos, que foi diferente dos outros porque resolveu responder.

– Do que tá rindo? – questionou Shigeru, apoiando os cotovelos na cama e encarando Satoshi com ar dissimulado de cachorro confuso.

– Ah... de você... dessa sua pressa toda... – falou e mexeu-lhe nos cabelos.

– É que eu gosto de você e... você é gostosinho...

Satoshi soltou uma risada com aquela resposta.... “Gostosinho...”. Achou graça do termo, mas um pouco de seu riso foi pra disfarçar o quanto ficou sem jeito.

– Tá... mas do jeito que você fica, parece que quer me devorar...

Houve silêncio curto...

– Eu quero.

E um silêncio longo...

– Ahn... err....

Sabia que Shigeru não faria nada além do permitido naquele momento. Pensou em mais pra frente, quando tivessem mais intimidade... veio-lhe a palavra “devorar”...

... ser devorado...

Subiu um calor...

Inda mais que no meio dessas reflexões, foi apanhado por uma língua provando seu pescoço, devagar... muito devagar...

Quase perdeu o juízo naquele momento, e teve que descarregar de algum jeito. Enfiou a mão por baixo da bermuda de Shigeru, que soltou um gemido quando ele lhe agarrou o membro duro.

Certamente não esperava aquilo do acanhado Satoshi.

Este, por sua vez, apalpou devagar, de olhos fechados – talvez pela timidez – mexeu um pouco, depois trouxe Shigeru para junto de si e deu-lhe um beijo longo e denso... tortuoso... perturbado.

Transpirava sexo quando enfim afastou seus lábios, soltou Shigeru e, ainda de olhos fechados, deu um longo suspiro....

– Ainda não... ainda não...

“Aaaaahhhhh !!”

Jogou o travesseiro longe e espalhou-se pela cama.

Podia ficar ali, relembrando aqueles bons momentos, por horas. Ou podia levantar-se e ter outros mais. O que esse novo dia traria de bom?

Olhou a outra cama. Shigeru ainda dormia. Sim, quando cansaram de se amassar, dormiram em camas separadas. Seria pouco confortável dormirem na mesma. E tentador demais.

Deixou-o quieto e foi para o banheiro fazer as coisas que se faz de manhã. Ficou com as mesmas roupas escuras que já vestia. Gostava de preto ultimamente.

Quando saiu do banheiro, deu de cara com Shigeru levantando.

Ia dar-lhe bom dia, mas ele cruzou o caminho tão rápido que não foi possível, indo direto para o banheiro. Não fechou a porta nem disse nada. Morosamente, jogou água no rosto, enquanto Satoshi observava, sentado na beirada da cama.

– Bom dia...?

Recebeu apenas um aceno de mão em resposta.

“Será que está mal humorado...?”

Pensou imediatamente que o garoto tinha se arrependido de tudo, que iria se arrumar, sair apressado e ir pra longe dele, o mais longe possível. Alheio a essas especulações, Shigeru lavou o rosto e, antes mesmo de pentear os cabelos, veio em sua direção. Parou, inclinou o corpo até alcançar-lhe os lábios. Deu-lhe um beijo sonolento e úmido.

– Bom dia...

É...talvez não fosse embora tão cedo...

Tornou ao banheiro para terminar seu rito matutino.

Enfim deixaram o quarto e procuraram café da manhã. Na própria hospedagem acharam o bastante. Coisa simples, um sanduíche e um suco pra cada. De volta ao quarto, comeram lado a lado, sentados sobre o tapete, com as costas apoiadas em uma das camas.

Algo incomodou Satoshi naquele momento e não foi a comida.

Não sabia como tratá-lo?

É... talvez. Não estava acostumado a sequer estar perto dele, e muito menos na qualidade de... amante? Complicado isso... não sabia bem como se portar, o que dizer. Na noite anterior o instinto o conduzira, mas ainda precisava assimilar esse novo cotidiano.

Não que isso incomodasse muito, contudo viu-se várias vezes querendo dizer algo naquele café da manhã, qualquer coisa que fosse, querendo e não conseguindo, até por não achar um assunto em comum. E a cada uma dessas tentativas, os lábios hesitavam, mas os olhos permaneciam no garoto ao seu lado, que por fim acabou reparando.

– Que foi?

– Ahn...

– ...sem fome?

– Não...

– Sem jeito? – arriscou.

– ...um pouco.

Shigeru deu mais uma mordida e, meio com a boca cheia, respondeu...

– Você se preocupa demais...

Satoshi olhou-o, seu jeito despojado... achou-o extremamente sexy...

– Você não parecia sem jeito ontem... hehe...

Satoshi corou um pouco...

– Ontem estava no clima.. hehe...

– Hoje não está...?

Não parecia ter malícia na pergunta...

– Ah... tá cedo... sei lá... eu to sem assunto... é diferente tomar café da manhã com você. Até ontem a gente só discutia e...

Shigeru começou a rir, interrompendo-o. Satoshi não entendeu o motivo e ficou calado esperando uma resposta. Meio irritado até...

– ....?

Os risinhos continuaram.

– ... que foi?! Fala!

Foi parando de rir, achegou-se mais a ele...

...pegou-lhe a mão...

...descansou em seu ombro... e parou de rir, por fim.

– Eu te amo.

Aquilo não explicava nada, porém esvaziava toda necessidade de explicação. Satoshi nada pôde responder, apenas mexeu nos cabelos do seu menino, devagar.

Desceu uma atmosfera de paz ali, sentiram-se unidos como na noite anterior. E sem dizer mais nada continuaram a comer.

***

Shigeru apenas trocou a regata azul por uma camisa preta de mangas curtas, com a estampa de um pokemon-fantasma estilizado nas costas, e desceram os dois. Deram bom dia pra vovó da recepção, que colocava alguns tapetes pra fora. Depois tomaram o caminho da rua.

– Vou ligar pro meu avô, Satoshi, do terminal de vídeo.

– Tá...

– Vem comigo.

– Eu espero você...

– Vem, pô!

Não entendeu o porquê, mas foi. Chegaram ao monitor. Satoshi encostou-se na parede, enquanto Shigeru passava o cartão, digitava a senha, checava algumas coisas, uns serviços pessoais.... e novamente achou-o atraente, pelo conjunto da obra. Observou-o discretamente, enquanto aparentava olhar para o nada, as mãos nos bolsos.

Depois de alguma espera, a imagem do cientista apareceu na tela.

– Então acabou mudando de rumo?

– É... mas meus planos mudaram. Acabei vindo pra cá e daí veio uma tempestade daquelas. Me hospedei por aqui mesmo...

Satoshi prestava atenção na conversa, por motivos óbvios...

– Talvez eu fique mais um tempo. Vai ter um evento aqui.

– Quanto tempo?

– Uns dias, não sei ao certo.

...queria saber se iria ser citado em algum momento.

– Tem outro motivo também. Eu encontrei o Satoshi. Estamos hospedados no mesmo quarto.

Satoshi gelou. Não era bem o que esperava.

– Quero ficar um tempo ao lado dele. Temos coisas pra colocar em dia. Ele é uma pessoa importante pra mim e acho que eu posso deixar a jornada de lado um tempinho pra ficar com ele.

Precisava detalhar tanto? Não sabia de onde Shigeru tirava tanta espontaneidade, considerando-se que toda aquela situação era nova. Mas sempre teve uma personalidade forte.

– Até que enfim se entenderam... – o velho deu um meio suspiro. Não parecia surpreso — Onde ele está?

– Ah, quase me esqueci... tá aqui!

Puxou Satoshi pelo braço, trazendo-o para frente do monitor.

– ..err... oi, professor!

– Olá, Satoshi! Então pararam de se bater e ficaram amigos de novo?

– ... é... acho que sim...

Nisso Shigeru enlaçou-o pelos ombros. Quis sumir dali... o que o professor pensaria daquilo tudo?

– Ele é meio tapado, vovô... não estranhe.

– Eiii...!

– Fica acanhado por qualquer coisa.

O velho deu uma risada.

– Mal recuperou o amigo e já está colocando defeito?

– Não, não... ele é tímido assim desde que o conheço. Se não fosse desse jeito, eu não iria gostar tanto.

Não tinha como ficar mais branco depois dessa última frase. Aquelas palavras, ditas assim para o professor... Só conseguia olhar pra baixo, pros lados...

– Satoshi...

– Sim, professor...

– Não precisa ficar sem jeito...

– ....

– Não é isso que você queria?

– É...

– Então sorria! – interrompeu Shigeru, agarrando-lhe as bochechas e as esticando. O velho apenas riu novamente.

– Ai! Não faz isso!

– Vocês dois...

Os dois olharam pra tela...

– Cuidem-se. Preciso ir agora.

Shigeru disse mais algumas coisas e encerraram a conversa.

– Shigeru...

– Quê..?

– O seu avô... ele.....

– Não... – adiantou-se – Somos só amigos para ele. Não se preocupe.

– Você foi tão extrovertido falando com ele...

– Ah, ainda assim me incomoda. Se o mundo não fosse do jeito que é, eu diria a todos que te amo, mas... sabemos como é, né... De qualquer jeito não vou esconder que gosto de você. Se ele ou qualquer outro achar meu jeito estranho para o de um amigo, problema deles.

Satoshi apenas sorriu. Se antes tinha confessado que o maltratava para fugir do que sentia, agora que as coisas estavam resolvidas parecia muito seguro de si. Não sabia se era o ânimo do momento, contudo ao menos por ora seu menino pareceu tão maduro... sentia-se acalentado, protegido, porque não tinha toda aquela segurança e certamente não agiria de uma forma tão despojada.

Olhou-o discretamente e teve vontade de fazer amor com ele.

E essa vontade o acompanhou pelas horas seguintes.

Não fizeram nada de mais, apenas mataram tempo olhando algumas lojas. Falaram pouco, porém mais do que no quase lacônico café da manhã.

Mais tarde foram almoçar numa lanchonete ali perto e a coisa fluiu melhor. Tagarelaram sobre coisas sem importância, como fariam dois colegas comuns. Mas em nenhum momento Satoshi deixou de reparar como seu corpo subitamente pedia por aquele outro.

***

Um tempo depois do almoço, seguiram para um estádio pequeno, que começava a encher de treinadores para um evento que começaria à noite. Logo se meteram em filas para batalhas informais e só nesse momento desgarraram-se um pouco.

Satoshi teve sua vez primeiro e batalhou algumas vezes. Ganhou umas, perdeu outras. Algumas por pura distração. Estava com a cabeça em outras coisas e sequer se importou com as derrotas. Achou até graça de como, durante as batalhas, os últimos acontecimentos entravam em sua cabeça de surpresa e faziam-lhe desejar estar com Shigeru de novo, embora só estivesse sem ele há pouco tempo.

Quando terminou, seguiu para a arena onde Shigeru estava e lá ficou de espectador. Chegou bem na hora em que o garoto começava a batalhar. Passou a maior parte do tempo olhando para ele e não para a batalha. Discretamente, claro.

Shigeru ganhou poucas vezes. Parecia distraído também. Sua participação não tomou mais que trinta minutos. Pouco antes dele perder, Satoshi deixou o lugar em busca de algo para beber. Mal alcançou a primeira barraca e sentiu um braço nos seus ombros...

– Achei! – Shigeru sorrindo ficava um anjo.

– Perdeu a batalha?

– Sim sim... bobagem...

– Você não estava se esforçando nem um pouco...

– Nah... minha mente não estava ali.

– Onde estava?

– Em você hehe...

Satoshi corou... quase respondeu que havia lhe acontecido a mesma coisa.

– Notei umas pessoas olhando pra gente quando chegamos juntos... e agora também...

– Mas é só um braço nos ombros... não é nada de mais... – Shigeru quase choramingou.

– Hehe.. eu sei... não é isso... Não que tenham pensado besteira, mas são pessoas que conhecem nossa rivalidade. Devem ter achado estranho virarmos amigos assim, de repente...

– Sei... é natural.

Compraram dois copos grandes de uma bebida colorida, a qual tomaram encostados numa parede qualquer

– Também notei umas pessoas olhando... – Shigeru que falava dessa vez.

– Como você disse, é natural.

– Não estou bom pra essas coisas de batalha hoje..

– Humm... – apenas bebia.

– Por que não voltamos pro nosso canto? Assim ninguém vai ver nada nem achar estranho...

Satoshi não entendeu... o garoto tão certo de si até então, agora estava preocupado com isso?

– Não me incomoda... Incomoda você? – não era bem verdade. Incomodava sim. Mas queria sondá-lo.

– Nem. Não ligo. Acho que hoje não estou com saco pra batalhas nem aglomerações... – parecia ter algo mais a dizer, mas não disse.

– ... você que deu a idéia, oras...

– Quero ficar sozinho com você.

Agora sim dissera tudo. E dissera olhando-o bem dentro dos olhos, enquanto bebia um gole lentamente...

Satoshi engoliu seco... sua temperatura subiu...

A voz e a expressão usadas naquela frase não deixavam dúvida – Shigeru não queria simplesmente ficar sozinho para repetir as mesmas coisas do dia anterior.

Pensou em muitas respostas diferentes, mas prevaleceu a vontade que o vinha tomando há algumas horas.

– Vamos.

***

Saíram dali, pegando o caminho de volta. Andavam lado a lado, à pouca distância, olhando-se às vezes, sem dizer nada. Suas vontades haviam se alinhado, não precisavam falar muito

Rapidamente chegaram ao pequeno hotel, passaram pela recepção, tomando as escadas. Naquele ponto o silêncio já começava a incomodar Satoshi. Sentia vontade de falar para trazer a situação um pouco de volta ao comum, pois se continuassem naquele ritmo decidido, as coisas correriam mais rápido do que desejava.

Não sabia bem o que desejava. Ou sabia e tinha medo.

Ao chegarem na porta, deu um passo à frente, mas antes que pudesse girar a chave foi agarrado pela cintura, e uma língua tocou sua nuca. Arrepiado como um gato, tentou demonstrar naturalidade...

– Calma, Shigeru... calma...

A certo custo, com o outro agarrando-o, abriu a porta e entraram. Mal fechou-a e foi prensado contra ela. Shigeru olhou-o novamente dentro da alma...

.... passaram os segundos...

Beijaram-se, Shigeru amassando-o contra a porta, percorrendo-o com as mãos...

– Shi... Shigeru....

De repente Shigeru descolou-se.

– Foi um dia quente, vou tomar um banho primeiro- disse dando um sorrisinho.

– ... realmente... foi um dia quente. Também preciso de um banho...

– Vai primeiro então... vou ligar esse ar-condicionado aqui.

Antes que pudesse dizer qualquer coisa, Shigeru emendou...

– Quero te agarrar no fresquinho hehehe... – e deu-lhe uma piscadela.

Engraçado aquele garoto. De amante apressado variava pra moleque bobo, isso em alguns segundos apenas. Não poderia ser mais encantador.

– Tá bem...

Apanhou umas roupas e entrou no banheiro.

Estava nervoso. Tudo indicava que algo ia acontecer. Como não desejava esperar muito, saiu do banho rápido, vestindo uma calça preta larga e uma blusa azul-marinho. Ao abrir a porta, Shigeru já aguardava com roupas limpas em mãos.

– Minha vez!

Sorriu e entrou no banheiro. Dessa vez não beijou, não passou a mão, não fez nada... Parecia menos afoito. Satoshi até arriscou um gracejo...

– O pervertido foi dormir?

Congelou, virou-se, uma fisionomia quase vilanesca...

– Espere eu estar limpo...

E fechou a porta.

Pra que foi brincar? Agora estava nervoso outra vez... Sentou na beira da cama.

Definitivamente, Shigeru pretendia algo. Dava pra sentir em sua voz..

Mas o que ele, Satoshi, pretendia?

Ouviu o chuveiro ligar...

Precisava resolver-se... não tinha muito tempo. Logo o garoto sairia do banho... Shigeru parecia saber o que queria e não era pouco. Desejava-o também, mas aquilo tudo era muito novo...

Vinha na cabeça a palavra “sexo” repetidas vezes.

Ficou dando voltas, sem concluir nada, a favor ou contra. Acabou se perdendo em devaneios, ouvindo o som do chuveiro.

E nisso o chuveiro desligou.

Ops... não tinha mais tempo. Racionalizou a questão – afinal, era só Shigeru e não um estranho. Se não quisesse algo, com certeza poderia contar com a compreensão de seu menino.

Queria algo? Tinha certeza que sim, só não sabia se tão rápido. Sua vontade era suficiente para ao menos provar um pouco. Era tímido, porém desejava Shigeru... muito.

A porta do banheiro abriu....