Caminho Incerto
7 5 - Diogo
Estava a sair de casa, mal tinha amanhecido. O sol estava ainda a nascer, hoje preciso estar bem cedo na faculdade temos a recepção dos caloiros e eu o Vice Presidente da Associação de Estudantes tenho que fazer a minha parte, se bem que esta cena das praxes não é a minha praia. Mas enfim o dever acima de tudo, e quando entrei na AE fiz os meus juramentos.
Não sei, mas há algo de "animalesco" em toda esta coisa de nos colocarmos acima destes miúdos que entram neste mundo da faculdade. Sei lá chamem-me o que quiserem: betinho, menino de coro; a vida da universidade já é tão complicada e competitiva, para quê complicar ainda mais esta nova fase a estes miúdos? Mas é como diz o povo "se não os podes vencer, junta-te a eles" e no fundo é o que eu faço, não me envolvo muito nas praxes em si apenas ajudo na logística de toda esta semana académica que tem séculos de história e por vezes quando acho que os veteranos estão a atingir limites acima do que é permitido interfiro para acabar com a brincadeira. É a única vantagem de se ser veterano e vice-presidente da AE.
Quando estava a descer a rua vejo alguém a dormir à porta da capela que existe perto da minha casa. Percebo pelas roupas que é uma mulher, não costumo ir ter com mendigos (não me levem a mal, eu sei que devemos ajudar o próximo e tal, mas "o burro morreu de velho", hoje estou numa de provérbios, e hoje em dia todo o cuidado é pouco) porém, desta vez, nem eu sei porquê, algo me fez ir até aquela pessoa que ali estava.
Quando me aproximei percebi que não era uma mulher mas uma miúda, devia ter a idade da minha irmã mais nova. Percebi que estava a tremer de frio, chamei-a uma meia dúzia de vezes e apesar de mexer as pálpebras não abria os olhos, foi quando decidi aproximar-me mais e toquei-lhe na cara: estava a ferver em febre, embora as suas mãos estivessem frias.
Não pensei duas vezes e peguei nela ao colo, estava perto de casa e com alguma sorte o meu pai ainda estaria em casa. Andei, ou melhor corri, o mais depressa que consegui, dela só lhe conseguia ver a cara quase sem cor. Finalmente cheguei, o carro do meu pai ainda estava a porta, consegui chegar antes de ele sair. Tentei abrir a porta mas com ela ao colo era impossível, toquei à campainha como um louco...
— Diogo. O que!? Quem!?- a minha mãe ficou parada a segurar na porta enquanto eu entrei e a coloquei no sofá...- Diogo, importas-te de me explicar o que está a acontecer?
— Ela está a ferver em febre mãe, estava à porta da capela. Acho que passou lá a noite, não estavas à espera que a deixasse na rua, certo?
— O quê?- a minha mãe aproximou-se dela e tocou-lhe na testa...- Temos que ir com ela para o hospital já. Rui! Mara!
— A Mara esta cá? Mas não estava de plantão?
— Chegou à pouco. Mara! Ela está pálida, meu Deus ela deve ter a idade da Rute. A dormir na rua com este frio...
— Mas para quê estes gritos todos...- o meu pai chega à sala e fica a olhar para nós e para a miúda deitada no nosso sofá...
— Mãe o que é que se passa preciso de dormir...estou...- a Mara olha para a minha mãe e para a miúda e corre até ela, assim que lhe toca já não é preciso mais nada.- Vou me vestir ela precisa de ir já para o hospital. Diogo tu vais comigo, foste tu que a encontraste a polícia vai querer falar contigo.
— Policia? Ei, eu não fiz nada, só a encontrei...- digo já com medo. Eu e a polícia não temos as melhores das relações. Digamos que a minha adolescência foi passada em más companhias e que fiz uma visita a um local não muito agradável, durante um ano.
— Ninguém está a dizer o contrário, mas ela é menor por isso precisamos de chamar a polícia e a assistência social, são os procedimentos normais. Já volto...
— Vou trocar-me também e tenho que falar para o André para o avisar que não vou hoje à Universidade.
Depois de me trocar (eu estava trajado e se bem que poderia ser normal entrar assim no hospital, afinal estamos em Coimbra, preferi ir vestido mais confortavelmente, até porque se não ia à faculdade não precisava de estar trajado) saímos os três: eu, a Mara, e o meu pai rumo ao hospital. Enquanto eu liguei ao André avisando que tinha tido um problema e que hoje não podia ir, a Mara ligou para o hospital avisando da nossa chegada, a "Anja", como eu a comecei a chamar nos meus pensamentos, estava cada vez pior a sua respiração estava cada vez mais pesada, parecia que lhe estavam a apertar o pescoço e que ela não conseguia respirar...
Quando chegamos ao hospital já todos estavam à nossa espera, a Mara entrou com eles e pediu-nos que ficássemos ali e que logo vinham falar comigo. Tinham passado uns 30 minutos desde que ela entrou mas parecia que tinha passado uma eternidade, credo até parece que conheço a miúda. Pensando bem ela não me era totalmente desconhecida, não sei de onde mas a minha "Anja" parecia-me familiar, mas de onde é que eu a conhecia? "Minha Anja"! Desde quando é que ela era minha? Estou a ficar doido: com esta espera, com estes sentimentos que não sei o que são. "Para Diogo estás apenas preocupado nada mais, ela tem a idade da Rute, para de pensar em asneiras".
— Pai, Diogo...- a Mara entra na sala onde estamos, com ela vem um polícia e uma senhora mais velha, deve ser a tal assistente social que a Mara disse que iria aparecer também...- Esta é a Doutora Teresa Franco a assistente social, e este é o Agente Pontes.
— A Dra. Mara disse-me que foste tu que encontraste a rapariga?
— Sim fui, mas como é que ela está? É alguma coisa grave?- perguntei virando-me para a Mara.
— Estamos a fazer tudo o que podemos...
— Como assim? Mara diz-me a verdade?
— Diogo! Calma, deixa a tua irmã voltar ao trabalho.- o meu pai vira-se para a Mara...- Vai eu fico com o Diogo...- A Mara saiu sem me dizer nada, mas a cara dela disse-me tudo a "minha Anja" estava mal, era grave. A Mara não me conseguia enganar, não a mim.
Ao longo dos anos aprendi a interpretar cada feição e cada gesto dela, ela é muito mais que uma irmã para mim, é alguém em quem eu confio com quem desabafo. Filha do primeiro casamento do meu pai, a mãe dela morreu quando era ainda um bebé, depois o meu pai casou-se com a minha mãe a Mara tinha apenas dois anos e a minha mãe sempre foi a sua referência materna. Três anos depois nasceu o meu irmão Miguel (que está a estudar nos E.U.A. e se bem que os meus pais tenham esperança que ele volte eu tenho a certeza que não), e passado mais três anos nasci eu. Por fim veio a nossa bebé, a mais pequena do clã Ramos e que veio um pouco de surpresa, a nossa "Ratinha Minnie", a Rute.
A dita assistente social e o Senhor Agente fizeram-me uma série de perguntas: onde a encontrei, o que estava a fazer naquele lugar, se ela tinha alguns sinais de violência, se eu tinha visto alguém nos arredores, porque é que não chamei a polícia em vez de a levar para casa, se eu a conhecia ou se me era familiar. Respondi a todas sem hesitar excepto à última "Conhece-a ou é lhe de alguma forma familiar?". Esta era de alguma forma a pergunta que eu me fazia a mim, desde o primeiro momento em que a vi. Sim eu sabia que a conhecia de algum lado, mas de onde? Acabei apenas por dizer que não, que não a conhecia. Depois de todo o interrogatório ambos nos dispensaram e foram-se embora ficando com os nossos contactos.
— Bom, já que nos dispensaram, vamos eu levo-te à faculdade.
— Não eu vou ficar, quero ter a certeza que ela vai ficar bem.
— Diogo, tu nem a conheces porque é que tu...Diogo! Tu sabes quem é aquela miúda e não disseste nada?
— Não, eu não sei quem ela é, mas...eu não te sei explicar mas não consigo sair daqui sem saber que ela está bem, e saber que ela está sozinha angustia-me.
— E a faculdade? Vais simplesmente faltar por causa de uma miúda que não conheces...
— Vou. Pai, imagina que era a Rute não querias que ficasse alguém ao lado dela, que ela não estivesse sozinha.
— Primeiro não é a tua irmã, segundo a miúda não está sozinha, está rodeada de médicos e enfermeiros e por último não vais faltar as aulas por alguém que nem sabes quem é.
— Por muito que goste de ti pai, desta vez não tens razão. Hoje fico aqui e ninguém me vai tirar daqui. Para além disso hoje não teria aulas.
— Tu és tão casmurro como a Mara...- o meu pai conhecia os filhos que tinha. E sim eu era muito parecido com a Mara quer fisicamente quer de feitio.
— Por isso nos damos tão bem. — E sorri-lhe...- Hoje fico mas amanhã vou a faculdade prometo.
— Tudo bem, mas é só hoje. Eu vou indo, tenho trabalho à espera. Até logo e vê lá se voltas cedo...- ele abraça-me e sai.
O tempo passa e não há notícias...nada, mas pensando bem ninguém sabe que aqui estou à espera de saber alguma coisa, alguma notícia. De repente vejo a Mara, ela vem ter comigo, percebo pelo seu olhar que não está muito surpresa por me ver ainda ali (eu já vos disse que só com um olhar conseguimos dizer tudo um ao outro).
— Devia ter adivinhado que não ias sair daqui sem a ver...
— Achas que posso? Como é que ela está?
— Está estável neste momento. Anda, vamos falar com o Martim, ele é o médico dela.
Depois de falarmos com o Martim, que por mera coincidência era amigo de infância da Mara (eles conhecem-se desde pequenos e foram fazendo o mesmo percurso académico...se bem que quando chegou a altura de escolher a especialidade o Martim escolheu Medicina Geral/Pediatria e a Mara optou por Ginecologia/Obstetrícia, mas continuaram amigos e por outro mero acaso conseguiram trabalho no mesmo hospital) que nos autorizou a ir vê-la. Entrámos os dois, eu e a Mara, "a minha anja" tinha fios por todo o lado percebi que continuava com uma respiração pesada.
— Ela precisa disto tudo? Mara diz-me a verdade como é que ela está? É muito grave?
— Neste momento a única coisa que te posso dizer é que ela está estabilizada. Mas não te vou esconder que a situação é preocupante...
— Eu não sei como te explicar, mas eu olho para ela e sinto que de alguma forma tenho que a proteger...
— Diogo, ela é menor. Tu sabes o que isso quer dizer, os problemas que te pode trazer. Tu tens 20 anos mas ela só deve ter uns 14 para 15 anos...
— Eu sei, achas que eu não sei, ela deve ter a idade da Rute, mas eu não consigo evitar...evitar de me preocupar...
— Bom agora que já a viste, vamos embora para casa...
— Não posso ficar, por favor...
— Não nem penses. Diogo tu não és nada a esta miúda e mete nessa cabeça que nunca poderás ser, agora vamos que eu preciso de descansar.
— Tudo bem vamos, mas vais-me contar o que há entre ti e o "Dr. Martim"? Vocês estão tipo...
— Diogo Ramos! Para tua informação entre mim e o Martim não há nada, somos só colegas e amigos...
— Amigos...sei...achas que me enganas. Eu conheço-te bem, e se voces os dois são só amigos eu sou a Pai Natal.
— Diogo...chega...já te disse somos amigos, os melhores amigos...
— Ok, vou fingir que acredito em ti...- e depois desta conversa meio séria, meio de gozo apanhámos um taxi para casa.
Sendo que não fui para a faculdade aproveitei para dormir...assim como a Mara que tinha feito plantão até às 7 da manhã nesse dia e ainda teve que voltar para o hospital por conta da "Minha Anja". No final do dia a minha mãe colocou o jantar na mesa com a minha ajuda (sim eu ajudo em casa, não acho justo só por ser rapaz deixar tudo nas mãos da minha mãe e das minhas irmãs e tanto o meu pai como o meu irmão também o fazem).
A conversa foi como sempre monopolizada pela nossa "ratinha minnie": sobre a escola, os novos professores, os colegas e suas opiniões sobre eles. Ouvindo a nossa Rute parecia que era das miúdas mais populares da escola quando na verdade era o oposto, mas para ela isso não era importante "prefiro ser apelidada de croma com boas notas do que ser popular e fútil" era a sua frase preferida. A Rute era assim: estudiosa e responsável como a Mara, aventureira e destemida como o Miguel e tímida e cautelosa como eu; era a mistura perfeita de todos. Por fim falou da suposta nova colega que tinha vindo de Lisboa mas que até aquele dia ainda não tinha aparecido.
No final do jantar fui ajudar a minha mãe a arrumar a cozinha enquanto a Mara foi dormir e a Rute e o meu pai foram ver as notícias (era o momento dos dois e eles adoravam, desde pequena que ela se sentava ao colo do pai enquanto ele lhe ia explicando o que se passava no mundo). Enquanto ajudava a minha mãe não conseguia deixar de pensar na "minha Anja" como é que ela estaria, de repente lembrei-me da última vez que estive nesta situação: em Lisboa há cerca de um mês atrás.
Há um mês fomos todos a Lisboa de férias, estivemos em casa dos meus tios. Houve uma noite que os meus primos quiseram sair ir a uma discoteca, connosco ia mais um amigo da minha prima (ou seria namorado não sei, talvez...) na dita discoteca já estavam mais dois amigos dela: um rapaz metido, com um ego maior que ele próprio (sabem aqueles que têm a mania que são o Brad Pitt ou o Jonhny Deep) e ELA. Entrámos todos e separamo-nos os teenagers foram para a pista, eu e o meu primo fomos para o bar.
Passado um tempo, que não sei dizer-vos quanto a minha prima Gabriela veio ter connosco aflita pois o dito rapaz estava bêbado e a bater na amiga. Saímos os três e lá estava o animal do rapaz a bater nela que já estava estendida no chão já sem forças para se proteger. Enquanto o meu primo segurava no rapaz eu tentei perceber como estava ELA ...
ELA, a que me tirou do sério em Lisboa, ELA era...era a minha Anja. Sim era ela, tenho a certeza. Deixei a cozinha e corri para o quarto da Mara, eu sabia que a conhecia de algum lado, mas o que é que ela estava a fazer em Coimbra? Como é que ela veio parar aqui? E estava diferente, talvez o cabelo? Sim, o cabelo estava diferente. Bati à porta do quarto da Mara...
— Estás a dormir? Posso entrar?
— Diogo. A não ser que a casa esteja a cair podes ir-te embora...eu preciso de dormir.
— Desculpa, mas é importante...- e sem esperar que ela me dissesse mais alguma coisa entrei e sentei-me ao lado dela.- Eu lembrei-me de onde conheço a miúda...
— Mas tu disseste que não a conhecias? Tu mentiste à polícia?
— Eu não menti...não propriamente. Eu tinha a sensação que a conhecia mas não tinha a certeza de nada...sei lá às vezes parece que conheces alguém mas...
— Ok, não interessa. Afinal quem é ela? Qual o nome dela? A morada dela?
— Não sei...- a Mara olhou para mim e percebi o que ela me queria perguntar e no mínimo estava a chamar-me de doido.- Eu conhecia-a em Lisboa, ela é amiga da Gabi e lá também a levei a um hospital.
— Tu andas armado em príncipe azul desta miúda. O que é que lhe aconteceu em Lisboa?
— O animal do namorado deu-lhe uma surra. Só percebi depois no hospital que para além da pancada ele a violou também. Mas não me lembro do nome dela, mas amanhã ligo à Gabi para lhe perguntar.
A verdade é que nunca soube o nome dela, pelo menos o nome verdadeiro, ela tinha-me tido que se chamava Natália porém, sempre tive certeza que aquele não fosse o nome dela, que ela o tivesse inventado. Mas havia um nome que nunca mais me esqueceria: a alcunha que eu lhe dei. Dessa lembro-me bem "Rainha da Noite"...mas esse eu não vou dizer à Mara.
— Tudo bem, mas agora podes deixar-me dormir, por favor.
— Tudo bem, desculpa. E obrigado por me ouvires, dorme bem e até amanhã.
— Até amanhã...- saí do quarto da Mara e fui para o meu.
O que é que ela está a fazer em Coimbra? Será que fugiu do namorado? Isso explicava o porquê de estar a dormir na rua...se aquele animal lhe fez alguma coisa eu vou a Lisboa e dou cabo dele, como é que se pode magoar aquela "Anja"?
Quando olho para ela só consigo pensar em a abraçar e protege-la como fiz hoje, se fechar os olhos ainda sinto a sua cabeça aninhada ao meu pescoço, ainda sinto o tremer do seu corpo, mas o que é que eu estou para aqui a dizer. Eu não posso pensar nela, não desta forma, ela tem idade para ser minha irmã. Vou dormir...ou pelo menos tentar dormir.
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