Caminho Incerto
8 6 - Amor ou Atracção
Amanheceu, e tenho a sensação que passei a noite em claro, que passei a noite a sonhar com aquela noite, a noite em que a conheci...não consigo deixar de pensar nela. Tenho que saber quem é ela, o nome dela e algum contacto, não é possível que tenha vindo para Coimbra sozinha...pego no telemóvel, vejo as horas 07h45, os meus tios devem estar acordados e a Gabriela também. Ligo para a ela, está a chamar...não atende...decido ligar para o meu tio mesmo que ele esteja a conduzir tem a cena do Bluetooth no carro, está a chamar...
— Diogo? Passa-se alguma coisa...está tudo bem por aí?
— Sim...não se preocupe Tio. É que eu precisava de falar com a Gabriela, não demoro muito.
— Com a Gabi? Mas o que é que se passa?
— Garanto-lhe que não é nada de mais. Preciso apenas de lhe fazer uma pergunta...tentei ligar para o telemóvel mas ela não atendeu.
— É normal, ela está de castigo, sem telemóvel durante uma semana. Bom mas ela está aqui ao meu lado eu vou passar-lhe.
— Obrigado Tio...- passado alguns segundos ouço a Gabi...
— Estou Diogo...desculpa, mas o meu pai não percebe a adolescência e a necessidade que temos de sair um pouco da rotina...
— Gabi...eu nem quero saber o que andaste a aprontar. Quero só saber uma coisa, lembras-te daquela noite em que saímos à noite, e que aquela tua amiga foi parar ao hospital?
— Sim...a Madalena. Tu nem vais acreditar no que aconteceu depois...não é que os pais da Mada tiveram um acidente depois de a irem ver ao hospital...
— Um acidente? Como assim, e o que é que aconteceu com ela e com os pais?
— Bem...a mãe morreu, o pai pelo que sei está em coma e a Mada foi viver com os avós paternos...olha ela foi morar para aí para Coimbra.
— Sabes o apelido dela? Um contacto dela?
— Eu sei que o apelido dela é Fernandes...e acho que ainda tenho o telemóvel dela. Eu vou procurar e envio-te por mensagem.
— Obrigado Gabi...não te ocupo mais tempo. Fico à espera da mensagem.- Desligo a chamada, sei que talvez ela tivesse perguntas, como o porquê do meu interesse na amiga, mas naquele momento eu não lhe ia dizer nada do que se estava a passar.
Fiquei a pensar em tudo o que a Gabi me contou, no mesmo dia em que foi violada e agredida pelo animal do namorado perde a mãe e de certa forma o pai também. Não deve ter sido fácil encarar esta nova realidade ao acordar...o mundo dela virou do avesso, tudo o que ela conhecia desapareceu...talvez tenha fugido de casa do avô e como não conhece a cidade se tenha perdido...é isso, claro. Coimbra é uma cidade cheia de pequenas ruelas, quem não conheça bem todos os pequenos segredos dela perde-se com toda a certeza. Tenho que descer e tentar falar com a Mara, talvez com o nome consigam contactar a família...de repente o meu telemóvel toca, a mensagem da Gabi com o número de telemóvel da Madalena...
— Bom dia mãe, pai...a Mara já acordou?- sentei-me e comecei a tomar o pequeno-almoço...eu tinha prometido ir à faculdade hoje e iria, porém primeiro tinha que contar as novidades à Mara.
— Bom dia filho, ela ainda está a dormir, e não vais acorda-la...- ameaçou a minha mãe com uma cara daquelas...de meter respeito.
— Bom dia para ti também. Porque é que toda a gente nesta casa me ignora...- diz uma Rute com uma cara de amuada.
— Bom dia ratinha...desculpa. E está descansada mãe galinha, eu não vou acordar a Mara. Mas tenho que me ir embora já...
— Vais para a faculdade...posso dar-te boleia se quiseres...- diz o meu pai.
— Vou...mas primeiro vou ao hospital...- e pronto fiz explodir a pólvora...
— Diogo! O que é que eu te disse ontem? Hoje não há desculpas, hoje vais para a faculdade...
— Importas-te de me ouvir primeiro: eu descobri de onde conhecia a miúda...e consegui o nome dela e o número de telemóvel dela...
— Tu conhece-la? Mas de onde? E como é que já tens essa informação toda? E porque é que disseste à polícia ontem que não conhecias?
— Porque ontem eu não me lembrava. Eu conheci-a em Lisboa, lembram-se aquela noite em que saímos? Ela é amiga da Gabi, e à pouco liguei-lhe já tenho o nome e o contacto telefónico e como a Mara está a dormir eu vou até ao hospital e dar as informações ao Martim.
— E tens que lá ir tu? Podes perfeitamente pegar no telefone e ligar para o hospital e pedir para falar com o Martim.
— Podia sim, mas assim aproveito e...
— E vais vê-la? Diogo não te quero enfiado no hospital. Dá-me o número e o nome da miúda, eu próprio lá vou.
— Pai...porque é que tu podes ir lá e eu não? Eu vou só dar os dados ao Martim...
— Porque eu ainda sou teu pai e te estou a dizer que vai ser assim...- percebi pela cara dele que não havia nada a fazer, dei-lhe o papel onde tinha escrito tudo, depois subi para ir buscar a mochila e a Rute fez o mesmo.
Antes de sairmos a minha mãe ainda me tentou acalmar...mas nada do que ela me dissesse podia fazer alguma diferença. Qual era o problema de eu me preocupar com a Madalena (com a "minha Anja" porque para mim continuava a sê-lo...). "Ahhh! Diogo, tu sabes bem porquê, não te faças de parvo...ela é muito mais nova que tu, ela é da idade da Rute...é menor". Não, o meu pai tem razão, isto tem que acabar eu não posso sentir o que sinto, mas o que é que eu sinto realmente? Acho que nem eu sei...será que...não eu não posso ama-la? Ou posso? Não, eu nem a conheço...pelo menos não a conheço tão bem para...mas aquelas mensagens ainda me estão na mente, como eu gostava daquela nossa picardia..."AHHH!!! Esquece de uma vez Diogo..."
Estava eu nestes meus pensamentos e dúvidas quando ouço o meu pai a dizer-me que no fim das aulas me vinha buscar...eu olhei para ele tipo "Pai a sério...que vou passar por isto", mas ele nem se ralou e ainda me disse "Escusas de fazer essa cara. Enquanto ela estiver no hospital vai ser assim"...nem discuti com ele, sei que não vai mudar de ideias...mas vou ter que inventar alguma coisa, eu preciso de a ir ver. Graças a Deus, o tempo passou rápido hoje, tivemos as duas primeiras aulas e depois fomos praxar os caloiros.
Apesar de não gostar muito acabei por ser levado pelo André, o meu melhor amigo desde sempre. Conhecemos-nos desde pequenos, acho mesmo que falávamos entre nós ainda nas barrigas das nossas respectivas mães, que são as melhores amigas desde sempre. O André é como um irmão para mim, eu conto-lhe tudo e é óbvio que lhe contei da miúda de Lisboa e é lógico que lhe contei que ela estava em Coimbra e que a "salvei" de novo. Por isso, assim que cheguei, arrastou-me com ele "Tens que te distrair um pouco...tirar essa miúda da cabeça nem que seja por um milésimo de segundo". Como se isso fosse possível? Mas acabei por ir, ele não iria deixar de me chatear e mesmo que quisesse também não podia ir ao hospital, já que o meu pai me viria buscar e se não estivesse aqui...bem entre um terramoto e uma guerra mundial escolham o pior.
Acabei por concordar com o André, eu precisava de a tirar da minha cabeça e tinha que haver sempre um representante da Associação de Estudantes para ser uma espécie de arbitro, para impedir qualquer abuso por parte dos veteranos para com os caloiros. Ao fim de uma hora estávamos a praxar uns caloiros quando um deles pega no telemóvel e vai atender, não é suposto os caloiros levarem os telemóveis ou qualquer outro objecto para a praxe, por isso não me meti naquele instante e deixei o veterano fazer o que tinha a fazer. Este chegou perto do caloiro e tira-lhe o dito telemóvel da mão. O caloiro fica primeiro surpreendido e irritado, mas conforme se apercebe que ele não o vai devolver começa a implorar para que o deixe atender que é importante...um outro caloiro que está ao lado tenta em vão acalmar o primeiro, que continua a implorar.
— Por favor eu preciso de atender essa chamada. Por favor...
— Cala-te caloiro...isto nem devia ter saído da tua mochila. Acho que até vou...- o veterano atirou-o ao chão e o telemóvel partiu-se todo, o rapaz ficou em choque...- Não me digas que vais chorar? Era apenas um telemóvel e aposto que podes comprar outro bem melhor...
— Eu...eu preciso de me ir embora...preciso de um telefone. Tenho que me ir embora já...
— Vais fazer queixinhas ao papá, ou será à mamã?! Será que és menino da mamã...- o caloiro olhou para o veterano com uma cara de raiva, e apesar de o veterano estar a passar das marcas eu não podia permitir que se gerasse ali uma discussão. Ao mesmo tempo percebi que por trás de todo aquela raiva que o miúdo tinha nos olhos havia também um desespero, não consegui ficar parado.
— Chega...- e com isto o veterano olhou para mim.- Sabes bem que há praxe e praxe...e estás a passar os limites. Tu...- disse eu ao caloiro...- tenho a certeza que a chamada podia esperar...
— Não, esta não podia. Era o meu tio, era importante, tenho a certeza que era sobre a minha irmã.
— Tenho a certeza que esse tal "Tio" podia esperar.- Disse o veterano, eu olhei para ele com uma cara que até ao André assustou (eu consegui perceber pela sua reacção).
— Muito bem...toma.- e dei-lhe o meu telemóvel...- Não sei qual a urgência mas não quero que penses que aqui em Coimbra somos todos uns animais...- e ao dizer isso olhei para o veterano que o estava a praxar...- Mas vais falar com o "teu tio" aqui e comigo ao lado.
— Obrigado...a sério.- Assim que o "Tio" atende, eu percebo o porque da urgência...o miúdo não estava a exagerar, pois pelo teor da conversa a situação era grave e de certa forma senti-me bem por o ter ajudado...- Vou tentar ir lá ter...obrigado Tio.- desliga a chamada e devolve-me o telemóvel. Olha para o veterano e sei o que está a pensar.
— Não te preocupes com ele...como representante da A.E. posso liberar-te da praxe.
— Obrigado. E sei que estou talvez a abusar, mas será que o meu primo pode ir comigo. É que eu preciso de alguém que saiba levar-me, eu não sei onde fica o hospital.
— Tu não sabes onde fica o hospital? Essa é boa. Acho que aqui o caloiro nos está a tentar enganar...- diz o André que estava ao meu lado.
— Não...a sério eu não sei. Eu sou de Lisboa e vim viver agora para cá.
— Tudo bem, eu acredito em ti e vou fazer melhor que isso, eu e o meu colega aqui vamos levar-vos até lá.- Olho para o André que percebe: consegui uma boa desculpa para voltar ao hospital.
O André foi buscar o outro caloiro, que pelos vistos era primo, e seguimos os quatro para o hospital. No caminho explicou-nos que se tinham mudado para Coimbra há cerca de um mês e que a irmã tinha fugido, como não conhecia a cidade acabou por se perder. O tio tinha ligado a dizer que já tinha aparecido e que estava no hospital, por isso era importante ele atender. Acabei por lhe perguntar o nome dela, da irmã...e o que ele respondeu deixou-me de queixo caído. Como é que isto podia estar a acontecer? Por muito que eu quisesse afastar tudo me aproximava dela. A minha "Anja", a Madalena era irmã do caloiro que "salvei", por muito que todos me afastassem dela, o destino aproximava-nos.
A nossa história parecia que ainda nem tinha começado, quanto mais acabado. Olhei para o André que olhou para mim e me disse entre dentes "Mas que acaso.". Mas eu sei, tenho a certeza que tudo isto não é um acaso, não acredito em acasos, não existem, tudo acontece por uma razão. E neste momento tenho a certeza que a minha história com a "Anja", que a nossa história ainda agora começou. Quando estávamos a chegar o meu telemóvel tocou, era o meu pai, com certeza estava na faculdade à minha espera, resolvi enviar-lhe uma mensagem "Estou com o André, viemos trazer uns caloiros a casa que não se estavam a sentir bem. Já vou para casa.". Passado alguns segundos recebi a resposta "Espero-te em casa...espero que não estejas a mentir. Vou ligar à Mara...".
Claro que ele vai ligar à Mara: primeiro para garantir que eu não estava lá e segundo para garantir que caso estivesse ou aparecesse me mandava de volta para casa. O que eles não se lembram é que conheço suficientemente bem o hospital, sei bem por onde entrar sem ter que me encontrar com a Mara ou quem quer que seja. Quando chegámos os dois miúdos agradeceram-nos e entraram...
— Tens noção que vais ser o herói desta miúda. Salvas-lhe a vida dela e depois a do irmão e do primo...
— Cala-te, eu não salvei só o ajudei um pouco qualquer um podia fazer o mesmo numa situação daquelas...
— Pois...qualquer um...mas quais são as probabilidades do caloiro ser irmão da miúda que já salvaste por duas vezes. Diogo...há acasos e acasos...
— Para André, vou ver se a consigo ver. Nem que seja por uns segundos. Espera aqui por mim...- ia já a sair do carro quando de repente me lembrei...- Se o meu pai te ligar, nós fomos levar uns caloiros a casa porque se estavam a passar mal. E estamos a lanchar e vamos já para casa...
— Ok...mas vais ficar a dever-me uma...
Saí do carro e dirigi-me à zona das consultas, dali fui para o elevador saindo no primeiro andar, passei pela zona da entrada das visitas e encaminhei-me para outro elevador. Entrei juntamente com uma série de outras pessoas e saí no sétimo andar. Dali passei pelas duas enfermarias e segui caminho para a zona dos UCI...agora seria talvez a parte mais complicada.
Quando cheguei bem perto da porta onde ela estava vi a Mara e o Martim...que beijo é aquele? Que raio é que eles estão a fazer? A Mara disse-me que eram só amigos...aliás ontem negou qualquer envolvimento com ele e agora...bem a minha querida irmã vai ter muita coisa que me explicar. Escondi-me num canto até eles se irem embora, o que demorou um bom tempo...entre indicações às enfermeiras e uns tantos mimos entres aqueles dois, passaram-se séculos (pelo menos foi o que me pareceu a mim...). Finalmente foram-se embora e aproveitei a enfermeira ter entrado noutro quarto para entrar no dela.
Estava tão calma...tão serena. Já não tinha nem metade dos fios que tinha ontem, talvez fosse um bom sinal talvez estivesse melhor...será que...tentei chama-la pelo nome mas ela não reagiu. Nada, nem um piscar de olhos, um leve movimento dos dedos...nada. Então fiz algo que talvez não devesse mas...não consegui evitar...beijei-a...e embora ela não tenha reagido foi o melhor, o mais doce que alguma vez dei a alguém. E foi como se algo me tivesse aberto os olhos, o coração, todo o meu ser estremeceu...sim eu sentia algo e já não podia nega-lo...eu não queria nega-lo. Aproximei-me de novo segredei-lhe junto do seu ouvido "Minha Anja, Minha Rainha" e beijei-a de novo...
— Posso saber o que pensas que estás a fazer aqui Diogo?- a Mara...fui apanhado...- Anda à minha frente, depressa antes que a família chegue...
— Mara...desculpa eu...eu sei que...
— Diogo à minha frente já.- Raramente eu a via assim zangada e sei que neste momento não devia nem pensar em dizer alguma coisa. Virou-se para uma enfermeira...sem se quer olhar para mim...- Pode por favor levar o meu irmão até ao gabinete do Doutor Martim?- de seguida olhando para mim...- Tu, não sais de lá percebeste?
Eu apenas assenti e dirigi-me até ao elevador...olhei para o lugar onde estava a Mara e vi a família da Madalena chegar, os dois caloiros estavam lá também, de repente o Doutor Martim chamou a Mara e ela dirigiu-se para junto deles. Quando cheguei perto do gabinete do Martim um enfermeiro chegou perto de mim e mandou-me entrar...eu olhei para ele...
— Escusas de olhar para mim assim...só estou a seguir ordens da Doutora Mara. Sabes que não deves sair até ela chegar, certo?
— Sim...sim eu sei. Já agora de 0 a 10 quanto é que ela está zangada?
— Eu diria que 100...mas não te preocupes o Doutor Martim já deve ter acalmado um pouco a fera.
Eles têm alguma coisa um com outro...eu tinha a certeza: depois do que vi à porta do quarto e agora com esta do enfermeiro, tudo bem não mo disse directamente mas a forma como ele disse aquela última frase"o Doutor Martim já deve ter acalmado um pouco a fera"...bom se ela me chatear muito tenho sempre esse trunfo certo? Ou talvez não, neste momento eu era um irmão que estava muito encrencado, não sei se atirar à cara da Mara que também ela estava a esconder algumas "coisas" ajudaria muito a minha situação.
Resolvi mandar uma mensagem ao André"Fui apanhado pela Mara. Estou à espera do sermão...já te digo alguma coisa." , passado alguns segundos ele respondeu-me"Mal...mas ao menos conseguiste ver a miúda?", Foi a minha vez de responder "Sim vi-a...e...beijei-a...não consegui evitar...foi mais forte que eu...", ele respondeu-me quase logo de seguida"Diogo tu estás maluco, a miúda é menor...".
Eu sei que ela é menor...mas o que é que eu posso fazer, não é como se o "amor", ou sei lá o que sinto: atracção, paixão, o que quiserem chamar tivesse um botão de On/Off. Eu não procurei isto aliás tentei afastar-me disto e afastar-me dela, estava longe de pensar que a poderia encontrar de novo, que me podia sentir assim por uma miúda. Mas aconteceu, e não o consigo evitar e sinceramente acho que nem o quero evitar. E depois nem sei se ela sente o mesmo por mim, nem sei se ela se vai interessar por mim, provavelmente tudo vai ficar por aqui...um beijo roubado.
Estive sozinho naquele consultório mais do que queria ou podia, pois o meu pai já devia andar louco à minha procura, devo ter ficado um boa meia hora, no que a mim me pareceram séculos, á espera que a Mara aparecesse. O meu telemóvel vibrou dentro do bolso das calças, quando peguei nele vi que tinha recebido duas mensagens quase seguidas: a primeira do meu pai a dizer que estava à minha espera em casa, pelo que li esperava-me um bom sermão (por ter saído da faculdade sem ele...e por me estar a demorar tanto) e a segunda do André a dizer que o meu pai lhe tinha ligado a saber de mim e que lhe estava a dever mais uma pois ele tinha-me safado de mais esta. Se bem que não sei se me vou safar desta, tenho a certeza que a Mara vai contar ao nosso pai que eu estive no hospital e provavelmente contar o que ela viu.
De repente a porta abre e vejo não só a Mara como o Martim. Estivemos os três em silêncio durante alguns segundos até que a Mara olha para mim sem saber o que dizer. Mas ela sabe que não precisa de me dizer nada...só o olhar dela me diz tudo: decepção, desilusão, mágoa. Eu sei que não o devia ter feito, eu sei que foi errado por muitas razões, eu sei que ela já me tinha avisado e não era preciso ela dizer nada porque no fundo eu tinha a plena consciência que o que fiz foi errado sobre todos os ângulos possíveis, por isso decidi acabar com aquele silêncio esquisito...
— Não precisas de dizer nada...eu sei, eu tenho consciência que o que fiz está errado, que não o devia ter feito...e que estou proibido de voltar a vê-la.
— Tu sabes? Tens consciência? Diogo...- ela olha para mim e senta-se na cadeira...- Tu pensaste que podia ter sido um dos familiares dela a entrar naquele quarto? Tu pensaste nos problemas que...
— Já te disse que não pensei, já te disse que errei...- neste momento eu já gritava, não sei o que mais ela queria que eu dissesse...- não sei o que queres mais de mim...eu sinceramente pensei que me pudesses perceber e talvez ajudar...
— Primeiro quero que pares de gritar...e depois quero que me expliques como é que queres que te ajude numa doidice destas...
— Eu não...eu não sei o que te dizer, porque nem eu sei o que se passou, o que sinto...esta tudo confuso aqui dentro...- aponto para a minha testa...- e principalmente aqui. — e levo a minha mão direita ao coração...- E agora posso ir? O pai está a minha espera em casa...
— Vai...mas esta conversa não acabou aqui. E Diogo espero que não se volte a repetir.
— Está descansada eu não volto cá...e ao contrário do que pensas esta conversa acaba aqui sim.- E com isto saio do consultório.
Assim que cheguei ao carro dei um pontapé no pneu e gritei com toda a raiva e frustração que tinha acumulado dentro de mim. O André saiu do mesmo e tentou falar comigo, mas eu estava tão irritado, que nem ele me conseguiria acalmar. E o pior é que eu estava furioso comigo e não com a Mara, até porque ela tinha razão eu não podia sentir isto, era errado, era "imoral" era até...Ahhh!!! Que raiva era tudo menos imoral, era bonito, puro, calmo tudo o que um grande amor devia ser...mas estava errado e eu tinha que esquecer: por mim e principalmente por ela. Depois de uns minutos entramos os dois no carro rumo à minha sentença de morte (e não estou a exagerar, o meu pai quando esta furioso é pior que um urso pardo).
— Diogo...queres falar sobre o que aconteceu?
— André agradeço por tudo mas não quero falar. Aliás eu quero esquecer o que aconteceu...
— Tens a certeza que queres esquecer? Tens a certeza que é o que queres?
— Sim...Não...não sei, eu não sei mais nada...estou confuso.
— Tu sabes sim, tu apenas não o queres admitir. E tu não a vais conseguir esquecer Diogo, eu conheço-te...
— Eu vou sempre lembrar-me do que aconteceu hoje, nunca vou esquecer os beijos que lhe dei...mas não vai acontecer de novo, isto é errado e para nosso bem vai ficar apenas como uma lembrança, um sonho.
— Uma lembrança....um sonho apenas teu, porque a rapariga nem vai saber que tu a beijaste...
— Por isso mesmo...vai ser mais fácil, amanhã tudo me vai parecer apenas um sonho e nada mais. Agora vamos, o meu pai deve estar furioso...
— Como queiras...mas sabes melhor que eu, que tudo o que acabaste de dizer não vai acontecer.
Dei um olhar fuzilante ao André...eu tenho consciência que vai ser difícil, eu sei que amanhã e no dia seguinte a vontade de estar com ela, de a ver, de a beijar de novo vão lá estar. Contudo eu tenho que conseguir, eu tenho que a esquecer por muito que me doa, por muito que me faça mal, iria doer mais tarde aos dois...assim vou cortar o mal pela raiz, como uma planta daninha que cresce sem pedir licença. Afinal já o fiz uma vez...posso voltar a fazer o mesmo.
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