Caminho Incerto

13 11 - As Notas e a Saída


Quando chegámos ao portão despedi-me da Rute e fui ter com a minha tia que nos tinha ido buscar, quando olhei para onde a Rute estava vi-a cumprimentar uma rapariga jovem que reconheci como a médica do hospital, o que será que a Rute e a médica teriam em comum? Seria mãe dela? Não, a doutora era muito nova para isso. Podia ser tia? Sim devia ser isso.

Quando voltei ao planeta terra ouvi a Ana falar das notas, percebi pelo semblante da minha tia que ela estava orgulhosa da filha, e tinha que concordar com ela, nenhuma tinha sido assim tão má (16 a Filosofia, 14 a Matemática, 16 a Biologia e um 15 a Português). Naquele momento deu-me um aperto no coração, eu costumava fazer o mesmo com a minha mãe, e recebia a mesma onda de orgulho que a Ana estava a receber, porém eu nunca mais iria receber e sentir esse sentimento tão bom de sermos reconhecidos pelos nossos pais. Quando reparei já tinha deixado uma lágrima cair, limpei-a discretamente e continuei a olhar para a rua.

— Então e tu Madalena como te saíste?- perguntou-me a minha tia, tirando-me do meu mundo...- Tiveste menos tempo para estudar, mas soube pela avó que estudaste imenso. Por isso, não te preocupes se desta vez as notas não foram tão boas, tenho a certeza que os próximos serão melhores.

— Sim Tia, eu esforcei-me. Tive que estudar em duas semanas o que eles deram em dois meses.

— Porque decidiste fazer asneira de novo...

— Ana, podes parar imediatamente com isso...- diz a minha tia olhando de lado para a minha "querida" prima.

— Mas mãe eu...- a Ana ia começar com a mesma ladainha de sempre, contudo, a minha tia impediu-a.

— Chega. E Madalena tenho a certeza que a Ana te pode ajudar a subir essas notas, não é Ana?- a Ana olhou para mim com uns olhos que se pudessem me tinham fuzilado, eu limitei-me a rir.

Era engraçado pensar na Ana a ajudar-me a subir as minhas notas: primeiro porque nós iríamos no mínimo fuzilar-nos só com um olhar, e depois para eu subir as notas só se fosse para rebentar a escala e sinceramente acho que sozinha faço um melhor trabalho. Mas não era eu que ia dizer, por isso dei apenas um leve sorriso, mas sei que Ana estava furiosa com aquela saída da minha Tia, porque ela sabia tão bem como eu, que nos próximos eu seria melhor que ela em todas as disciplinas.

Assim que cheguei a casa senti um cheiro maravilhoso pela casa...bolo de chocolate. E tenho a certeza que as minhas três abelhitas estão a rapar o chocolate todo da taça. Fui entrando bem devagar na cozinha, a única que me viu foi a minha avó, as abelhitas andavam à volta do "mel" e de costas para a porta, aproximei-me bem devagar e quando estava bem perto, elas largaram a taça por um milésimo de segundo e eu aproveitei e retirei-lhes a taça da frente e fugi para ao pé da minha avó.

— Madalena! A taça é nossa, dá-nos já a avó disse que podíamos lamber tudo.- Diz a Sofia com um ar triste, apoiando as mãos sobre a bancada.

— Humm!! Que abelhitas tão gulosas que temos aqui. E não iam partilhar comigo?

— Não...- e a minha abelhita mais sapeca, a dona Catarina, conseguiu tirar-me a taça que eu tinha acabado de colocar na mesa por um segundo.

— Ei!!! Era a minha vez...- e foi nesta altura que a minha tia e a Ana entram na cozinha.

— Que andam vocês a aprontar? A sujar a cozinha da avó?

— Mamã, fizemos um bolo de chocolate, olha...- e mostrou a taça de onde continuava a rapar.

— Sim Catarina, dá para perceber, olha só o teu vestido, acho que não sobrou bolo para a sobremesa do jantar. Ficou tudo na vossa roupa, olhem só.

— Não ficou tia. Ó ali no "fono" — a minha abelhita mais pequena logo mostra onde está o bolo a fazer.

— Anda cá minha bonequita, então estiveram a fazer bolo de chocolate com a avó?- Clarinha que agora estava ao colo da minha tia enquanto ela lhe lavava as mãos...- Será que a tia pode comer uma fatia?- Clarinha sorri...

— Naum tia...é "xó" da "inha", da "nina e da "fia"...

— Não dás nem um bocadinho à tia...- e depois de alguma cócegas na barriga, Clara lá acena que sim...- É verdade mãe, a Ana e a Madalena já receberam as notas.

— A sério. E então meninas que tal? Madalena?- lógico tinha que me perguntar a mim primeiro.

Não me interpretem mal, eu nem tive más notas quer dizer para quem teve duas semanas para estudar, não me posso queixar. O problema é que estão todos à espera que a Ana tenha tido melhores notas que eu, porque acompanhou a matéria toda desde o início do ano lectivo, mas sei que assim que souberem as minhas vão começar a comparar-nos o que vai fazer a Ana implicar ainda mais comigo.

— Eu prefiro dizer-vos as notas depois de ter recebido os testes todos e ainda falta receber alguns...

— Então se ela não diz digo eu: 16 a Filosofia, 14 a Matemática, 16 a Biologia e um 15 a Português.

— A tua prima já disse as notas...- disse a minha avó...- agora é a tua vez.

— Nós sabemos que tiveste pouco tempo para estudar, ninguém está à espera que sejam tão boas como as da Ana.- acrescenta a minha tia, e lá está o problema as minhas foram melhores (bem fora aquele 13 a Português...)

— Avó, por favor eu prefiro mesmo só dizer depois de receber todos. Sabes onde está o avô? Queria perguntar-lhe se podia ir dormir a casa da Rute hoje.

— Queres ir dormir fora?- de repente ouço a voz do meu avô e tenho a certeza que me vai obrigar a dizer o que não quero.- Porém não nos queres dizer as notas, devem ter sido mesmo más.

— Não, não foram más, quer dizer podiam ter sido melhores...- e penso de novo naquele 13 a Português...- mas preferia mesmo dizer as notas depois de receber os testes todos.

Enquanto estávamos a ter esta conversa sentia todos a olhar para mim. Sei que se dissesse os resultados dos testes todos iam ficar contentes por mim porque me esforcei mesmo muito. Não é fácil entrar na escola em pleno Novembro quando praticamente a matéria dada é já considerável e tens apenas duas semanas para captar o que conseguires.

Porém, também sei que a Ana iria ouvir o que talvez também não merecia, tenho a certeza que ela também se esforçou. Bem não vou colocar as mãos no fogo, porque sei por ela uma vez se gabar, que ela usa muitas vezes cábulas — ou pequenos papeis conhecidos por auxiliadores de memória — mas quem sou eu para julgar.

— Hum! Vamos fazer um pacto. Tu queres ir a casa dessa tua amiga?

— Sim, ela até me deu o numero do pai dela para falares com ele.- disse com alguma esperança que ele me deixasse ir.

— Muito bem, então se tu me dizeres as tuas notas e eu achar que não são más eu deixo-te ir. Que achas?

— Tudo bem, mas com uma condição: por enquanto só te digo a ti. E quando receber os testes todos, aí direi as notas a todos.

— Por mim tudo bem. Vamos para o escritório...- e segui o meu avô, entrámos, ele foi-se sentar no seu cadeirão e eu na cadeira à frente dele, parecia que estava no gabinete do director da escola...- E então vamos lá saber essas notas, as da Ana não foram más, e sabes que não estamos à espera que as tuas sejam iguais, até porque tiveste menos tempo.

— Porque é que nos estão sempre a comparar? Nós não somos iguais, aliás somos bem diferentes.- bufei para o alto, mas porque é que estão sempre a comparar-nos às duas, desde pequenas que é isto...- Avô promete-me que independentemente das minhas notas não lhe vais dizer nada...

— Dizer o quê? A Ana teve boas notas, estou muito orgulhoso dela e agora vamos ouvir as tuas.

— Tudo bem: 13 a português, sim eu sei, uma porcaria...- comecei pela de Português, sei que assim não vai começar a ladainha do "Ah...e tal...as tuas são melhores que as da Ana...tenho que falar com ela...ela tem que seguir o teu exemplo...e bla, bla, bla..." —...nem eu acredito que tive um 13, nunca tive uma nota tão baixa na vida, mas eu recupero ou não me chamo Madalena Fernandes...

— Concordo não foi uma nota boa, mas tenho a certeza que vais subir. Para além disso gostei de saber que tens noção que podes fazer melhor e que sabes que a tens que subir.

— Ok, continuando: 14 a Filosofia...- Olho para o meu avô, que me olha com um ar não sei se sério por estar zangado ou por querer rir e não quer...- Bem, Filosofia não é bem o meu forte, é tudo muito vago, muito...filosófico...

— Muito Filosófico. Entendo, bem não foi mau.Tenho a certeza que se te esforçares um pouco mais vais também conseguir subir. Senão me engano a Ana teve 16, podes sempre à tua prima que te ajude...

— Eu...se não te importares...prefiro pedir ajuda à Rute. Acho que Filosofia é algo que a fascina mesmo...ela teve 20. Acho que só mesmo ela para conseguir perceber aquilo.

— Começo a gostar mais dessa tua amiga...20 a Filosofia...não é para todos.- e dá um daqueles sorrisos de canto que tanto nos caracterizam aos dois.

— Bom, para finalizar tive 18 a Biologia e 19 a Matemática. Acho que dá para perceber que são as minhas disciplinas preferidas.

— Madalena. Eu não percebo porque não quiseste contar a todos na cozinha as notas. Foram notas magníficas para toda a matéria que tiveste que aprender no tempo que tiveste, e comparando com...

— Não. Vês por isso não queria dizer-te, estão sempre a comparar-nos. E a Ana também teve boas notas.

— Não te estou a comparar com ninguém, ambas tiveram notas muito boas. Mas...

— Mas nada, nós somos diferentes. Avô não digas nada à Ana, por favor?

— Dizer o quê, que tenho orgulho das duas. Não percebo essa tua atitude, mas prometo que não lhe digo nada. Bem dá-me logo o número do pai da tua amiga e vai fazer a mochila. Madalena nada de sair à noite...

— Obrigado, a sério. Prometo que nós não vamos sair, a Rute diz que a mãe dela é perita em jogos familiares...- e antes de sair dou-lhe um abraço e um beijo.

Eu nem acredito que o meu avô me ia deixar ir, a sério eu ainda estava meio que parva. Sei que provavelmente tem a ver com o facto de ter tido boas notas, mas nunca pensei que autorizasse, afinal depois de tudo o que se passou em Lisboa ainda me persegue, apesar de eu não me lembrar de nada sei que de alguma forma os meus avós, os meus tios e até o Pedro me culpam. Acho que até eu me culpo de certa forma, e nem sei exactamente do que me culpo.

O meu telemóvel dá o toque de uma nova mensagem, era a Margarida no whatsapp, pensei em responder mas quando ia a começar a escrever a Rute liga-me.

— Oi "fujona", o meu pai está agora mesmo a falar com o teu avô. Eu não te disse que ele te ia deixar vir. Vai ser super fixe a minha mãe já preparou vários jogos e também já escolheu vários filmes para vermos e...

— Ei! Podes respirar por um bocado, se continuares a falar acho que te vai dar um treco...

— Desculpa mas é que estou tão feliz, a sério. Tu és tipo a primeira amiga que trago cá a casa e tipo se eu estou feliz...imagina a minha mãe.

— Rute! Tu nunca levaste uma amiga para tua casa?

— A verdade é que até hoje nunca tive uma amiga assim como tu. É que, bem digamos que nunca fui muito popular.

— Não precisas de ser popular para teres amigas...

— Diz isso a PirAna da tua prima, ela sempre me vez a vida negra, desde...que me lembro...

— Ok. Bom deixa-me acabar de fazer a mochila. Já continuamos esta conversa, até já.

— Até já, eu vou aí buscar-te com o meu pai. A sério vai ser o melhor fim de semana da minha vida...— desliga o telemóvel que nem me dá tempo de dizer mais nada.

Esta miúda é verdadeiramente uma caixinha de surpresas, e meio maluca. Pode não ser uma Magui, até porque ninguém nunca a poderá substituir, porque nós somos muito mais que amigas, somos irmãs mesmo. Sabemos tudo uma da outra ou quase tudo, porque existe algo que nem eu nem ela sabemos: o que aconteceu no dia do acidente dos meus pais. Mas com toda a certeza sei que ganhei uma grande Amiga também.

Depois de arrumar a mochila decido ligar para a Magui, podia simplesmente responder no Whatsapp mas tenho saudades daquela doida e do Guga...e do Richi. Talvez não devesse, mas o que é que posso fazer estivemos juntos quase dois anos e sei lá talvez ainda estivéssemos juntos se nada tivesse acontecido.

As coisas não estavam bem entre mim e o Richi, desde que conheci aquele rapaz durante as férias deste ano, e quando ele descobriu ficou zangado, muito zangado e até lhe dou alguma razão pois se a situação fosse ao contrário também tinha ficado zangada. Mas a verdade é que não passou de uma troca inofensiva de mensagens, e de alguns beijinhos na bochecha. Tudo bem confesso houve uns beijos mais quentes e umas mensagens um pouco mais atrevidas, mas nunca iria passar de uma aventura, de uma brincadeira, ou será que não? Mas, o importante é que nunca se passou mais nada. E houve um dia em que o dito rapaz mistério simplesmente deixou de me responder e nunca mais o vi.

Hora de deixar de pensar nele e ligar à Magui, e como sempre ao primeiro toque ela atende.

— Oi, finalmente pensei que me tivesses esquecido de vez. Nem me respondes no Whatsapp?

— Desculpa estava a falar com a doida da Rute, ela ligou mesmo na hora que me enviaste a mensagem e...

— Espera tu estás aí há três meses e já me substituites? Não posso acreditar...

— É impossível substituir-te. A Rute...espera tu estás com ciúmes Margarida? Não acredito! A grande Magui com ciúmes.

— Não, não estou com ciúmes. Mas tudo bem já percebi não queres mais saber de mim, a tua MMS desde sempre.

— Magui podes parar...a sério deixa de ser dramática. Porque é que me ligaste?

— Para saber de ti? E...porque...porque estou mal.— e começa a chorar, e eu conheço-a desde sempre, e aquele choro era...era real...algo se passava, e era sério.

— Margarida? O que é que se passa? O que é que aconteceu?

— Eu e o Guga nós zangamos-nos. Ele está no hospital teve um acidente na porcaria daquela mota.

— Como assim está no hospital? Mas ele está bem? Magui...

— Sim ele está bem, tem uma perna e umas costelas partidas...

— E porquê esse drama todo? Pensei que fosse algo muito mais grave.- dei um suspiro e sentei-me na cama...— Bolas Magui que susto, podias ser menos dramática a dizer as coisas.

— Mas é grave! Ele não fala comigo. Fui ao hospital para o ver assim que soube e ele pediu à mãe para me dizer que não me queria ver mais.

— Mas porquê é que vocês se zangaram afinal?

— Foi uma estupidez, um mal entendido. Ele viu o Richi agarrado a mim durante a aula de Educação Física, mas foi...

— O Richi agarrou-te? — e não sei porquê mas o meu corpo arrepiou-se, um calafrio percorreu-me da cabeça até aos pés...- Mas ele não estava com a Erica?

— Sim, eles estão juntos, mas não foi nada. Nós estávamos a jogar ao mata e ele começou a agarrar-me e eu estava a tentar libertar-me.

— Ok e depois, tem que haver mais qualquer coisa porque até agora não há razão para o Guga se chatear contigo.

— O Richi de repente começou a fazer-me cócegas, e sabes como eu sou. No meio do ataque de cócegas ele dá-me um beijo no canto da boca. Foi aí que percebi que ele estava a olhar para a porta, e quando olhei vi o Guga a olhar para mim furioso. E o Richi com um olhar de gozo...

— Ele sabia que o Guga se ia passar...— típico do parvo do meu ex-namorado, ele fez de propósito. Eu conheço-o bem e é o género de coisa que ele faz. Mas só não percebo uma coisa, o que é que eles lhe fizeram? Porque para ele ter feito isso foi porque o provocaram.- Magui o que é que se passou? Para o Richi fazer isso alguém teve...

— A culpa foi minha, mas eu não aguentei. Tu sabes como eu fico quando alguém ofende alguém que amo e ele começou a falar mal de ti e a dizer umas coisas menos bonitas, eu não aguentei e dei-lhe um pontapé...naquele sitio.

— Magui! Eu agradeço o facto de me defenderes, a sério mas não o devias ter feito. Tu conheces bem o Richi, sabes como ele é.

— Sei, mas o Guga também sabe, melhor que nós as duas porque era amigo dele muito antes de tu andares com ele.— Nesta altura a Rute entra no quarto com a Lu, e eu percebo logo que iriam ficar amigas, têm as duas o mesmo espírito aventureiro e comediante.

— Tudo bem, ouve Magui, eu agora tenho que ir. Mas eu prometo-te que vou falar com o Guga. Vou tentar abrir-lhe os olhos, ele sabe bem o amigo que tem.

— Prometes? A sério? Obrigado Mada, eu sabia que podia contar contigo.

— Sempre, vou estar aqui para vocês. Assim que falar com ele digo-te alguma coisa. Beijos.

Assim que desligo vejo uma Rute e uma Lu numa galhofa pegada, estas duas juntas iam ser o fim de qualquer professor e foi quando me lembrei de todos os momento com a Magui e com o Guga, e por vezes até com o Richi. Nós éramos horríveis, fazíamos com cada uma e bateu uma saudade daqueles tempos...o que nós aprontávamos. Olhei para as duas que riam nem eu sei de quê e peguei no saco com as roupas que tinha separado e na mochila, pois pretendia estudar alguma coisa durante o fim de semana.

— Vocês podem parar. Vamos embora, o teu pai daqui a pouco vai-se embora sem nós.

— Ele não se ia atrever a fazer isso, a minha mãe punha-o na rua e a pão e água...

— Como é que ela o punha a pão e água se ele estava fora de casa?- pergunta a Lu um pouco confusa mas com um sorriso.

— Não sei, mas com a minha mãe tudo é possivel...- responde uma Rute a rir à gargalhada.

E assim saímos do quarto e fomos ter com o pai dela que falava com os meus avós. Depois de todas as recomendações, obrigações e proibições lá fomos para casa da minha nova Amiga.