Caminho Incerto
12 10 - Rotina Desconhecida
"Estava longe muito longe, mas consegui ouvir chamar-me "Minha Anja, Minha Rainha" e depois senti o melhor beijo de sempre. Foi leve e doce, nunca ninguém me tinha beijado daquela forma. Ouvi alguém gritar um nome "Diogo." e depois tudo ficou em silêncio, será que foi esse tal de "Diogo" que me beijou, eu tenho que acordar, eu quero acordar. Tento abrir os meus olhos, porém não consigo, as minhas pálpebras estão demasiado pesadas e vou-me deixando ir de novo pela escuridão.
Ouço outra voz, parece de uma pessoa mais velha "Perdoa-me...eu vou voltar a ser o teu avô." , é ele, o avô Carlos está aqui. Está com uma voz diferente, triste, perdida. Tento de novo abrir os olhos mas de novo está tudo demasiado pesado, demasiado escuro e longe. Volto para a escuridão, não sei quanto tempo estou aqui no meio de todo este negro, decido tentar abrir de novo os olhos e aos pouco a claridade vai-me "cegando", abro e fecho os olhos e quando finalmente consigo manter os olhos abertos olho para o lado e vejo um médico e uma médica.
— Ora vejam quem decidiu acordar...a mais Bela Adormecida do Hospital.- tento falar mas não consigo, de novo o mesmo tubo na minha garganta...- Calma, já vamos tirar o tubo. O meu nome é Mara, quando eu dizer começas a tossir ok. Vá vamos lá...1,2,3...- e começo a tossir e aquela coisa horrível é me retirada, colocam-me uma máscara mas eu não quero e tento por todos meios evitar que eles coloquem aquela coisa...- Madalena, tens que colocar a máscara, os teus pulmões ainda estão fracos e precisas de oxigénio.
— Os meus avós?- Tento falar mas é complicado com aquela coisa na cara.
— Já lhes vou ligar. Agora vamos só ver se está tudo bem contigo, e nada de tirar a máscara.
Depois de me fazerem uma serie de exames, os dois médicos, que agora sei que se chamam Martim e Mara, saem e dizem para eu descansar até os meus familiares chegarem. Apesar de eu achar que é ultima coisa que preciso, acabo por adormecer. Quando abro os olhos, nem quero acreditar, abro-os e fecho-os uma bateria de vezes e quando percebo que não estou a sonhar a única coisa que consigo fazer é chorar. O meu avô Manuel e a Minha avó Nina estão ao meu lado, eu nem quero acreditar, eu choro, e choro sem conseguir parar, tinha tantas saudades deles.
— Ei! Não podes ficar assim. Tu precisas de te acalmar...- diz o meu avô...- Senão os médicos não nos deixam estar aqui.- Isso é a última coisa que quero por isso não tenho outro remédio senão acalmar-me, conto até 10 muito devagar e lá consigo que a minha respiração fique mais normal.
Eles contam-me que souberam pela Leonor, que soube pela Magui, que soube pelo Pedro (mais parece que andaram a jogar ao jogo do Telefone Estragado) da minha fuga e resolveram vir para Coimbra para ajudar no que fosse preciso. Dizem que a Tia Marta e o Tio Luís também vieram assim como a minha prima Nono, como eu tenho saudades dela, e que ela tem sido o grande apoio da Luísa que estava de rastos com o meu desaparecimento. Peço para os ver, e o meu avô sai e vai chamá-los, nem vos preciso de dizer que as lágrimas me caíram de novo. Quando a enfermeira os mandou ir embora, pedi, implorei para que deixasse a Nono ficar e lá conseguimos. Foi talvez o melhor dia que tive desde o que saí de Lisboa.
O pior foi quando chegou o dia em que eles tiveram que ir embora, chorei tanto que todos os apitos sonoros que tinham que tocar, tocaram. Só me conseguiram acalmar quando me injectaram um sedativo, mas ainda consegui ouvir o meu avô prometer que iriam voltar mais vezes e que nas Férias de Natal nós íamos estar juntos de novo, já tinha tudo combinado com o avô Carlos. Eu continuava no Hospital, já que com o meu surto de ansiedade o meu corpo estava a rejeitar o antibiótico e voltei a piorar, tiveram que o mudar e aumentar o oxigénio.
Tinha passado quase um mês desde a minha "fuga", e finalmente contaram-me que foi um rapaz que me encontrou e me trouxe para o hospital. Mais uma vez fui parar ao hospital e fui salva por alguém, será um sinal? A verdade é que começo a odiar hospitais, quer dizer acho que ninguém gosta, só mesmo os médicos e as enfermeiras. Cheguei à conclusão que para se trabalhar nesta área da saúde temos mesmo que ter vocação, gostar mesmo do que fazemos. Do meu salvador, ninguém sabe dizer nada, ninguém sabe quem foi, ou então não me querem dizer, não sei, mas também não me interessa.
Recuperei o meu telemóvel, tipo finalmente (acho que não sei viver sem ele, como é que há 20 anos atrás as pessoas conseguiam viver sem este aparelho, devia ser uma seca). Falei com a Magui e com o Guga durante horas no Whatsapp, e claro que a Dona Margarida teve que inventar uma história absurda sobre o rapaz que me salvou: qual príncipe azul que me tinha tirado das garras do terrível dragão do gelo, só ela mesmo para inventar estas histórias mirabolantes.
Estive internada mais uma semana e meia do que estava previsto e ainda tive que ficar mais uma semana em casa para evitar recaídas. Até parece que uma gripe é algo de muito grave. Ok, não foi bem uma gripe, foi uma broncopneumonia, mas eram preciso tantos dias...
Enfim, o meu avô deu-me uma bronca, ainda no hospital, contudo, apesar de tudo foi melhor do que eu pensava, as coisas estão um pouco melhores entre nós. A minha avó falou comigo e aconselhou-me a falar com ele de coração aberto dizer-lhe como me sentia sem receios e acho que falou com ele também (isto porque no dia em que falámos ele estava muito calmo, sereno e não levantou a voz nem me interrompeu). Foi ele que teve a iniciativa, ainda estava no hospital e antes de se ir embora disse-me bem baixo para ninguém ouvir "Quando voltares para casa vamos ter a conversa que nunca tivemos e que acho que precisávamos de ter há muito tempo.".
No dia em que voltei finalmente para casa não podia estar mais feliz...mas também estava nervosa, hoje era o dia em que iria ter a conversa com o meu avô. Estava no quarto com as minhas baixinhas quando ele entrou, nem demos por ele entrar, estava tão distraída a fazer cócegas à Lu, e com tantas gargalhadas. As saudades que eu tinha destes momentos com elas, momentos só nossos, é claro que faltava apenas a minha mãe aqui para estar o clã feminino completo. Depois de algum tempo, nem sei quando, começamos a ouvir alguém a bater palmas...
— Meninas, sei que estão felizes pela Madalena estar de volta, mas hoje à escola por isso toca a mexer.
— Avô, por favor deixa-nos ficar hoje em casa, por favorzinho é só hoje.- diz uma Sofia com uns olhos de cachorrinho, eu decidi interferir antes que o meu avô respondesse.
— Sofi, a mana também tem muitas saudades vossas, mas o avô tem razão vocês não podem faltar à escola.
E embora nenhuma delas quisesse ir, e para falar a verdade eu também não queria que elas fossem, não só porque tinha sentido a falta delas mas principalmente porque temia a conversa que se aproximava, o meu avô desta tinha razão. Assim que elas saíram o meu avô olhou para mim e sentou-se aos pés da minha cama.
— Acho que chegou a hora de termos a tal conversa...
— Sim acho que chegou a hora...- eu respondi desviando o olhar para alguma coisa que não fosse os olhos do meu avô.
— Madalena...olha para mim.- porém eu mantive os meus olhos bem longe dos dele, não sei explicar porquê a única coisa que eu sabia é que se olhasse para ele não iria conseguir dizer nada e...- Madalena por favor, olha para mim. Sabes, tenho saudades de olhar para esses olhos verdes, dos meus 8 netos és a única que herdou os meus olhos.
Não resisti e olhei para ele, porque de facto era verdade eu tinha a mesma cor de olhos que ele. Nem os filhos (o meu pai e a minha tia) tinham os olhos da mesma cor, sempre foi algo que apenas nós partilhávamos e que nos unia, que sempre foi alvo das nossas piadas mais secas que apenas nós muitas vezes entendíamos, simplesmente porque havia sempre piadas algo sarcásticas entre nós.
— Desculpa...desculpa...- foi tudo o que consegui dizer, porque logo a seguir as lágrimas inundaram-me os olhos e escorreram como um rio, como um rio não era mesmo um oceano.
— Ei! Parceira...- sim era como o meu avô me chamava desde pequena, e só ele me chamava assim...e que saudades eu tinha que ele me chamasse assim...- Se alguém tem que pedir desculpas sou eu.
— Não...eu...a culpa foi minha...eu é que fui parar ao hospital e nem sei como porque não me lembro do que se passou naquela noite.
— Madalena ouve, eu sei que te sentes culpada e até frustrada por não te lembrares de nada. Mas eu não facilitei a tua vida, porque a verdade é que, eu também estava a sofrer e...
— Eu sei que tu me culpas pela morte da mãe e pelo pai estar...como está, e eu percebo-te a sério que percebo e se eu pudesse voltar o tempo para trás eu juro que fazia, mas eu não posso.
— Era bom voltar atrás no tempo, não era? Hum! Talvez eu não fosse tão gordo, sim acho que com certeza proibia a tua avó de fazer todas aquelas comidas saborosas, e o bolo de chocolate, que tentação.
— E não te esqueças das cervejas, sim porque tenho a certeza que essa barriga é das cervejas a mais...- não me consegui conter e dei um dos meus sorrisos de lado, tinha saudades destas nossas conversas, das nossas picardias saudáveis, do som das nossas gargalhadas em uníssono.
— Parceira, eu quero pedir-te desculpa também. Eu devia ter-te apoiado e não acusar-te. Tu perdeste a tua mãe, o teu pai está...desculpa o teu avô.
— Só se...se me perdoares a mim também...- e depois de nos perdoarmos um ao outro, abraçamos-nos. É claro que ainda não é a mesma coisa, mas tinha sido o primeiro passo e talvez um dia conseguíssemos ser o que éramos: cúmplices, amigos, parceiros. Não sei, mas talvez um dia tudo ficasse bem. Pelo menos eu espero que sim tenho saudades do "Meu Avô".
Após estes cinco dias enfiada em casa comecei finalmente a escola, e tendo faltado cerca de um mês e meio de escola tive que me esforçar o triplo. Estávamos quase na semana dos primeiros testes e eu tinha que saber a matéria dada durante dois meses em semanas. E digo-vos que não foi fácil mas acho que consegui. Estudar nunca foi algo difícil para mim, sempre gostei de estudar, nunca fui marrona ou croma, sempre apanhei a matéria à primeira. Porém, desta vez com dois meses de atraso senti pela primeira vez na minha vida a necessidade de me agarrar aos livros como lapa.
Estava na mesma turma que a minha prima Ana, o que nem uma nem outra gostava, mas tínhamos que nos aguentar pelo menos pelos próximos 3 anos (Uhhh! Três anos de sofrimento, e sem a minha querida Magui para me ajudar e animar vai ser uma verdadeira tortura.). É óbvio que ela é uma das mais populares da escola e eu já tinha sido "pintada" por ela como a coisa mais asquerosa possível, ou seja estava no fundo da cadeia académica.
Felizmente consegui arranjar uma "amiga" nesse nível da cadeia hierárquica, sim "amiga" entre aspas...pelo menos por enquanto. Ela parece-me fixe e a forma de ela pensar agrada-me. Ela diz que prefere ser croma com boas notas do que popular e fútil, tentei explicar-lhe que se podia ser popular, com boas notas e não se ser fútil, mas acho que não a consegui convencer. Na minha escola em Lisboa sempre fui boa aluna, popular e como diziam alguns professores a palhaça de serviço. Acho mesmo que não levava mais castigos porque apesar de tudo era aluna do quadro de honra.
Apesar de ser uma rotina completamente nova e desconhecida acabei por me habituar a ela. O meu avô levava-nos de manhã para a escola e à tarde era a minha tia que nos ia buscar a mim, à Ana e à Lu. O meu avô ia buscar as três mais novas e levava-as para casa. E a partir de certa altura a chegada à escola já nem me custava porque assim que eu chegava via a "croma" da Rute. Era hilariante ouvir a forma como ela falava com a Ana, chamava-lhe PiraAna (uma mistura de Piranha com Ana), era de morrer a rir ver as reacções da minha prima às respostas da Rute. A mim colocou-me a alcunha de "Fugona" por causa da cena da fuga.
Fiquei a saber por ela que tinha sido o irmão dela que me tinha encontrado junto da capela...ele tinha sido o meu príncipe azul. Ainda não tive a oportunidade de lhe agradecer e espero que um dia o possa conhecer e agradecer. Se não fosse ele, talvez não estivesse aqui hoje.
Os testes passaram, e chegou a semana de começar a recebê-los. Sei que fiz o que podia e apesar de não ser daquelas que apregoam pelos sete ventos as notas que tive sempre gostei de ter boas notas e esforçava-me para isso. Os meus pais sempre nos ensinaram que as notas dos testes representavam o nosso esforço diário para nos superar e as boas notas eram o resultado desse esforço. Eu tenho consciência que trabalhei bastante, contudo também sei que estudei para 8 testes em duas semanas. Mesmo gostando de estudar e apanhar tudo à primeira não estou à espera de grandes notas. Primeira aula do dia, primeira nota e o dia foi correndo assim, posso adiantar que as notas não foram más, se bem que podiam ser bem melhores.
— Nada mal Madalena e tiveste apenas duas semanas para estudar. Nem quero pensar nas notas dos próximos, vais simplesmente rebentar a escala.
— Não exageres Rute, tu também não estiveste mal. Um 20 a Filosofia não é para todos. Eu tive um 14.
— Isso foi só porque tiveste pouco tempo para estudar. Tenho a certeza que o próximo será um 20 certeiro.
Esta miúda era um prato, a sério para além de ser inteligente era uma comédia. De certa forma fazia-me lembrar a Magui se bem que não era tão louca. Estávamos a caminho da próxima aula, quando a parva e irritante da Ana se atravessou no nosso caminho. Eu conhecia o suficiente da "minha querida priminha" para saber que ela vinha provocar uma de nós, só faltava saber qual de nós seria a sua vítima.
— Achas que só porque o avô está a falar contigo de novo e até tens notas razoáveis, vai voltar a ser tudo como era?
— O que é que tu queres PiraAna? Tu tiveste o quê um 16 a Filosofia? Boa e tiveste dois meses para estudar, a Madalena teve um 14 e teve que estudar para 8 disciplinas, em duas semanas, matéria de dois meses.
— E se não tivesse fugido não teria faltado às aulas, isso já para não falar do que se passou em Lisboa...
— Podes parar por aí Ana. Tu até podes ser minha prima mas não te dá o direito de falares...
— O quê? Que fizeste porcaria em Lisboa? Que por tua culpa a tua mãe morreu e o teu pai está em coma?
— Tu...tu...- as lágrimas já me estavam a queimar a vista, não eu não vou chorar, não à frente dela...- Tu não sabes do que estás a falar...eu...
— Deixa de te passares por uma coitadinha, toda a gente lá em casa te culpa, eles só não te dizem nada por pena.
— Chega PiraAna. Vamos Madalena tu não tens que estar a ouvir esta piranha que só gosta de morder e espalhar o seu veneno. Anda comigo, vem...
A Rute tirou-me dali, não sei por onde ia, eu era apenas puxada por ela e nem me importei para onde ela me levava desde que fosse para bem longe da Ana. Como é que que ela podia ser assim tão má, cruel. Nós éramos família, tínhamos em parte o mesmo sangue. A nossa relação nunca foi boa, sim sempre fomos bem diferentes mas eu nunca lhe diria algo como ela me disse.
Quando paramos percebi que estávamos dentro de uma sala vazia com a porta trancada, uma vez que ouvi o barulho da chave a ser rodada na fechadura. E nessa altura depois de olhar para o tecto deixei-me cair ao chão e chorei, o que ainda não tinha chorado. Chorei toda a culpa que sentia pela morte da minha mãe e pelo estado do meu pai. A Rute sentou-se ao meu lado, sem me dizer uma única palavra, ela simplesmente me deixou deitar a cabeça no seu colo e eu chorei enquanto ela tentava acalmar-me.
Depois do que a mim me pareceu anos, mas que foram apenas alguns minutos, e de eu ter chorado tudo saímos rumo a uma nova aula. A Rute nunca me perguntou nada, deixou-se apenas estar ali comigo reconfortado-me sem cobranças. E neste momento sei que encontrei uma Amiga, não era uma Magui mas era uma Amiga. No fim da aula de Biologia e de Português, onde mais uma vez foi humilhada por Ana e defendida por Rute, tivemos finalmente algum tempo livre.
— Ei, que tal celebrarmos as notas, afinal é a primeira vez que tenho alguém a competir comigo nesta turma.
— Rute, por favor, competir contigo? Tu tiveste um 20 a filosofia eu tive 14.
— Tu tiveste um 19 a matemática eu só tive 14 e um 18 a Biologia e aqui a Rute teve um mísero 14 de novo.
— Sim mas tu tiveste 18 a português eu tive 13 e ainda nem acredito, sempre tive 17 a português.
— Ah! Pobrecita teve um 13 a português. Esperem mas não é a mesma que teve um 19 a matemática. Ah! Para de ser dramática.
— Eu dramática, olha quem fala.
— Tudo bem, mas vamos comemorar ou não? Por favor não digas que não afinal é sexta feira.
— Não sei a última vez que saí...bem vamos dizer que não foi um dia bom. Acho que o meu avô...
— Ah! Então e se fizéssemos uma festa do pijama lá em casa. A isso o teu avô não pode dizer que não e se for preciso o meu pai vai a tua casa buscar-te.
— Vou falar com o meu avô, mas não te prometo nada.
Para a Rute foi como se eu lhe tivesse dito que sim, e embora eu lhe lhe relembrasse mais de quinhentas vezes que o meu avô ainda não me tinha autorizado ela tinha a certeza que ele não iria dizer que não. O problema é que a Rute não conhecia o meu avô...e eu tinha a certeza que ele não me ia deixar ir, não depois do que aconteceu em Lisboa.
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