Caminhando entre os mortos 2
5 Capítulo 5 - Entre a Luz e as trevas
Notas iniciais
Pov – Daryl
Claro que gosto de Beth, que ela é importante e que faria qualquer coisa para traze-la de volta, primeiro porque isso é o certo, somos uma família e é isso que fazemos, cuidamos uns dos outros. Mas é por Alice antes de qualquer coisa que estou aqui, perseguindo um carro no meio da noite, porque Alice nunca poderia viver com a ideia de não ter feito nada e Alice é o centro de tudo para mim.
─Então aquele grupo salvou Beth? – Carol pergunta sem entender muito o que afinal estamos fazendo.
─Não, a Beth é durona, ela se salvou sozinha, depois foi sequestrada por esses caras – Explico a Carol, não acho certo o tempo todo subestimarem a força de quem quer que seja, qualquer um que ainda respira nesse mundo é forte.
─Não é emocionante isso? Quer dizer estamos com os faróis apagados perseguindo um carro no meio da noite, isso é mesmo muito louco! – Alice diz com os olhos fixos na estrada escura – Vamos achar Beth e tudo vai ficar perfeito de novo!
─Calma Alice, ainda não temos certeza de nada! – Carol diz tentando fazer Alice colocar os pés em terra firme, é uma luta inglória que já desisti.
─Vamos acha-la, está decidido, acho que devíamos voltar aquela questão de codinomes, esta é o tipo de aventura que merece um.
─Você já tem um, rainha das fadas! – Provoco, ganho uma careta, é então minha menininha de cinco anos fazendo birra.
─Cala a boca Daryl!
─Rick vai ficar preocupado, o combustível não vai durar muito.
Chegamos a Atlanta, o carro para, um policial desce, ficamos parados, assistindo ele sumir para longe.
─São dois, um policial? – Aquilo é muito estranho.
Ficamos mudos, esperando os próximos passos, um zumbi surge ao lado gruindo e tentando nos alcançar pelo vidro, assusta a todos.
─Porra que susto! – Alice diz quase pulando para meu colo, voltamos nossa atenção ao carro da frente, o homem retorna, entra no carro, tento ligar o nosso que falha.
─Sem combustível! – Aviso – Vamos achar um lugar para esperar amanhecer, eles foram para a cidade.
─Eu tenho um lugar a duas quadras daqui. – Carol avisa e os sons de gemidos surgem de todos os lados, o melhor é ir de uma vez.
Caminhos os três em direção ao abrigo que Carol falou, os sons, as sombras, a escuridão, nunca me senti tanto num filme de terror como agora, é mesmo assustador e Alice se junta a mim.
─Tá, eu confesso, essa merda dá medo, não parece que tem um monte de mortos a nossa espreita? – Alice me faz sorrir, é absurdamente divertida e cada vez que estamos em perigo fica ainda mais divertida e isso é inacreditável.
Temos que derrubar alguns zumbis até chegarmos a porta, Carol escolheu um bom lugar para nos trazer, mas se demorar muito mais para abrir essa merda de porta vamos trazer zumbis até da Califórnia, o som se espalha pela noite produzindo um maldito eco que convida os mortos e seus gemidos ficam cada vez mais perto, finalmente consigo abrir e entramos, fecho a porta atrás de mim e caminhamos pelo local.
Pego um molho de chaves junto a um corpo em decomposição, tem sempre um pelo caminho.
Carol parece conhecer bem o lugar, vai nos guiando, chegamos ao que parece um escritório.
─Trabalhava aqui ou algo assim?
─Algo assim – Ela me responde sem querer prolongar o assunto, depois chegamos ao que parece um pequeno apartamento.
─Que lugar é esse? – Pergunto e ela não tem alternativa.
─Um abrigo temporário – Conta enquanto vai seguindo em frente, sobre um móvel um livro me chama atenção, “Como tratar crianças de abuso infantil” diz tanto sobre mim, tanto sobre ela, Sophia e não gosto de voltar lá, me afasto.
É um quarto, com um beliche, Alice suspira feliz ao ver as camas.
─Vocês dois ficam com a debaixo! – Carol avisa colocando suas coisas na cama de cima.
─Uma cama, que coisa linda, olha com colchão e tudo, eu podia beija-la! – Alice diz se sentando, me sento a seu lado, sorrimos, mas Carol segue para a janela, está no mundo da escuridão agora, não parece querer sair de lá.
─Você disse que podemos recomeçar, é o que está fazendo? – Ela me pergunta.
─Estou tentando! – Conto a ela, Alice ao meu lado é a prova disso, ela volta sua atenção a janela.
─Eu não acredito mais que dá para salvar as pessoas.
Os olhos de Alice cintilam, isso é o oposto de tudo que ela acredita, de tudo que me ensinou a acreditar.
─Então o que faz aqui? – Eu pergunto.
─Tentando.
Nos deitamos os três, um ao lado do outro, olhando para o estrado da cama de cima.
─Se não tivéssemos chegado, lá fora, quando estava perto do carro, o que ia fazer? – Alice pergunta.
─Não sei! – Carol responde e então um barulho nos faz ficar atentos, vamos em busca do som, é uma porta com vidro grosso e fosco, podemos ver a silhueta de um zumbi, uma mulher que deve ter sentido nossa presença, então outra silhueta surge, menor, de mãos pequenas e não menos famintas, aquilo tem poder sobre todos nós.
É sobre Sophia, sobre como a caçamos em vão, sobre o menino solitário e meio zumbi que eu fui, é sobre os sobrinhos que Alice não pode salvar, Carol quer abrir e acabar com aquilo, não quero que fique de novo de frente com isso e a impeço.
Voltamos para o pequeno quarto, me deito com Alice enroscada em mim, sinto falta da nossa cela e sei que ela também, Carol faz o mesmo, pega no sono e fico ali com Alice silenciosa em meus braços.
─Amor, temos que resolver aquilo, é importante para Carol, talvez a gente não esteja só tentando resgatar Beth, talvez a gente tenha que resgatar a Carol também.
Aceito seu pedido, ela faria sozinha de qualquer modo, só faz o que quer, seguimos os dois em silencio, seguro a maçaneta, encaro Alice.
─Pode fazer isso?
─Nada me derruba, nada me intimida! – Me diz de queixo erguido, eu a amo.
Não é a coisa mais fácil que fiz na vida, está muito longe disso, mas enrolamos os corpos e quando amanhecia providencio uma fogueira, Alice assiste enquanto o corpo da mulher queima, eu busco o corpo leve e infantil, é dolorido atirar aquele pequeno ser na fogueira.
Lá estamos nós dois de novo queimando o passado, Carol se junta a nós.
─Obrigada! – Ela me diz e ficamos um instante ali, assistindo mais uma vez a fumaça lamber o céu.
─Temos que ir não é? – Alice diz quando entramos – Não vamos desistir nunca!
Recolhemos nossas coisas e partimos em busca de um lugar alto para observar, Atlanta não é nem a sombra do que um dia foi, é o inferno em corpos em movimento, a eterna caminhada dos mortos.
Vejo um lugar alto o bastante, uma passarela nos permite acesso, pego um bloco de papel, faço fogo e atiro, aquilo chama atenção dos mortos e passamos rumo ao prédio, entramos pelo estacionamento, derrubo um zumbi com uma flecha, depois entramos.
─As pessoas têm uma mania de morrer e depois sair caminhando, que merda, tem morto para cacete nessa cidade! – Alice diz quando entramos, caminhamos apressados e a passarela nos faz parar – Tá é isso, já entendi, é um camping de zumbis, é isso? Essa merda fica cada vez pior.
Tem zumbis presos em barracas, sacos de dormir, espalhados pelo corredor sabe Deus desde quando, acertamos alguns, nem sei porque, passamos pelas barracas, se der algo errado sei que Alice vai estar no meio do problema e só consigo pensar nisso.
A porta tem uma corrente, passamos pelo vão, não é fácil nem agradável, mas conseguimos.
─Eu já disse que odeio o apocalipse? – Alice pergunta enquanto passava se entortando toda.
Chegamos ao alto, entro numa sala, poltrona de couro, tudo elegante e limpo, o infeliz está agora como todos, aquela droga de luxo não serviu para nada.
Vou para a janela, observo a cidade morta, destruída.
─Como chegamos a isso? – Carol questiona.
─Aconteceu.
─Deus é um babaca! – Alice anuncia e olho para ela – O que? Ele está lá com o padre na igreja, não está me ouvindo agora, eu acho.
Vejo, algo, uso o rifle para ter certeza, um furgão pendurado na ponte, as mesmas cruzes, é um tipo de pista, decidimos seguir até lá. Carol vai encher seu cantil, observo um quadro idiota na parede.
─Aposto que um ricaço pagou uma fortuna por isso – Elas observam – Parece que um cachorro sentou e limpou a bunda na tela.
─Eu gosto! – Carol afirma, sem chance, aquilo é ridículo, encaro Alice, Carol faz o mesmo.
─Eu? Fico com a bunda do cachorro, meu marido entende tudo de arte!
Deixamos o lugar, retornamos pelo mesmo caminho, Carol se arrasta pela porta entre aberta, depois é Alice.
─Daryl não! – Quando entendo o que está acontecendo um rapaz segurava o rifle e claro apontava para Alice, eu termino de passar.
─Solte a besta! – Ele exige.
─Você tem coragem garoto! – Aviso obedecendo.
─Acho que a gente devia conversar, que tal um acordo? – Alice diz a ele – Eu sou boa em acordos, meu marido não é muito, mas podemos conversar.
─Não é pessoal, preciso de armas, são durões, vão ficar bem! – Ele diz pegando a besta, depois com uma faca, abre as barracas e zumbis começam a sair, pego minha faca, derrubo o primeiro e impeço Carol de matar o garoto, Alice a devora com o olhar, corremos atrás dele, ficamos presos, ele travou a porta, garoto estúpido.
─Achou que eu iria mata-lo?
Ela está furiosa, mas Alice também está e sinto o clima pesado entre elas.
─É só um garoto Carol, não se pode resolver isso assim, matando quem entra no nosso caminho.
─Beth pode morrer, as pessoas na igreja podem morrer, não quero mais ficar perto para assistir isso!
─Você está aqui Carol, então tente! – Alice grita com ela, as duas ficam caladas se enfrentando, abro a porta e ganhamos a rua.
─Não quero que você morra Alice, não quero que o Daryl morra.
─Não pode evitar, não pode impedir e fugir não resolve, isso é covarde e fraco e você não é assim, está aqui, não foi embora, não consegue ir, então fique e lute!
Chegamos a ponte, claro que zumbis se aproximam e precisamos ser rápidos, não está muito estável, mas subimos mesmo assim, não deixamos ninguém para traz com medo dos riscos, vasculhamos tudo, zumbis se aproximando, eu entre a esperança de uma pista e o medo por Alice.
Quando estava descendo olho a maca, Grady Memorial, Carol avisa que é um hospital e isso é bom, é uma pista, um lugar para começar.
Ficamos cercados, zumbis vindos de toda direção e voltamos para dentro da van.
─Que porra que nós vamos fazer agora? – Alice questiona, não temos armas e estamos presos e cercados, aqueles infelizes podem ficar ali pela eternidade, nós não, só tem uma coisa a fazer, é uma ideia um tanto radical.
─Vamos! – Me sento no banco, trago Alice para mim, se for acabar que seja assim, juntos, passo o cinto por nós dois, Carol se prende ao nosso lado – Se segurem.
─Que merda é essa de se segurem? – Alice pergunta quando forço o peso de nossos corpos para a frente e a van se solta da ponte, caímos em alta velocidade, mas sinto como se fosse a eternidade, as rodas da frente chegam primeiro, o impacto nos esmaga, depois outro impacto e finalmente estamos em solo firme.
─Está todo mundo bem? – Pergunto soltando o cinto.
─Sim! – Carol responde.
─Cacete isso foi... – Zumbis caindo no teto do carro interrompem Alice, sangue, corpos e tecidos vão despencando um após outro, amaçando mais o carro, deixando suas marcas e fazendo um ruído infernal – Mais chuva de zumbi? Odeio chuva de zumbis, eu já disse isso? Odeio, simplesmente odeio mais do que baratas, Merda!
O som termina, abrimos a porta do carro e descemos, Carol parece ferida, Alice está mais inteira.
─Acho que Deus me ouviu chamando ele de babaca, só pode ser isso, ajuda a Carol amor.
Apoio Carol que sentia dificuldade de andar e vamos nos afastando, então Alice sorri.
─Que foi?
─Certo, isso foi muito louco, confesso, adorei! – Garota infernal, só pode ser falta de oxigênio no cérebro – O Carl vai morrer de inveja!
─Duvido!
─Qual é gente, isso foi muito legal, caímos de uma ponte, tipo montanha russa do apocalipse, eu faria de novo!
─Cala a boca Alice.
─É sério amor, Beth me deve até as calcinhas agora, vou passar o resto da vida jogando na cara dela que cai de uma ponte para salva-la, foi muito divertido, deviam ter visto a cara de vocês!
O caminho é feito a passos lentos, Carol está mesmo muito machucada, Alice carrega as coisas enquanto vou ajudando Carol.
─A gente não está indo para o hospital?
─Não Alice, estamos indo para um lugar seguro para observa-los antes.
─Cacete amor, isso é muito inteligente, eu também era brilhante, mas isso foi antes de perder meu cérebro em algum lugar entre a ponte e a Carolina do norte. Que queda!
─Nunca achei que ele estivesse ai!
─Grosso, cai de uma ponte Daryl, foi horrível, você não tem coração?
─Falsa, não faz um minuto estava se vangloriando disso!
Paramos para descansar um pouco, olho o ferimento de Carol, Alice a obriga a beber água, depois seguimos para um lugar onde se pode observar, ficamos ali, olhando o hospital, não temos muitas armas, mas consigo um facão e alguma comida, sacos com biscoitos que divertem Alice.
Carol é só escuridão, desesperança, me dá medo do caminho que se precipita para ela, somos amigos de muito tempo, Alice ama Carol e não está pronta para perder ninguém.
Carol fala sobre quem era, o que deixou Ed fazer com ela e Sophia, depois conta quem a prisão a deixou se tornar, mas essa diante de mim não é nenhuma das duas, essa Carol não sabe quem é, nem onde está indo.
─Como eu mudei? – Questiono, não é a primeira vez que ela diz que não sou mais o mesmo.
─Você era um menino e agora é um homem.
Sim, a vida, Alice, as coisas que perdi e ganhei, tudo isso me mudou e gosto mais de quem sou agora, da força que tenho em mim.
─Já não está bom de observar, a gente não devia ir até lá? Isso está um pouco chato! – Alice diz sorrindo e se abraçando a mim.
É como estar entre a Luz e as trevas, enquanto uma é só esperança e alegria, a outra é só tristeza e dor.
Um barulho nos chama atenção, ouvimos tiros de rifle, corremos e é de novo o menino com nossas armas, ele tenta se livrar de um zumbi, o atira sobre nós, Alice o acerta quando ele cai por sobre Carol, corro atrás dele, o rapaz luta com uma estante, eu o derrubo assim como a estante e ele fica preso nela.
─Pegamos você em espertinho ladrão de besta! – Alice diz feliz, pego um cigarro, eu sabia que ele não ia longe, um zumbi força a passagem entre a porta e a estante, o garoto fica implorando ajuda, que se dane, por mim morre ali.
─Daryl! – Alice não quer deixa-lo, Carol parece concordar com ela, o zumbi cai sobre a estante lutando pela carne fresca logo abaixo dele e quando vejo que Alice vai se meter entre eles acerto uma flecha no zumbi, ergo a estante.
─Vamos! – eu as chamo quando atordoado ele corre para janela.
─Eles estão vindo, ouviram os tiros, vão me achar aqui, preciso sair.
─Quem? – Pergunto sem saber se estamos ou não com problemas.
─As pessoas do hospital.
Ele parece ter dito as palavras magicas, avanço sobre ele, precisamos saber, isso faz toda diferença.
─Viu uma garota lá, viu uma garota loira lá?
─Beth? Vocês a conhecem? Ela me ajudou a sair, mas ainda está lá.
Saímos todos juntos correndo o máximo que podemos, Beth, finalmente uma certeza, isso é bom, vamos buscar Beth e então um ciclo se fecha e podemos recomeçar.
─Garoto quando isso acabar eu juro que vou te dar um abraço! – Alice diz e não tenho tempo de reclamar, mas vamos ter uma chance de rever essa história de abraço – Ela é forte, eu disse que era, te ajudou, minha amiga está viva!
Chegamos ao saguão, no meio da confusão e mancando o garoto cai sobre Alice, Carol continua enquanto tento ajuda-los a se erguer com Alice dizendo todo tipo de impropério.
Então escuto uma freada e Carol é atropelada, seu corpo rola por cima do carro para em seguida cair ao chão num pequeno estrondo, tento correr, Alice faz o mesmo, o garoto vai nos segurando, arrastando enquanto isso os policiais a recolhiam.
─Esperem, eles têm um médico, remédios, aparelhos, são os únicos que podem ajuda-la, deixe que a levem, podemos resgatar ela e a Beth também.
─Como? – Estou furioso, Alice chora assistindo Carol ser levada para longe, eu a trouxe, me enfiei num carro e a fiz vir comigo, isso era algo entre eu e Alice, não podia ter colocado Carol nisso e agora ela está ali, desfalecida e seguindo para um lugar que não sei o que pode ser.
─Precisamos de armas, e pessoas – O garoto diz pesadamente.
─Nós temos isso! – Me afasto dele e abraço Alice, agora preciso convencê-la a voltar para a igreja e pedir ajuda.
─Não Daryl, não quero deixa-las, não posso retroceder, é a Beth e a Carol.
─Por isso mesmo, temos que contar com os outros para tira-las de lá.
─Promete? Jura que vamos voltar?
─Eu vou voltar e resgatar as duas, prometo.
Ela me empurra, me encara muito séria, os olhos brilham corajosos.
─Não vou ficar para trás Daryl Dixon, não vai voltar sem mim!
─Tudo bem, voltamos juntos e salvamos a situação e pode arrumar um codinome para quem quiser, vamos apenas correr e achar ajuda.
Pegamos um caminhão, a ideia de incendiar coisas para distrai-los funciona mais uma vez, partimos de volta a igreja, minha mente ferve, nunca é perfeito, quando coisas assim acontecem, quando inimigos nos tomam de assalto, um sempre se perde no caminho, olho para Alice, ela é minha vida, não pode ser ela.
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