Caminhando entre os mortos 2
9 Capitulo 9 - De volta a estrada
Notas iniciais
Pov – Daryl
─Você blefa Beth Greene! – Alice diz rindo quando perde pela quarta vez seguida uma mão de pôquer, sorrio quase despreocupado, ela está de novo feliz, não foi fácil, os dois primeiros dias depois do enterro de Carol foram bem dolorosos e nem mesmo Alice pode resistir a tristeza.
Quando deixamos a fazenda ela melhorou um pouco, arriscou um sorriso ou outro, mas hoje três dias depois é que voltou a ser minha maluca mais uma vez.
─Para de choramingar Alice, o discípulo superou o mestre, admita! – Beth provoca enquanto Carl dá novas cartas para mais uma partida, Judy sentada entre suas pernas no chão do galpão.
Achamos esse lugar no começo da manhã, depois de viajarmos sem parar desde a fazenda, decidimos ficar pelo menos uma noite, depois decidimos que caminho seguir.
Quando deixamos a fazendo nossos planos eram apenas ir o mais longe possível do passado, mas está claro que temos que achar um lugar.
─Deixa o Noah ganhar ao menos uma vez, ele está começando agora, é elegante sabia? – Alice pede, depois me procura pelo ambiente, sorri quando me encontra sentado um pouco mais distante observando-a, me manda um beijo, os olhos brilham de novo.
─Vai Alice! – Carl a cutuca ela olha para ele, depois de novo para mim.
─Acho que não quero mais brincar, estou com saudade do meu marido – Sorrio, Rick se senta ao meu lado.
─Nem vem, vamos terminar essa! – Carl exige.
─Só porque apostou sua irmã, seu pai sabe disso? Que aposta Judith no jogo?
─Não sabia, mas tem uma boca grande, agora ele ouviu, anda quem perder essa mão vai passar a próxima manhã com ela.
─Ouviu isso? – Rick me pergunta – Não é quem ganhar que fica com Judy, como pode ver a pobrezinha não é um prêmio.
─Parece que não – Rimos os dois, Michonne está olhando pelo vão das portas duplas do galpão, o dia chegando ao fim – Como estamos de suprimentos?
─Dá para comermos agora e sobra um pouco para amanhã pela manhã, depois temos que pensar.
─E a fórmula?
─Meia lata, temos o bastante por dois dias, depois não sei, mas ela já mastiga, então se não encontrarmos não é desesperador, está tudo nas mochilas, depois que perdemos tanto na igreja acho bom deixar sempre tudo pronto.
─Esse padre vai mesmo seguir com a gente? Até agora só fez coisas estúpidas!
─Não vamos mandar o homem embora, é um covarde, mas não é o único, temos o Eugene também.
─Grande dupla esses dois, a bravinha tem mais coragem que eles.
Rick concorda, ouvimos um relâmpago ao longe, ainda bem que temos abrigo, deve chover essa noite, olho o teto, tem umas poucas rachaduras, não acho que será um grande problema, suspiro e me distraio com as risadas de Alice e os meninos.
─Beth parece bem, não acha? – Rick me pergunta, afirmo – Melhor que Maggie.
─Acho que ela enfrentou muitas coisas naquele lugar, isso a fortaleceu, o Noah contou umas coisas, vamos ver como fica, agora andei pensando, o que acha de Richimond?
─O lugar que Noah disse? – Rick questiona, eu afirmo – Parece muito longe, não sei Daryl, realmente não faço ideia.
─Ele falou sobre muros, casas, pessoas, pode estar de pé, acho que podemos tentar.
─Muitas milhas para cobrir.
─Estávamos indo para DC, que é ainda mais distante, acho que podemos acompanhar o garoto, ele garantiu a Beth e Alice que vai, então seguimos todos, se não tiver nada lá, se acharmos algo melhor antes.
─Amanhã falamos, antes de partir reunimos o grupo, vou ficar com Mich um pouco, ela está ali de pé a pelo menos uma hora.
─Vai lá! – Eu digo quando ele se ergue, Rosita e Abraham olhavam o jogo, o cara não conseguia se acostumar com as maluquices de Alice, Eugene estava sentado com Tara e o padre, Maggie e Glenn deitados de mãos dadas, realmente Maggie parecia mais triste que Beth.
Sasha e Tyresse conversavam baixinho, era bom terem um ao outro, eles também tinham perdido muito.
Alice ainda ria quando caminha para perto de mim, se senta ao meu lado, passa meu braço por meu ombro e se aconchega.
─O que está devendo?
─Até que não perdi tanto assim, quem está endividado até o pescoço é o Carl.
Ela me beija o pescoço, é bom poder descansar um pouco, andar sobre aquele caminhão de bombeiros não foi fácil, teria sido melhor o caminhão que eu encontrei, mas nem pensamos nisso a dor de perder Carol cegou a todos.
─Sentiu minha falta? – Ela me pergunta brincando com minha mão.
─Senti!
─Me acha uma delicia e é louco por mim?
─Alice não esquece que não estamos sozinhos.
─Eu sei amor, se estivéssemos sozinhos eu já estava arrancando sua roupa! – Eu reviro os olhos, ela não tem qualquer limite, beijo Alice – Sério senhor Dixon, devíamos aproveitar que estão todos aqui e darmos uma volta por ai.
─Acho que devia aproveitar e calar a boca, não vou arriscar sua vida por... – Me calo.
─Sexo selvagem? Acho que vale a pena.
Acabo rindo, não queria incentivar suas maluquices, mas ela é sempre tão irresistível, ela vem para meu colo, se ajeita me beija e empurra meu cabelo para longe do rosto.
─Se encontro uma tesoura...
─Não vai tocar no meu cabelo Alice, isso é um fato, não está em discussão.
─Troglodita! – Puxo ela para um beijo, simplesmente adoro quando me chama assim e faz essa cara de menina de cinco anos que foi contrariada – Não adianta tentar me seduzir com beijos, se me amasse deixava eu cortar seu cabelo e te deixar bem lindo.
─Só se for agora! – brinco ela me olha feio – Que posso fazer se não tem uma tesoura?
─Me deu uma vontade de falar sobre nossa vida sexual! – Ela devolve a provocação com um golpe baixo típico dos traidores rasteiros – De quando a gente tinha uma, é claro.
─Idiota, cala a boca Alice, não começa a falar bobagens.
Ela sorri, ilumina o ambiente, como posso ter tanta sorte, no meio da escuridão eu ser o único a ter um sol particular que me enche de esperança e força mesmo cercado pela morte, Alice se encosta em mim, ficamos em silencio, mas não dura muito.
─Faz cafuné?
─Não! – Respondo por força do habito.
─Padre não é verdade que temos que cumprir as promessas que fazemos no casamento se não Deus castiga? – O padre está do outro lado do galpão, mas Alice não leva isso em conta, ele ergue a cabeça que estava até então enfiada na bíblia e nos olha confuso.
─Ignore Gabriel.
─Está todo íntimo, acha que Deus vai te aliviar? Vai ver só quando se reunir com ele, a primeira coisa que ele vai comentar é isso. Prometeu fazer cafuné todos os dias na sua deliciosa esposa e não cumpriu! – Ela faz uma voz grossa que arranca risos a nossa volta.
─Shiu! – Eu a faço se encostar de novo em mim, começo a fazer o maldito cafuné antes que aquela boca grande e linda solte mais alguma bobagem, ela relaxa, até suspira.
─Cacete vai cair o maior temporal, é bom que dá uma lavada nos zumbis né? Quem sabe melhora o cheiro.
Rio sem resistir, a noite se aproxima e dividimos a comida, Alice começa uma pequena troca com Beth e Carl, Noah participa, coisas da trupe de jogadores, depois ela volta para perto de mim, olha meu prato.
─Amor apostei seus esquilos, fiquei sem nada de carne.
─Pega Alice! – Ofereço meu prato, ela sorri e pega um pedaço – Mas isso é trapaça.
─Trapaça nada, casei com o caçador, tenho que ter alguma vantagem.
─Mas não deviam apostar comida.
─Olha o prato da Beth, ela se deu bem, amanhã vamos ter outra mão de pôquer, o Eugene mentiroso quer jogar, mas não deixamos, ele é todo matemático, vai contar as cartas ou sei lá, achamos melhor não confiar.
─Você já pode parar de chama-lo de Eugene mentiroso, se não as pessoas não esquecem.
─Não consigo amor, ele tem a cara mais engraçada do mundo é bom tortura-lo.
─Porque o apocalipse não é tortura o bastante.
Assim que terminamos de comer arrumamos nossas coisas, as mochilas sempre perto, tudo pronto para uma emergência, acho que agora ninguém mais quer ser pego desprevenido.
As primeiras gotas de chuva caem grossas no telhado, nos juntamos todos de um único lado do galpão, chovia dentro quase tanto quanto fora, os relâmpagos clareavam o ambiente e os trovões estremeciam as paredes de madeira.
─Acho que não estou me divertindo muito, está muito forte não acha? – Não gosto de ver Alice com medo, ela se encolhe um pouco – Será que isso não deixa aqueles imbecis meio doidos não?
─Pode ser, muito barulho pode confundi-los.
─Que escuridão, devia acender minha lanterna não acha? – Ela pergunta, dou de ombros, é a única lanterna e Alice a economiza ao máximo – Vou lá olhar um instante com a lanterna a porta pelo vão.
Rick estava de pé tentando sentir os perigos lá fora, Michonne andava de um lado para outro, o resto do grupo apenas esperava sentados um ao lado do outro, me ergo e sigo Alice.
─Não dá para enxergar um palmo com essa chuva Alice! – Rick avisa quando ela se aproxima – Nem ouvir nada com esse barulho todo.
─O caminhão vai ficar atolado na lama! – Reclamo já imaginando o trabalho que vai ser tira-lo de lá amanhã.
─Deixa eu ver – Alice balança a lanterna e Rick se afasta um pouco, a porta está presa com cordas então fica uma boa fresta quando se puxa uma delas e dá para ter alguma visão do lado de fora, ou daria não fosse a tempestade.
─Olha, talvez com a lanterna enxergue qualquer coisa.
Alice se posiciona, acende a lanterna e dois segundos depois dá um pulo para trás se encostando na porta, posso ver sua palidez mesmo no meio da escuridão.
─Horda! – Ela sussurra, faz sinal pedindo para ajudar a segurar a porta.
Eu e Rick obedecemos e essa é nossa sorte, um baque quase nos atira para longe, logo o grupo quase todo está encostado tentando manter a porta, agora os gemidos são perfeitamente ouvidos.
─Não vai aguentar muito! – Eugene grita e tem razão, a madeira está toda apodrecida a porta logo vai ceder, Carl estava com a irmã nas costas, Beth ajudava a prender a menina, Gabriel rezava de olhos fechados o grande imbecil, e Eugene parecia observar o local.
─Força! – Sasha pede assustada quando algumas mãos conseguem passar para dentro, colocamos toda força possível, assisto dedos caírem decepados ao chão meus olhos se encontram com os de Alice, tão linda, vencemos tanto, não pode acabar assim, numa noite chuvosa dentro de um galpão.
─Precisamos abrir uma passagem do outro lado.
Eugene pode ser um covarde, mas é um covarde inteligente.
─Aguentem eu vou lá! – Abraham solta a porta e ela sede um pouco, uma mão segura o braço de Alice.
─Cacete me solta! – Rick estava a seu lado, busca o facão preso a cintura e corta a mão fora, conseguimos empurrar a porta mais uma vez – Obrigada!
Abraham dava chutes na madeira do outro lado, Carl corre até ele com um machado, apoio todo peso do meu corpo na porta, todos perdendo um pouco as forças, não sabemos se tem zumbis do outro lado, mas de certo os estrondos vão Convida-los.
─Carl! – Rick grite o menino pega a pistola na mão, Beth se posiciona a seu lado quando finalmente Abraham consegue abrir uma fresta grade o bastante para passarmos.
─Vamos! – Ele grita passando para o outro lado, Carl e Beth passam com ele.
─Vai Alice – Ela me olha, os lindos olhos brilhando pelas lágrimas de medo, ela precisa viver, só isso importa.
─Não sem você, nunca sem você! – Ela me desafia, teimosa como sempre.
─Vão! – Rick grita, Sasha e Tara são as primeiras a correrem, depois Glenn e Maggie, Eugene e o padre já estavam lá fora com os outros, a porta cede e nos afastamos quando os primeiros zumbis começam a entrar em uma avalanche de corpos sem vida e cheios de fome.
─Vem Alice! – Grito por ela acertando zumbis enquanto assim como eu ela vai lutando e tentando chegar perto, Rick e o facão cortando tudo, Tyresse com sua força descomunal abrindo caminho, vamos deixando espaço para eles e chegando a passagem, saímos juntos, Rick logo atrás de nós e Tyresse por último já seguido por mais zumbis.
Do lado de fora, todos pareciam tentar lutar, se defender ou defender alguém, Beth, Noah e Rick cercavam Carl e Judy, Michonne cortava cabeças como uma máquina sem freios, abrimos espaço o bastante para correr no meio da tempestade, a cada raio um rosto aterrador surgia a nossa volta.
Alice sempre ao meu lado, o número de mortos vai diminuindo conforme nos afastávamos mais, os pés afundavam na lama, era difícil correr, Tara cai, Eugene a ajuda a se por de pé, o padre corria agarrado a bíblia como se ela fosse sua arma.
Sem forças ou folego paramos no meio da estrada agora de asfalto quando a chuva diminuía, Judy chorava a plenos pulmões, logo teríamos mais uma horda em nosso encalço.
Rick tira a menina das costas de Carl, quer acalmar a filha, ter certeza que está bem, Alice se apoia em mim, tossindo meio sem folego.
─Preciso parar de fumar.
É isso, perdemos o que nos restava na última hora, quase fomos mortos, e tudo que Alice encontra para dizer é isso, eu a puxo para mim, sinto seu corpo molhado de encontro a meu, é bom ter certeza que está aqui.
─Quando digo para ir é para ir! – Reclamo quando ela se encosta em mim.
─Quando digo que não vou, não vou e pronto! – Responde se afastando de mim, depois remexe os bolsos caçando algo, Rick beijava o topo da cabeça de Judith a pequena estava molhada e ainda aos gritos – Achei! – Alice tira um chocolate do bolso da jaqueta, abre e esfrega com cuidado na boca de Judith a pequena lambe e logo se acalma, puxa a mão de Alice pedindo mais –Aqui querida, pode ficar com ele.
Com o chocolate na mão e lambendo sem parar nossa pequena para de chorar.
─Obrigada Alice! – Rick diz e logo Beth remexia a mochila em busca de uma roupa seca para Judy.
─Andem, temos que ir! – Abraham vai ter que começar a ser mais gentil se quiser conviver com nossa família, ando começando a ficar impaciente com ele.
─Vamos trocar o bebê primeiro, vá se quiser! – Beth o encara com olhos tão firmes que surpreende a todos, inclusive ele que apenas se cala.
Maggie e Glenn pegam dois zumbis que se aproximavam, Michonne mais dois vindos do lado oposto e então uns minutos depois começamos a caminhar.
Molhados, cansados e famintos, sem carro, direção, segurança, apenas um grupo de sobreviventes caminhando pelas estradas, desse jeito não vamos muito longe.
─Eu não quero ser chata nem nada, mas vamos caminhar para sempre? – Alice pergunta quando o dia surgia claro e limpo como se a noite não tivesse sido aquele terror.
─Vamos para Richimond! – Rick avisa e Noah sorri contente – Vamos fazer isso, vamos achar uma casa, deixar uma parte do grupo, depois vamos encontrar comida, carros, combustível e vamos para Richimond, vamos ver como são esses seus muros Noah.
─Eu nunca digo a coisa legal, é sempre o Rick, nunca me divirto, nunca digo a coisa legal, eu só me fodo nesse apocalipse – Ela pega minha mão, entrelaça com a sua – Pelo menos peguei o cara gostoso.
─Alice!
─O que? Estou te elogiando, agora era a hora de dizer que me acha uma delicia que teve sorte de pegar a gostosa, essa coisa toda de sempre.
─Não cresce nunca? Viu o que acabamos de passar, parece uma criança.
─Você só me crítica, quase morri, devia sentir pena de mim e dizer que sou perfeita.
─Obrigado Rick! – Me lembro de agradecer por ter salvo Alice com seu facão – Mas sabe que quando o zumbi se desse conta que era Alice ele simplesmente correria para longe não é?
─Troglodita! – Ela reclama, mas não solta minha mão, não se afasta de mim, apenas abre um largo sorriso – Estamos todos vivos, isso é tudo que importa amor, que se dane o resto, mas o Rick me deve um chocolate!
─Vou pagar Alice.
─O chocolate era meu! – Carl reclama – Perdeu ele no jogo.
─Eu digo que só me fo... – Ela tampa a boca com a mão, olha para o padre um pouco mais a frente caminhando meio perdido – Me esqueci do padre, que merda, será que ele ouviu?
─Não Alice, ele não ouviu, mas que se dane, não acho que ele e Deus andam mais tão íntimos.
─Faz sentido amor.
─Amo você, é uma maluca, mas mesmo assim é minha.
Digo baixo quando passo meu braço por seu ombro e a puxo para mim sem parar de andar, ela sorri me enchendo de esperança, suspiro pensando que em algum momento vou perder a cabeça e fazer o que me pede, arrasta-la para trás de uma arvore e não vai demorar muito.
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